terça-feira, 24 de maio de 2011

Os indígenas que moram no tempo

Em 21/05, a BBC publicou reportagem sobre indígenas da Amazônia que não teriam noção de tempo. A descoberta foi feita por pesquisadores brasileiros e britânicos. Trata-se da tribo dos Amondawa. Seus membros não usariam estruturas linguísticas que relacionam tempo e espaço.

Um dos responsáveis pelo estudo é Chris Sinha, professor de psicologia da língua na Universidade de Portsmouth. Ele afirma que não se trata de dizer que os indígenas “são ‘pessoas sem tempo’ ou ‘fora do tempo’”. Segundo o pesquisador:
O povo Amondawa, como qualquer outro, pode falar sobre eventos e sequências de eventos. O que não encontramos foi a noção de tempo como sendo independente dos eventos que estão ocorrendo. Eles não percebem o tempo como algo em que os eventos ocorrem.
Por exemplo, para eles não existiria algo que fica “no ano que vem”. Ainda segundo a reportagem:
...as pessoas da tribo não se referem a suas idades – em vez disso, assumem diferentes nomes em diferentes estágios da vida, à medida que assumem novos status dentro de sua comunidade.
Esse tipo de descoberta chega a assustar. Cada vez mais, vivemos o tempo como um trem-bala desgovernado. Mas, também ajuda a mostrar toda a riqueza da diversidade humana. Lembra uma frase do antropólogo Clifford Geertz em seu livro “A interpretação das culturas”:
...um dos fatos mais significativos ao nosso respeito pode ser, finalmente, que todos nós começamos com o equipamento natural para viver milhares de espécies de vida, mas terminamos por viver apenas uma espécie.
Experimente dizer isso aos ruralistas e ao grande capital, que cobiçam as matas em que vivem os indígenas. Para eles, humanidade tem apenas uma vocação: o acúmulo de propriedades e a busca por lucros. Povos “atrasados” devem sair da frente ou serão atropelados por seus empreendimentos bilionários.

Talvez, os Amondawa façam do tempo uma espécie de morada permanente, tranqüila e ensolarada. Já nossos poderosos dominadores querem nos arrastar velozmente para a escuridão de seus porões sujos.

Leia também: Jirau é senzala. Lula, capitão-do-mato

2 comentários:

  1. Muito legal este texto sobre os Amondawa. Quanto ao Geertz, este antropólogo é demais. Preciso ler mais obras dele, o que li gostei muito.
    Parabéns pelo blog Sérgio Domingues.


    Diego Andrade

    ResponderExcluir