quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Bobagens e suas consequências nada bobas

Todos têm o direito de dizer bobagens. Mas alguns deveriam ser responsabilizados pelas consequências daquilo que falam. Dilma, por exemplo.

Eike é o nosso padrão, a nossa expectativa e, sobretudo, o orgulho do Brasil quando se trata de um empresário do setor privado.

A frase é da presidenta foi dita na solenidade de início da extração de petróleo pela OGX, em abril de 2012. Ano e meio depois, a OGX entrou com pedido de recuperação judicial. A empresa declarou dívidas de R$ 11,2 bilhões.

A vez de Lula chegou durante sessão comemorativa dos 25 anos da Constituição de 1988 no Senado Federal, em 29/10. Começou seu discurso elogiando José Sarney por seu desempenho durante a Constituinte de 1988. Terminou pior:

Se a juventude lesse a biografia de Getúlio Vargas, de Juscelino Kubitschek e outras biografias, provavelmente não iria desprezar a política, e muito menos a imprensa ia avacalhar a política como avacalha hoje.

O trecho abaixo descreve instrumentos de tortura utilizados pela ditadura do Estado Novo, implantada por Getúlio Vargas.

O maçarico, que queimava e arrancava pedaços de carne; os “adelfis”, estiletes de madeira que eram enfiados por baixo das unhas; os “anjinhos”, espécie de alicate para apertar e esmagar testículos e pontas de seios; a “cadeira americana”, que não permitia que o preso dormisse; e a máscara de couro.

Está no livro “Falta alguém em Nuremberg”, de David Nasser. Outros tribunais continuam aguardando seus réus. Incluindo antigos carrascos, novos vigaristas e seus mais recentes admiradores ou cúmplices.

Leia também: O PT quer uma burguesia pra chamar de sua

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Editorial do Globo: crônica que justifica violência fascista

O Globo publicou, hoje, o editorial “Vandalismo, democracia e fascismo”. Verdadeira lição de distorção conservadora em favor dos interesses mais poderosos do País.

O texto começa dizendo que houve “queda no apoio às manifestações” devido à ação dos black blocs. Realmente, pesquisa Datafolha teria mostrado uma diminuição de 89% para 66% desde junho. Mas a interpretação dos números deveria ser bem diferente. Apesar de todo o bombardeio da grande imprensa contra a resistência dos manifestantes à violência policial, pelo menos 2/3 dos entrevistados continuam a apoiá-los.

O editorial cobra firme combate do Estado às ações de “vandalismo”, ainda que com “baixo grau de letalidade”. Mas como vidraças, lixeiras, ônibus e viaturas não podem ser ameaçados, a ocorrência de mortes é considerada um “risco que está presente”.

“Entre as imagens que ficarão destes tempos”, diz o texto, a foto do coronel da PM paulista “sendo espancado por black blocs”. Ou seja, as centenas de imagens de manifestantes sendo linchados por hordas de policiais permanecerão nas redes virtuais, distantes da enorme audiência desconectada.

O Globo manifesta espanto diante do apoio de “professores sindicalistas” aos black blocs. Como se a decisão tivesse sido aprovada por uma dúzia de lideranças e não por milhares de grevistas, testemunhas e principais vítimas da violência nas manifestações.

Por fim, o texto chama de fascismo a “prática de perseguir e agredir fisicamente” aqueles que são considerados inimigos. A descrição é muito mais adequada às ações da polícia, não às de suas vítimas. E o editorial do Globo se revela como a crônica que justifica o caráter fascista de toda essa violência.

Leia também: O Yellow Bloc

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O saber automático por trás do preconceito

Em 26/10, O Globo publicou a entrevista “Neurocientista põe em xeque o inconsciente de Freud”. Trata-se do depoimento do físico Leonard Mlodinow, autor do best-seller “O andar do bêbado”. Opondo-se ao que defenderia a psicanálise, ele afirma que “ninguém conseguirá acessar seu inconsciente pensando e falando”. Nada surpreendente, vindo de alguém formado em Física.

De qualquer maneira, Mlodinow faz uma afirmação da qual é difícil discordar. Em relação ao preconceito, ele diz:

Existem dois tipos de preconceito: o deliberado, que hoje é menos prevalente, e o inconsciente. Neste último tipo, a pessoa realmente acha que não é preconceituosa; há casos, inclusive, em que ela pode até ser militante daquela causa. Mas testes detectam que há preconceito. Estudos mostraram que mesmo negros acabam fazendo associações raciais negativas inconscientes. Somos bombardeados por imagens negativas e estereotipadas de mídias como TV, cinema e internet. E a nossa mente inconsciente tende a generalizar para simplificar.

Muitos cientistas sociais concordariam. Algo parecido foi dito, por exemplo, em um artigo do sociólogo Muniz Sodré. Com o título “Diversidade e diferença”, o texto foi publicado na “Revista Científica de Información y Comunicación”, em 2006, na Espanha. Um trecho afirma:

Você vê alguém com um turbante na cabeça e pensa que já sabe tudo sobre ele, que é, por exemplo, árabe, logo, islamita, logo investido de determinada disposição frente ao mundo. O racismo apresenta-se geralmente como esse “saber automático” sobre o Outro. Os preconceitos funcionam assim na prática: valem para qualquer outra forma diversa.

Saber automático. Eis uma das principais bases da intolerância. E a grande mídia é uma de suas maiores difusoras.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

No Brasil, dezenas de políticos assassinados todo ano

Os políticos são alvo de ódio e desprezo por parte da maior parte da população brasileira. Para a grande maioria conservadora, mereceriam a mesma morte reservada a criminosos comuns.

No entanto, dezenas de políticos morrem assassinados anualmente. Em 2012, por exemplo, o número de lideranças populares assassinadas cresceu 10,3% em relação a 2011. Estamos falando, principalmente, de sem-terra, indígenas e pescadores. Foram 32 casos registrados.

Os dados são do Conselho Indigenista Missionário, ligado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. As mortes de lideranças urbanas por motivos políticos são mais raras, mas podem estar escondidas por trás de supostos assaltos ou acidentes.

Sem-terras, sem-tetos, indígenas, pescadores, sindicalistas, que lutam por seus direitos estão fazendo política em seu sentido mais nobre e corajoso. Enfrentam bandidos engravatados, que usam ternos importados, se deslocam de jatinho e têm bilhões de reais em paraísos fiscais.

Portanto, não é verdade que todos os políticos gozam de imunidade e impunidade no Brasil. Estes são privilégios reservados somente para aqueles que infestam os parlamentos e palácios do País. Para os que são despachantes luxuosos do grande capital nos gabinetes do poder. As exceções existem, mas são muito raras.

Essa situação continuará enquanto não convencermos a maioria da população de que fazemos política o tempo todo. E quem não a faz ativa e conscientemente também acaba sendo vítima dela. Não com a triste dignidade dos que morrem no papel de lideranças populares. Mas na vergonhosa condição de mais um caso na enorme mortalidade causada pela saúde pública destruída, violência policial, criminalidade, chacinas, trânsito violento, acidentes de trabalho.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A violência dos motins é a voz dos que não são ouvidos

Em 22/10, o professor de Filosofia Vladimir Safatle publicou artigo na Folha com o título “Violência e silêncio”. Em um trecho, ele diz que a política brasileira tem se transformado “na arte do silêncio”. Ou seja:

Arte de passar em silêncio sobre democracia direta, como pagar dignamente professores, como implementar uma consciência ecológica radical, como quebrar a oligopolização da economia, como taxar mais os ricos e dar mais serviços aos pobres. Mas também a arte de tentar silenciar descontentes.

É como diz a música do Rappa, “Paz sem voz, não é paz. É medo”. E esta tem sido a lógica que impera na pacificação que as UPPs levaram às favelas cariocas, por exemplo.

Felizmente, os desafios a esta ditadura do mutismo costumam ser bem barulhentos. É o que provam as manifestações que não param de acontecer desde junho. Mas outros povos também passam e passaram por isso. É o caso dos negros estadunidenses.

O levante negro por direitos civis marcou a década de 1960 nos Estados Unidos. Manifestações violentas se multiplicaram. Vitrines destruídas, automóveis queimados, policiais atacados. Martin Luther King foi a principal liderança do movimento. Era pacifista, mas dizia que a violência dos motins era a “voz dos que não são ouvidos”.

O fato é que a surdez do poder político tem sido regra na história do capitalismo. Ao contrário do que parece, até um direito calado como o voto universal levou muitas décadas para ser aceito pela burguesia. E as recentes imagens de parlamentos europeus aprovando leis antipopulares cercados por multidões furiosas provam que nada mudou demasiado.

Leia também: O brasileiro cordial e sua caixa de ódio

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Receita pra omelete de serpente

A presença de bandeiras conservadoras nos protestos que começaram em junho assusta. Mostram ovos do fascismo em plena incubação.

Mas na Europa, a situação é mais séria. Principalmente na França. Pesquisas recentes mostraram que Marine Le Pen, da Frente Nacional, partido de extrema-direita, alcançou altos níveis de simpatia popular.

Qual foi a reação da esquerda parlamentar e governista do país? O ministro socialista francês, Manuel Valls, acusou os ciganos de falta de vontade de se integrar e de adotar "uma forma de vida extremamente diferente".

O presidente Hollande ficou quieto com medo de desagradar os 77% dos franceses que aprovaram a declaração de Valls. Parece que a ideia é se mostrar tão ou mais conservador que Nicolas Sarkozy, por exemplo.

Para não restarem dúvidas, em 09/10, no leste da França, a estudante Leonarda Dibrani, de 15 anos, foi detida dentro do ônibus escolar. Foi deportada com sua família para Kosovo, sua terra natal.

Mas reportagem do site alemão Deustche Welle, de 16/10, avisa “Força da extrema direita na França reflete tendência europeia”. E faz previsões sombrias:

Avanço da Frente Nacional não é caso isolado dentro da UE, que vê ideologia extremista ser cada vez mais socialmente aceitável. Descontentamento e desinformação do eleitor podem reforçar a direita no Parlamento Europeu.

Na Bíblia, Isaías alerta contra os perigosos ovos de serpentes. Diz que para cada um deles que se quebra, nasce uma víbora. Já temos ovos de ofídios suficientes para uma omelete bem venenosa. E quem os vem manipulando sem o menor cuidado ocupa os principais governos do mundo. Inclui os desastrados da esquerda que nos governa.

Leia também:

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Leilão de Libra: a insuportável leveza da rendição

O leilão do campo de petróleo da camada pré-sal batizado Libra aconteceu, apesar da oposição da imensa maioria dos movimentos populares e sindicais e partidos de esquerda. Incluindo setores fiéis ao governo.

Para todos eles, trata-se de uma privatização. Para alguns, seria a maior privatização da história. O fato de que o tucano Aécio Neves faça coro com afirmações desse tipo não as desmentem. Lula disse que as críticas ao leilão são eleitoreiras. Mas se isso é verdade para Aécio, está longe de sê-lo para a Federação Única dos Petroleiros e para a CUT. As duas são grandes aliadas do governo e igualmente condenaram o leilão.

Para desequilibrar ainda mais essa balança, que tal mais duas opiniões tucanas?

Não é o momento de tiroteio. É hora de celebrar a privatização do petróleo pelo PT, um divisor de águas histórico para o partido.

A frase é da economista Elena Landau, ex-diretora de “desestatização” do BNDES no governo Fernando Henrique.

Enquanto isso, Arnaldo Jabor, a quem não se pode acusar de ser simpático aos petistas, rosnava no Jornal da Globo, pouco antes do leilão:

Dilma tem de governar o país como se guiasse uma carroça com dois cavalos: um rápido e moderno; e o outro, manco e velho. Sempre que ela tenta modernizar algo os velhos mancos sindicais ideológicos empacam. Talvez nem sejam cavalos e, sim, burros.

O fato é que em um dos pratos da balança está a pesada pedra da privatização. No outro, um governo que se rende aos poderosos com a leveza mais insuportável.

Leia também:
O SUS à venda nas eleições
As privatizações de Dilma

terça-feira, 22 de outubro de 2013

O brasileiro cordial e sua caixa de ódio

O historiador Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro “Raízes do Brasil”, criou o conceito de “homem cordial”. No capítulo do livro que leva esse título, ele diz:

Já se disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial”. A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro...

Diante da polêmica que cercou essa definição, o autor esclareceu em nota na 2ª edição:

...essa cordialidade estranha, por um lado, a todo formalismo e convencionalismo social, não abrange, por outro, apenas e obrigatoriamente, sentimentos positivos e de concórdia. A inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, nisto que uma e outra nascem do coração, procedem, assim, da esfera do íntimo, do familiar, do privado.

A palavra cordial tem raiz em coração e afeto. Afeto não remete apenas a carinho ou ternura. Também pode ser usado para emoções como ódio e raiva. E o coração pode se transformar na “caixa de ódio” da canção de Lupicínio Rodrigues.

Talvez, seja uma boa metáfora para o que vem acontecendo no Brasil há séculos. Muito carinho, afeto ou apenas bons modos entre os que ocupam o andar de cima. Muita porrada e humilhação dispensadas aos ocupantes do rés do chão e abaixo dele.

Todos os “grandes episódios” de nossa história são marcados por essa cordialidade tão brasileira. Fenômeno que ganhou nova visibilidade desde que começaram as manifestações em junho passado. E a caixa de ódio pulsa cada vez mais forte.

Leia também: O Yellow Bloc

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Os caprichos mesquinhos da economia capitalista

Há poucos dias, democratas e republicanos chegaram a um acordo sobre a dívida pública estadunidense. Miriam Leitão escreveu o seguinte no Globo de 18/10:

Irã e Iraque enfrentaram-se numa guerra, Irã e Estados Unidos são inimigos históricos que começam só agora um diálogo, Hugo Chávez, quando vivo, não perdia chance de atacar Washington. Mas todos esses países financiam o Tesouro americano.

A colunista refere-se à montanha de títulos da dívida americana que esses países possuem, juntamente com China e Brasil.

Luís Bassets publicou reportagem sobre o crescimento da extrema-direita na Europa. Em texto publicado no jornal El Pais, em 16/10, ele resumiu a situação:

A esquerda copia a direita em economia. A direita, a esquerda em divisões e falta de lideranças. Ambas copiam a extrema-direita em seus gestos contra a Europa e contra a imigração. E aí está o resultado: a extrema-direita ganha eleições parciais e se situa pela primeira vez à frente das pesquisas, concretamente, para as eleições europeias.

O que há de comum entre a primeira e a segunda observação? O domínio quase absoluto da economia sobre a política. As enormes diferenças entre Irã, Venezuela, China, Brasil quase desaparecem diante da dependência dessas economias em relação à moeda imperial americana.

Na Europa, tudo começa pela esquerda “copiando a direita em economia”. O resto é consequência. As divisões da direita não atrapalham em nada as enormes taxas de lucros das grandes corporações. A xenofobia é resultado da liberdade de circulação apenas para as mercadorias.

Pode parecer reducionismo. Mas assim é o capitalismo. A cada crise, nos tornamos mais escravos dos mesquinhos caprichos de sua economia.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

O Yellow Bloc

Em 15/10, houve mais de 240 prisões entre os participantes da manifestação em apoio à greve dos professores no Rio de Janeiro. Vários deles foram enquadrados na Lei do Crime Organizado, recentemente aprovada para tentar criminalizar os participantes das grandes manifestações que começaram em junho. 

Entre os presos, havia integrantes dos Black Blocs, cuja atuação não se resume a destruir vidraças e fachadas. As imagens postadas nas redes virtuais mostram a função defensiva desses grupos contra a selvagem violência policial que se abate sobre os manifestantes. Entre os detidos, também havia militantes que estavam acampados na escadaria da câmara municipal carioca. Uns e outros jamais podem ser considerados terroristas ou membros de quadrilha, como querem as autoridades policiais. Sua motivação é política e assim deve ser julgada.

A justificação em larga escala para essas prisões vem sendo feita pela grande imprensa. A capa de O Globo de 17/10, por exemplo, chamava de vândalos aos detidos. Caracterização que despolitiza a atuação dos militantes presos. Mas nada disso pode surpreender. Grande mídia e aparelho judiciário apenas cumprem sua principal tarefa: defender a ordem, mesmo à custa da liberdade de manifestação e de expressão.

O que causa verdadeira revolta é atitude de alguns políticos de plantão. Entre eles, muitos que enfrentaram situação semelhante em seu passado de lutas. Que preservaram sua dignidade, mesmo quando seus corpos eram barbaramente torturados. Que encararam com coragem carrascos que, hoje, se escondem covardemente.

Não há porque duvidar que continuem sendo pessoas corajosas. Mas politicamente se acovardaram. Amarelam do medo de perder seus cargos e projetos políticos nanicos. Formam um desprezível "Yellow Bloc".

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Na pedagogia da revolução, revolucionário é aprendiz

A educação política dos trabalhadores sempre esteve entre as grandes preocupações dos revolucionários. Desde comunistas como Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa e Gramsci aos anarquistas Goodwin, Proudhon e Bakunin.

Entre nossos militantes da educação para a liberdade, destacam-se Dermeval Saviani e Paulo Freire. Saviani, por exemplo, definia a pedagogia contra-hegemônica como um processo que procura:

... desarticular dos interesses dominantes aqueles elementos que estão articulados em torno deles, mas não são inerentes à ideologia dominante e rearticulá-los em torno dos interesses populares, dando-lhes a consistência, a coesão e a coerência de uma concepção de mundo elaborada, vale dizer, de uma filosofia.

Ou seja, valores como solidariedade, justiça, igualdade não são propriedade da classe que mais os proclama e jamais os coloca em prática. Foram sequestrados por quem quer dourar sua dominação. A atividade educativa de contestação deve resgatá-los desse cárcere a serviço de interesses privados. Colocá-los à disposição dos únicos interessados na derrubada da ordem social atual: os que são explorados e oprimidos por ela.

Para Paulo Freire, somente na medida em que se descubram “hospedeiros do opressor”, os oprimidos poderão contribuir para o “partejamento de sua pedagogia libertadora”. Mas ele também adverte:

O caminho, por isto mesmo, para um trabalho de libertação a ser realizado pela liderança revolucionária não é a “propaganda libertadora”. Não está no mero ato de “depositar” a crença da liberdade nos oprimidos, pensando conquistar a sua confiança, mas no dialogar com eles.

Com tal afirmação, Freire dizia pretender apenas “defender o caráter eminentemente pedagógico da revolução”. Postura que permite deduzir a permanente condição de aprendiz que todo revolucionário deve assumir.

Leia também:

A pedagogia da resistência está nas ruas

Uma das grandes contribuições do marxista Antônio Gramsci à teoria socialista foi o conceito de hegemonia. Segundo o revolucionário italiano, hegemonia é a liderança cultural-ideológica que uma classe exerce sobre as outras.

Vivemos em um sistema baseado na oferta voluntária de força de trabalho no mercado. Nenhuma lei  obriga a trabalhar em troca de salário ou remuneração. Portanto, a coerção não pode ser principal pilar da dominação da sociedade capitalista. É verdade que são muitas as vezes em que a classe dominante faz uso da violência estatal. Mas é o consenso social em torno dela que torna possível sua utilização.

Portanto, a dimensão consensual da dominação burguesa é fundamental. E seus elementos pedagógicos desempenham papel essencial na construção desse consenso. É por meio deles que são impostos valores que justificam a exploração e a opressão. Daí decorre a afirmação gramsciana de que “toda relação de hegemonia é necessariamente uma relação pedagógica”.

Felizmente, ao longo de séculos de luta, os dominados também desenvolveram sua própria pedagogia. Criaram suas práticas educativas de resistência e transformação social. E elas ensinam que construir consensos contra qualquer tipo de dominação implica convencimento, não coação. São as relações baseadas na persuasão que devem predominar entre os explorados e oprimidos, em suas lutas e organizações.

O combate sem tréguas e vitórias impiedosas devem ser reservados a nossos inimigos: a classe dominante, seus aliados, instrumentos políticos, aparelhos de dominação e de repressão. É como ensina a antiga palavra de ordem do pacifismo revolucionário: “Paz entre nós, guerra aos senhores”.

É esta pedagogia da resistência que vem sendo experimentada nas ruas brasileiras desde junho.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Da pedagogia dos escravos à pedagogia da exploração

A reitoria da USP está sendo ocupada por seus alunos e funcionários. Entre as reivindicações, a eleição direta para reitor. Em 12/10, a Folha de S. Paulo publicou artigo de Marcos Fernandes G. da Silva sobre a questão. O título não deixa dúvidas: “Universidade não é nem deve ser democrática”.

Para o doutor em Economia da USP, a democracia deve ficar longe da administração e da gestão acadêmica. “A USP é como uma empresa e funcionário trabalha para os alunos e professores produzirem conhecimento e ensino”, diz Silva.

Pelo menos, o doutor não esconde seu desapego pela democracia. Mas sua concepção de universidade também tem pouco a ver com pedagogia. A palavra vem do grego “paidagogós”, produto da combinação entre “paidós” (da criança) com “agogós” (condutor). “Pedagogo” seria aquele que acompanhava a criança até o local de estudos, ocupação reservada aos escravos.

Mais tarde, “pedagogia” passou a significar “ciência da educação”, e deixou de se limitar à formação da infância. Com os atenienses, aproximou-se do conceito de “paideia”, cuja tradução em nossos dias seria “processo civilizatório”. Seria a busca de um povo pelo que consideraria ser o melhor em termos de cultura ou civilização.

Desde os gregos antigos, melhoramos. Já não admitimos a escravidão legal, por exemplo. Progrediríamos ainda mais se considerássemos a pedagogia como tarefa de todos os envolvidos nas atividades educativas. Não apenas de alguns doutores trepados em suas cátedras.

Nosso processo civilizatório também ganharia muito se a prática educativa deixasse de ter como modelo relações sociais humilhantes. No caso, as que resultam da exploração do trabalho humano que a atividade empresarial necessariamente implica.

Leia também:

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O animal que calcula

Somos os únicos animais que fazem cálculos. Um clássico da literatura brasileira trata dessa habilidade de modo mágico. É o livro “O Homem que Calculava”, de Malba Tahan, pseudônimo de Júlio César de Mello e Souza.

São histórias narradas na Bagdá muçulmana do século 13. O personagem principal é Beremiz Samir, que ao longo da narrativa soluciona e explica problemas, resolve quebra-cabeças e conta curiosidades da matemática.

O livro pretende diminuir o pânico de crianças e adolescentes em relação à matemática das salas de aula. Infelizmente, nem sempre consegue. A matéria continua a ser ensinada de modo abstrato e sem sentido. Parece uma religião para poucos, com garantia de castigo infernal para muitos.  

Muito provavelmente, a matemática tem esse ar ameaçador devido à divisão social do trabalho que impera em nossa sociedade. Uma repartição de ocupações em que a grande maioria executa tarefas sem ter a mínima ideia sobre os fins a que elas servem. Tal como a álgebra, cuja misteriosa mistura entre números e letras toma o lugar da transparente aritmética.

Além disso, sob a ditadura da circulação da mercadorias que nos governa, a quantidade é tudo. A qualidade pouco importa. Daí, a crescente precificação de tragédias sociais e problemas de saúde, por exemplo. Não importa quem são as vítimas, mas que prejuízos econômicos suas dores causaram.

Calcular é uma habilidade maravilhosa. Mas jamais deve se impor às inúmeras outras características de nossa espécie. Ao contrário, é a combinação delas todas que nos torna especiais.

Como diz o livro de Tahan: “É preciso desconfiar sete vezes do cálculo, e cem vezes do calculista.”

Leia também: A turbulenta infância da espécie humana

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Fomos colonizados por negros. No bom sentido

Em 08/10, o escritor Luiz Ruffato fez um discurso corajoso na abertura da Feira do Livro de Frankfurt. Afirmou que o Brasil nasceu sob o domínio do genocídio e que nossa “democracia racial” é resultado de estupro. Estava referindo-se, principalmente, ao racismo que atinge negros e indígenas no País.

Ajuda a entender melhor a denúncia de Ruffato assistir aos seis vídeos da entrevista que o Instituto Lula fez com o historiador Luiz Felipe de Alencastro. O tema, “As relações do Brasil e África desde a escravidão”.

Apesar do entusiasmo equivocado do professor com a entrada do governo brasileiro no continente africano, o depoimento vale por chacoalhar o senso comum. Por exemplo, o mito de que o Brasil é produto da imigração europeia.

“Até 1850, entraram no Brasil oito vezes mais africanos do que portugueses”, diz Alencastro. Por isso, o historiador afirma que fomos mais “colonizados pelos negros” que por europeus. Não no sentido da dominação, mas como influência cultural e de costumes.

Apesar disso, o evento de Frankfurt tem apenas um escritor brasileiro negro entre os 70 selecionados. É Paulo Lins, que considerou a seleção racista. Além dele, só o descendente de índios, Daniel Munduruku.

Os organizadores da lista alegam que o critério étnico não foi considerado. Isso mostra que o Brasil não é visto como um país racista. Um lugar em que os não brancos têm condições de vida muito piores e são muito mais desrespeitados. Sem falar na mortalidade bem mais elevada.

Esta invisibilidade do racismo é uma vitória da classe dominante brasileira. Ela garante que louvemos a colonização genocida e desprezemos a cultural.

Veja a entrevista de Alencastro, aqui

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Na dúvida, a certeza é defender os black blocs

“Sindicato dos professores declara oficialmente apoio aos Black Blocs”, estampou o jornal O Dia, em 09/10. A entidade tomou a decisão em assembleia realizada no mesmo dia. A decisão tem relação com o quebra-quebra ocorrido na Cinelândia em 07/10.

O manifesto aprovado pela assembleia diz: “O Estado e seus gestores (Sérgio) Cabral e (Eduardo) Paes iniciaram uma ofensiva militar contra os movimentos sociais e a nossa greve, através de choques, bombas e sprays de pimenta. Devemos nos defender e seguir nas ruas”.

Os BBs não estão isentos de críticas. Longe disso. Mas é como disse o coordenador geral do Sindicato, Alex Trentino: "nos protestos dos professores os causadores dos conflitos não foram os black blocs e sim a polícia".

Trotski dizia que os sindicatos carregam uma pesada retaguarda. Não são partidos políticos, cujos membros se alinham ideologicamente. Entre seus filiados há desde revolucionários a conservadores convictos. Mas, neste caso, a entidade dos educadores mostrou-se mais avançada que os partidos de esquerda.

Os black blocs estão sendo enquadrados na lei 12.850, publicada em agosto passado. Ela é conhecida como Lei de Organização Criminosa. Pretende punir “atos de suporte ao terrorismo, bem como os atos preparatórios ou de execução de atos terroristas”.  

O alvo dos BBs são prédios públicos e privados. Eles entendem que ambos são símbolos do poder político e econômico e por isso devem ser destruídos. A missão da polícia é defender o patrimônio publico e privado, mesmo que isso signifique usar bombas, balas, gás e tortura contra pessoas.

Qual dos dois pratica terrorismo? Qual merece nosso apoio, ainda que com divergências? Estamos em outubro, pô!

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

O PT quer uma burguesia pra chamar de sua

“Campeãs nacionais de desastres”, diz o título do artigo de Elio Gaspari, publicado na Folha de S. Paulo em 06/10. Basicamente, o colunista diz que “o sonho petista de criar um bloco de empresas financiadas pelo BNDES” tornou-se um pesadelo.

Gaspari diz que o banco estatal investiu perto de R$ 20 bilhões em “empresas companheiras”. Entre elas, as de Eike Batista e a "supertele" Oi, que já nasce com uma dívida de R$ 45,6 bilhões. Outras apostas desastradas foram as fusões da Aracruz com Votorantim e da Marfrig com JBS.

Enquanto isso, no mesmo dia, Carta Maior publicava o artigo “‘Não existem mais burguesias nacionais’, afirma Leo Panitch”. O texto de Rodrigo Mendes destaca alguns pontos da palestra do professor da Universidade de York, no Canadá, ministrada na Universidade Federal do ABC.

Como diz o título da matéria, Panitch questiona o uso do conceito "burguesia nacional". “Pelo grau de integração entre as multinacionais dos estados ricos, as burguesias agora são internacionais”, diz ele.

Panitch é marxista e segue o mestre na capacidade de ousar nas reflexões sobre a realidade. Ele nega, por exemplo, a ideia de que governantes obedeçam aos grandes capitalistas. O próprio Estado seria parte da acumulação capitalista. É por isso que afirma:

Os empresários não dizem para o PT o que fazer. Como podemos dizer que o PT segue o que a burguesia manda? Não é isso que acontece, não há uma ‘mente’ que diz o que o governo deve fazer. O Estado é dependente da acumulação capitalista.

Faz sentido. Mas o PT continua querendo uma burguesia pra chamar de sua. 

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Velhas músicas para novos protestos

Época estranha, a nossa. Não estamos sob uma ditadura política, mas certas canções da época em que os generais mandavam parecem ter se atualizado.

É o caso “Plataforma”, samba de João Bosco e Aldir Blanc, de 1977:

Não põe corda no meu bloco, / não vem com teu carro-chefe, / não dá ordem ao pessoal. / não traz lema nem divisa / que a gente não precisa / que organizem nosso carnaval. / não sou candidato a nada, / meu negócio é madrugada / mas meu coração não se conforma. / o meu peito é do contra / e por isso mete bronca / nesse samba-plataforma: / por um bloco que derrube esse coreto / (...) que sacuda e arrebente / o cordão de isolamento.

Tudo a ver com a rebeldia que está nas ruas.

Outra música que merece nova escuta é “Acorda Amor”, que Chico Buarque lançou sob o pseudônimo de Julinho de Adelaide em 1974:

Acorda amor / Eu tive um pesadelo agora / Sonhei que tinha gente lá fora / Batendo no portão, que aflição / Era a dura, numa muito escura viatura / Minha nossa santa criatura / Chame, chame, chame lá / Chame, chame o ladrão, chame o ladrão.

A letra ironizava a triste situação da época. Diante da chegada da polícia da ditadura, era mais seguro chamar o ladrão.

A música ficou no passado, mas a violência oficial que ela denunciou continua presente. Em manifestações, nas favelas e bairros pobres continua sendo preferível chamar os ladrões. Pelo menos aqueles que não estiverem ocupados governando, legislando e financiando políticos profissionais.

domingo, 6 de outubro de 2013

O SUS à venda nas eleições

Em 05/10, o jornal Valor publicou o resumo de um debate sobre os 25 anos de existência do SUS. Foram convidados o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, o superintendente do Hospital Sírio-Libanês, Bernard Couttolenc e o professor Mário César Scheffer, da Faculdade de Medicina da USP.

O texto está no site do jornal e vale a leitura. Mas merecem destaque algumas informações dadas por Scheffer:

O SUS foi pilhado desde a origem, faz milagre com o pouco que tem. Países com sistemas universais, nos quais o SUS se inspirou, reservam, em média, 7% do PIB para a saúde pública. No Brasil, são 3,6%. Estamos numa encruzilhada.

A Constituição diz que o SUS deveria ter 30% do orçamento da Seguridade Social. Se isso estivesse vigorando hoje, seriam R$ 195 bilhões. O orçamento federal do SUS está em R$ 84 bilhões.

Depois de dizer que 70% da rede hospitalar é privada e denunciar a presença das Organizações Sociais nos postos de saúde e hospitais públicos, Scheffer concluiu:

Há dois projetos claros em disputa: um é o projeto do movimento sanitário, o original, que significaria mais recursos públicos para o SUS e regulação do setor privado; o outro é o crescimento artificial dos planos de saúde, com planos baratos no preço e medíocres na cobertura.

A qual desses dois projetos servem os atuais governantes? Basta verificar as doações eleitorais de 2010. Os planos de saúde investiram R$ 12 milhões. 28% desses recursos direcionados ao PMDB, 18% ao PSDB e 14% ao PT. Dilma, recebeu R$ 1 milhão e Serra, metade disso.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O apocalipse das mulheres fodidas

Valter Hugo Mãe escreveu um livro sobre o apocalipse dos trabalhadores. Na verdade, sobre trabalhadoras a dias, que é como se chamam às diaristas em Portugal. Mulheres à míngua, que é como são as trabalhadoras em geral.

Representam o que há de mais explorado e humilhado entre os que vivem das forças dos próprios braços. E fazem de suas grossas pernas e largas ancas a vassoura e o esfregão. E limpam o chão com as próprias roupas, anáguas, joelhos, dobradiças de dor.

Mulheres cujos maridos violam como se lhes fizessem favor. E que cedem a um sexo com o patrão, tão consentido quanto rendido. Que já não sabem a diferença entre encerar o assoalho e deitar-se nele para um coito sem brilho. Que nunca fizeram amor. Jamais farão amor.

Nem mesmo o apocalipse chega para essas mulheres fodidas, por que à portada do céu, São Pedro rabugento lhes barra a entrada. Ficam à solta na praça fedida e cheia de camelôs que beira o paraíso. São muitas e chegam cada vez mais. E as portas não se abrem.

A multidão feminina acumula-se e muitas vêm de um lugar onde, a cada hora e meia, uma cai morta. E é terra cheia de filhos bastardos, enjeitados, escuros e aflitos. Membros da família amaldiçoada, escrava de um pequeno clã sagrado.

São fodidas essas mulheres e nem o Juízo Final está disponível para elas.

Leia também: Trabalho doméstico e preconceitos de mercado

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Sarney e Lula: pela governabilidade, contra a Constituição

Em 01/10, a imprensa destacou uma frase de Lula: “Constituição 'petista' tornaria o país ingovernável”. A afirmação foi feita durante evento da Ordem dos Advogados do Brasil em comemoração pelos 25 anos da Carta. Em 14/09/2008, Sarney disse o mesmo para a Agência Senado.

Que Lula e Sarney digam a mesma coisa já não surpreende. O primeiro fez oposição cerrada ao segundo durante seu governo. Mas este fez parte da base de apoio do governo daquele. O acordo quanto ao que seja governabilidade mostra que também agem de modo parecido.

Mal foi publicada, a Constituição começou a ser desmontada. E o PMDB de Sarney foi fundamental para isso. Em troca de muitos cargos, ajudou os governos Collor, Itamar e FHC a emendar o texto constitucional para arrancar dele muitas conquistas populares.

Na OAB, Lula disse que os governos petistas aplicaram a Constituição. Não é verdade. O PT no Executivo não fez uso apenas de emendas. Com aliados como Sarney, criou leis e mecanismos burocráticos para transferir verbas dos fundos públicos para os setores privados.

É o que vem acontecendo com o crescente financiamento público dos planos de saúde privados. Com o Prouni nas universidades particulares e o Fundeb financiando creches e pré-escolas privadas. Sem falar na Previdência, transformada em grande negócio para bancos e seguradores privadas.

A vocação dos serviços públicos da Constituição era a universalidade pública. A realidade deles, hoje, é a focalização a serviço do mercado. O elogiado Bolsa-Família petista é programa localizado, agigantado pela miséria que gente como Sarney ajuda a criar há séculos.

Parabéns, Lula e Sarney. Nossos pêsames pela “Constituição Cidadã”.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A Constituição, quem diria, tornou-se o programa da esquerda

“Queimar com carvão, a Constituição”, gritava o MST quando ela foi aprovada, há 25 anos. A bancada do PT votou contra o texto final, apesar de acabar por assiná-lo. Tinham toda razão.

A constituição que Ulysses Guimarães chamou de cidadã, nasceu contra muitos dos interesses dos movimentos populares. A Reforma Agrária ficou do jeito que a bancada dos latifundiários queria. A tutela estatal sobre os sindicatos foi apenas suavizada. A estrutura militar de repressão está aí, nas ruas, fazendo miséria.

O monopólio da grande mídia permaneceu intocado. Mecanismos de democracia direta são decorativos. Um milhão e meio de assinaturas para apresentar um projeto de lei sem passar por um parlamentar dizem tudo.

Alguns pontos positivos ficaram no papel. O salário mínimo digno e a taxação sobre as grandes fortunas, por exemplo. O avanço mais significativo foi a regulamentação legal do SUS. Talvez, a mais avançada do mundo.

Mas o que já não era bom, foi ficando pior. Vieram os anos 1990 e a ofensiva neoliberal. De lá para cá, foram mais de 70 emendas constitucionais. A grande maioria cassando direitos e conquistas. A mais famosa é a da Reforma da Previdência, que prejudicou dezenas de milhões de trabalhadores, incluindo servidores públicos.

Desde então, grande parte da esquerda passou a defender a Constituição como se fosse obra sua. Uma situação imposta pelas pesadas derrotas sofridas nas últimas décadas. Entre estas, lamentavelmente, algumas propostas por integrantes daquela bancada petista que denunciou o conservadorismo do texto constitucional. Chegando ao governo, aderiram ao reformismo neoliberal. Mas isto é assunto para outra dose.

Leia também:
Era Lula: primeiro ataque aos trabalhadores

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A turbulenta infância da espécie humana

“Nada deve parecer impossível de mudar”, diz o poema de Bertold Brecht. O mesmo que afirma: “nada deve parecer natural”. É que uma coisa é consequência da outra.

Não é natural que haja pobres e ricos, por exemplo. Para que os primeiros existam, é preciso haver os segundos. E, quase sempre, os segundos devem sua condição à exploração dos primeiros. Mas as sociedades baseadas na exploração humana só existem há uns 10 mil anos. Sobram uns 90 mil anos de vida social sem exploração.

Mesmo hoje em dia, muitas sociedades tribais não sabem o que significa ser pobre porque não existem ricos entre eles. Também não são naturais conceitos aparentemente eternos e imutáveis como “família” e “infância”. O primeiro já nomeou formações muito diferentes ao longo da história. O segundo, tal como entendido hoje, é uma criação do século 19.

As ciências humanas nos oferecem muitas ferramentas para combater toda essa naturalização. Talvez, por isso sejam tão desprezadas. Ou só recebam apoio quando se dobram às necessidades do mercado e do poder. Quando procuram provar que a competição está em nosso DNA, a agressividade faz parte de nossa essência, o egoísmo nos define como espécie.

Naturalizar relações sociais só interessa a quem ocupa lugares de dominação nelas. Somos diferentes dos outros animais porque transformamos o meio em que vivemos, incluindo a nós mesmos. O problema é que até agora só o fizemos aos trancos e barrancos e em benefício da minoria que manda.

Precisamos parar de nos comportar como uma grande família dominada por alguns poucos patriarcas. Deixar para trás nossa turbulenta e sofrida infância.