segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A família Marx festeja o Natal

A família Marx também era chegada a uma festinha de Natal. É o que Mary Gabriel revela em “Amor e Capital”.

Questionado pelos filhos sobre as origens do Natal, Marx dava sua versão. Tratava-se do nascimento de um pobre carpinteiro que seria assassinado pelos ricos na idade adulta.

Mas não eram as convicções materialistas dos Marx que os impedia de participar do clima festivo. Era a costumeira penúria, mesmo. É verdade que já se tratava de uma festa tomada pela lógica da mercadoria. Mas Jenny e Karl sabiam reconhecer e respeitar o apelo natalino sobre suas crianças.

Em 1849, chegando a Londres, os Marx se depararam com as vitrines cheias de brinquedos, tecidos e joias. E os empórios exibiam muitas delícias e guloseimas.

Mas somente em 1853, a família teve condições financeiras para comemorar o Natal. Contando com a ajuda de amigos, a decoração teve até árvore. Entre os presentes distribuídos às crianças, bonecas, um tambor, panelinhas e armas de brinquedo.   

Para os adultos, muito bebida e comida. Um vinho trazido por Engels só foi revelar sua péssima qualidade no dia seguinte. A ressaca atingiu até as crianças.

De fato, Marx dizia tolerar o Natal porque “nos ensinou a cultuar uma criança”. E ele realmente as adorava. Queria-as sempre por perto e não aceitava separá-las dos adultos. Não porque elas tivessem o que aprender com eles, dizia, mas exatamente o contrário.

A figura do Papai Noel só se tornaria conhecida muito tempo depois. Se vivesse no século 20, é possível que Marx aceitasse, pelo menos, usar a toca vermelha do velhinho para agradar seus filhos.
 Felizes festejos e até 2014!

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Engels, o anjo torto de Marx

“Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida”. Os versos de Drummond serviriam para “Carlos” Marx. Seu anjo torto foi Engels, sobrenome que lembra “anjo” em alemão.

Grande personagem do livro “Amor e Capital”, de Mary Gabriel, Engels administrou as empresas de sua família por muitos anos. Odiava o papel de patrão, mas tinha um ótimo motivo. Garantir a Marx os meios materiais para atuar politicamente e elaborar sua teoria.

Ao lado de Jenny, foi grande responsável pela existência de “O Capital”. Sem o apoio dos dois, Marx jamais teria conseguido concluir grande parte de sua maior obra.

Mortos Jenny e Marx, Engels assumiu os cuidados com suas filhas, sempre em apuros com seus maridos irresponsáveis. Sem filhos, deixou a maior parte de sua fortuna para elas e para os netos de Marx.

Mas nem tudo se resumia a dificuldades. Marx e seu anjo escreveram obras geniais juntos, bebiam aos montes, compravam brigas homéricas.

Engels também era torto no sentido boêmio da palavra. Muito bom de copo e, na juventude, grande conquistador de corações.

O anjo gostava de usar a espada. Adorava lutar nas barricadas. Por isso, as meninas Marx o apelidaram de General.

Foi feliz em duas longas uniões amorosas. Em ambas, com operárias analfabetas, comprometidas com a luta socialista.

Engels era um teórico brilhante. Sua obra, tão importante quanto a de seu protegido.

A seu enterro compareceram novos anjos tortos, que ele ajudou a formar. Uma legião que se tornaria o pesadelo dos poderosos nas décadas seguintes. Entre eles, Vladimir Lênin.

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A luz de Jenny à sombra de Marx

Em “A Sagrada Família”, Marx disse que o progresso da mulher e de sua liberdade mostraria o grau em que “a natureza humana” é capaz de triunfar sobre a bestialidade. Se Jenny Marx já vivesse em uma sociedade capaz desse tipo de avanço, certamente não estaria reduzida ao papel de esposa do genial revolucionário alemão.

De grande capacidade intelectual, Jenny não apenas transcrevia os ilegíveis garranchos de Marx, como ajudava a corrigir possíveis erros teóricos. Quando possível, cuidava da correspondência com militantes da Internacional Socialista. Só não fez mais pela teoria revolucionária porque as terríveis restrições econômicas a empurraram para os afazeres domésticos.

Recaiu principalmente sobre ela os muitos sacrifícios que implicavam ser a esposa de um teórico tão genial quanto genioso. Tão inteligente como incapaz de garantir o próprio sustento. Mas Jenny não se sacrificou apenas por amor ao companheiro. Ela também era apaixonada pela causa socialista. E sabia que a obra do marido seria fundamental para a luta por igualdade e justiça social.

Nada desculpa os muitos sofrimentos que Marx impôs a Jenny. Incluindo um filho com a empregada, cuja paternidade foi assumida por Engels. Mas ela jamais o abandonou porque o amor jamais os deixou. Entre si, pelas filhas e pela revolução. Quando ela morreu, Engels previu que Marx logo sucumbiria. De fato, quinze meses depois, ele morreria solitário e triste.

O livro “Amor e Capital”, de Mary Gabriel, faz um pouco de justiça a esta grande mulher. Apesar de viver sob a imponente sombra de seu companheiro, Jenny tinha tanta luz própria quanto gigantes como Rosa Luxemburgo e Clara Zetkin.

Leia também: Marx e seus genros imprestáveis

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Marx e seus genros imprestáveis

Certa vez, Karl Marx escreveu:

Eu não acho que alguém que já tenha escrito sobre dinheiro tenha sofrido tanto com a falta dele. A maioria dos que escreveram sobre o assunto mantiveram relações melhores com o objeto de suas investigações.

De fato, entre 1850 e 1860, Marx e sua família só deixaram de comer o pão que o diabo amassou quando até este lhes faltou. A pobreza era tanta que quatro dos sete filhos que Jenny Marx gerou morreram ainda pequenos. Apenas três meninas sobreviveram.

A situação só não era pior graças à proteção infalível de Friedrich Engels. O parceiro que acompanhou Marx por toda a vida nas lutas e na elaboração teórica podia ajudar. Afinal, administrava as lucrativas empresas de sua família.

Em uma de suas inúmeras cartas pedindo dinheiro a Engels, Marx admite que suas despesas poderiam ser menores, caso sua família levasse uma vida mais “proletária”. Mas isso impediria que suas filhas pudessem se casar com “bons partidos”.

O maior medo de Marx era ver suas filhas casadas com alguém como ele. Cheio de fervor revolucionário, inteligência e coragem, mas incapaz de sustentar a própria família. Foi em vão. As três acabaram se envolvendo com militantes revolucionários.

Nenhum deles chegava aos pés do brilhantismo de Marx. Todos tinham idêntica incompetência para ganhar dinheiro. E igualmente fizeram suas esposas sofrerem, para desgosto de um pai que adorava as filhas.

Tudo isso está no livro “Amor e Capital - a Saga Familiar de Karl Marx”, de Mary Gabriel, recentemente lançado no Brasil. Voltaremos a falar dele, das muitas aflições e poucas alegrias da família Marx.

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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Os “black blocs” suburbanos e o racismo sem máscara

Uma das restrições determinadas pelo Estado de Sítio é o direito a reuniões. Basta juntar mais de três para ser alvo da repressão estatal.

Em 02/12, Douglas Belchior publicou em seu blog “Shopping Vitória: corpos negros no lugar errado”. O relato é sobre a repentina presença de muitos jovens negros em um centro comercial da capital potiguar.

Eles vinham de uma festa funk que havia sido interrompida pela polícia. Para fugir à violência fardada, vários acabaram entrando no shopping. Foi o bastante para que consumidores e lojistas chamassem a polícia alegando a ocorrência de um “arrastão”.

Os “intrusos” foram obrigados a tirar as camisas e sair do local de mãos na cabeça e em fila indiana. Tudo isso sob forte escolta policial. E debaixo do aplauso dos frequentadores do shopping.

Em 20/11, Dia da Consciência Negra, um suposto arrastão criminoso foi reprimido por um violento arrastão policial numa praia da zona sul carioca. Logo depois, ficou decidido que ônibus vindos de bairros pobres seriam revistados.

A medida foi comentada pela antropóloga Julia O’Donnel na edição do Globo de 01/12. Segundo ela, a revista de ônibus “caberia perfeitamente nos jornais que pesquisei em 1922”.

Não estamos sob Estado de Sítio. Nem em 1922. Mas nada disso conta para quem tem a pele escura. Ajuntamentos de negros distantes de seus precários locais de moradia continuam a ser considerados perigosos.

Eles não precisam protestar, quebrar vitrines ou esconder os rostos para serem tratados com tanta ou mais violência que os black blocs. E, nesses momentos, o racismo estatal e a discriminação social também deixam de usar suas máscaras.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A casa das estrelas e as fábricas de zumbis

"Ainda pequeno tive que interromper minha educação para ir à escola", disse George Bernard Shaw (1856-1950). O famoso dramaturgo irlandês é autor de várias frases espirituosas como esta. Mas talvez jamais as produzisse se dependesse da “pedagogia” do século 21.

É que “zumbis” não costumam ser muito criativos. E é este tipo de aluno que os “modernos” meios didáticos estão gerando. O mais novo ingrediente dessa produção é a ritalina. Trata-se de substância receitada por médicos para tornar cérebros infantis e adolescentes mais concentrados nos estudos.

É o que revela o artigo “Ritalina, a droga legal que ameaça o futuro”, de Roberto Amado, publicado no blog Diário do Centro do Mundo, em 25/11. Segundo o texto, “com efeito comparável ao da cocaína, a droga é receitada a crianças questionadoras e livres”. Sob seu efeito, a criança “para de viajar, de questionar...”.

Mas a droga é só mais um produto da ditadura da competição capitalista. A mesma que transforma escolas em fábricas de “robozinhos sem emoções”.

A frase de Shaw está na introdução do livro "Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças", de Javier Naranjo. Recém-lançada no Brasil, a obra colombiana contém definições de crianças pequenas para várias palavras. O nome do livro, por exemplo, surgiu da definição de um garoto para a palavra Universo.

O livro mostra elaborações criativas, que ganham sentidos poéticos e adivinham o sentido profundo de certos conceitos. É o caso da definição de Igreja: “Onde as pessoas vão perdoar Deus”. Ou de Solidão: “Uma novela de televisão”. Ou ainda de Professor: “É uma pessoa que não se cansa de copiar”.