terça-feira, 31 de agosto de 2010

Crise capitalista: de BMW na fila do sopão

Acreditem, nos Estados Unidos tem gente chegando de carrão para tomar sopa em programas de refeições gratuitas. É o que diz matéria da revista alemã Der Spiegel, assinada por Thomas Schulz. O título da reportagem diz tudo: “A erosão da classe média americana”.

Trata-se de conseqüências da crise de 2008 que continuam a se manifestar. Alguns exemplos citados por Schculz:

Ventura é uma pequena cidade da costa do Pacífico, cuja população é formada em sua maioria por pessoas de classe média alta. Hoje, cerca de 20% delas corre o risco de virar sem-teto. Várias perderam suas casas de luxo e estão morando em seus automóveis caros e modernos.

A taxa de desemprego nos Estados Unidos não baixa dos 9,5%. Mas dizem que esse número corrigido sobe para mais de 17%. O Departamento de Agricultura afirma que 1 entre cada 8 adultos americanos e 1 entre 4 crianças atualmente sobrevive de cupons de alimento do governo.

Antes da crise a situação já era ruim. Em 1978, a renda per capita média anual nos Estados Unidos era de US$ 45.879. Em 2007, era de US$ 45.113.

Ainda segundo a matéria de Schulz, em 1950, um presidente de empresa ganhava 30 vezes mais que um trabalhador comum. Hoje ele ganha 300 vezes mais. Atualmente, apenas 1% dos americanos é dono de 37% do total da riqueza nacional.

A dívida dos consumidores americanos totalizam cerca de US$ 13,5 trilhões. Quase 100% do PIB do país mais rico do mundo.

A crise iniciada em 2008 parece bastante longe de ter se encerrado e dispara sinais de que novos e piores momentos estão por vir.

Leia também: Crise capitalista: problemas à vista

Trotsky, o revolucionário aprendiz

Há 70 anos, morria Leon Trotsky, assassinado a mando de Stalin.

O revolucionário russo cometeu erros graves de avaliação, é verdade. Mas, todos eles em defesa do socialismo e da revolução.

Ao contrário do que fazem muitos de seus seguidores, Trotsky nunca foi um visionário que despejava verdades sobre a cabeça alheia. Sabia respeitar os explorados e aprendeu muito com as lutas que travavam. Sobre isso ele costumava contar uma história.

Trotsky dizia que aprendeu tudo o que precisava saber sobre uma organização revolucionária com cinco trabalhadores. Um deles sempre foi um militante socialista. Um defensor intransigente dos oprimidos, à frente de qualquer luta dos explorados. Outro deles era um reacionário nato. Havia nascido e morreria sendo um fura-greve. Depois de morto, se houvesse uma greve no céu, ele a combateria. Mas, os outros três trabalhadores não eram nem revolucionários nem reacionários. Às vezes, eram influenciados pelo reacionário, às vezes, pelo revolucionário. Ficavam no meio dos dois, sempre em disputa.

Este é o objetivo da organização revolucionária. Empurrar os trabalhadores que ficam no meio para perto do militante revolucionário. E oferecer a este organização, força, consciência e conhecimento sobre as tradições de luta. Elementos que permitam a ele conquistar os trabalhadores em disputa e isolar a direita. Impedir que esta conquiste os trabalhadores que estão no meio e isole o socialista.

Em breves e didáticas palavras, Trotsky estava se referindo ao que Gramsci chamaria de disputa de hegemonia. E alertando para a necessidade de nos convencermos a todos e todas de que na luta revolucionária estamos sempre aprendendo. Mudando um pouco a recomendação de Lênin sobre a educação revolucionária, diríamos: aprender, aprender, aprender!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Cacareco, Tiririca e voto obrigatório

Um rinoceronte do zoológico de São Paulo recebeu cerca de 100 mil votos nas eleições municipais de 1958. Seu nome era Cacareco. Em 1988, foi a vez do Macaco Tião, de um zoológico carioca. Com 400 mil votos, ficou em terceiro lugar para prefeito.

Ambos os casos parecem ter atraído pessoas que anulavam seus votos tanto para protestar contra um jogo de cartas marcadas, como numa reação à obrigação de votar.

De lá pra cá, duas mudança importantes. Primeiro, a urna eletrônica já não permite escolhas desse tipo. Segundo, as eleições tornam-se cada vez mais despolitizadas. Os candidatos são valorizados pela aparência, simpatia, celebridade. Propostas, poucas. Denúncias, menos ainda.

Nesse cenário, surgem as candidaturas prontas para servir de “cacarecos”. Refúgios do voto desinteressado e sem consciência.

Exemplo escancarado desse tipo de candidatura é a do Tiririca, em São Paulo. "Vote em Tiririca. Pior que está não fica". Este é seu lema como candidato a deputado federal pelo PR, em coligação que apóia o PT.

Como ele, há muitos outros. Gente famosa, nem sempre pelos melhores motivos. Nada contra que famosos se interessem por política. Mas a grande maioria faz parte de uma jogada de partidos oportunistas. Com esse tipo de candidatura, eles pretendem atrair milhares de votos para suas legendas.

São votos de quem não está nem aí com a política. Despreza quem dela participa, sem imaginar que virar as costas para a política significa torná-la ainda pior.

Na raiz desse mecanismo de despolitização está o voto obrigatório. Algo que vai tornando o sistema eleitoral vazio de propostas e de conseqüências reais. A não ser a manutenção dos interesses dos poderosos.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Falta o vermelho na bandeira brasileira

A semana da pátria vem aí. O coletivo de hip-hop Z´África Brasil quer saber por que o vermelho do sangue derramado em 500 anos de massacre não aparece nas cores nacionais. É o que diz a letra de sua música “A Cor Que Falta Na Bandeira Brasileira”.

Um trecho:

Verde, amarelo, azul, branca e vermelha
São as cores que compõe a bandeira brasileira
Só que o vermelho não quiseram botar
É cor de sangue é cor de morte é cor de farsa
É todo o sangue derramado nesses 500 anos
É toda a historia maquiavélica tramada nos nossos mocambos
A dominação de um fogo por ouro
Fora o sofrimento de um povo

Letra e música, aqui.

Saiba mais sobre o coletivo paulista Z´África Brasil clicando aqui

Belo Monte: Lula pariu o monstro

Lula assinou o decreto que autoriza a concessão para exploração da usina de Belo Monte, em Vitória do Xingu, no Pará. Trata-se da terceira maior hidrelétrica do mundo. Atrás apenas das usinas de Três Gargantas, na China, e de Itaipu. O início das operações está previsto para 2015.

Os movimentos sociais chamam o projeto de Belo Monstro. Nada mais justo. Afinal, a usina atingirá 11 municípios e 9 territórios indígenas. Quase 10 mil famílias ficaram sem suas terras, entre indígenas e ribeirinhos. Haverá desmatamento de grandes áreas de floresta e parte do rio Xingu secará.

Tudo isso para beneficiar principalmente a fabricação de alumínio. Uma indústria suja, que consome grande volume de água e é monopolizada por gigantes como Alcoa, Votorantim, Vale, Gerdau e CSN.

Em seu discurso, Lula falou em “compartilhamento de responsabilidade” entre Estado e empresas privadas. Mas o BNDES está financiando 80% dos R$ 19 bilhões que a obra deve custar. Dinheiro que irá para Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez. As três maiores empreiteiras do País ficaram responsáveis por sua construção.

É a cara do projeto desenvolvimentista do governo petista. Em 2006, Lula havia dito que indígenas, quilombolas e a legislação ambiental são "entraves para o desenvolvimento". Um raciocínio bem típico da ditadura militar. Não por acaso, Belo Monte começou a ser concebido durante o governo Geisel.

Agora, a criatura que vai servir ao grande capital deve sua paternidade a Lula. Suas vítimas serão as populações locais e o meio ambiente. A vergonha fica por conta dos apoiadores do governo nos movimentos sociais.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Limitação mais que limitada

Lula acaba de aprovar parecer da Advocacia-Geral da União que limita a compra de terras por empresas controladas por estrangeiros. Entre outras coisas, fica proibida a venda de terras com área entre 250 e 5 mil hectares, dependendo do Estado.

A AGU justifica dizendo que se trata de controlar a produção de biocombustível no Brasil. Parece positivo. Mas, só serve pra desviar a atenção.

De acordo com o Sistema Nacional de Cadastro Rural do INCRA, as terras brasileiras compradas por estrangeiros já representam 4,3 milhões de hectares em quase 3.700 municípios. A porta foi arrombada faz tempo.

Além disso, o problema maior não é a nacionalidade do proprietário, mas o tamanho da propriedade. É a secular praga do latifúndio.

Segundo o Censo Agropecuário do IBGE de 2006, quase 86% dos estabelecimentos com área de até 100 hectares possuem apenas 21% das terras. Por outro lado, menos de 0,5% dos estabelecimentos com mais de 2.500 hectares ficam com quase 40% do total das propriedades rurais.

Quanto à produção de biocombustivel, outra vez é tarde demais. A participação de empresas estrangeiras na indústria da cana no País, por exemplo, pulou de 1% em 2000 para 20% em 2010. E o latifúndio impera. São 450 usinas controladas por apenas 160 empresas. É por isso que os movimentos sociais chamam esse tipo de recurso de agrocombustível.

Uma limitação assim já nasce muito limitada. Por isso, mais do que nunca, precisamos reforçar o Plebiscito pelo Limite de Propriedade da Terra, que acontece de 1º a 7 de setembro. Saiba como participar em http://www.limitedaterra.org.br.

Leia também: Grito dos Excluídos: quando união e divisão se combinam

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Crise capitalista: problemas à vista

As contas do mês de julho vão fechando nos Estados Unidos. E continuam assustando. Agora, é a venda de casas novas que caíram 12% em relação a junho. Foram vendidos apenas 276 mil imóveis, o mais baixo volume de vendas desde 1963. Pior que isso só a situação das vendas de casas usadas, que apresentaram uma queda de 27%. O consumo de bens duráveis também está em declínio. É mais um dado preocupante.

Além disso, o desemprego nos Estados Unidos está acima dos 9%. Um número considerado muito alto para os padrões estadunidenses. O fato é que a pequena recuperação econômica ocorrida de 2009 pra cá aconteceu sem crescimento do emprego. Foi baseada apenas nos generosos empréstimos governamentais. O problema é que os cofres públicos estão ficando vazios. Inclusive os da Europa.

A continuarem nesse ritmo, todos esses números indicam a ocorrência de outro surto da crise que começou em 2008.

Afinal, os Estados Unidos são o maior mercado consumidor do mundo. Principal responsável por manter o forte ritmo de crescimento da economia chinesa. Esta, por sua vez, tornou-se a locomotiva da economia mundial. Se começar a sair dos trilhos, arrasta seus vagões no resto do mundo. Alemanha, Inglaterra, França são carros grandes nesse comboio. Mas, a China já é o maior parceiro comercial do Brasil, também. Atrelados a nós estão economias como a da Argentina, Bolívia, Paraguai e por aí vai.

É bastante provável um novo descarrilamento da economia mundial em um futuro não muito distante.

Leia também: Crise capitalista: sinais preocupantes

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Era Lula: Vargas e a burguesia esperta

Hoje completam-se 56 anos da morte de Getúlio Vargas. Comparações de seu governo com o de Lula são muito comuns. Como ele, Lula seria um “pai dos pobres” atualizado. Mas, tal qual Lula, Vargas não descuidava dos interesses dos ricos. Daí, ser chamado de “mãe dos ricos”.

Outro traço comum a ambos foram as dificuldades nas relações com a burguesia. Sobre isso Getúlio Vargas diria, em 1935: “Estou tentando salvar esses burgueses burros e eles não entenderam”.

O desabafo foi dito após uma reunião em que empresários recusaram apoio à aprovação de leis trabalhistas para evitar o aumento da influência do PCB entre os operários.

Em fevereiro de 2010, Lula disse:
Um país governado a vida inteira por capitalistas precisou eleger um metalúrgico que se dizia socialista para compreender que não era possível um país capitalista sem capital. E muito menos um país capitalista sem crédito e sem financiamento. Essa era uma lógica primária que qualquer imbecil deveria saber, mas a verdade é que não era assim.
Lula referia-se aos fartos e facilitados empréstimos oficiais concedidos às grandes empresas.

O fato é que os patrões brasileiros são como os patrões do mundo inteiro. Competem entre si selvagemente para ficar com o pedaço maior dos favores governamentais. Quem fica com fatias menores esperneia. Por outro lado, morrem de nojo e de medo dos pobres. Daí toda a desconfiança em relação à enorme popularidade de Vargas e Lula.

A burguesia brasileira não é burra nem imbecil. É muito esperta. O suicídio de Vargas atrasou o golpe militar em 10 anos. Mas, ele finalmente veio para esmagar os interesses populares. A burguesia se assustou com Lula. Mas já passou. Afinal, o próximo governo deverá ser do PSDB de Serra ou do PMDB de Dilma.

Leia também: Era Lula: primeiro ataque aos trabalhadores

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Crise capitalista: sinais preocupantes

Nos últimos 20 dias, voltaram a aparecer sinais de que a crise econômica iniciada em 2008 está longe de ter acabado. O primeiro deles refere-se ao déficit orçamentário dos Estados Unidos. O setor público deve cerca de 1 trilhão e 300 bilhões de dólares. Algo equivalente a 9% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Os especialistas consideram seguro um endividamento público em torno de 3% do PIB. Se fosse outro país, já teria sido considerado falido há muito tempo. Mas, a sede do império do Capital deve, não nega e nós pagamos.

Ao mesmo tempo, o Departamento de Trabalho americano informou um aumento de 12 mil no número de pedidos de seguro-desemprego. O “mercado” esperava queda. Com isso, já são meio milhão de pedidos desde o início da crise.

Os dados são preocupantes. Por um lado, os cofres públicos americanos já não terão como ajudar tão generosamente seus bancos no caso de nova quebradeira. Algo que não pode ser descartado. Toda a conversa sobre regulamentação e moralização do mercado financeiro foi esquecida.

Por outro lado, o desemprego em alta retira consumidores do maior mercado do mundo. Uma nova etapa da crise encontraria dificuldades bem maiores para ser superada. Haveria ainda mais desemprego e menos consumo. Toda a economia mundial seria afetada. Incluindo a chinesa, de quem todos esperam a salvação do capitalismo.

Por falar em China, sua economia continua a desacelerar. Os especialistas dizem que isso é bom. O ritmo anterior seria “suicida”, afirmam. Mas a notícia fez desabar as bolsas no mundo todo. Quem está com a razão? Ninguém sabe. Até porque capitalismo e razão são termos incompatíveis.

Leia também: Sexta-Feira 13 na Grécia
As cascatas da mídia sobre a crise

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Era Lula: primeiro ataque aos trabalhadores

A primeira grande medida do governo Lula foi a Reforma da Previdência. Tirou da gaveta uma emenda constitucional que o governo FCH tentou aprovar e não conseguiu.

A proposta retirava direitos do funcionalismo. Aumentava o tempo de serviço e dificultava sua aposentadoria. Criava fundos de pensão para serem explorados pelo mercado financeiro. Tudo como queria o FMI. Puro neoliberalismo.

Por que Lula fez isso? Ele mesmo responde. Na posse do presidente da Associação Comercial Paulista, em março de 2003, ele disse:
Por que eu dizia na campanha que somente eu poderia fazer a reforma? Não porque eu fosse melhor do que os outros. Era porque eu sabia que a reforma terá de enfrentar uma base muito organizada, e uma grande parte dela votou em mim, votou no Ciro, não votou no governo FHC.
Mais claro impossível. Lula aprovou a reforma e começou a ganhar a confiança de seus inimigos. Provocou chiadeira entre seus aliados, é óbvio. Mas não muito mais do que isso. Honrosa exceção para os setores que fundariam o PSOL.

O fato é que as medidas afetavam somente o funcionalismo. Um setor que sempre serviu de saco de pancada. E não faltavam cargos públicos para calar os oportunistas.

O episódio sinalizou o que viria a ser o governo Lula. Os trabalhadores com vínculo empregatício foram deixados de lado. Para os mais pobres, muita ajuda assistencial. Aos patrões, abundante ajuda oficial. O BNDES abriu os cofres para os grandes grupos econômicos. Os juros altos mantiveram os bancos felizes. Paz no andar de cima. Conformismo embaixo.

Lula foi modesto. Para esse tipo de serviço ele é, sem dúvida, melhor do que os outros.

Leia também: Era Lula: banquete e migalhas

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Debates de condomínio

Começaram os debates eleitorais. Ao vivo e em cores, as três candidaturas privilegiadas pela grande mídia disputam o direito de continuar 16 anos de neoliberalismo.

Neste período, o modelo econômico pouco mudou. A realidade social mudou muito menos do que querem nos fazer crer. Mudanças mesmo, só no nível político.

Agora, todo mundo morre de medo de assustar o “mercado”. Ninguém quebra contratos. O superávit primário é sagrado. O pagamento da indecente dívida pública, também. E “invasão de terras é crime”, gritam os três em coro.

Dilma, Serra e Marina até trocam acusações e disparam farpas uns contra os outros. Fazem pose de adversários radicais. Mas, o clima é de reunião de condomínio. Tem muita briga e confusão, mas ninguém está a fim de derrubar o prédio.

Todos querem ficar no lugar do síndico que está saindo. Lula é um dos melhores administradores que a burguesia arranjou para seu patrimônio. Ele que já foi morador dos andares de baixo, continua amigão de seus antigos vizinhos. Mas, guarda todo seu zelo e carinho para os bacanas que moram na cobertura.

O problema é que o prédio está condenado. Se o Brasil tivesse 100 andares, 98 seriam formados por espeluncas escuras, inseguras e mal conservadas. O 99º andar abrigaria apartamentos modestos. Já, na cobertura, muito luxo, diversão, banquetes e saída exclusiva pelo heliponto.

Todo esse luxo bancado pela exploração do trabalho da maioria dos condôminos. Ainda bem que a candidatura Plínio Sampaio, do PSOL, vem fazendo algum barulho na grande mídia. Dizendo em alto e bom som que o prédio “balança, mas não cai” tem que ser desmontado urgentemente.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Era Lula: banquete e migalhas

Afinal, qual é o caráter do governo Lula? Algumas pistas sobre esta questão são dadas pelo próprio Lula. Na edição de O Estado de S. Paulo de 10/12/2009, por exemplo, ele disse:

“Dar um pouquinho de dinheiro para os excluídos não desmonta a economia, como alguns disseram”.

Difícil ser mais claro quanto ao caráter do tão falado aumento da distribuição de renda verificado sob o governo petista. As migalhas para o povo só ficaram mais graúdas. Faz diferença? Faz, e muita. O problema é que não faz diferença alguma para os ricos.

É esta a economia que Lula não quer desmontar. Trata-se de um modelo baseado em enorme concentração não apenas de renda, mas dos meios que a geram. Apenas um em cada 20 brasileiros é dono de alguma propriedade geradora de riqueza: empresa, imóvel, fazenda, banco. Tudo nas mãos de apenas 6% da população.

Assim, a pequena distribuição de renda que vem acontecendo nos últimos anos é produto de uma repartição entre os que vivem de salários, principalmente. Já aqueles que vivem da exploração do trabalho alheio continuam em paz.

Esta é a engenharia política do governo Lula. Uma forma de governar genial, mas a serviço da manutenção da desigualdade e da injustiça social.

O banquete dos ricos continuará farto quanto mais migalhas caírem de sua mesa. Esta é a competência que Lula vem mostrando a uma burguesia cada vez mais satisfeita com ele. Esta é a realidade que muitos setores do movimento social não querem enxergar.

Os dados acima são recentes e de órgãos do próprio governo. Sobre concentração de riqueza, clique. Sobre distribuição de renda, aqui.

Leia também Era Lula: voto útil ou rendição?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Era Lula: voto útil ou rendição?

Muita gente boa de luta apóia o governo Lula. Dizem que o governo petista está longe de ser perfeito, mas é o mal menor. Por isso, estão apoiando Dilma Roussef. É o chamado voto útil.

Mas, não basta dizer que o atual governo melhorou a situação dos pobres. Nem que há mais diálogo com os movimentos. Ou que foram criados mais empregos. Tais elementos podem ser positivos, mas não fazem a diferença necessária na dura luta de classes que travamos.

A verdadeira questão é: o governo atual colaborou para fortalecer a luta dos trabalhadores e do povo em geral? A resposta é negativa.

As ações do PT à frente do Executivo enfraqueceram e confundiram as organizações populares e dos trabalhadores. Muitas delas tornaram-se dependentes de verbas oficiais. Algumas entraram no caminho da burocratização. Outras já eram dependentes e burocráticas. Estão adorando. O resultado é o enfraquecimento das lutas populares.

Do lado dos patrões, a tranqüilidade é quase geral. Alguns desconfiam da intimidade entre PT, CUT, MST, movimentos de negros, indígenas, mulheres, gays etc. Mas, poucos realmente sentem alguma ameaça real. A maioria confia na capacidade lulista de controlar esses "baderneiros".

E estão certos. Sob o governo Lula, a radicalização das lutas foi mínima. Imperaram os pedidos educados e chorosos. Sempre recusados pelo governo, sem choro nem vela.

Um governo Dilma seria dominado pelo PMDB. Um partido de confiança da classe dominante. A própria candidata já avisou, por exemplo, que não vai tolerar “invasões do MST".

É hora de os movimentos sociais fazerem um balanço radical do papel do governo Lula. Do contrário, vamos confundir voto útil com rendição.

EUA: os sapateiros de Lynn

Outro relato de Howard Zinn sobre a luta dos trabalhadores americanos. Foi na cidade de Lynn, em Massachusetts. Local em que teve início a maior greve feita nos Estados Unidos antes da Guerra Civil. Lynn era grande produtora de calçados. Seus empresários foram pioneiros na utilização de máquinas para substituir o trabalho manual dos sapateiros.

A grande luta aconteceu em abril de 1859. A partir de Lynn, 20 mil sapateiros de 25 cidades entraram em greve. A paralisação durou quase dois meses, sob violenta repressão patronal.

Tamanho radicalismo pode ser explicado pela consciência de classe dos sapateiros de Lynn. Quase 30 anos antes do grande movimento, os trabalhadores já tinham seu jornal, era o “Coruja”. E, em 1844, quatro anos antes de Marx e Engels lançarem seu Manifesto Comunista, um editorial do “Coruja” dizia:
A divisão da sociedade entre produtores e não-produtores, e a distribuição desigual de riqueza entre ambos, nos leva imediatamente a outra distinção. Aquela entre capital e trabalho ( . . .) o trabalho agora se tornou uma mercadoria (. . .). O antagonismo de interesses se introduz na comunidade. O capital e o trabalho se colocam em lados opostos.
Um episódio que também mostra que a elaboração teórica de Marx e Engels não surgiu apenas de suas cabeças. Eles e outros pensadores e agitadores do comunismo estavam mergulhados em ambientes cheios de luta. Aprendendo com peões que tinham seus corpos escravizados pelas máquinas. Mas, suas cabeças nunca desistiram de procurar saídas para a situação de exploração e humilhação em que viviam.

Leia também: Zinn: um historiador do povo

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Mídia escrava

O texto abaixo foi escrito pouco antes das eleições de 2006. Sem dúvida, continua atual.

Em julho de 2006, a revista Carta Capital publicou uma reportagem sobre entregadoras de folhetos comerciais nos semáforos de São Paulo. As meninas recebem cerca de 19 reais por 8 horas de trabalho, já descontada a condução. Ficam em pé sob sol ou frio, com uma hora de almoço e possíveis 15 minutos de descanso a cada hora. Uma situação certamente agravada por eventuais insultos de alguns motoristas e passantes. Também há aquelas que são obrigadas ficar balançando bandeiras, muitas vezes em trajes apelativos.

Agora, entra em cena a nova legislação eleitoral. É que regras recém aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral determinam que os candidatos e partidos só podem utilizar faixas e cartazes em vias públicas se não ficarem fixos. O resultado são centenas de pessoas pelas ruas das grandes cidades segurando faixas, cartazes, placas de candidatos e candidatas. Mais gente que passa horas exposta aos efeitos do calor, frio e ao humor de quem passa. E quem mais se utiliza desse tipo de divulgação são exatamente os partidos ou candidaturas com maior poder econômico.

Alguém poderia argumentar que tais ocupações, pelo menos, trazem uma oportunidade de renda para os milhões de desempregados dos grandes centros. Pode ser, mas esse tipo de trabalho é uma marca da desigualdade brasileira. Isso somente acontece porque o preço da força de trabalho nacional é tão ridículo que empregadores em geral podem se utilizar desse tipo de mídia, que submete milhares de pessoas a condições humilhantes e prejudiciais à saúde. É a mídia quase escrava de nossas ruas.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Desigualdade nacional e desemprego jovem

Deu hoje na imprensa. Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que 1% dos municípios mais ricos do País produzem 47% de toda riqueza. Os números estão no estudo “Desigualdade da Renda no Território Brasileiro”.

No capitalismo, quem produz riqueza fica com ela. No Brasil, isso é regra quase sem exceção. E só vem piorando. Os dados são relativos ao período de 1920 a 2007. Nesses quase 90 anos, a participação no PIB dos 70% entre os municípios mais pobres caiu de 31% para 14%. Já em 2007, os 10% de municípios mais ricos participavam com mais de 78% do PIB nacional.

É um retrato nítido da enorme concentração de renda do País. E não tem bolsa-família e crédito fácil que deem jeito nisso. Só pondo um fim no capitalismo, mesmo.

Outros calotes à vista (ou a prazo?)

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) também divulgou um dado espantoso. A crise econômica mundial vem provocando enorme desemprego no mundo. Mas, entre pessoas de 15 a 24 anos, a situação é ainda pior.

Pelos cálculos da OIT, um em cada quatro desempregados no mundo é jovem. No início de 2010, o desemprego atingia quase 81 milhões deles. É o maior número já registrado para esse setor da população.

Talvez seja por isso, que analistas econômicos americanos estejam preocupados com um novo tipo de bolha financeira. Trata-se dos gastos de universitários. Muitos deles, nos Estados Unidos, estão gastando a crédito. Pretendem pagar depois, quando se formarem e começarem a trabalhar. Trabalhar em quê, pergunta-se.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A hipocondria de Serra contagiou Lula

Plínio de Arruda Sampaio foi muito bem no primeiro debate dos presidenciáveis transmitido pela TV. Em um momento inspirado, o candidato do PSOL disse que Serra parece hipocondríaco. Só fala de saúde. Referia-se ao hábito de Serra de elogiar a própria gestão como ministro da Saúde.

O tucano fez parte do governo FHC. Período em que os serviços públicos sofreram fortes ataques. A saúde pública foi uma das áreas mais atingidas. Essa política pouco mudou sob o atual governo.

É o que mostra recente pesquisa do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). O estudo mostra que o maior descontentamento está na área da saúde pública.

Cerca de 43% dos entrevistados reclamaram da demora no atendimento tanto na rede privada quanto na pública. Ou seja, está ruim até para quem pode pagar por atendimento privado. Tudo isso é obra dos tucanos, continuada pelo governo petista.

Mas, deixemos os sintomas de lado e cuidemos da doença. O fato é que os recursos para a Saúde correspondem a 3,73% do orçamento da União. Enquanto isso, mais de 28% dos recursos públicos vão para o pagamento dos juros da dívida pública. Rombo que o governo FHC multiplicou por dez. Buraco que dobrou de tamanho sob o governo Lula.

Os maiores beneficiados com essa dívida são aqueles que negociam papéis do governo no mercado. Ganham milhões com os juros mais altos do planeta. Formam uma elite cada vez mais rica e com a saúde perfeita. No máximo, sofrem de hipocondria. Doença que a maioria da população não se pode dar ao luxo de ter.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Wikileaks: vazamento do bem

Muito óleo envenena o Golfo do México, as costas africanas e mares da China. No Rio de Janeiro, a região de Búzios parece estar sofrendo do mesmo mal. Felizmente, do lado do bem, também há vazamentos.

Trata-se do Wikileaks. Um site dedicado ao vazamento de documentos governamentais secretos. Já existe há anos, mas ganhou fama mundial no final de julho passado. No dia 25, publicou mais de 90 mil relatórios militares confidenciais sobre a guerra do Afeganistão.

A sujeira exposta causa constrangimentos ao governo americano. Principalmente, quando Obama continua aumentando as tropas do exército invasor no Afeganistão.

Diferente do derrame do veneno preto e viscoso, no vazamento de documentos as vítimas são os governos e suas políticas armamentistas. Pior pra eles, melhor pra nós.

Foi assim, por exemplo, durante a Guerra do Vietnã. A internete não existia. Daniel Ellsberg nem ligou para isso. O ex-militar americano copiou 7 mil papéis secretos numa máquina de xerox. Publicou o material que ajudaria a revelar o crime que significava a ação estadunidense no Vietnã.

Pra início de conversa, segredos de Estado deveriam ser abolidos. Militares ou de qualquer outro tipo. Afinal, a rigor, nem governos e Estados deveríam existir.

Quanto às guerras, só devemos lutar aquelas que conseguirmos travar contra os poderosos. Jamais as que jogam os explorados uns contra os outros. Enquanto não conquistamos esse direito, que a sujeira vaze das tripas dos Estados a serviço dos poderosos.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

As tetas do BNDES

Doze entidades empresariais assinaram manifesto em defesa da política de empréstimos do BNDES. O banco federal vem sendo alvo de ataques. Ele empresta pela metade dos juros praticados pelo mercado. Quem paga a diferença é o Tesouro Nacional.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) foi criado no governo Vargas, nos anos 50. Surgiu para criar infraestrutura estatal. Sob os governos militares, investiu na “substituição de importações”.

Em 1982, o modelo de desenvolvimento da ditadura militar estava em crise. As greves e lutas sociais estouravam por todos os lados. Pra disfarçar, o BNDE ganhou um S de “Social” no final do nome. Só mudou o nome, mesmo.

Nos anos 90, foi grande financiador das privatizações. O banco entrava com os riscos e a iniciativa privada ficava com o lucro. Também ficou conhecido como “hospital de empresas”. Pegava uma empresa quebrada, arrumava e devolvia pro mercado.

No governo Lula, passou a fortalecer grandes grupos privados. Financia verdadeiros monstros econômicos que atropelam interesses populares e destroem o ambiente. Aqui dentro, na América Latina e África. Quase nada para a agricultura familiar, cooperativas de trabalhadores, pequenas e micro empresas.

A idéia é que o banco ajude as grandes empresas. Estas lucram mais, criam mais empregos, pagam salários melhores. O bolo cresce e vai sendo dividido. Mentira. Nada disso impediu de ocuparmos os primeiros lugares entre os países com pior distribuição de renda.

A grande mídia está caindo de pau nos juros subsidiados do BNDES. Chama de mamata. Mas, o banco sempre foi a vaca leiteira dos grandes capitalistas. Como não tem tetas pra todos, os que ficaram longe delas reclamam.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Fruta Estranha

De: Abel Meeropol

As árvores no sul dão um fruto estranho
Têm sangue nas folhas e sangue nas raízes
Corpos negros nadando na brisa do sul,
Frutas estranhas penduradas nos álamos.

Corpos negros balançando à brisa sulista
Frutas estranhas pendem dos choupos
Cenas pastorais do sul galante
Olhos inchados, bocas retorcidas
Doce e fresco aroma de magnólias
E súbito o cheiro de carne queimada

Aí está um fruto para os corvos bicarem
Para a chuva encharcar, para o vento açoitar
Para apodrecer ao sol, para uma árvore deixar cair
Aí está uma estranha e amarga colheita.

O poema acima ficou famoso em 1939, na voz da cantora de jazz Billie Holiday (1915 -1959). Seu nome original é “Strange Fruit” e refere-se a linchamentos de negros no sul dos Estados Unidos. Algo que ainda era comum no final dos anos 1930.

Multidões se reuniam para assistir aos massacres. A maioria deles consistia em enforcar os negros. Às vezes eles eram mutilados e queimados ainda vivos. Seus corpos ficavam pendurados em árvores para que servissem de exemplo. Exemplo do nível de estupidez a que pode chegar a humanidade.

Clique aqui e assista vídeo com a música cantada por Billie Holliday

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Escravidão de grife

A gente acredita que a imensa maioria da produção têxtil paulista, o que costuma ser comercializado por C&A, Renner, Riachuelo, Pernambucanas, griffes como a Collins, é resultado de mão de obra escrava de trabalhadores sulamericanos.
A declaração acima é de Renato Bignami, chefe da Seção da Fiscalização do Trabalho da Superintendência Regional de São Paulo. Foi publicada na nota “Capital paulista abriga escravidão”, de Lúcia Rodrigues para a revista “Caros Amigos”, de julho passado.

O texto diz ainda que a rede de lojas Marisa foi multada 49 vezes pela Justiça do Trabalho por envolvimento com trabalho escravo.

Tudo isso mostra que o capitalismo faz uso de várias formas de exploração. A força de trabalho escrava foi uma das mais utilizadas em seu nascimento. O mesmo vale para as primeiras oficinas do século 17. Depois vieram as linhas de montagem.

Há 30 anos, surgiu o trabalho por equipes, em que os trabalhadores são chamados de colaboradores. Mas as outras formas de roubar trabalho alheio jamais desapareceram totalmente.

Tudo depende do ramo econômico, local, situação social e política, condições de rentabilidade etc. Onde for preciso, cada um dos tipos de exploração está presente em maior ou menor proporção.

Nada mais antigo e bárbaro que os modernos estabelecimentos capitalistas. Até seus templos de consumo estão manchados pelo “sangue e lama” que, segundo Marx, escorre por todos os poros do capitalismo.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Desastre aéreo e cobiça

Aproveitando as recentes notícias sobre vôos atrasados, tripulações sobrecarregadas e pilotos sonolentos, um episódio bem didático sobre o modo como o capitalismo funciona.

Na Inglaterra, nos final dos anos 80, um avião pegou fogo antes de decolar. O piloto ainda conseguiu deter a aeronave ao lado da pista. Mas apenas uma das saídas de emergência funcionou. Dos cerca de 150 passageiros, mais de 50 morreram asfixiados pela fumaça.

Durante as investigações sobre as causas do acidente, voluntários foram colocados em um avião do mesmo tipo para verificar as falhas. Entre elas, a dificuldade para evacuar o aparelho rapidamente. Mas o maior desafio era reproduzir o clima de pânico causado pelo incêndio e pela fumaça. Não havia como fazer os voluntários simularem uma situação de desespero.

Foi aí que alguém teve uma idéia. Os primeiros a sair do avião receberiam prêmios em dinheiro. Foi o bastante para que os voluntários se precipitassem para a saída trocando tapas e empurrões. Não era pânico, mas teve os mesmos efeitos.

É assim que funciona o comportamento humano sob as condições impostas pela sociedade capitalista. Quem já viu consumidores invadindo lojas atrás de grandes liquidações sabe que a experiência faz todo o sentido. Ou melhor, não faz sentido nenhum, a não ser para os poucos que lucram com tanta cobiça.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Nos EUA, empresas têm direitos humanos

A Constituição estadunidense recebeu uma série de emendas desde que foi aprovada, em 1787. Vinte e sete delas teriam sido adotadas para aperfeiçoar a “grande democracia americana”. Não é bem assim. É o que mostra Howard Zinn em seu livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”.

Citemos o caso da 14ª Emenda, que foi aprovada para impedir a discriminação contra os negros. Um trecho dela diz:
Todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados Unidos, e sujeitas à sua jurisdição, são seus cidadãos e do estado onde residem. Nenhum estado poderá fazer ou impor qualquer lei que restrinja os privilégios ou imunidades dos cidadãos dos Estados Unidos, nem deve qualquer estado privar qualquer pessoa da vida, liberdade ou propriedade, sem o devido processo legal, nem negar a qualquer pessoa em sua jurisdição a proteção das leis”.
Como se vê, trata-se de uma conquista da luta dos negros americanos contra o racismo. Mas a bem azeitada máquina de poder ianque não poderia deixar de funcionar em favor dos poderosos.

Em 1886, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu que empresas seriam consideradas como pessoas para efeitos da 14ª Emenda. Assim, os capitalistas passaram a utilizá-la para proteger seu direito de fazer e acontecer em terras ianques e fora delas. Diante de questionamentos quanto a seus métodos nada éticos e pouco legais, alegavam restrição a seus “privilégios ou imunidades”.

Não à toa, dos casos apresentados à Suprema Corte americana, entre 1890 e 1910, dezenove envolviam proteção aos direitos de negros, contra 288 relacionados à defesa dos interesses de empresas. A grande maioria julgada procedente em favor dos capitalistas.

Leia também: Zinn: um historiador do povo

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A ditadura da TV nas eleições

Segundo recente pesquisa do Datafolha, 65% dos entrevistados consideram a televisão o principal meio para obter informações sobre as eleições. Boa notícia para os donos do poder.

A TV está presente na vida de milhões de brasileiros diariamente. Impôs-se de forma massacrante durante a ditadura militar. Apoiada em imagens, sons e edições atraentes, ela distorce, omite, mente, calunia.

Assim, o primeiro lugar que a TV conquistou na preferência popular não é apenas uma opção. É uma conquista ideológica da classe dominante. Algo que nenhuma das candidaturas melhor colocadas nas pesquisas pretende desafiar.

A opção preferencial dos controladores da grande mídia é Serra. Mas, nem Dilma nem Marina são cartas fora do baralho. Afinal, vivem prestando homenagens à política econômica implantada por FHC. Fazem de tudo para se credenciarem como candidatas de confiança da burguesia.

Ao mesmo tempo, Dilma Rousseff terá 40% do total do tempo de TV no horário eleitoral obrigatório. Serra ficará com 29,5% desse bolo. Marina Silva contará com 5%. Os pouco mais de 25% restantes serão divididos entre dez candidatos de partidos menores.

Dentre os partidos de esquerda, o PSOL é o que está em melhores condições para desmascarar o pensamento neoliberal. Seu candidato é Plínio de Arruda Sampaio, com grande capacidade de comunicação e convencimento. Mas terá muito pouco tempo para divulgar suas idéias e programa.

Mesmo assim, vale a pena enfrentar a batalha eleitoral. É um importante momento para debater com a população e seus setores mais militantes. Fazer muitas denúncias e organizar lutas. Entre estas, o combate contra a ditadura da TV.