Doses maiores

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10 de maio de 2016

E o cadáver se mexeu!

Em “Uma esquerda para o capital”, Eurelino Coelho aponta como principal causa da transformação do PT em partido da ordem capitalista o abandono do marxismo por parte de suas principais lideranças.

Os dirigentes petistas teriam feito essa opção, diz Coelho, porque, entre outras coisas, consideraram a ruína das experiências ditas “socialistas” uma prova do fiasco das teses de Marx.

O marxismo seria uma ideologia autoritária ou, na melhor das hipóteses, utopia irrealizável. A justificar teoricamente esta conclusão uma mistura de pós-modernismo e liberalismo, anunciando a eternização do capitalismo e a necessidade de suavizá-lo.

No lugar do socialismo, uma versão muito fraca do reformismo europeu a ser implantado quando o PT conquistasse o governo central. Segundo o texto:


...ao invés de políticas gerais de distribuição de renda, exigidas por uma classe trabalhadora fortalecida e organizada, o que restou do ideário social-democrata foram políticas focalizadas de efeito compensatório, concedidas a uma classe derrotada.

Foi o que se viu concretizado nos governos petistas, com programas governamentais e sociais quase sempre intermediadas pelo mercado. Mas, como diz Coelho:


O principal obstáculo é a dificuldade para acertar um acordo duradouro de colaboração pacífica entre capital e trabalho em torno de políticas distributivistas.

Estas palavras publicadas em 2005 se confirmam hoje tragicamente. Aos primeiros sinais de crise, o capital apunhalou o PT pelas costas. Bem na hora que o partido se dedicava a promover o ajuste neoliberal exigido pela burguesia.

Eis que, quase no fim de nossa autópsia, o cadáver se mexe. Mas é o monstro da barbárie capitalista que sai das entranhas secas do petismo combativo. Sujo, fétido e mais forte.

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9 de maio de 2016

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Em seu estudo “Uma esquerda para o capital”, Eurelino Coelho aborda a transformação do PT em partido da “esquerda do capital”. A hipótese central do autor para explicar esse processo seria o abandono do marxismo por parte de seus dirigentes e intelectuais.

O fato de que a pluralidade política do PT jamais permitiu que se reivindicasse como organização marxista não invalidaria a hipótese. Muitas de suas maiores lideranças durante a fase de consolidação do partido se consideravam marxistas. É o caso de José Dirceu, maior liderança do grupo dirigente abaixo de Lula, e de José Genoino, principal referência da esquerda petista nos primeiros anos do partido.

Assim, o projeto político inicial do PT teria sido marcado por algumas “coordenadas gerais do marxismo”. Seriam elas a organização política independente do proletariado, a luta pelo poder e a “desnaturalização das relações sociais burguesas”.

Sob a influência dessas “coordenadas” a maioria dos petistas se recusava a ficar a reboque de outros partidos, especialmente os “controlados pelos patrões”. Também repudiava a ideia de que não havia alternativa ao capitalismo nem a suas relações hierárquicas e autoritárias, incluindo a disputa pelo poder como monopólio dos profissionais da política.

O gradual abandono desses referenciais pelos dirigentes ou figuras-chave do PT explicaria a renúncia à disposição combativa que caracterizou sua formação. Na verdade, sobraria como princípio apenas a disputa pelo poder. Em nome desse objetivo, passaram a ser feitas alianças com setores conservadores e o partido domesticou sua atuação frente à ordem capitalista.

Ou seja, podemos deduzir como causa muito provável da morte que estamos investigando baixíssimos índices de marxismo.

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6 de maio de 2016

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Voltamos à triste tarefa de dissecar o cadáver do petismo combativo. Ainda acompanhados das contribuições do estudo “Uma esquerda para o capital”, de Eurelino Coelho.

Desta vez, abordando a burocratização que tomou conta do PT. Segundo Coelho:

Normalmente os postos burocráticos exercem certa atração exatamente pela possibilidade de assegurar vantagens materiais que não estão ao alcance do conjunto da classe. Sobre os ocupantes de tais postos, portanto, existe sempre a pressão no sentido de sobrepor os objetivos ligados às necessidades de reprodução da própria organização (de que dependem as suas vantagens pessoais) aos objetivos gerais de toda a classe...

Mas essa situação, diz o autor, poderia ser evitada “por formas de organização e por práticas que soldem a atividade da organização (...) com a experiência real vivida pela classe, suas lutas e suas vicissitudes”.

O grande problema no caso petista foi a prioridade que seus setores dirigentes dispensaram ao caminho eleitoral. Segundo o texto, o PT cresceu, ininterruptamente, em praticamente todas as eleições, entre 1982 e 1998. Resultado, o campo dirigente do partido:

...considerando as três esferas do Estado, seguramente ultrapassou, já em 1992, a casa da dezena de milhar de postos burocráticos remunerados ocupados por militantes profissionais.

Coelho alerta que “ocupar postos no Estado burguês, por si só, não implica romper os vínculos com a classe trabalhadora. Há inúmeros exemplos de participação de organizações revolucionárias em parlamentos”.

É verdade. Mas não são poucos os prejuízos políticos causados pela dependência das disputas institucionais. É o que prova nosso cadáver, que continua insepulto e cobrando diagnósticos que ajudem a evitar novos óbitos motivados pelas mesmas moléstias.

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5 de maio de 2016

Uma autópsia do PT combativo

Fazer uma “autópsia” da vocação contestadora do PT é fundamental para a esquerda que não se deixou render. Pelo menos, para tentar evitar o mesmo fim melancólico.

Nesse sentido, são valiosas as contribuições de “Uma esquerda para o capital”, tese acadêmica de Eurelino Coelho, transformada em livro em 2012.

A pesquisa concentra-se na atuação de duas correntes políticas no interior do PT. Uma, a Articulação, que dirige o partido e reúne líderes como Lula, Aloísio Mercadante e José Dirceu. A outra, o Partido Comunista Revolucionário (PRC), de José Genoino e Tarso Genro, que mais tarde se tornaria a Democracia Radical.

A corrente lulista sempre foi a mais moderada, comparada às outras tendências petistas. Já o PRC, surgiu como agrupamento da esquerda revolucionária. Por anos, elas divergiram radicalmente quanto aos rumos do partido.

Mas, no início dos anos 1990, elas se aproximaram bastante, com a corrente de Genoino assumindo posições políticas que ficavam, inclusive, à direita da Articulação.

A atuação das duas forças teria sido fundamental na preparação do PT para assumir o governo federal com um projeto rendido à lógica neoliberal.

Elemento importante nessa trajetória foi o abandono do caráter classista da atuação petista. Em seu lugar, lideranças dos dois agrupamentos defendiam “valores éticos” e o “governo para todos”.

O grande teste para esses posicionamentos aconteceu em 1994. A campanha eleitoral de José Dirceu ao governo paulista recebeu doações da Odebrecht. Mas a crise no grupo dirigente do partido não envolveu o financiamento em si, apenas acusações de corrupção contra a empreiteira.

O abandono do classismo logo levaria à frouxidão ética. Depois, à mesa de dissecação.

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4 de maio de 2016

O partido dos tamanduás

As causas que levaram o PT à terrível crise por que vem passando precisam ser debatidas pelo conjunto da esquerda.

Uma ótima contribuição nesse sentido é a tese de doutorado de Eurelino Coelho, “Uma esquerda para o capital”, defendida em 2005 e transformada em livro em 2012.

O estudo mostra a gradual transformação do PT de partido de contestação da ordem em seu dedicado defensor. Um importante elemento nessa trajetória seria o abandono do princípio da independência de classe.

Em 1981, por exemplo, com apenas um ano de existência, o PT era assim descrito em um cordel elaborado por militantes do Piauí:

Um partido que é do povo/ sem pelego, sem patrão/ sem luxo, sem mordomia,/ sem furto, sem corrupção/ onde não se compra voto/ e nem se vende ilusão.
Existem outros partidos/ todos da “oposição”/ e por trás de cada um/ está oculto um patrão/ cuidado trabalhador:/ escute, preste atenção.

No mesmo ano, o setor agrário do PT de Minas Gerais lançou uma cartilha em quadrinhos com o título “Partidos das Formigas (Tamanduá não entra)”.

Na campanha eleitoral de 1982, diz o texto, vários candidatos petistas em todo o país distribuíam panfletos de campanha que diziam “Quem bate cartão, não vota em patrão”.

Como se sabe, hoje a situação é bem diferente.

Claro que esse não é o único elemento a explicar a atual situação vergonhosa do partido. E, realmente, o estudo de Coelho vai muito além disso. Por isso, vale a leitura.

Mas o fato é que, mesmo que ainda restem algumas formigas nas bases petistas, o partido está entregue aos tamanduás.

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