segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Ajuste neoliberal às custas da Seguridade Social

Em 19/02, Gabriel Brito e Valéria Nader publicaram uma ótima e esclarecedora entrevista com Denise Gentil no Correio da Cidadania. A economista e pesquisadora acabou de concluir sua tese de doutorado sobre o que considera “o falso déficit da Previdência”.

O depoimento reforça a necessidade de lutar contra mais um ataque à Previdência Social. Um exemplo, a pesquisadora afirma que, computadas todas as suas receitas, “a Seguridade Social teve superávit de R$68 bilhões em 2013, R$ 36 bilhões em 2014 e R$16 bilhões em 2015”.

Mas poderiam ser números ainda maiores não fosse uma nociva política adotada pelo governo Dilma. Trata-se das “desonerações tributárias” destinadas à “recuperação da indústria” e do emprego. Por este instrumento, o governo abriu mão de R$ 253 bilhões em impostos, em 2014, dos quais R$ 136 bilhões pertenciam à Seguridade Social.

Mas 2015 foi pior:

...a desoneração total chegou a R$282 bilhões e representou um valor maior do que a soma de tudo o que foi gasto, em 2014, em Saúde (R$93 bilhões), Educação (R$93,9 bilhões), Assistência Social (R$71 bilhões), Transporte (R$13,8 bilhões) e Ciência e Tecnologia (R$6,1 bilhões) pelo governo federal.

Do total do valor das renúncias de receitas tributárias, 55% pertenciam à Seguridade Social, diz a entrevistada.

Apesar de toda essa farra fiscal, os resultados em relação ao crescimento do emprego foram tímidos e tiveram fôlego curto. As filas de desempregados crescem enquanto as verbas de proteção social encurtam graças à transferência indireta de verbas públicas dos setores sociais para o grande empresariado.

Mais uma evidência de que o ajuste neoliberal está em plena execução.


Leia também: Parlamentares e governo trabalhando!

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Parlamentares e governo trabalhando!

Completamente injusta a fama de vagabundos atribuída aos parlamentares federais, assim como as acusações de paralisia em relação ao governo igualmente federal.

Afinal, a Câmara de Deputados foi bastante ágil ao aprovar, em 24/02, o projeto que cria o crime de terrorismo no Brasil. Mas, talvez, mais apressados ainda são aqueles que alegam que a nova legislação não implicará mais repressão aos movimentos sociais.

Se isso fosse verdade, por que aprovar uma lei para punir crimes que já são previstos na legislação comum, como dano, incêndio, explosão, associação criminosa, lesão corporal, assassinato, entre outros?

Importante reconhecer também a rapidez com que foi aprovada a proposta do senador José Serra (PSDB-SP), que permite às petrolíferas estrangeiras explorar o pré-sal sem fazer parceria com a Petrobras. As grandes petroleiras multinacionais agradecem o empenho.

Quanto à pretensa inação do governo Dilma, calma lá. Há que se lembrar não só a iniciativa de enviar a tal lei antiterrorista ao Congresso Nacional. É preciso reconhecer igualmente que o tão almejado ajuste fiscal já vem fazendo efeito.

Basta observarmos o anúncio de que o setor público teve o melhor superávit primário para o mês de janeiro em 3 anos. Foram R$ 27,9 bilhões economizados para pagar os juros da dívida pública e encher os bolsos dos especuladores.

Além disso, as providências para deter a “escalada inflacionária” já dão resultados. O desemprego, por exemplo, chegou a 7,6% nas grandes metrópoles, em janeiro. Resultado semelhante ao do mesmo mês em 2009, auge da crise econômica mundial, e bem acima dos 5,3% de janeiro de 2015. Menos emprego, menos consumo, menos inflação, ora pois!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

O azul e o rubro

A cor azul ficou muito tempo desconhecida dos povos antigos. É o que descobriu o linguista Guy Deutscher, ao notar sua ausência em textos sagrados gregos, hindus, islandeses, judaicos ou islâmicos, apesar da descrição do céu ser muito frequente neles.

Deutscher explica que trata-se de uma cor rara na natureza. Além disso, jamais foi prioridade “dar um nome para a cor do céu. Não se trata de um objeto”. O mesmo serviria para o mar.

A necessidade de nomear o azul teria surgido com sociedades tecnologicamente mais avançadas. A maior capacidade de manipular as cores levou a uma terminologia mais refinada.

A questão parece simplória, mas não é. Afinal, se até as cores têm história, o que dizer das relações humanas? Não é verdade, por exemplo, que fenômenos como família, infância, sexualidade, casamento sempre existiram tal como existem hoje.

De fato, as próprias ciências exatas e naturais andam se complicando. A física quântica diz que é impossível realizar previsões com a antiga certeza matemática. A biologia já nem sabe dizer o que é um gene.

Por que, então, alguns cientistas, sacerdotes, ideólogos, líderes afirmam que nossa vida social foi, é e sempre será a mesma? Que, por exemplo, sempre houve e haverá ricos e pobres?

Só há pobres ou ricos onde a minoria explora a maioria. E se esta tem sido a regra desde o surgimento de civilizações como a egípcia e a grega, ela corresponde a uma etapa que representa apenas uns 10% da história humana.

Portanto, mudar é possível e necessário. Por isso, digamos como Brecht: “dos meses, outubro. Das cores, o rubro”.

Fonte: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/02/160221_civilizacoes_antigas_cor_azul_rb

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O voto das mulheres e sua jornada de trabalho

Em 24/02, comemoraram-se os 84 anos da conquista do voto feminino no Brasil.

Mas oito décadas depois, a participação feminina na política continua limitada. Elas não chegam a ser 10% dos deputados federais, por exemplo. E é em lugares como este que são debatidas propostas como a que recentemente foi feita no sentido de equiparar a idade para a aposentadoria entre mulheres e homens.

O problema é que há muito tempo se sabe que as mulheres trabalham bem mais que os homens. E um recente estudo publicado pelo IBGE voltou a confirmar isso, apontando uma jornada de 5 horas a mais para elas.

Segundo o levantamento, são 51,3 horas por semana de trabalho para os homens, incluindo ocupação principal e tarefas da casa. Já as mulheres, cumprem as mesmas tarefas durante 56,3 horas semanais.

O fato é que uma coisa tem tudo a ver com a outra. Na sociedade em que vivemos não é o voto que determina quem manda na vida política do país. São outros fatores muito mais poderosos. E, entre eles, está a divisão social do trabalho.

Faz muita política quem tem tempo. São os representantes dos interesses de empresários, banqueiros, latifundiários. Faz pouca ou nenhuma quem trabalha duro 9h ou 10h por dia. Ou muito mais, como as mulheres.

Por outro lado, há um tipo de política que pode ser radicalmente decisiva em certos momentos. É a da mobilização e a resistência dos explorados e oprimidos. É a organização em associações, sindicatos, partidos. Não à toa, as mulheres são maioria em muitas das lutas populares.

Ajudaria muito se não as atrapalhássemos tanto.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A perigosa loteria dos transgênicos

A publicação “Lavouras Transgênicas: riscos e incertezas” foi lançada recentemente pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Organizada por Gilles Ferment, Leonardo Melgarejo, Gabriel Bianconi Fernandes e José Maria Ferraz, ela traz referências a cerca de 750 artigos publicados entre 1980 e 2015 sobre transgênicos.

Segundo os autores, são contribuições mantidas “na invisibilidade porque seus achados contrariam as abundantes campanhas de marketing” a favor dos organismos geneticamente modificados.

O estudo começa abordando toda a complexidade envolvendo a principal matéria-prima das manipulações transgênicas. A simples transcrição da informação do DNA contido no núcleo de uma única célula humana “exigiria a publicação de 10 livros, em formato A4, com 1.000 páginas cada”.

A encrenca é tamanha que os cientistas atualmente não têm certeza sobre o que exatamente seja um gene e qual seu verdadeiro papel. Um exemplo: o ser humano possui aproximadamente 22 mil genes. Mas isso representa menos da metade dos cerca de 50 mil genes do arroz.

São informações que desfazem o mito de que o conhecimento do genoma equivale a dispor de um mapa capaz de organizar a criação da vida. Na verdade, diz o levantamento, o nível de certeza em manipulações genéticas “se revela substancialmente inferior ao das loterias”.

Daí, o clima de insegurança quanto aos efeitos patológicos da engenharia transgênica. Ingerir plantas banhadas em agrotóxico ou saturadas de toxinas não é nada tranquilizador.

Mas é possível deduzir uma grande certeza da leitura da publicação. Na loteria dos transgênicos perdem a saúde e a economia populares. O grande prêmio fica com a meia dúzia de grandes empresas que controlam o mercado de alimentos.

Acesse a publicação aqui.

Leia também: O mosquito e as epidemias que dão lucro

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Previdência Social e luta de classes

A Previdência Social volta a ser alvo de privatizadores e mercenários do mercado. O velho pretexto é um déficit em seu orçamento que não existe.

É o que afirma, por exemplo, Eduardo Fagnani, em artigo publicado na Plataforma Política Social - Caminhos para o Desenvolvimento, em 21/02. Professor do Instituto de Economia da Unicamp, ele cita números de 2012 que exibem saldo positivo de R$ 78,1 bilhões na Previdência.

A questão é que o governo coloca na conta da Previdência despesas que não são dela, como a seguridade dos servidores públicos, que deveria ser custeada pelo Tesouro Nacional.

Mas há outras distorções graves. É o caso do pornográfico gasto público com juros.

Segundo o economista Amir Khair, em entrevista à Carta Capital em 22/02, entre 2014 e 2015 as despesas com os benefícios previdenciários tiveram um aumento de R$ 6 bilhões. Enquanto isso, o gasto com juros cresceu R$ 130 bilhões. Sendo que as primeiras beneficiam trabalhadores e o segundo, especuladores.

O que realmente está em jogo é o controle de uma montanha de dinheiro e do maior programa social do País. O mais recente Boletim Estatístico da Previdência Social indica quase 33 milhões de pessoas sob cobertura previdenciária. Já o Bolsa Família, atende a 13 milhões de inscritos, equivalente a 40% do total do INSS.

Como disse André Singer em sua coluna na Folha, em 20/02, “a seguridade social está no centro da luta de classes contemporânea”. Não à toa, propostas de privatizá-la e de restringir seus direitos partem sempre dos exploradores. Vergonhosamente, muitas vezes, conseguem o apoio de quem se diz representantes dos explorados.

Leia também: As sujeiras da luta de classes

Para bom entendedor, meia palavra bas...

As mortes secretas do governo tucano

O governo Alckmin anda comemorando forte queda na taxa de homicídios em São Paulo. As ocorrências desse tipo teriam caído para 10 por 100 mil habitantes, considerado aceitável pelos padrões internacionais.

O problema é que a Secretaria da Segurança Pública proibiu acesso aos dados detalhados sobre homicídios dolosos registrados na capital paulista. Tal como já fizera em relação aos números da companhia paulista de trens e metrô.

O órgão alega que o fornecimento das informações “poderia dar ensejo à identificação de vítimas e testemunhas". Como se a polícia já não expusesse nomes e rostos de suspeitos ou acusados diariamente na grande mídia. Todas pretas e pobres, claro.

A Secretaria também fala em “segurança nacional”.

Depois muita pressão o governo voltou atrás. Mas vem aí a legislação antiterrorista. Se aprovada, a segurança nacional pode voltar a ser invocada para justificar a matança de pobres sem dar qualquer satisfação à sociedade.

Os porcos de volta a Cuba

Em 1961, tropas financiadas pelos americanos tentaram invadir a Baía dos Porcos, em Cuba. O objetivo era derrotar a revolução liderada por Fidel Castro. O exército mais poderoso do mundo foi vergonhosamente derrotado.

Os tempos mudaram. Pela primeira vez em meio século, o governo estadunidense autorizou a construção de uma empresa americana em território cubano. Trata-se de uma fábrica de tratores.

Um detalhe: a unidade cubana vai executar apenas a montagem final. A produção continuará sendo feita em solo americano. Outro detalhe: a previsão inicial é gerar empregos para 30 cubanos.

Pois é, os porcos voltaram. Desta vez, com grandes chances de vitória.

Leia também:  Para bom entendedor, meia palavra bas...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Vadiagem, mesmo, é com a burguesia

A edição no 10 da revista “Mouro” do Núcleo de Estudos do Capital traz artigos muito interessantes. Entre eles, o de Lincoln Secco sobre a Revolução de 1932, que traz a seguinte pérola:

O cidadão coronel Manuel Rabello, Interventor Federal no Estado de São Paulo, fez expedir o seguinte aviso:

São Paulo, 26 de novembro de 1931.

(...)

Considerando que se não deve desconhecer o alcance social e moral da mendicidade, quando ela é dignamente exercida;

Considerando que qualquer cidadão pode estender a mão à piedade, implorando a generosidade dos irmãos;

Considerando que quem pede, em público, geralmente demonstra superioridade de sentimento, por ter de comprimir o orgulho e a vaidade;

Considerando que a esmola beneficia tanto o coração de quem a pede como o de quem dá;

Considerando que a recusa ao trabalho não é um vício peculiar às classes pobres;

Considerando que a contemplação da sociedade demonstra que o maior número de vadios é formado pela burguesia;

Considerando que os mendigos, vivendo da bondade alheia, são moral e socialmente úteis, enquanto são nocivos os ricos ociosos, que vivem em pleno desregramento moral sem nada produzirem;

(...)

Determino que ninguém, sob o simples pretexto de exercer a mendicidade, sofra qualquer constrangimento em sua liberdade; que, quando, por motivo insofismável de ordem, algum mendigo dever ser afastado do ponto onde se ache, a autoridade competente o faça com todo o cavalheirismo, ainda mais em se tratando de uma senhora, e, finalmente, que só se procure dar asilo aos mendigos que livremente o solicitarem...

Considerando nossos atuais gestores públicos, dá uma vergonha alheia danada!

O mosquito e as epidemias que dão lucro

Novas confusões envolvendo o zika. É que circularam nas redes e grande imprensa informações relacionando o larvicida piriproxifeno ao surto de microcefalia, tomando como base uma nota da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

A entidade, porém, divulgou nota negando que tenha ligado o uso de “pesticidas, larvicidas ou outro produto químico” ao número de casos de microcefalia no Brasil.

Apesar disso, a Abrasco apoia a suspensão do uso do larvicida, pois condena “o uso de produtos químicos numa escala que desconsidera as vulnerabilidades biológicas e socioambientais de pessoas e comunidades”. Algo que só interessaria aos produtores e comerciantes “desses venenos”, afirma a organização.

Mas como confusão pouca é bobagem, também estão sendo levantadas suspeitas em relação à criação de “Aedes Aegypti” transgênicos. O inseto foi criado pela empresa britânica Oxitec e teria como função cruzar com mosquitos normais gerando descendentes estéreis, interrompendo seu ciclo reprodutivo.

Em 2015, um relatório da organização GeneWatch colocou sérias dúvidas sobre a capacidade do novo mosquito de erradicar o “Aedes Aegypti”. Além disso, sua utilização poderia favorecer o avanço de formas mais agressivas de dengue, como a hemorrágica. Por fim, a diminuição da população do tipo Aegypti do Aedes pode favorecer a expansão tipo Albopictus, que é mais difícil de erradicar.

Por outro lado, não falta à Oxitec competência para ganhar dinheiro. A superintendência de Vigilância e Proteção da Saúde da Bahia, por exemplo, afirmou que a “aplicação-teste” do inseto transgênico em apenas dois bairros do município de Jacobina custou ao governo baiano R$ 1,2 milhão.

Enfim, continuamos a ser ameaçados pela mesma praga: o lucro.

Leia também:
O zika e a indústria de venenos
A transgenia pode ser uma espécie de criacionismo

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

As sujeiras da luta de classes

Pedro Ferreira de Souza é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Em 03/02, publicou na Folha artigo sobre a desigualdade social brasileira. Ele utilizou informações do imposto de renda para medir a concentração da riqueza nacional desde 1920.

Souza concluiu que durante boa parte desse tempo, incluindo as últimas décadas, a desigualdade social sempre foi muito alta. Ainda que, segundo ele, tenha havido “idas e vindas abruptas”.

É o caso dos aumentos expressivos da desigualdade verificados nos primeiros anos das ditaduras do Estado Novo e de 1964. Ou das quedas ocorridas nos anos 1950, no governo Juscelino, e entre o final da década de 1980 e a segunda metade dos anos 1990.

É provável que um fator explicativo importante para essas variações seja a dinâmica da luta de classes.

As ditaduras buscaram aumentar a desigualdade social reprimindo violentamente os trabalhadores organizados. Já os anos JK e o final da década de 1980 sucederam períodos de grandes greves e mobilizações de trabalhadores.

O Estado Novo e a ditadura militar surgiram como reação violenta e conservadora à mobilização dos trabalhadores. O Plano Real reagiu às lutas do período pós-ditadura, trocando estabilização monetária por retirada de direitos, privatizações e muito desemprego.

As políticas sociais petistas aproveitaram a crise do Real para aumentar a distribuição de renda sem mexer na riqueza. Agora, uma e outra devem receber novo impulso concentrador com a crise do lulismo.

O trágico é que essa ofensiva parta de um governo que, eleito na condição de aliado dos explorados, passou a comportar-se como seu capataz. É o lado mais sujo da luta de classes.

Leia também: O mordomo do triplex

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A economia em movimento paralisante

O medo de novos surtos da crise que começou em 2008 não sai dos jornais. O artigo “O que está paralisando a economia mundial”, publicado no Globo em 15/02, é um exemplo.

Escrito por Joseph Stiglitz e Hamid Rashid, o texto faz um bom resumo da confusão econômica em que o mundo se meteu desde 2008. Basicamente, os autores afirmam que a dinheirama que vários governos colocaram à disposição dos bancos logo após a crise continua a alimentar a especulação que afundou a economia mundial.

É o caso dos Estados Unidos, onde as reservas do Banco Central passaram de uma média de 200 bilhões de dólares no período de 2000 a 2008 para 1,6 trilhões entre 2009 e 2015. É que as “instituições financeiras preferiram manter seu dinheiro lá a “emprestá-lo para a economia real”. Com isso, lucraram perto de 30 bilhões de dólares no período, “completamente livres de riscos”, diz o artigo.

Os autores lembram ainda que “quando Banco Mundial ou o Fundo Monetário Internacional emprestam dinheiro barato aos países em desenvolvimento, impõem condições sobre o que pode ser feito com os recursos”.

O Banco Central americano deveria ter feito o mesmo com os bancos que ajudou a salvar, defendem Stiglitz e Rashid. Deveria tê-los obrigado a emprestar para atividades produtivas.

A proposta chega a ser ingênua, não só porque quem governa foi eleito graças ao poder econômico, mas também porque quem realmente manda na economia são os bancos centrais, cujos membros jamais receberam um único voto.

Portanto, o que paralisa a economia mundial é exatamente a ação dos encarregados de a colocar em movimento.

Leia também: Carnaval e loucura econômica

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O zika e a indústria de venenos

Ao contrário de “zika”, “piriproxifeno” é uma palavra difícil de escrever e quase impossível de pronunciar. Seria por isso que grande imprensa e autoridades a vêm ignorando, mesmo que possa estar relacionada ao recente surto de microcefalia no País?

Provavelmente, não.

Piriproxifeno é o nome de um larvicida usado no Brasil desde 2014 para impedir o desenvolvimento da larva do “Edes Egípcio” em água potável.

O problema é que a associação médica argentina “Physicians in the Crop-Sprayed Towns” e a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) suspeitam seriamente de que o “piri alguma coisa” tenha papel importante na cadeia de causalidade da microcefalia.

Afinal, o zika foi descoberto há 70 anos e até meses atrás jamais foi relacionado à má formação de fetos.

A própria imprensa vem sendo obrigada a revelar certas informações inconvenientes.

O The New York Times, por exemplo, informou, em 03/02, que o Ministério da Saúde brasileiro constatou que dos 404 casos de microcefalia, somente 17 podem ser claramente relacionados ao vírus do zika.

Em 13/02, o virologista israelense Leslie Lobel disse à Folha que “pode haver uma toxina no ambiente causando a microcefalia concomitantemente com um surto do zika”.

Mas em meio a tantas dúvidas uma coisa é certa. O piriproxifeno é fabricado pela Monsanto, uma das gigantes do agronegócio, grande financiadora eleitoral e importante anunciante da mídia empresarial.

Além disso, transformar o mosquito em alvo exclusivo ajuda muito nas vendas da indústria de pesticidas, mesmo que muitos deles sejam comprovadamente cancerígenos.

Quer uma palavra fácil para ajudar a entender o que está acontecendo? Lucro!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Carnaval e loucura econômica

Enquanto pulávamos o carnaval, a economia mundial ficou de pernas para o ar. Bolsas despencando, fugas de capitais, bancos com números ruins, desconfianças sobre a economia chinesa.

Uma das consequências dessa situação foi a queda dos juros em economias importantes do planeta. Os Bancos Centrais já colocaram US$ 6 trilhões em títulos com rentabilidade negativa. Ou seja, o investidor compra papéis da dívida pública de países como Japão, Suécia, Suíça e Dinamarca sabendo que vai ter prejuízo.

A medida pretende afastar os investidores da especulação financeira e estimular a aplicação de seus recursos em negócios que aqueçam a economia real. Mas é provável que eles prefiram embolsar o prejuízo. Por que alguém faria isso? Quem responde é Vinicius Torres Freire, em sua coluna de 10/02, na Folha:

Porque as opções parecem piores. Bancos, seguradoras ou fundos de pensão não podem guardar bilhões no cofre. Bancos podem considerar que não vale a pena emprestar a clientes ou fazer outra aplicação mais rentável, mas perigosa, dado o alto risco de calote numa economia deprimida. Ou consumidores e empresas podem estar meio falidos ou avessos a dívidas. Ou pode ser que se acredite em taxas ainda mais negativas...

E o colunista conclui:

Apesar dos juros negativos, se faz pouco negócio na Europa e no Japão. Há deflação ou risco disso: queda de preços, em suma queda de salários, medo de mais crise. Os salários caem no Japão desde 2012. Trata-se de uma forma amena de doenças graves vistas na Grande Depressão dos anos 1930.

As loucuras do carnaval terminaram. As da crise de 2008 estão longe do fim.

Leia também: A China, as coisas e suas sombras

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A China, as coisas e suas sombras

Em 05/02, no editorial “Créditos ‘podres’ chineses preocupam o mundo”, o Globo aborda o elevado “nível de inadimplência de pessoas físicas e corporações” em todo o mundo. Na Europa, por exemplo, o volume total de empréstimos duvidosos supera US$ 1 trilhão.

O problema, diz o texto, “vem tirando o sono de investidores, governos e analistas”. Mas a maior preocupação é com a China, que teria um volume de “empréstimos duvidosos” acima dos US$ 5 trilhões. O montante equivale à metade do PIB. Por isso, diz o editorial, “o mercado de ações chinês vem caindo com força nos últimos meses”.

O que o editorial chama de “empréstimos duvidosos” ficou conhecido após o estouro da crise de 2008 como “subprime”. E no caso da China, há o agravante de que parte de seu setor bancário se encontra na “sombra”. Ou seja, fora do alcance da regulamentação governamental. Uma situação com potencial para arruinar a economia mundial numa dimensão inimaginável.

Em junho de 2013, a pílula “A sombra dos créditos podres chineses” já alertava para esse perigo. De lá para cá, a coisa só piorou. A previsão é de que o volume total de empréstimos no mercado chinês chegará a US$ 30 trilhões no fim do ano.

Mas o Globo considera a solução “relativamente simples”. Basta uma “calibragem entre crescimento econômico e saúde fiscal”, afirma o editorial. Era isso que diziam os neoliberais diante dos alertas que antecederam o desastre de 2008.

Veio a crise, ela continua aí, mas os advogados do capitalismo continuam a tomar as sombras pelas coisas que as projetam.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O mordomo do triplex

A Andrade Gutierrez realizou obras em um sítio do ditador João Batista de Figueiredo.

José Sarney ganhou de empresários uma fundação com seu nome em São Luís do Maranhão, pouco depois que saiu da presidência.

Fernando Collor reformou a Casa da Dinda com o dinheiro que PC Farias juntou e é lá que estaciona seus Porsche, Bentley, Lamborghini etc.

Fernando Henrique Cardoso montou o instituto que leva seu nome com ajuda de um grupo de empreiteiras, incluindo a Odebrecht.

Portanto, nenhuma surpresa se Lula da Silva foi beneficiado pela OAS com um apartamento múltiplo e verdejante sítio.

Também não faz sentido investigá-lo e não fazer o mesmo em relação a seus antecessores. Todos igualmente suspeitos de corrupção.

No entanto, há uma diferença entre Lula e os outros. Até agora, pelo menos, ninguém conseguiu afirmar que ele ou sua mulher são donos dos imóveis que lhes teriam sido ofertados pelo poder econômico.

De fato, há uma ironia nisso tudo. O pau-de-arara que saiu do sertão, passou a peão de fábrica, a sindicalista e chegou a deputado, cometeu o crime de tornar-se presidente.

Para agravar, parece ter achado que entrara na intimidade do poder para nele ficar como mais um condômino vitalício dos palácios. 

Na verdade, Lula, chegaste à estranha condição de inquilino ameaçado de despejo de um imóvel em que nem mesmo moraste.

No máximo, Lula, foste um mordomo, ocupante dos anexos da mansão, a manter os patrões e seu patrimônio muito bem cuidados. A serviço deles, chefiavas os criados com grande rigor e muita conversa mole.

Sem triplex para ti, Lula.

Leia também: Para o grande capital, muito açúcar e afeto

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Fabricando bandidos e terroristas

A série “Making a murderer” (“Fabricando um assassino”) faz grande sucesso nos Estados Unidos. O documentário conta a história de Steven Avery que, condenado injustamente, passa 18 anos na prisão. Pouco tempo depois de sua libertação, enfrenta nova batalha judicial.

Um dos aspectos que mais assusta no seriado é a impossibilidade de reverter uma decisão, uma vez que ela é tomada pelo sistema judicial. Uma situação criada pelo caráter de infabilidade quase sagrada atribuída aos agentes da justiça e da lei.

No Brasil, cenário parecido é mostrado pelo documentário “Sem Pena”, de 2014.
O filme exibe depoimentos de pessoas presas sem sentença ou, condenadas a penas muito desproporcionalmente maiores em relação ao crime cometido.

Uma vez libertadas, elas ainda encontram a enorme dificuldade de se integrar novamente à vida social. Como no caso de Avery, uma vez acusado, condenado. Uma vez condenado, jamais perdoado.

A agravar todo esse quadro, um projeto-de-lei de do governo em debate no Congresso tenta aprovar uma legislação “antiterrorista” no País. Na verdade, uma forma de legalizar a criminalização dos movimentos sociais e inviabilizar manifestações populares na base da repressão pura e simples.

É neste contexto que os documentários sobre Avery e sobre o sistema prisional brasileiro se aproximam. É nesta situação que a abusiva legislação repressiva adotada nos Estados Unidos após o 11 de Setembro serve de modelo à “Lei Antiterrorista” em discussão no Brasil.

À fabricação de bandidos os poderosos pretendem juntar, agora, a produção de terroristas. Quase todos saídos dos setores socialmente mais vulneráveis ou questionadores da ordem dominante.

Leia mais em Fabricando bandidos, terroristas e oportunidades subversivas, no Blog JUNHO.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

De volta aos evaporados, invisíveis e alvejados

A pílula Evaporados, invisíveis, esbranquiçados,alvejados... recebeu alguns comentários muito pertinentes. Alguns deles lembravam que a condição de invisibilidade não acomete apenas trabalhadores serviçais.

É o caso dos indígenas, cujas tradições continuam a ser enterradas sob toneladas de preconceitos, veiculados pela grande mídia e aproveitados como justificativa para ações governamentais criminosas contra seus costumes e territórios.

Nossas ruas, praças, bairros, cidades, acidentes geográficos, alimentos, plantas, vocabulário em geral estão recobertos pelo tupi-guarani. Mas aos indígenas é negado o direito de registrar sua identidade pessoal nos cartórios, seguindo suas denominações originais.

A ascendência da população negra sumiu na noite escravagista. Sua própria ancestralidade lhes é negada. Diferente daqueles cuja origem europeia está bem documentada e é lembrada orgulhosamente, as origens africanas foram condenadas ao esquecimento.

A própria identificação familiar da grande maioria dos descendentes de africanos continua a trazer a marca do senhor de escravos. São os muitos negros cujos sobrenomes “Silva”, “Carvalho”, “Oliveira”, foram impostos pelos proprietários de seus ancestrais.

Há ainda os milhares de famílias indígenas, ribeirinhas, caipiras, caboclas, deslocadas por megaobras ou megaeventos superfaturados. Empurradas para a beira da estrada do “progresso” ou por ele atropelados. Mas na grande imprensa, recebem poucas linhas ou míseros segundos de atenção. Assim mesmo, de modo preconceituoso e humilhante.

São outros tantos a integrar a enorme legião brasileira de evaporados e invisíveis. O que de modo algum os protege de também ser alvo das forças da repressão, diante das quais vergonhosamente se omitem setores que se consideram os mais progressistas do País. 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Hip-Hop é pra fazer revolução!

Em 31/01, o Gas-PA, rapper do coletivo de hip-hop “Lutarmada” deu uma entrevista ao site Polifonia Periférica. O depoimento mostra que os 25 anos de estrada não atenuaram nem cansaram a trajetória radical e combativa do artista. O compromisso com a luta continua o mesmo e mais forte. Um trecho demonstra isso muito bem:

O falar do escravizado era um falar entupido de condicionantes. Sob pena de castigos ultra severos a sua fala era medida no volume e no tom da voz, na velocidade da resposta, na escolha certa das palavras e na postura corporal. A vontade era de mandar geral se fuder, mas o desejo era contido pela noção do perigo que isso representava. Mas nos momentos em que o escravizado não estava sob a vigilância de seus superiores hierárquicos, toda essa angústia, todo esse ódio reprimido era extravazado através da música e da dança. Os momentos de celebração do escravizado era um momento de catarse. Isso significa que a música afrobrasileira é na sua origem, na sua gênese uma música de protesto, de luta, uma válvula de escape pra todo sofrimento, toda angústia sofrida, e expressão de todo anseio de liberdade dos meus antepassados. Taí a capoeira que não me deixa mentir. É dança e música que ao mesmo tempo é luta corporal, fruto do mesmo contexto ao qual me refiro. O que eu faço desde 1991 nada mais é do que ser fiel às minhas origens e à origem da música da diáspora africana no Brasil!

A entrevista toda merece ser lida. Até porque a mensagem final é clara: Revolução Socialista! Confira aqui.

Leia também: O hip-hop nasceu contra a barbárie

Evaporados, invisíveis, esbranquiçados, alvejados...

Em 29/01, Arthur Dapieve apareceu com uma informação interessante em sua coluna do Globo. O texto começa falando sobre o peso social da vergonha entre os japoneses. Um sentimento tão avassalador que em “casos extremos”, a “sociedade japonesa praticamente dita que o cidadão” se mate.

Mas o verdadeiro tema do artigo são “johatsu” ou “evaporados”:

...pessoas que desaparecem voluntariamente, matando a antiga identidade, não o corpo. Elas saem de casa, não deixam vestígios, recomeçam noutra cidade, quase sempre em definitivo. Quando fica evidente que não há crime envolvido, a polícia se afasta do caso. As estimativas vão de 85 mil (a oficial) a 185 mil (a paralela) evaporados ao ano.

O fenômeno chegou a motivar a criação de “empresas semiclandestinas para facilitar a evaporação e bairros que concentram os evaporados”.

No Brasil, conhecemos algo parecido. No lugar dos evaporados, porém, temos os invisíveis. Principalmente, aqueles envolvidos em atividades serviçais, como porteiros, garçons, balconistas, babás, domésticas, motoristas, faxineiros, garis, recepcionistas etc.

A grande maioria dessas pessoas é negra. E muitos dos que por eles são atendidos os tratam com a educação condescendente que nosso racismo exige. Uma atitude que pretende explicar o desprezo que lhes reserva a sua posição subalterna e não à cor de sua pele. 

Outro tipo de metamorfose comum entre nós é a que atinge várias personalidades da história brasileira. Alguns exemplos: Aleijadinho, Machado de Assis, os irmãos Rebouças, José do Patrocínio, Carlos Gomes, Rui Barbosa, Nilo Peçanha e Castro Alves. Todos de ascendência africana, mas devidamente embranquecidos pela historiografia pátria.

Mas entre evaporados, invisíveis e esbranquiçados, ainda temos os negros alvejados. Pela polícia.

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