segunda-feira, 27 de março de 2017

Na era Trump, um pesadelo utópico feminino

Em 20/03, manifestantes ocuparam o Senado estadual do Texas para protestar contra tentativas de restringir o direito ao aborto no Estado.

Algumas mulheres que participaram da atividade vestiam hábitos vermelhos. Era uma referência às roupas da personagem principal do livro “O conto da aia”, de Margaret Atwood.

Publicado em 1985, a obra mostra um futuro em que as mulheres vivem um pesadelo opressivo. Neste pesadelo utópico, elas não passam de serviçais condenadas à procriação. A palavra “estéril”, por exemplo, não existe mais. Afinal, homens jamais seriam estéreis e mulheres estéreis nunca seriam consideradas mulheres.

Abaixo, alguns trechos:

...quando mataram a tiros o presidente e metralharam o Congresso, e o exército declarou um estado de emergência. Na época, atribuíram a culpa aos fanáticos islâmicos.

Foi então que suspenderam a Constituição. Disseram que seria temporário. Não houve sequer nenhum tumulto nas ruas. As pessoas ficavam em casa à noite, assistindo à televisão, em busca de alguma direção.

Excitação sexual e orgasmo não são mais considerados necessários; seriam meramente um sintoma de frivolidade, como ligas rendadas ou pintas falsas: distrações supérfluas para os volúveis. Fora de moda.

Ó Deus, Rei do Universo, obrigada por não ter-me criado homem. Ó Deus, oblitera-me. Torna-me fecunda. Mortifica a minha carne; para que eu possa ser multiplicada. Permite-me ser preenchida.

Renuncio a meu corpo voluntariamente, para submetê-lo ao uso de outros. Eles podem fazer o que quiserem comigo. Sou abjeta. Sinto, pela primeira vez, o verdadeiro poder deles.

O livro está entre os mais vendidos desde que Donald Trump foi eleito. Provavelmente, porque passou a ser considerado profético. Exagero? Tomara que sim.

Leia também: O estupro como arma racista

sexta-feira, 24 de março de 2017

Sobre bodes na sala e outros bichos

Imagine uma casa cheia de gente que não se entende. De repente, um dos ocupantes coloca um bode no meio da sala. Diante do fedor e da falta de espaço causados pelo bicho, todos esquecem suas diferenças.

Esta é a “teoria do bode na sala”, muito utilizada para explicar algumas situações políticas ou sociais. Por exemplo, a reforma da previdência teria feito o papel do bode na sala para que a liberação da terceirização fosse aprovada.

E, quem sabe, os novos bodes venham a ser os problemas causados com a terceirização generalizada, enquanto é aprovado o fim das aposentadorias para quase todos. Logo depois, viria o bode da quebra da estabilidade dos servidores públicos.

Desse modo, bodes e mais bodes continuam a atravancar os cômodos da casa. E sua bosta a se acumular em quartos, sala, cozinha, banheiro...

Mas, talvez, tudo tenha começado com a presença de um outro animal, que chegou antes desses bodes todos. Teria sido trazido pelos membros mais humildes da família. No início, muitos dos moradores mais finos não queriam aceitá-lo. Mas logo viram que, apesar de sua total falta de pedigree, o bicho teria muita utilidade.

O animal saltitava alegremente pela casa, recebendo o cafuné sincero de muitos e o carinho falso de poucos. Enquanto isso, medidas prejudiciais aos interesses da maioria pobre da casa puderam ser preparadas sem chamar a atenção. Quando, finalmente, estava tudo pronto para implementá-las, o simpático animal foi expulso a pontapés.

Foi, então, que chegaram os bodes fedidos. Do lado de fora, ficou o pobre bicho recém escorraçado.

É um sapo. E parece que tem barba.

Leia também: O Caixa 2 de olho no Caixa 1 da Previdência

quinta-feira, 23 de março de 2017

O estupro como arma racista

Tom Feelings
No livro "Mulheres, raça e classe", Angela Davis afirma que, nos Estados Unidos, durante a escravidão mulheres e homens negros sofriam igualmente. Mas elas eram vítimas de abuso sexual e outros maus-tratos bárbaros que só poderiam ser infligidos a mulheres.

Entre os maiores sofrimentos, estavam aqueles relacionados à maternidade. Como eram consideradas "parideiras" e não "mães", seus filhos podiam ser vendidos como bezerros.

Muitas delas foram obrigadas a largar seus bebês no chão enquanto trabalhavam nas plantações. Algumas tentavam trabalhar com seus bebês amarrados às costas. Tudo isso sob sol e chuva.

Escravas grávidas não estavam livres do açoite, caso não cumprissem sua carga diária de tarefas ou apenas se queixassem. Há registros de gestantes obrigadas a se deitar sobre um buraco feito para acomodar suas barrigas, enquanto eram chicoteadas.

Tanto homens como mulheres sofriam flagelações e mutilações, mas elas também eram estupradas.

As constantes violações das mulheres escravizadas muitas vezes levava ao nascimento de crianças, cujo pai era o estuprador branco. No entanto, esses nascimentos eram covardemente atribuídos a uma pretensa tendência à “promiscuidade sexual” das mulheres negras.

O estupro também servia para punir os homens negros, inclusive após o fim da escravidão. Neste caso, ao caracterizá-los como animais viciados em cometer violências sexuais contra mulheres brancas.

Embora estupradores raramente fossem julgados, homens negros eram constantemente condenados por estupro, fossem culpados ou não. Assim, dos 455 homens executados entre 1930 e 1967 por estupro, 405 eram negros.

Esses mitos forjados durante a escravidão continuam a servir de justificativa para perseguir milhões de mulheres e homens negros nos Estados Unidos, aqui e em muitos outros lugares.

Leia também: Mulheres comunistas na história dos Estados Unidos

quarta-feira, 22 de março de 2017

Eleanor Marx no trabalho de base

Os Irmãos Grimm, Shakespeare, Aristóteles, Balzac, Dickens, Goethe, Shelley, Blake, Hegel, Rousseau, Fourier e Darwin. O Talmud em hebraico e holandês, versões da Bíblia em alemão e em inglês. Estes são apenas alguns mestres e obras com que Marx e Engels educaram Eleanor. Sempre em casa, pois as escolas para meninas da época só ensinavam os deveres básicos para futuras “donas do lar”.

Mesmo assim, Eleanor e sua família jamais olharam com arrogância os que não tinham acesso a essa “alta cultura”. Ao contrário. Segundo conta Rachel Holmes em sua biografia sobre Eleanor, quando a Internacional foi fundada, Marx e Engels escreveram:

...formulamos muito claramente a palavra de ordem: a emancipação dos trabalhadores deve ser conquistada pelos próprios trabalhadores. Portanto, não podemos nos associar a pessoas que declaram abertamente que os trabalhadores não são instruídos para se emanciparem e devem ser libertados a partir do alto por grandes e pequenos burgueses filantropos (...), e que devem se colocar sob a liderança dos proprietários “educados", que saberiam o que é bom para eles.

A militância de Eleanor sempre foi coerente com estes princípios. Ela participou da formação do braço sindical das mulheres do setor de gás na Inglaterra. Também ajudou a organizar a luta dos estivadores.

Apesar disso, ela só conseguia participar dos encontros sindicais na condição de intérprete e jornalista. Para o machismo dos sindicalistas da época, falar e escrever em três línguas não a qualificava como trabalhadora.

Mas essas dificuldades jamais a fizeram duvidar de que o socialismo só poderia ser construído por iniciativa da maioria explorada e com a presença decisiva das mulheres.

terça-feira, 21 de março de 2017

A carne que o diabo temperou

Em 20/03, Gustavo Henrique Freire Barbosa publicou o artigo “Friboi, BRF e a ‘ética’ do livre-mercado” no portal “Outras Palavras”. Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Barbosa lembrou um trecho de “O Capital”, de Marx, que merece destaque.

Segundo ele, no capítulo sobre a jornada de trabalho, Marx cita um relatório da Câmara dos Comuns britânica abordando irregularidades na produção de pães, segundo o qual “o livre-comércio abrangeria também o direito de comercializar produtos falsificados”.

Diante disso, o revolucionário alemão escreveu:

...o inglês, tão apegado à Bíblia, sabia que o homem, quando não se torna capitalista, proprietário rural ou sinecurista pela Graça Divina, é vocacionado a comer seu pão com o suor de seu rosto, mas ele não sabia que esse homem, em seu pão diário, tinha de comer certa quantidade de suor humano, misturada com supurações de abscessos, teias de aranha, baratas mortas e fermento podre alemão, além de alune, arenito e outros agradáveis ingredientes minerais.

Alimento com tal qualidade bem poderia ser comparado ao popular “pão que o diabo amassou”. Expressão que, aliás, teria origens bíblicas. Como se sabe, foi o Diabo que levou Adão e Eva a experimentar o fruto proibido. Condenado a trabalhar duro para garantir seu sustento, o primeiro casal passou a ingerir um pão que lhes chegava à mesa com tanto esforço que era como se tivesse sido preparado pelo próprio Capeta.

Século e meio depois da publicação de “O Capital” e muito mais tempo desde Adão e Eva, já não temos problemas apenas com pães e o Maligno não tem culpa alguma. Ou será que tem?

segunda-feira, 20 de março de 2017

Nat King Cole e o racismo no país de Trump

Nat King Cole teria completado 98 anos em 17/03, se estivesse vivo. A data foi lembrada por um artigo de João Máximo, no Globo.

Entre outras coisas, Máximo afirma que ele foi “o primeiro negro a estrelar um programa de TV nos Estados Unidos e o maior vendedor de discos da gravadora Capitol, numa época em que Frank Sinatra vivia nela sua melhor fase”.

Em 1948, ele estourou nas paradas com “Nature boy”. Foi o bastante para que o mundo caísse sobre ele. Os moradores brancos de Hancock Park, onde Cole comprara um casarão de três andares, “fizeram pressão para que ele se mudasse”, conta Máximo.

Seu programa de TV foi transferido do horário nobre para a manhã e, um ano depois, suspenso. Os patrocinadores começaram a sumir, pois telespectadores brancos se recusavam a aceitar “um negro cantando coisas de amor para suas mulheres”.

Mas o pior viria em Birmingham, Alabama, em 1956. Ele e sua banda aceitaram se apresentar em sessões separadas. Uma só para negros, outra, para brancos. Nesta última, “cinco membros do Conselho dos Cidadãos Brancos do Alabama subiram ao palco e o espancaram à vista de todos”, diz o artigo.

Um dos maiores sucessos de Cole era “Unforgettable” (Inesquecível). As canções e o talento de Cole realmente jamais devem ser esquecidos. Mas, infelizmente, histórias como a perseguição racista que ele sofreu também não podem sair de nossas memórias. Elas ajudam a entender porque há um Donald Trump governando os Estados Unidos.

Leia também:
É racismo, puta que o pariu!

sexta-feira, 17 de março de 2017

Eleanor Marx, boa de briga

Certa vez, revolucionários russos visitaram a residência dos Marx. Engels estava presente e no debate que se seguiu sobre a luta revolucionária na Rússia, ele e Marx se declararam absolutamente contrários ao terrorismo tão característico da cena política russa.

Para eles, era preciso um movimento popular representativo, de base ampla na Rússia. Não de ações protagonizadas por milícias clandestinas. Eleanor acompanhava o debate sem expressar opinião, mas não pareceu totalmente convencida dos argumentos de seu pai e do tio “postiço”.

Eleanor engajou-se decididamente na luta dos irlandeses contra o domínio inglês. Seu pai e Engels também simpatizavam com a causa. Mas desaprovavam fortemente a utilização de ações armadas, conspirações e iniciativas violentas. Eleanor discordava deles...

Por outro lado, certa vez, ela criticou seu companheiro de luta, William Morris, por afirmar que a revolução não seria feita até que o povo estivesse armado: "Ele parece não entender que, quando todas as pessoas estiverem armadas, não haverá necessidade de revolução".

Mas essa postura não servia para justificar qualquer recuo diante da superioridade militar do inimigo.

Em uma manifestação de desempregados no centro de Londres, ela ficou à frente dos manifestantes forçando passagem por entre os cerca de 4 mil policiais presentes. Quando eles começaram a bater, muitos manifestantes assustados fugiram em pânico.

Eleanor ficou furiosa: "Só depois de eu ter gritado até ficar rouca chamando os homens para ficar e lutar, alguns retornaram”. Detalhe: seu marido, Edward Aveling, “evaporou” logo que a pancadaria começou.

Não tinha medo a caçulinha de Jenny e Karl Marx.

Tudo isso e mais estão na biografia “Eleanor Marx”, de Rachel Holmes.

Leia também: Eleanor Marx na caldeira da luta de classes

quinta-feira, 16 de março de 2017

Mulheres comunistas na história dos Estados Unidos

Abaixo, algumas das mulheres comunistas estadunidenses citadas por Angela Davis em seu livro "Mulheres, raça e classe".

LUCY PARSONS era mulher de um dos líderes sindicais injustamente condenados à morte em Chicago, em 1886. Mas sua luta começou quase uma década antes e continuou por mais cinquenta anos. Importante organizadora da União de Mulheres Trabalhadoras de Chicago, para ela sexo e raça eram “manipulados pelos patrões para justificar a superexploração de mulheres e negros”.

ELLA REEVE BLOOR era uma notável militante na luta pelos direitos para mulheres e negros e pelo socialismo. Conhecida como "Mãe" Bloor, viajava de carona pelos Estados Unidos, ajudando a organizar incontáveis greves. Comunista e branca, era uma aliada do movimento de libertação negra.

ANITA WHITNEY nasceu em uma família rica de San Francisco. Apoiava firmemente as causas antirracistas. Em novembro de 1919, fez o discurso "O problema dos negros nos Estados Unidos”, em que denunciava os frequentes linchamentos de negros naquele país. No final, foi detida pela polícia sob a acusação de praticar “sindicalismo criminoso”.

ELIZABETH GURLEY FLYNN ajudou a tornar o sindicato “Industrial Workers of the World”, a primeira organização nos Estados Unidos a admitir absoluta igualdade entre seus membros negros e brancos. Segundo ela:

Cada desigualdade e incapacidade infligidas às mulheres brancas americanas é agravada mil vezes entre as mulheres negras, que são exploradas três vezes: como negras, como trabalhadoras e como mulheres.

CLAUDIA JONES, militante sindical, gostava de lembrar a seus companheiros brancos que "muitos progressistas, e mesmo alguns comunistas, também são culpados por explorar trabalhadoras domésticas negras".

Como elas, houve muitas outras. Enquanto houver injustiça, sempre haverá.

Leia também: Lugar de mulher é longe do lar

quarta-feira, 15 de março de 2017

O Caixa 2 de olho no Caixa 1 da Previdência

A grande imprensa grita contra os parlamentares que tentam escapar a possíveis punições pela utilização do “Caixa 2”. Mas confia nesse mesmo bando de pilantras para aprovar a Reforma da Previdência, que considera medida de “salvação nacional”.

Não teria a menor lógica não fosse o fato de que a proposta de Temer é mais um golpe contra os cofres públicos. E muito mais grave que qualquer caixa 1, 2 ou 3.

O que realmente está em jogo é o controle de uma grande parte do que se costuma chamar de fundo público. Segundo definição de Evilasio Salvador:

O fundo público envolve toda a capacidade de mobilização de recursos que o Estado tem para intervir na economia, além do próprio orçamento, as empresas estatais, a política monetária comandada pelo Banco Central para socorrer as instituições financeiras.

No caso da Previdência, sua receita bruta em 2014 foi de R$ 686 bilhões. É o controle desta dinheirama toda que está em jogo. E o mercado financeiro é o maior candidato a se apropriar dela, graças aos votos das bancadas cuja eleição financiou, destinando recursos perfeitamente legalizados no caixa 1 de suas campanhas eleitorais.

O mesmo pode acontecer em relação ao FGTS, cujos recursos podem deixar de ser controlados pela Caixa Econômica Federal. São cerca de 470 bilhões cobiçados por bancos e especuladores em geral. Os mesmos que, aliás, são grandes anunciantes dos jornais.

Para saber mais sobre essa importante disputa em torno dos fundos públicos, leia a revista do Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Ambientes de Trabalho,  clicando aqui. E ajude a divulgar, também.

terça-feira, 14 de março de 2017

Eleanor Marx na caldeira da luta de classes

Voltamos à biografia “Eleanor Marx”, de Rachel Holmes. Em 1886, ela publicou “A Questão Feminina: um ponto de vista socialista”, junto com Edward Aveling.

Desde o início, os autores deixam claro que é impossível compreender a desigualdade entre homens e mulheres sem levar em conta os fatores econômicos que a sustentam:

...aqueles que denunciam a situação atual das mulheres sem buscar suas causas na economia de nossos dias são como médicos que tratam uma doença local sem investigar a saúde física geral.

Por outro lado, diz Rachel, em nenhum momento os autores argumentam que a opressão sexual pode ser resolvida com uma resposta meramente econômica: “A questão da mulher diz respeito à organização da sociedade como um todo”, afirmam.

E para travar essa luta, defendem a formação de uma frente feminista única, e recomendam à Segunda Internacional que trabalhe por um movimento feminista internacionalista. Afinal, dizem, “assim como não pode haver socialismo num país só, também não pode haver feminismo num só país.”

Além disso, as mulheres “devem entender que sua emancipação será obra delas mesmas”. Elas certamente encontrarão aliados entre os melhores homens, assim como os trabalhadores encontram aliados entre filósofos, artistas e poetas. Mas não têm nada a esperar do homem em geral, assim como os trabalhadores não têm nada a esperar da “classe média como um todo”.

Esta é só uma pequena amostra da combatividade da filha de Marx. Não à toa, ela se tornaria uma grande liderança dos trabalhadores britânicos do setor de gás. Entre eles, era conhecida como a “nossa velha foguista”, referindo-se àqueles que mantêm a caldeira a pleno vapor.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Militância por aplicativo

“Uberização do trabalho: subsunção real da viração” é o título de artigo publicado por Ludmila Costhek Abílio no site Passa Palavra, em 19/02.

O texto é muito interessante e diz respeito ao que a autora chama de “empresas-aplicativo”. O maior exemplo é a Uber, mas há muitas outras surgindo.

Quase todas tentando ocultar atrás do que chamam de “microempreendedorismo” ou de “economia compartilhada”, o que é apenas uma informalização das relações de trabalho.

Por outro lado, “já surgiram novas formas de organização política, que envolvem a criação de sindicatos de aplicativos, greves e manifestações de trabalhadores uberizados”, diz ela.

Em 2016, por exemplo:

...motoristas Uber americanos (atualmente mais de 400 mil) juntaram-se a enfermeiras, trabalhadores do setor hoteleiro, entre outros, na campanha “Fight for US$15”, que demandava o pagamento mínimo de quinze dólares por hora de trabalho.

Motoboys paulistanos que trabalham para o aplicativo Loggi também “organizaram manifestação que interrompeu faixas da Marginal Pinheiros e da Av. Rebouças, contra a nova forma de remuneração por entrega implementada pela empresa”.

Além disso, “ciclistas-entregadores da empresa Foodora organizaram as primeiras greves de trabalhadores por aplicativos na Itália”.

Ainda segundo Ludmila:

...foram criados em 2016 o Sindicato dos Motoristas de Aplicativo de São Paulo, a Associação dos Motoristas Autônomos por Aplicativos e Sindicato dos Motoristas de Transporte Privado Individual de Passageiros do Estado do Pernambuco.

Ou seja, a luta de classes também chegou ao Uber e a outras modernidades que escondem a velha exploração capitalista.

O problema é que muitos de nós não têm conseguido ir além da militância via aplicativos como Facebook e WhatsApp. Os exploradores curtem.

Leia também: Do Homo Sapiens ao Homer Simpson

sexta-feira, 10 de março de 2017

Lugar de mulher é longe do lar

“Invisível, repetitivo, exaustivo, improdutivo, não criativo”. É assim que Angela Davis descreve os intermináveis afazeres domésticos femininos em seu livro "Mulheres, raça e classe".

No entanto, diz ela, tarefas como essas, executadas sob condições técnicas primitivas, podem ser consideradas historicamente obsoletas diante dos avanços tecnológicos atuais. Então, por que elas persistem?

Angela cita uma tese de Mariarosa Costa intitulada “Mulheres e a subversão da comunidade”, de 1973. Segundo o estudo, “o caráter privado dos trabalhos domésticos é uma ilusão”. A dona de casa parece servir apenas a sua família, “mas os verdadeiros beneficiários dos seus serviços são os patrões do seu marido e os futuros empregadores de seus filhos”.

A partir desta análise, Mariarosa propõe lutar por remuneração salarial pelo trabalho doméstico. Afinal, diz ela, as donas de casa são grandes responsáveis por produzir a força de trabalho, “mercadoria tão importante e valiosa como aquelas que os seus maridos produzem no trabalho”.

Mas Angela não concorda com a proposta de assalariamento. Para ela, é preciso tirar as mulheres de casa. Libertá-las de tarefas que fazem sofrer e embotam o potencial humano da grande maioria delas.

Para isso é preciso criar amplas redes de creches, refeitórios e escolas em tempo integral. Também é possível automatizar radicalmente as residências. O livro é dos anos 1970. Mas no século 21, as casas inteligentes já são uma realidade, ainda que para uma minoria.

Lutar por essas conquistas e por igualdade no âmbito do trabalho pode ter um potencial revolucionário explosivo, afirma Angela. E é cada vez mais necessário. Principalmente, quando governantes continuam a condenar as mulheres ao “recato do lar”.

quinta-feira, 9 de março de 2017

As guerreiras da Comuna de Paris

Em sua biografia “ Eleanor Marx”, Rachel Holmes diz que a Comuna de Paris era um assunto de família para os Marx. A começar por Hippolyte Lissagaray, que lutou nas trincheiras parisienses e foi o primeiro namorado de Eleanor.

Mas também havia Elisabeth Demetrioff. Fundadora e líder da união de mulheres de Paris, ela era amiga pessoal da família, e, em particular, de Eleanor. Foi a presença de personalidades como Elisabeth que transformou a Comuna em um grande “evento de gênero”.

Segundo Rachel, “os homens adultos eram a maioria, mas havia mais mulheres envolvidas na Comuna de Paris do que em qualquer revolução anterior”. Este teria sido um dos principais fatores para o ódio que a Comuna despertou e o covarde massacre de que foram vítimas seus integrantes.

Cerca de três mil mulheres trabalharam nas fábricas de armas e munições. Um batalhão feminino da Guarda Nacional foi formado por 120 combatentes que lutaram nas barricadas de Paris. Mulheres com armas nas mãos só podiam atrair o ódio dos conservadores da época.

Não à toa, um correspondente do “Times”, de Londres, escreveu: “Se a nação francesa fosse composta apenas por mulheres, que terrível nação seria.”

Mas a discriminação contra as mulheres vinha de muito antes. Inclusive, entre os setores militantes dos trabalhadores.

Na fundação da Primeira Internacional, em 1864, por exemplo, o Conselho Geral, dirigido por Marx, aprovou a admissão de mulheres. Pois foi exatamente a delegação francesa que se opôs à decisão, alegando que o lugar delas era “no lar".

Quase 150 anos depois, continuamos a precisar de novas comunas, com ainda mais mulheres guerreiras.

Leia também:
Não há revolução sem a rebeldia feminina

quarta-feira, 8 de março de 2017

A dignidade negra e feminista de Sojourner Truth

Angela Davis é uma militante socialista estadunidense que ficou famosa por sua participação no Partido dos Panteras Negras, na década de 1970.

Recentemente, foi lançado no Brasil seu livro "Mulheres, raça e classe", no qual defende a profunda ligação entre a luta anticapitalista, o feminismo e o combate ao racismo.

Uma das personagens heroicas citadas na obra é Sojourner Truth, que nasceu escrava, mas tornou-se liderança da luta feminista e antirracista da segunda metade do século 19, nos Estados Unidos.

Sua participação na Convenção de Mulheres em Akron, Ohio, em 1851, marcou época. Foi lá que ela fez o discurso “Então, não sou uma mulher?”, que se tornou lendário.

Mas, no mesmo evento, houve outro momento memorável. Foi quando, diante do argumento de que a supremacia masculina era um princípio cristão, ela perguntou:

De onde é que Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem não teve nada a ver com isso!

E aos que acusavam Eva de ter cometido o primeiro pecado, respondeu:

Se a primeira mulher que Deus fez foi forte o suficiente para colocar o mundo de pernas para o ar, muitas mulheres unidas podem facilmente colocá-lo no lado certo.

Os homens presentes ficaram mudos. Frances Dana Gage presidia a convenção e descreveu o impacto do discurso desse modo:

Ela levou-nos nos seus fortes braços e carregou-nos firmemente para fora das dificuldades, mudando a maré a nosso favor.

Além de Sojourner, Harriet Tubman, Ida Wells e Rosa Parks são outras personagens importantes do livro. Ao lado da própria autora, suas vidas tornaram mais dignas não apenas as mulheres, mas a humanidade.

Leia também:
Harriet Tubman, a libertadora negra

terça-feira, 7 de março de 2017

Eleanor Marx, pioneira do feminismo socialista

De meu pai, herdei o nariz, não seu gênio. Costumava dizer a ele que poderia processá-lo por danos, já que seu nariz tinha claramente me causado prejuízos.

Estas palavras são de Eleanor Marx. Estão na biografia publicada por Rachel Holmes, em 2014, sobre aquela que Marx considerava a filha mais parecida com ele.

Brincadeiras à parte, Rachel diz que que Eleanor herdou, sim, a genialidade do pai. E que as perdas que sofreu não foram causadas por seu nariz, mas por seu sexo. Tivesse nascido homem, certamente sua enorme capacidade intelectual e incansável atuação militante teriam recebido o devido reconhecimento, inclusive pela esquerda socialista.

Foi lutando contra as enormes dificuldades de sua condição de mulher que Eleanor tornou-se uma verdadeira pioneira do feminismo socialista, garante Rachel. Graças a ela e à revolucionária alemã Clara Zetkin, diz a autora, podemos afirmar que “o feminismo começou na década de 1870, não nos anos 1970”.

Em 1886, ela publicou “A Questão Feminina: um ponto de vista socialista”, junto com seu marido, Edward Aveling. É o primeiro tratado sobre o assunto escrito por uma mulher engajada nas lutas sociais de seu tempo.

Embora totalmente solidária às campanhas por sufrágio feminino e participação das mulheres no parlamento, ela considerava essas lutas limitadas frente aos desafios da luta pela libertação feminina. Eleanor entendia que:

... a luta pela emancipação das mulheres e a igualdade entre os sexos é um pré-requisito para qualquer forma eficaz para uma revolução social progressista.

Infelizmente, o livro ainda não tem edição em português. Em breve, voltaremos a destacar algumas das façanhas dessa grande revolucionária da classe trabalhadora.

Leia também: A luta de classes tem que ser feminista