sexta-feira, 29 de abril de 2011

Exageros de pelegos preocupam patrões

Em 27/04, o jornal Valor publicou o editorial “Festa cara para esconder a falta de pauta combativa”. Refere-se às comemorações do 1º de Maio, em São Paulo. Segundo o texto:
O custo estimado para os dois principais eventos previstos é de R$ 5 milhões. A festa da Força Sindical e outras quatro centrais (UGT, CTB, CGTB e Nova Central) deve custar algo entre R$ 2,5 milhões e R$ 2,7 milhões. O convescote da CUT, outro tanto.
O jornal descreve como será usado esse dinheiro todo:
A festa unificada da Força Sindical e outras quatro centrais terá shows de artistas populares como Zezé Di Camargo e Luciano, telões de alta definição e mil seguranças contratados pela organização. A CUT, por seu turno, planejou uma festa temática cujo slogan é ‘Brasil-África’. Entre outros eventos está prevista uma feijoada com roda de samba para 30 mil pessoas no Vale do Anhangabaú.
Segundo o editorial, nada disso consegue esconder “a perda de combatividade do movimento sindical”, que teria sido “capturado pelo governo no laço das verbas e dos cargos federais”. Afirma que cerca de 42% da cúpula dos cargos de confiança federais seriam ocupados por sindicalistas.

O Valor é um jornal voltado para o público patronal. Por que estaria cobrando combatividade do movimento sindical?

Tudo indica que o objetivo é atingir o governo petista com a velha acusação sobre a formação de uma “república sindicalista”. Era assim que a direita chamava o governo João Goulart. Nada mais que um pretexto para preparar o golpe militar. É verdade que muitos sindicalistas mamavam nas tetas públicas. Mas, a vaca nunca deixou de pertencer aos patrões. Quando foi preciso, mandaram a vaca pro brejo com os pelegos pendurados nela.

Mas, o jornal também pode estar preocupado com os exageros do sindicalismo oficial. Afinal, se as direções das centrais governistas continuarem a mostrar seu “rabo preso”, alternativas combativas podem se fortalecer.

É o caso do campo formado por Conlutas e Intersindical. As duas entidades fazem clara oposição ao governo e aos patrões. Mas, passam por muitas dificuldades para se consolidar junto aos trabalhadores. As demonstrações de rendição explícita do sindicalismo governista podem abrir-lhes espaço. Deve ser isso que preocupa o jornalão patronal.

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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Privatização de aeroportos e cheque voador

A mais nova medida do governo Dilma é pra neoliberal nenhum botar defeito. A privatização dos aeroportos seria necessária para viabilizar a Copa e as Olimpíadas.

Num sistema público, os aeroportos que dão lucro ajudam a manter aqueles que não dão. Afinal, os primeiros ficam nas poucas capitais que se beneficiam da enorme concentração nacional da renda e do patrimônio. Com a privatização, a tendência é termos alguns poucos aeroportos ricos e luxuosos e muitos terminais pobres e abandonados.

O governo diz que não tem dinheiro para fazer as obras. Não é verdade. Segundo o Tribunal de Contas da União, são necessários cerca de R$ 33 bilhões para deixar os aeroportos novos em folha. Só em 2010, pagamos mais de R$ 78 bilhões em juros de uma dívida pública que o povo brasileiro jamais autorizou. Se deixássemos de pagar metade disso, não precisaríamos de privatização nenhuma.

“Isso é calote!” gritaria muita gente graúda. Pode ser, mas a Islândia acaba de realizar um consulta popular. Nela, 60% da população votaram contra o pagamento pelo governo de R$ 8,3 bilhões para Holanda e Inglaterra. Este foi o valor perdido por investidores dos dois países, que aplicaram dinheiro num banco privado islandês que faliu.

Para manter os aeroportos sob controle público, não seria nada mal fazer o mesmo. Passar um belo cheque voador para os especuladores financeiros. De quebra, estragaríamos a alegria de empreiteiras como Odebrecht, Camargo Correa e Queiroz Galvão. Todas já convidadas para participar de mais uma festa bancada com dinheiro público.

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

O PT magoou os tucanos

O PSDB está em crise profunda. Um recente artigo de FHC só piorou a situação. Publicado em 18 de abril, o texto ficou famoso pelo seguinte trecho:
Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os "movimentos sociais" ou o "povão", isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos.
Os petistas denunciaram o elitismo e a arrogância dos tucanos. E estes renegaram o texto de seu velho líder. Mas, o documento faz todo sentido. No trecho abaixo, FHC propõe conquistar:
...toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de "classe C" ou de nova classe média.
O raciocínio é o seguinte: os tucanos não têm chances junto ao “povão” e aos “movimentos sociais”. Hoje, grande parte desses eleitores vota na proposta lulista. Portanto, o PSDB só pode aumentar sua influência da “classe C” para cima, em que sua aceitação vai melhorando conforme se aproxima da elite.

Por seu lado, Lula defende quase o mesmo em relação a seu partido. Em reunião com prefeitos petistas em São Paulo, em 19/04, ele propôs que o PT procure atrair setores como as classes médias e os empresários. Afinal, o partido já conta com o apoio de boa parte dos de baixo. Agora, precisa se aproximar dos de cima.

É este “meio de campo” que FHC quer disputar com Lula. A vantagem é grande para os petistas por um motivo que o ex-presidente tucano aponta em seu documento. Ele reclama que o PT roubou o lugar dos tucanos na política nacional. O PSDB queria ser o partido social-democrata brasileiro. O PT conquistou essa posição. É o que dá a entender a passagem abaixo:
... se as forças governistas foram capazes de mudar camaleonicamente a ponto de reivindicarem a construção da estabilidade financeira e a abertura da economia, formando os “campeões nacionais” – as empresas que se globalizam – isso se deu porque as oposições minimizaram a capacidade de contorcionismo do PT, que começou com a Carta aos Brasileiros de junho de 2002 e se desnudou quando Lula foi simultaneamente ao Fórum Social de Porto Alegre e a Davos.
O trágico é que há décadas os partidos social-democratas vêm governando segundo a receita neoliberal. O cômico é que só faltou FHC fazer beicinho e dizer: “magoei!”

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terça-feira, 26 de abril de 2011

A crise do MST

“Não há uma crise no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra”, diz o professor Bernardo Mançano, em entrevista à IHU On-Line, publicada em 18/04. Ele refere-se às dificuldades que o movimento enfrenta para manter sua mobilização. Segundo Mançano, a crise é da pequena agricultura “em função do domínio do modelo na agricultura pelo agronegócio”.

Perguntado sobre o papel do governo petista nisso tudo, Mançano diz que Dilma “defende o modelo do agronegócio, mas dialoga com o modelo da agricultura camponesa. Então, ela não é contra a reforma agrária, mas também não vem investindo neste sentido”.

Mançano vem prestando excelentes serviços ao MST. Mas, fica difícil dizer que não há crise entre os Sem-Terra quando o horizonte camponês que anima o movimento vai desaparecendo. Mais difícil ainda é poupar o governo Dilma. A responsabilidade pelo fortalecimento do agronegócio é dela e de seus antecessores. Incluindo Lula, que chamou os usineiros de heróis.

Enquanto isso, a Comissão Pastoral da Terra divulgou o relatório “Conflitos no Campo no Brasil 2010”. Segundo o estudo, o número de ocupações diminuiu em quase 40%, em relação a 2009. Por outro lado, aumentaram em 21% os casos de violência contra os Sem-Terra.

Ou seja, o MST diminuiu o ritmo de sua luta, mas a violência dos latifundiários aumentou. Parece óbvio que os grandes proprietários se sentem fortalecidos por um governo que continua a secular política de apoio a sua causa.

Não há respostas simples para essa situação. Mas, apoiar este ou qualquer outro governo quase incondicionalmente é o caminho mais curto para a derrota. Infelizmente, é a escolha feita por muitas lideranças do MST.

Leia também: Dilma: a direita aprova

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um sarcófago para a energia atômica

Em abril de 1986, um acidente atingiu a usina atômica de Chernobyl, na Ucrânia. É considerada a pior catástrofe nuclear da história. Em agosto de 2010, a Agência Envolverde publicou artigo de Pavol Stracansky, que afirmava:
“Quase 25 anos depois do pior acidente nuclear da história, novas descobertas científicas sugerem que os efeitos da explosão em Chernobyl foram subestimadas. Especialistas publicaram, no mês passado, uma série de estudos indicando que, contrariando conclusões anteriores, as populações de animais diminuíram na área de exclusão em torno do lugar onde funcionava a antiga central nuclear soviética, e que os efeitos da contaminação radioativa depois da explosão foram “assombrosos”. Cada vez mais javalis com altos níveis de césio são encontrados no lugar”.
Em 19 de abril de 2011, Pilar Bonet e publica no jornal El País outra notícia sobre Chernobyl:
“Um consórcio internacional começou a construir uma nova cobertura para o sarcófago que protege o reator número 4, aquele que provocou a explosão na madrugada do dia 26 de abril de 1986. A futura cobertura, em forma de arco de 105 metros de altura, impedirá as filtrações de água e também os vazamentos de radioatividade. Com sua proteção e a ajuda de robôs, talvez um dia seja possível desmontar o reator”.
A construção começou pouco mais de um mês após o terremoto que atingiu a usina nuclear de Fukushima, no Japão. As autoridades locais admitem que o nível da gravidade do acidente está próximo ao de Chernobyl.

Especialistas dizem que os efeitos do acidente da Ucrânia podem durar milhares de anos. A humanidade não podia se dar ao luxo de produzir mais uma Chernobyl.

Multiplicam-se as manifestações populares contra as usinas nuclears. Tomara que se tornem um grande cortejo funerário para o uso da energia atômica.

Leia também: Apostando no mercado de catástrofes

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Capitalismo é dívida, paga pelos pobres

Em setembro de 2010, esteve no Brasil um ex-economista de Wall Street. Michael Hudson veio para um seminário internacional de grandes empresários. Sobre as mudanças que o capitalismo sofreu ao longo do século 20, ele afirmou:
A natureza do próprio dinheiro sofreu uma transformação. Já não é mais um ativo sob a forma de barras de ouro ou de prata criado pelo trabalho. É dívida.
O dinheiro internacional – as reservas dos bancos centrais – transforma-se, sobretudo, em dívida do Tesouro americano, enquanto o dinheiro dos bancos assume a forma de dívidas privadas: dívidas de hipotecas, dívidas empresariais (...) e até mesmo empréstimos destinados a financiar derivativos especulativos e apostas no mercado de câmbio.
Já Sergio Lamucci, em reportagem publicada no Valor de 19/04/2011, alerta para o tamanho da dívida pública brasileira:
Os gastos com juros do setor público devem atingir cerca de R$ 230 bilhões neste ano, o equivalente a 5,6% do Produto Interno Bruto (PIB), quase 15 vezes os R$ 15,5 bilhões que o governo federal deve destinar ao Bolsa Família em 2011.
Assunto de vários jornais do mesmo dia: a agência de classificação de risco Standard and Poor's rebaixou de "estável" para "negativa" a situação da dívida púbica dos Estados Unidos. Ou seja, teria aumentado o risco de calote por parte da nação mais poderosa do planeta. Não é para menos. O tesouro americano deve 100% de seu poderoso PIB. Ou mais de U$ 14 trilhões.

Mas também não é para tanto. Ninguém vai cobrar a potência americana. Não só porque é poderosa. Principalmente pelo que disse Hudson, acima. Gerenciar dívidas é a mais nova forma que a minoria capitalista encontrou de ganhar fortunas à custa da maioria explorada.

Afinal, o dinheiro que faz girar tais dívidas não sai do nada. Sai dos orçamentos que deveriam custear serviços públicos. Sai da saúde, educação, habitação, transporte, previdência social.

Nos Estados Unidos, esses recursos financiam gastos militares, subsídios para empresas, contratos milionários com corporações, novas especulações em Wall Street. No Brasil, pagam os maiores juros do planeta, financiam grandes empresas, remuneram especuladores do mundo todo.

Esta é a engenharia financeira que faz muito parecidos os governos de Obama e Dilma. Aproximam os democratas, os republicanos, os petistas e os tucanos.

Leia também: Capitalismo é promessa de dívida

terça-feira, 19 de abril de 2011

Realengo: a ferida e a epidemia

A tragédia de Realengo continua a render altos índices de audiência na grande mídia. Falam em bullying, falta de policiamento, doenças mentais, fanatismo religioso, influências maléficas da internete e dos games e filmes violentos. Mas, o objetivo não é esclarecer e ajudar a buscar saídas.

O objetivo é prender a atenção do público a qualquer custo. As autoridades pegam carona na confusão para fugir de suas responsabilidades no caso. Sabem que tudo isso acaba desviando a atenção de algo muito mais grave.

Somos um dos povos mais violentos do mundo. Mas, os resultados desse massacre diário não são os mesmos para todo mundo. No andar de cima da sociedade, segurança com padrões europeus. Embaixo, mortalidade superior à de guerras como a do Iraque. São cerca de 50 mil mortes violentas anuais. A grande maioria delas atinge jovens que habitam as beiradas sociais.

O assassinato covarde das 12 crianças tem pouco a ver com segurança pública. Wellington era ex-aluno da escola. Ninguém impediria sua entrada no prédio. A questão é como é que ele saiu do sistema de ensino disposto a fazer o que fez.

A tragédia é resultado da falta de segurança social. Do secular desprezo pela educação. Do abandono a que são condenados os doentes, os fracos, os que são considerados feios e sujos.

Realengo abriu uma ferida dolorida no meio da sociedade. Mas, pouco se fala da epidemia mortal que continua a fazer vítimas há décadas. É que o grupo de risco é formado por milhões de pobres e negros.

Leia também: A cor da violência

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O Rio no cinema: fofura e violência

Estreou nos cinemas o desenho animado “Rio”. A produção americana dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha é muito bem feita. Bastante humor, boa história, ritmo emocionante, belas cenas cariocas, personagens engraçados e simpáticos. Tudo muito fofo.

“Velozes e Furiosos 5 - Operação Rio” deve estrear logo. O trailer mostra muita correria, violência, brutamontes, tiros e porradas. Promete ser mais parecido com a realidade carioca do que a produção de Saldanha.

É o que se pode deduzir a partir de apenas uma informação. Segundo o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), as regiões controladas pelas milícias na cidade eram 170, em 2008. Hoje, elas são 305. O deputado revelou os números enquanto se descobria um plano para assassiná-lo. Entre os responsáveis, um vereador e vários policiais.

É assim que funciona a tal “pacificação” do Rio de Janeiro. Está mais para tiros e explosões do que para ariranhas e tucanos. Com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora talvez haja menos violência escancarada. Só que o preço é alto: menos liberdade e mais vigilância. Milícia e polícia, cada um do seu lado, violentam e humilham a população pobre.

Escolher entre “Rio” e “Velozes e furiosos” fica por conta do freguês. Mas mídia e governantes preferem a fofura do primeiro. Afinal, a violência do segundo pode revelar um pouco da realidade que eles tentam esconder.

Leia também: Extraordinário é gente, não lixo

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Hip Hop contra ficha limpa pra torturadores

Foi grande o escândalo causado pela decisão do Supremo Tribunal Federal em relação à lei da Ficha Limpa. Mas, também era exagerada a esperança que se depositou na “mais alta corte do País”. Afinal, trata-se de um tribunal composto de gente indicada por governantes, com critérios altamente duvidosos.

Não custa lembrar que um ano atrás o STF se declarou contra a revisão da Lei da Anistia. Esta lei foi aprovada durante a ditadura militar. Seu objetivo maior nunca foi perdoar os que lutaram contra a ditadura, mas inocentar assassinos e torturadores. A prova é que estão todos por aí. Com exceção dos que morreram de velhice.

É uma lei feita por criminosos sobre crimes que eles próprios cometeram. Além disso, anistia costuma ser um perdão para quem já foi julgado e condenado. Os carrascos da ditadura jamais passaram por qualquer julgamento.

Ou seja, o STF concedeu ficha limpa para responsáveis diretos e indiretos por crimes de tortura e assassinato. Nada mais fez do que o jogo dos poderosos que indicam seus membros.

Para fazer este debate, foi realizado um seminário com vários coletivos de hip hop, em junho de 2010. Aconteceu no Rio de Janeiro e foi organizado pelo coletivo de hip hop Lutarmada, pelo Revolutas e Rede de Educadores Populares. O convidado especial foi Manoel Cyrillo, que pegou em armas contra o governo dos militares.

Um dos resultados do encontro foi uma música sobre o tema do debate. Vale a pena ver como tem muita gente do hip hop que mantêm a tradição de combate do movimento. Isso é que é ficha limpa!

Veja o clipe aqui: Ecos do Passado

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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Rasgando o véu do preconceito contra muçulmanos

Acaba de entrar em vigor uma lei na França, que proíbe o uso do véu integral para mulheres. Trata-se do “hijab”, usado por muçulmanas.

A lei teria sido aprovada para proteger as mulheres da opressão masculina. Também pretenderia impedir que crimes ou ataques terroristas sejam facilitados pelo uso da roupa. Outra desculpa é a de que a França é um país laico.

Tudo conversa fiada. Não há registros relevantes de crimes ou atentados facilitados pelo uso do hijab. Não se garantem direitos femininos através de uma proibição dirigida às mulheres. O Estado francês pode ser laico, mas fecha os olhos diante da imposição de rituais e símbolos cristãos.

O governo Sarkozy quer agradar a direita francesa. Um setor que odeia os muçulmanos, apesar de se beneficiar da exploração de sua força de trabalho barata. Mas, a lei se aproveita de visões bastante equivocadas sobre as mulheres árabes. É como se fossem bonecas sem vida sufocadas por suas vestimentas.

Não é o que diz Soraya Smaili, dirigente do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe). Em entrevista para o Portal da Andes, ela diz:
Não é verdade que todos os árabes sejam muçulmanos e também não é verdade que todas as mulheres sejam obrigadas a usar lenço, nem mesmo as muçulmanas. Existe a idéia de que as muçulmanas são reprimidas e obrigadas a usar o hijab, quando na verdade, em boa parte dos casos trata-se de uma opção pessoal. No Líbano, Síria e Egito, por exemplo, as mulheres não são obrigadas a cobrir os cabelos e muitas muçulmanas cobrem por opção, porque faz parte dos costumes e da cultura. Em vários locais, como no Líbano e Tunísia, uma boa parte das muçulmanas não quer e não são obrigadas a se cobrir. Por terem a opção de usar o lenço, as mulheres árabes se sentem respeitadas, pois é um direito. Ao contrário do que ocorre em alguns países do “Ocidente civilizado”, onde as muçulmanas foram impedidas do seu direito de utilizar o hijab, o que é extremamente autoritário.
Trata-se de mais uma medida que é produto da chamada islamofobia. Neste caso, o racismo contra árabes se esconde sobre um falso véu republicano e feminista.

Leia entrevista com Soraya Samaili, clicando aqui

Leia também: O racismo contra árabes

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Nova classe média ou só mais consumidores?

A agência de Washington Olivetto acaba de concluir uma enorme pesquisa sobre o potencial de consumo da chamada nova classe média. O estudo incluiu 5 mil horas de convivência familiar, com direito a 4 mil horas de vídeos e 3.700 entrevistas. Foram envolvidos mais de 160 especialistas. Tudo para conhecer melhor a “classe C”.

A Associação Brasileira de Shopping Centers diz que 55% dos atuais shoppings brasileiros ficam no Sudeste. Cerca de 20% deles, no Rio e em São Paulo. Mas, dos 32 novos shoppings a serem inaugurados em 2012, somente três ficarão nesses dois estados. A entidade diz que trata-se de uma interiorização do setor. Resultado da ampliação do mercado para as classes C e D.

Cerca de 30% da população negra brasileira pertencem à classe C. Números do Instituto Datapopular revelam que a posse de TVs entre negros passou de 63%, em 2001, para 91%, em 2010. No mesmo período, a proporção desse setor da população que possui máquinas de lavar passou de 10% para 53%.

Durante sua campanha eleitoral à presidência, Plínio Sampaio (PSOL) costumava dizer que “entrar para a classe média virou sinônimo de comprar na Casas Bahia”. Nada contra, dizia ele, “mas ascensão social deveria implicar, principalmente, o acesso a serviços públicos de qualidade”. Deveria significar melhores condições para o exercício de direitos básicos.

O que estamos vendo não é bem ascensão social. É ampliação de mercado consumidor. É muito pouco e bastante duvidoso.

Leia também: Números de um país injusto

terça-feira, 12 de abril de 2011

Dilma: a direita aprova

Governo Dilma: cem dias. A direita fala pelos editoriais da grande imprensa. Para “O Globo”, o saldo é positivo. A “Folha” diz que é “auspicioso”. O “Estadão” limitou-se a cobrar um “estilo”.

Eles têm razão. Dilma é Lula sem o jogo de cena. Não precisa dizer que faz o que pode. Ela faz o que deve ser feito, segundo as receitas neoliberais.

Dilma cortou R$ 50 bilhões do Orçamento. Atingiu áreas sociais, como as de moradia, reforma agrária, educação, saúde, meio-ambiente. Não mexeu em um centavo dos juros da dívida interna.

Dilma barrou um aumento maior para o salário mínimo. As centrais sindicais não gostaram. Mas, sem mágoas. Os trabalhadores das obras do PAC entraram em greve. Os sindicalistas agiram prontamente. Saíram em defesa dos patrões e das obras. Entre elas, Belo Monte, que recebeu uma licença ilegal por pressão do governo.

Muita gente defendia o voto em Dilma para manter a política externa de Lula. O novo governo condenou o Irã. Nada fez contra a intervenção militar estrangeira na Líbia. Ao mesmo tempo, recebeu Obama como se fosse nosso colonizador.

A direção do MST reclama do desprezo à Reforma Agrária. Não deveria. É apenas a continuidade do lulismo. Engenharia política que favorece os poderosos, enrola os explorados e acalma os miseráveis.

Quem não gosta mesmo de Dilma é a extrema direita. Não perdoa seu passado de guerrilheira. Ótimo álibi para a esquerda que defende a presidenta. Mas, Dilma não nega seu passado nem está presa a ele. Sua tarefa atual é a manutenção de uma ordem injusta e opressora. A direita agradece.

Leia também: Para Lula, grande mídia é grande álibi

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Realengo e a mídia carpideira

Carpideiras eram mulheres pagas para chorar em velórios e enterros. Acreditava-se que suas lágrimas compradas ajudavam a alma do defunto a ganhar o reino dos céus.

A grande mídia vem se comportando como elas. A cada tragédia, são metros de papel e horas de rádio e TV a compor um dramalhão diário. Tudo repetido várias vezes por dia. Com poucas exceções, interessa muito mais a emoção fácil que a informação organizada.

É o caso do trágico massacre de Realengo. Os meios de comunicação disparam teses, teorias e hipóteses a torto e a direito. O assassino seria terrorista muçulmano ou só muçulmano. Portador de HIV e psicopata. Esquizofrênico, evangélico, vitima de violência na escola.

Para cada possibilidade, ouvem-se “especialistas” que nem sabem onde fica Realengo. Cada hipótese serve para colocar um grupo social sob a mira do preconceito: muçulmanos, gays, doentes mentais, soropositivos, evangélicos. Na capa do Globo de hoje, a carta do assassino. Um amontoado de palavras sem muito sentido. Apesar disso, em destaque, as palavras “Egito”, “Alcorão” e “Abdul”.

Enquanto isso, fica esquecida a enorme violência que atinge os jovens brasileiros. Na população adulta apenas 1,8% das causas de morte deve-se a homicídios. Entre os jovens, são quase 40%. Estatísticas não explicam o caso de Realengo. Mas as lágrimas falsas da mídia só embaçam o olhar de quem busca saídas.

A demagogia dos governantes se aproveita do pranto geral provocado pela mídia carpideira. A mesma que lucra milhões com atrações cada vez mais violentas. Que cria intrigas em torno do luto sincero. Proclama lamentos aos céus e comemora o inferno que garante a audiência.

Leia também: Enxurrada de lágrimas

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Extraordinário é gente, não lixo

Vale a pena ver “Lixo extraordinário”. O documentário de Lucy Walker mostra a parceria artística entre o fotógrafo Vik Muniz e catadores de lixo do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro.

O diferencial do trabalho de Muniz é a união entre matéria e símbolo. Entre a imagem e aquilo de que ela é feita. Tudo começou com as “Crianças de Açúcar”, fotos de crianças que trabalham em canaviais do Caribe. Vik as reproduziu utilizando o resultado material da exploração a que são submetidas. Depois disso, vieram obras feitas com molhos, chocolate, papel picado...

Em Gramacho, uniram-se elementos que deveriam ser opostos: lixo e gente. Boa parte do maior lixão do mundo é resultado de consumo descontrolado. Também significa sustento para operários informais, explorados pela indústria da reciclagem. A abundância gera grandes lucros a partir da exploração da miséria. Nas duas pontas, há gente. No meio, muito lixo. Material e social.

Vik e os catadores uniram-se para produzir retratos feitos com refugo. As montanhas de sujeira pariram beleza. A venda das obras rendeu bom dinheiro. Conferiu alguma dignidade a seus autores. Fez alguns sonharem com dias de glória que dificilmente virão. A miséria em que vive o povo de Gramacho não vai desaparecer por causa de um projeto bonito.

Apesar disso, de alguma coisa valeu. No início do filme, Muniz olha imagens aéreas do lixão. Tudo lhe pareceu muito feio. Depois de visitar o local, sua impressão mudou. Enxergou a beleza das pessoas, sua união e solidariedade. É essa gente extraordinária que o documentário consegue mostrar ao público. É o bastante. Mesmo sendo pouco.

Leia também: Oscar merecido para a pior obra

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Redes sociais e classes sociais

A internete costuma ser considerada um espaço democrático. Domínio da liberdade e igualdade na “pós-modernidade”. Santa ingenuidade. Como se a rede virtual não fizesse parte de um mundo bem real, com todas as suas contradições.

É o que mostra reportagem do jornal Valor Econômico, de 05/04. Sob o título de “Diga-me qual é tua rede e te direi quem és”, a matéria diz:
Sondagem feita pela empresa de pesquisas QualiBest, a pedido do Valor, revela que a esmagadora maioria dos internautas brasileiros presentes nas redes sociais mantém perfil no Orkut: 91%. A adesão ao Facebook, porém, é maior entre os mais ricos (78%), enquanto o Orkut é apontado como o site de relacionamentos preferido por 66% da classe C.
A explicação estaria na ordem de chegada à internete. No Brasil, o Orkut foi adotado por quem chegou antes ao ambiente virtual. Os mais ricos, claro. Quem teve acesso depois, se juntou aos primeiros. Mas, estes começaram a migrar para o Facebook e Twitter. O motivo?

A reportagem cita a explicação de Rafael Kiso, da Focusnetworks, agência especializada em marketing nas redes sociais. Segundo ele:
O Orkut oferece menos recursos para o controle da privacidade. É possível navegar e deixar comentários na página de qualquer pessoa, mesmo que ela não esteja na rede de amigos. "Os mais ricos se sentiram acuados com isso", avalia o executivo.
Parece que acontece como na vida real. Quem mais tem, mais teme. Isola-se mais freqüentemente. Seja isso ou não, o Facebook já dá sinais de que vai investir mais no público de “classe A”, mesmo que deixe de crescer entre os restantes. Afinal, o topo social é pequeno, mas concentra grande parte da renda e do patrimônio total.

E é isso que importa. No mundo real ou no virtual, as leis capitalistas são as mesmas.

Leia também: Redes sociais não fazem revolução, mesmo

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Que tal aplicar botox no bebê?

Mônica Bergamo anunciou na Folha de hoje um novo produto Disney:
Um sutiã cor-de-rosa com bojo de espuma imitando o formato de seios é vendido para menina de seis anos nas Lojas Pernambucanas.
Em fevereiro passado, a Walmart lançou maquiagem anti-envelhecimento para crianças.

Forçar o amadurecimento de crianças desse modo não pode ser saudável. Mas, os adultos também estão cada vez mais infantilizados. A maioria se agarra a uma juventude idealizada. E os mais idosos tentam se distanciar de suas limitações físicas naturais a todo custo.

Não é à toa o aparecimento da marca Disney nesta história toda. A poderosa empresa americana é o maior símbolo de toda essa infantilização. Seu mundo ideal é a “terra do nunca” de Peter Pan. Um lugar em que ninguém nunca cresce. No caso dos mais velhos, a "terra do sempre". Onde todos permanecem sempre jovens, ágeis e inocentes.

Tudo isso é mais complicado do que parece. A própria idéia de infância não é algo que existiu sempre. Vários historiadores dizem que ela é uma invenção recente. Na Idade Média, por exemplo, crianças eram consideradas adultos em miniatura.

O medo e a vergonha da velhice também são coisas novas. A maioria das sociedades tradicionais sempre valorizou os veteranos e sua grande experiência.

O que parece estar por trás disso tudo é uma disputa de mercado. Só a venda de brinquedos não basta. O comércio de produtos para adultos não é suficiente. O mercado farmacêutico e medicinal para idosos também é pouco. É preciso empurrar tudo e todos para pontos de consumo que se cruzam.

Para o mercado, pais ideais são aqueles que compram mamadeiras automáticas e lingerie sexy para seus bebês. Aplicação de botox também é recomendável.

Leia também: Apostando no mercado de catástrofes

terça-feira, 5 de abril de 2011

Imperialismo brasileiro no Peru

No domingo, 10/04, acontece o primeiro turno das eleições presidenciais no Peru. O atual presidente, Alan García, aprovou um pacote com mais de 30 grandes projetos de grandes obras.

As principais beneficiadas são grandes empresas brasileiras. Entre elas, Odebrecht, Camargo Correa e Queiroz Galvão. Segundo matéria da Folha de São Paulo de 03/04, as empreiteiras brasileiras estão envolvidas na construção de seis hidrelétricas. Os investimentos podem chegar a US$ 16 bilhões.

Segundo a matéria, as construtoras brasileiras são as maiores doadoras da campanha do ex-presidente e candidato Alejandro Toledo. A matéria da Folha alerta para o fato de que as hidrelétricas “são só uma fatia dos negócios brasileiros no país”.

As “múltis brasileiras” já teriam investimentos de US$ 3,5 bilhões a US$ 5 bilhões no país vizinho. Números que devem triplicar com as obras públicas previstas. Principalmente, em mineração, construção e energia.

A Odebrecht, por exemplo, está há 31 anos no Peru, diz a Folha. Já fez 54 obras que representam investimentos de US$ 4,4 bilhões. O que a matéria não diz é que, lá como cá, as maiores vítimas desse tipo de empreendimento são a população pobre e o meio ambiente. Sem falar nos próprios trabalhadores das obras.

O capital com sede no Brasil vem promovendo uma espécie de “imperialismo tupiniquim” na América Latina. Um “imperialismo jr.” que também faz estragos na África e no Oriente Médio desde, pelo menos, os governos militares.

Apesar disso, boa parte da esquerda brasileira comemora o sucesso do “empresariado brasileiro”. Aprendeu com Lula a alisar a cabeça dos que sempre exploraram a população, desde Cabral até FHC.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Apostando no mercado de catástrofes

Na Bélgica, funciona o Centro de Estudos de Epidemiologia de Desastres (Cred). A instituição faz estatísticas anuais sobre desastres naturais e seus estragos.

O Cred diferencia dois tipos de desastre. Os geológicos são, basicamente, terremotos, maremotos e erupções vulcânicas. Os hidrometeorológicos são enchentes, secas, ciclones e outros fenômenos climáticos. Em relação aos primeiros, é pouco provável que sejam provocados por nossa ação. Quanto aos segundos, há poucas dúvidas sobre a responsabilidade humana.

Segundo estudos do Centro, na primeira década do século 20, houve 40 desastres geológicos e 28 hidrometeorológicos. Nos anos 40, os segundos superaram os primeiros. Nos anos 70, foram 776 casos hidrometeorológicos contra 124 geológicos. De 2000 a 2005, os desastres climáticos ganhavam de goleada: 2.135 a 233. Entre uma ponta e outra da estatística, difícil ignorar a enorme expansão capitalista no mundo.

Por outro lado, as catástrofes que causaram mais mortes no século 21 são geológicas: tsunami na Indonésia e terremotos no Chile, Haiti e Japão. Ainda assim, seriam resultado de fatores humanos. Muita gente amontoada nos lugares errados.

Mas nem todas as pessoas estão onde estão porque querem. Estão onde a indústria, o comércio e os serviços lhes oferecem meios de sobrevivência.

Tantas catástrofes já afetam o mercado. A maior companhia internacional de seguros para desastres naturais é a alemã Munich Re. A empresa avalia que o terremoto japonês já causou prejuízos de US$ 211 bilhões.

Por outro lado, os títulos vinculados a catástrofes vêm ganhando importância. Para 2011, a Munich Re espera vender US$ 6 bilhões desse tipo de papel. Nasce mais um mercado especulativo. As tragédias pessoais são apenas detalhes.

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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Bolsonaro, muito atual

O deputado federal Jair Bolsonaro, (PP-RJ) mostrou todo seu racismo no Programa "CQC", em 28/03. Perguntado sobre a possibilidade de que seu filho se casasse com uma negra, respondeu:
Não corro esse risco e meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como, lamentavelmente, é o seu.
É apenas mais uma de suas muitas declarações conservadoras. Em fevereiro de 2000, por exemplo, ele disse:
A tortura é diferente do espancamento. A primeira, em todas as formas, tem sido sempre arma de guerra largamente utilizada em todos os conflitos havidos no mundo; ainda é assim e sempre será.
Em maio de 2009, pendurou um cartaz na porta de seu gabinete: “Desaparecidos do Araguaia, quem procura osso é cachorro”.

Em novembro de 2010, deu sua opinião sobre proposta de lei que proibia o espancamento de crianças:
O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, aí muda o comportamento dele. Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas palmadas, meu pai me ensinou a ser homem.
Bolsonaro é um defensor do que há de pior na sociedade brasileira. Sua “escola” foi a ditadura militar de 64. Algo que deveria ter sido enterrado há muito tempo. 47 anos depois, continua a vagar por aí como um maldito morto-vivo.

Talvez, nos ajude a pensar sobre a questão uma recente informação que vem da Argentina. Segundo reportagem de Lucas Ferraz para a Folha de S. Paulo, publicada em 27/03/2011:
Os julgamentos dos crimes cometidos na última ditadura militar da Argentina (1976-83) já levaram à prisão 486 ex-militares envolvidos nas ações de terrorismo do Estado, que deixaram mais de 30 mil pessoas mortas ou desaparecidas, segundo entidades de direitos humanos.
Aqui, os carrascos não foram levados nem a julgamento. E muito provavelmente, a grande maioria deles morrerá livre. Afinal, o governo da ex-guerrilheira Dilma Roussef nomeou para chefe do gabinete de Segurança Institucional o general José Elito Siqueira. Em janeiro, o militar declarou que “não temos que nos envergonhar ou nos vangloriar” dos desaparecidos políticos durante a ditadura militar.

Nada do que Bolsonaro representa é antigo. Atualiza-se a cada dia na política de repressão do Estado brasileiro. Produto da covardia oficial e da impunidade legal.

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