27 de junho de 2018

Calma, torcedor, recomenda Drummond

Escrevendo para o Correio da Manhã, em 31/03/1959, Carlos Drummond de Andrade observa que “Pelé e Didi, dando duro na cancha” não estariam mais exaustos do que o “torcedor internacional”.

Citando um tal prof. Silva Mello, o poeta afirma que em um dos livros dele aprendeu que:

...o participante de jogo internacional despende seis vezes mais energia do que o trabalhador em mina de carvão (...), e que tais competições desportivas fornecem excelente material para as doenças cardíacas e do aparelho circulatório. Sinto-me tentado a ampliar a observação do mestre e a redigir uma nota palpitando que o gasto de energia do torcedor é doze vezes maior, e que ele está muito mais ameaçado de morte que o integrante de selecionado. O torcedor, na sua impotência, “joga” ainda mais do que o jogador, e como não tem bola alguma à sua frente, precisa socorrer-se de um esforço de imaginação de que Paulinho está dispensado. É certo que fica imune das agressões habituais nos gramados sul-americanos, porém os mais sensíveis se queixam de ter recebido na epiderme moral os coices distribuídos em River Plate pelo onze do “Celeste”.

Diante disso, aconselha:

O campeão não é campeão vinte e quatro horas por dia; chega uma hora de calçar os chinelos, e bocejar; um tempo de ver as flores; tempo de não sofrer mais do que o estritamente necessário, e desconfiar das glórias incômodas. De resto, não somos sessenta milhões de campeões, o que inflacionaria a espécie; eles são apenas onze e seus reservas. Penso nas coronárias e sugiro (diante do espelho): Calma, torcedor.

É isso aí. Calma!

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