Doses maiores

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24 de maio de 2019

Nós e nossos gêmeos do mal

“Nós”, de Jordan Peele, é diversão de terror garantida. Mas não apenas no sentido original da palavra “diversão”, que significa desviar a atenção de algo importante. O entretenimento do filme é um bom pretexto para denunciar o que está acontecendo em muitas sociedades pelo mundo.

Basicamente, o enredo é sobre famílias gêmeas idênticas. Só que uma delas é formada por assustadoras criaturas do “mal”. A outra, composta por pessoas do “bem” e de bens. Estas últimas são perseguidas pelas primeiras tornando a trama assustadora.

As famílias malvadas pertencem a um mundo subterrâneo e sombrio. Um lugar onde a vida é uma imitação deprimente e assustadora da vibrante sociedade de consumo da superfície.

“Us”, título original em inglês, também faz referência a United States, afirmou o diretor. Segundo ele, os maiores inimigos dos estadunidenses são eles próprios.

Certamente, refere-se à onda conservadora que atinge o país. Ela seria alimentada pelas frustrações por que passam muitos membros da economia mais rica do planeta.

O “American Way of Life” vende um mundo cheio de felicidade e vitórias para todos. Mas a enorme maioria fica, no máximo, com imitações baratas e caricatas do nível de vida de uma elite cada vez menor.

Claro que a trama do filme serve para muitas outras sociedades de alto consumo e muita injustiça social. E mostra como as reações a essa situação podem ser as mais bárbaras.

No filme, as criaturas maléficas costumam fazer estragos com tesouras e machados. Na vida real, muitas vezes, basta o voto na urna para causar prejuízos muito piores.

De qualquer maneira, o final surpreende e é otimista.

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8 de junho de 2017

Infância (e adolescência) dos Mortos

Pixote cambaleia. Cai e torna a levantar, dá mais algumas passadas como se não soubesse em que direção estava se dirigindo, torna a cair. Dito está com as pedras nas mãos, sem saber em quem jogá-las.

— Atiraram em Pixote! — diz Fumaça, alarmado.

Dito sabe que não pode perder a calma. Sente a cabeça esquentar.

— Vamos embora, antes que nos peguem!

Os três saem correndo, agachando-se o mais que podem. Outros tiros são disparados, mas ninguém está ferido, Dito chega perto de Pixote. Ele tem os olhos abertos, filetes de sangue a escorrerem do pescoço. A mão amarela se abriu, com as flores murchas que ia levando para Estrelado.

O trecho acima é do livro “Infância dos mortos”, de José Louzeiro, publicado pela primeira vez em 1977. Os personagens são crianças de rua. O mais famoso deles é Pixote, cujo nome batizou um filme de grande sucesso de Hector Babenco, lançado em 1980.

Muitas décadas depois, pouca coisa mudou. Ao contrário, o relatório “Violência Letal Contra as Crianças e Adolescentes do Brasil”, publicado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais em 2013, mostra que só naquele ano, foram 10.520 vítimas dessa faixa etária. Quase 29 por dia.

De 1980 a 2013, foram assassinados 207.438 crianças e adolescentes até 19 anos de idade. Entre estes, estava Fernando da Silva Ramos, o ator que interpretou o “Pixote”. Foi morto pela polícia em 1987, meses antes de completar 20 anos. Ainda vivia na favela em que nasceu, na cidade de Diadema, grande São Paulo.

5 de abril de 2017

A volta do conservadorismo que nunca se foi

Um recente estudo da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, está ganhando razoável atenção de veículos da grande imprensa, como Estadão e Globo.

Uma pesquisa qualitativa entrevistou 63 eleitores de bairros pobres de São Paulo que votaram no partido entre 2000 e 2012, mas que não fizeram o mesmo em relação a Dilma Rousseff e Fernando Haddad nas eleições posteriores.

Segundo o Globo, a pesquisa mostraria “um vácuo entre discursos clássicos de partidos de esquerda e a realidade dos grupos pesquisados”. Para estes, não haveria “cisão entre ‘classe trabalhadora’ e ‘burguesia’”. Trabalhador e patrão são diferentes, mas “todos estão no mesmo barco”, afirmaram os entrevistados.

Também não existiriam polarizações como “coxinhas x petralhas” ou “conservadores x progressistas”. O principal confronto da sociedade não seria entre ricos e pobres, mas “entre Estado e cidadãos”, relata o jornal.

Lula é admirado menos pelas políticas de seus governos e mais por ser um caso típico de ascensão social. Assim como Sílvio Santos e João Doria, igualmente citados como vencedores que vieram de baixo.

Não deveria haver grande surpresa nessas conclusões. Afinal, Sílvio Santos já vem sendo exaltado como campeão do esforço individual há mais de meio século.

Surpreendente, mesmo, seria concluir que sob os governos petistas essas concepções tenham se enfraquecido para retomar a força repentinamente nos últimos três ou quatro anos.

Na verdade, a predominância dos valores conservadores não mudou muito nesse tempo todo. A não ser pelo fato de ter conquistado adeptos aos montes em quase toda a esquerda institucional.

A conclusão mais importante do estudo é indireta. Não foi o povo que se tornou mais conservador.

Leia também: Gramsci, conservadorismo e progressismo em São Paulo

25 de janeiro de 2017

A opressão pornográfica do Capital

Em 18/01, Francisco Daudt abordou, na Folha, o esdrúxulo projeto-de-lei contra a masturbação e a pornografia proposto por um deputado federal do DEM-SP.

Segundo o colunista, o prazer sexual solitário é “uma grande professora de independência e autonomia”. Daí, não ser surpresa que aqueles que queiram “controlar as pessoas” também queiram “controlar a masturbação”.

Faltou dizer que a proposta do parlamentar se opõe somente à pornografia gratuita. Ou seja, muito provavelmente a iniciativa envolve interesses mercadológicos nada pudicos.

Por isso mesmo, seria bom colocar Herbert Marcuse nessa conversa. Foi isso que fez o blog “Política para quem precisa” ao destacar o conceito de “dessublimação repressiva”, criado pelo filósofo alemão para explicar:

...como a sociedade atual transforma a sexualidade em mercadoria e com isso cria indivíduos mais dóceis para a dominação. A sublimação é o mecanismo que transfere a pulsão sexual para formas de criação intelectual como a ciência e a arte, tornando possível a civilização e tornando o indivíduo consciente do conflito com o “princípio de realidade” repressivo da sociedade dividida em classes. A dessublimação oferece uma falsa satisfação da pulsão sexual por meio da oferta ilimitada de produtos de consumo os mais variados (inclusive corpos na pornografia), desviando uma energia criativa que seria sublimada, impedindo o desenvolvimento intelectual, neutralizando assim o conflito do indivíduo com a sociedade e encaminhando dessa forma um tipo de repressão mais eficiente, porque disfarçado de “liberdade de escolha”.

Ou seja, se a proposta do parlamentar merece nosso total repúdio, também é preciso denunciar a “libertinagem opressiva” com que a lógica do capital violenta a vida erótica de milhões, diariamente.

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8 de novembro de 2015

A ameaça de uma enorme derrota histórica

“Crise joga 3 milhões de famílias da Classe C de volta à base da pirâmide”, diz matéria de Márcia De Chiara e Anna Carolina Papp, publicada no Estadão em 31/10.

O texto cita estudo da Tendências Consultoria Integrada, mostrando que, entre 2006 e 2012, 3,3 milhões de famílias subiram das “classes D/E” para a “classe C”. Mas o mesmo levantamento estima que, até 2017, 3,1 milhões de famílias devem voltar à faixa de renda de onde saíram.

Justificariam essa projeção, previsões de recuo da economia, queda na massa real de rendimentos e desemprego galopante.

A reportagem traz uma observação importante de Maurício de Almeida Prado, da consultoria “Plano CDE”. Devido à “ascensão” por que passaram, diz ele, essas famílias formariam “um novo tipo de classe baixa: mais conectada, escolarizada e de certa forma até mais preparada”.

A questão é: preparada para quê?

Seria bom lembrar que a conquista de melhores condições de vida tende a ser muito menos gratificante que a decepção causada por sua perda.

A última vez que frustrações como essas se transformaram em revolta social foi em junho de 2013. E naquele momento, forças de direita conseguiram canalizar boa parte do forte ressentimento da população.

O trabalho dos conservadores foi bastante facilitado pela esquerda que está nos governos. Diante das manifestações, sua única resposta vem sendo mais repressão. Portanto, destes setores já não há mais nada a esperar.

Mas a maior parte da oposição de esquerda continua distante das ruas, priorizando a disputa de eleições, direções sindicais e outros aparatos burocratizados. Ou começamos a mudar isso radicalmente, ou sofreremos uma enorme derrota histórica.

Leia também: Um relato de dignidade contra a burocratização da esquerda

12 de julho de 2015

A rotina dos linchamentos diários

Mais dois casos de linchamento aparecem nos jornais. Um no Maranhão, outro no Rio de Janeiro. O sociólogo José de Souza Martins é considerado autoridade na questão. Entrevistado pelo portal do El País, em 08/07, ele fez afirmações assustadoras.

Em primeiro lugar, o estudioso disse que acontece
um linchamento por dia em média, no Brasil. A atenção despertada pelos dois casos recentes seria “mais pelas imagens, que pelo fato de ter virado rotina.”

Em segundo lugar, há as particularidades racistas envolvidas nesse tipo de fenômeno. Segundo Martins:

Nos primeiros dez minutos, o padrão se repete e não há nenhuma diferença. Independentemente de a vítima ser branca ou negra, você vê pedradas, pauladas, pontapés. A diferença se manifesta no decorrer do ato, de forma muito mais sutil do modo como o racismo é concebido no Brasil. Ele se torna mais violento. Se o linchado for negro, a probabilidade de aparecerem outros componentes mais violentos como mutilação, furar olhos ou queimar viva a vítima, aumenta.

A afirmação é terrível. O racismo tal como “concebido no Brasil” consegue apresentar suas gradações até em casos extremos como o dessas ações cruéis e covardes.

Por fim, Martins também afirma que em 90% dos casos de linchamento, é a polícia que salva a vítima. Provavelmente, a polícia mais violenta do mundo enxerga nessas ações um desrespeito ao monopólio que exerce no julgamento e execução sumários.

Há quem veja nessas ações o povo fazendo “justiça com as próprias mãos”. Mas não há qualquer justiça envolvida nessas iniciativas. É apenas a sociedade castigando a si mesma, diária e rotineiramente avançando para a barbárie social.

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5 de julho de 2015

A maioridade penal e o código de Hamurabi

Antonio Prata deixou de lado seu tom bem-humorado ao escrever sobre a redução da maioridade penal em sua última coluna na Folha. Incomodado, disse que os autores e defensores da proposta querem apenas vingança, sangue, “cabeças rolando”.

Por isso, apelida a medida de “emenda de Hamurabi”, em referência à famosa Lei de Talião,
bem resumida no dito popular “olho por olho, dente por dente”.

No entanto, a justa indignação do colunista comete injustiça contra a legislação criada pelo rei da Babilônia, 1.700 anos antes de Cristo. O código inovava ao
determinar que uma ofensa fosse retribuída de forma proporcional. Um tapa na cara, por exemplo, deveria ser retribuído com outro tapa na cara e não com uma paulada na cabeça.

Além disso, a regra procurava impedir que ricos e poderosos impusessem castigos desproporcionais à ofensa sofrida. Um plebeu que, digamos, desse uma bofetada em um nobre jamais deveria receber como penalidade a mutilação ou a morte.

Cerca de 1/3 de nossos presidiários nem mesmo foram condenados pela Justiça. Quase todos pretos e pobres. E dentre os condenados, a maioria cometeu crimes como roubos e fraudes. Mas uns e outros recebem como punição penas hediondas como tortura, estupro e até decapitações dentro dos cárceres.  

A redução da maioridade penal tem pouco a ver com fazer justiça. Seu objetivo maior é punir desproporcionalmente os mais indefesos. Implica internar mais pessoas em um sistema prisional que obedece a uma lógica anterior ao ancestral código babilônico. Nele, o tapa na cara que o suspeito pobre recebeu do policial na rua se transforma na vingança mais estúpida.

Leia também: Poços para sepultar a infância

21 de junho de 2015

Poços para sepultar a infância

No Congresso, avança a proposta de redução da maioridade penal. Agora, com a colaboração do governo de plantão, que defende proposta no mesmo sentido, concebida juntamente com a oposição conservadora.

Enquanto isso, em 20/06, no Globo, reportagem de Renata Mariz revelava o estado calamitoso das unidades de internação de crianças e adolescentes pelo país. Muitas delas com superlotação e misturando menores com portes físicos e tipos de infração diferentes, o que é proibido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.

Na mesma edição do Globo,
Raphael Kapa publicou matéria sobre a descoberta de 450 ossadas de bebês enterradas há milhares de anos em Atenas. Estavam em um poço, muitas delas com sinais de violência, inclusive sexual.

Segundo Susan Rotroff, professora da Universidade de Washington e uma das responsáveis pelo estudo das ossadas, a mortalidade materna era muito grande na antiguidade grega. Por isso, evitava-se o apego exagerado aos pequenos. Além disso, crianças não saudáveis eram um grande fardo, sendo muitas vezes abandonadas. Na verdade, diz ela:

... a infância não era algo tão idealizado quanto é em nossa sociedade. A pesquisa também mostra a relação desses atenienses não só com a morte, mas com o próprio espaço público. Esse poço estava no centro cívico, perto de residências e do comércio. Isso mostra que essas crianças não eram vistas como pessoas, propriamente, uma vez que não passaram pelos mecanismos de integração à família e à cidade.

O trecho acima não está distante de valer também para uma sociedade cujos setores dirigentes buscam condenar grande parte de sua infância a sepultamentos muito semelhantes. Os poços, nós já temos.

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18 de junho de 2015

A vocação conservadora da classe média brasileira

Politicamente, a classe média costuma ser objeto do ódio da esquerda e de defesa interesseira pela direita. Mas, sociologicamente, aversão ou bajulação em nada ajudam a esclarecer esse conceito, sempre tão complicado.

Em um trecho do ensaio de crítica literária “Ao vencedor as batatas”, Roberto Schwarz dá algumas pistas para compreender o lugar da classe média na formação da estrutura de classes brasileira:

Esquematizando, pode-se dizer que a colonização produziu, com base no monopólio da terra, três classes de população: o latifundiário, o escravo e o ‘homem livre’, na verdade dependente (...). Nem proprietários nem proletários, seu acesso à vida social e a seus bens depende materialmente do favor, indireto ou direto, de um grande. (...) O favor é, portanto, o mecanismo através do qual se reproduz uma das grandes classes da sociedade, envolvendo também outra, a dos que têm. Note-se ainda que entre estas duas classes é que irá acontecer a vida ideológica, regida, em consequência, por este mesmo mecanismo. Assim, com mil formas e nomes, o favor atravessou e afetou no conjunto a existência nacional, ressalvada sempre a relação produtiva de base, esta assegurada pela força. (...) O favor é a nossa mediação quase universal – e sendo mais simpático do que o nexo escravista, a outra relação que a colônia nos legara, é compreensível que os escritores tenham baseado nele a sua interpretação do Brasil, involuntariamente disfarçando a violência, que sempre reinou na esfera da produção.

De fato, grande parte de nossa classe média mostra-se prisioneira dessa mistura de favor e violência, herança escravista e produção sob coação. Uma síntese profundamente conservadora e antipopular.

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27 de maio de 2015

A antiga conspiração das facas

Acumulam-se provas de que há uma conspiração por trás dos recentes ataques a faca na cidade do Rio de Janeiro. Muito provavelmente, trata-se de um conluio composto por bandidos temerários e terríveis facínoras.

Entre seus ancestrais, os senhores de escravos. Os mesmos que administraram a abolição da servidão tão habilmente que mantiveram seus privilégios e arrancaram a seus ex-cativos toda possibilidade de encontrarem trabalho digno.

Em seguida, vieram os coronéis e o domínio pelo cabresto da ignorância e da crueldade. Os industriais foram os próximos. Graças aos primeiros são capazes de superexplorar nas cidades os que foram expulsos do campo por falta de lavouras e pastos de onde tirar seu sustento.

Da conjuração sempre participaram decisivamente todos os governantes. Democratas ou ditadores, jamais nenhum deles ameaçou os interesses dos proprietários de gente, dos parasitas de operários e dos vampiros de trabalhadores.

A proteger tão brutal conspiração, um aparelho policial criado para caçar fugitivos do cativeiro e aperfeiçoado no massacre de trabalhadores revoltados pela fome. Especializado na tortura e assassinato dos rebeldes ou simplesmente daqueles nascidos na pobreza.

Mas os encarregados de fazer o trabalho mais sujo não são os que portam facas, nem são somente ladrões de bicicletas. Também não se resumem às organizações chocadas nos serpentários em que se transformaram as prisões do País.

Realmente decisiva para o sucesso dessa mancomunação trevosa é a vergonhosa submissão de alguns animais que julgam habitar regiões superiores. São os urubus senis da mídia e os morcegos de morada antiga ou recente nos palácios e parlamentos.

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23 de novembro de 2012

Classe média, conservadorismo e conformismo

“Classe média prefere eficiência a democracia”, diz o título de reportagem de Lisandra Paraguassu, publicada no Estadão, em 13/11. Trata-se de uma pesquisa feita pelo instituto Data Popular voltada para esse suposto grupo social.

Segundo a matéria, a enquete mostrou que 51% dos entrevistados concordam com a frase: "Prefiro uma ditadura competente do que uma democracia incompetente". Por outro lado, 67% dos entrevistados concordariam com a afirmação: “meu voto pode melhorar a política brasileira”.

O diretor do Data Popular, Renato Meirelles, conclui que se trata mais de “uma cobrança pela ineficiência do Estado do que um saudosismo da ditadura." De fato, uma pesquisa desse tipo está sujeita a todo tipo de interpretações e imprecisões. A começar pela definição do que seja “classe média”.

Mas o estudo sinaliza um fenômeno perigoso. A chamada “classe média” não é necessariamente conservadora. Expressivas parcelas dela ajudaram no crescimento do próprio PT. O problema é quando esse setor é conquistado pelo individualismo consumista. Passa a desprezar as saídas coletivas e a solidariedade às lutas dos explorados.

De um lado, o crescimento da capacidade de consumo, do emprego e da renda familiar. De outro, o individualismo consumista impera. Ninguém mais exige serviços públicos de qualidade. O objetivo é ganhar o bastante para pagar plano de saúde, escola particular, previdência privada, transporte individual.

Os governos petistas têm grande responsabilidade nisso. Alegam que pode haver harmonia entre empresários e trabalhadores. Os problemas virão quando os poderosos resolverem romper esse namoro fajuto na base da porrada. Poderão contar com a omissão e a cumplicidade de milhões de explorados desmobilizados e acomodados.

22 de novembro de 2012

Consumo e conservadorismo convivem muito bem

Da coluna de Ancelmo Gois, publicada no Globo em 18/11:

O site de compras de passagens Vai Voando começará, em 2013, a vender bilhetes aéreos em quiosques em 150 favelas do Rio. Fechou parceria com a Central Única de Favelas.

O Banco do Brasil, a 20 dias de completar um ano na Rocinha, comemora a abertura da milésima conta corrente no morro. As agências da Cidade de Deus e do Complexo do Alemão, abertas em janeiro de 2011, já superaram a marca. O volume de empréstimos nas três favelas, acredite, chega a R$ 8 milhões.

Ainda segundo Gois, a Rocinha “vai ganhar a sua primeira sexshop”. Tudo isso sinaliza um expressivo aumento na renda dos mais pobres. Mas não é algo que mereça muita comemoração.

Ao contrário, a ampliação do direito de consumir pode levar a uma espécie de conformismo que mantém os direitos mais básicos no péssimo patamar em que se encontram. Estamos falando de saúde pública, educação de qualidade, respeito às leis trabalhistas e aposentadoria digna.

Ao mesmo tempo, o lado perverso de nossa sociedade continua forte e vigoroso. É o que mostra o título de reportagem de Raimundo Oliveira, publicada pela Rede Brasil Atual, em 19/11: “Ascensão social faz aumentar casos de racismo em shoppings e universidades”.

Segundo a matéria, “pessoas negras enfrentam discriminação e preconceito em ambientes antes frequentados apenas por brancos”. Na verdade, o capitalismo convive muito bem com o conservadorismo. Ambos se alimentam e preservam um ao outro.

Leia também: Preconceito racial e consumo