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25 de março de 2025

Do identitarismo judeu ao identitarismo econômico

Hannah Arendt costumava dizer que “se você é atacado como judeu, é preciso se defender como judeu. Não como alemão, ou cidadão do mundo ou pelos direitos humanos, ou algo assim...”

A frase foi citada por Naomi Klein em seu livro “Doppelgänger” para mostrar como a opressão obriga suas vítimas a reduzir a complexidade e multiplicidade de sua condição humana a algumas poucas dimensões.

Basta trocar a condição de judeu pela de mulher, negro, indígena, homossexual, para termos uma ideia de como a hegemonia dominante aprisiona, divide e amesquinha as lutas das classes subalternas.

Como diz Naomi, “qualquer divisão identitária pode ser instrumentalizada para cumprir essa função: judeus contra negros, negros contra asiáticos, muçulmanos contra cristãos, feministas contra transexuais, imigrantes contra nacionais”.

A autora também cita Rosa Luxemburgo. Judia como Hannah, Rosa dizia que os judeus perseguidos a preocupavam exatamente na mesma medida que “as vítimas das plantações colombianas ou o povo negro da África escravizado pelos europeus”. “Não tenho um lugar especial no meu coração para o gueto judeu, disse ela. Me sinto em casa, em qualquer parte do mundo, onde há nuvens, pássaros e pranto humano”.

Mas é a exploração capitalista que cria o mais universal e redutor dos identitarismos. Aquele que rebaixa bilhões de pessoas à condição de meras vendedoras de força de trabalho e compradoras de mercadorias, privando-as dos elementos culturais que as tornam humanas.

Restringir o combate anticapitalista a lutas fragmentadas ou à falsa generalidade da resistência à exploração econômica é reduzir imensamente as possibilidades da emancipação humana universal.

As pílulas vão sofrer uma pausa de algumas semanas.

Leia também: Como se desperta um demônio

4 de março de 2024

Fé e fuzil: espiritualidade, religião e emancipação humana

Se quiserem ter uma ideia sobre o que eram as primeiras comunidades cristãs, observem uma seção local da Associação Internacional de Trabalhadores.

A frase acima é de Joseph-Ernest Renan, filósofo francês do século 19. Ele se refere à chamada I Internacional, que teve entre seus fundadores Marx e Engels. E é este último que cita Renan em sua obra “Contribuição para a História do Cristianismo Primitivo”, buscando mostrar o potencial emancipador das primeiras comunidades cristãs.

Rosa Luxemburgo faz o mesmo em “O Socialismo e as Igrejas”. Ela transcreve, por exemplo, a passagem bíblica de "Atos dos Apóstolos", em que a primeira comunidade de Jerusalém é descrita desse modo:

Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos Apóstolos. E a cada um era distribuído de acordo com a sua necessidade.

Essas passagens ajudam a mostrar como as contradições da luta de classes atravessam as mais variadas esferas das sociedade, em épocas e situações  mais díspares. Vivemos um momento em que a religião é fortemente utilizada por projetos autoritários. É o que evidencia o livro “A Fé e o Fuzil”, de Bruno Paes Manso, que comentamos nas últimas pílulas.

Mas Manso também mostra que há muita gente atuando em defesa da fraternidade e da justiça social nas várias denominações religiosas. Além disso, o ateísmo ou agnosticismo são igualmente capazes de alimentar fundamentalismos.

Se a espiritualidade é uma importante afirmação da condição humana, a religiosidade que justifica a exploração e a opressão nas relações sociais é sua negação.

Leia também: Fé e Fuzil: o crime como modo capitalista de funcionamento

3 de junho de 2023

As fake news e a realidade grávida

Combater as fake news apelando às verdades cínicas do capitalismo é trocar a farsa pelo logro. Mas se os que se aproveitam dessa falência cognitiva são os conservadores e suas tropas fascistas, é o próprio sistema que roda em falso desde que surgiu.

A burguesia nasceu bradando “liberdade, igualdade e fraternidade”. Nada mais que cantos traiçoeiros para atrair o apoio da plebe contra seus desafetos aristocratas. Uma vez no poder, os senhores endinheirados fraudaram suas promessas de emancipação generalizada.

Ao longo do tempo, essa comédia grosseira vem conseguindo envolver as forças da resistência popular. Principalmente, ao oferecer uma democracia meramente cenográfica. Diante disso, só o foco na luta de classes permite enxergar o real em meio às seduções do ilusionismo institucional.

Por outro lado, os explorados e oprimidos tampouco foram ungidos pela clarividência divina. Mas, mesmo involuntariamente, são arrastados para a luta imposta por um sistema que fabrica injustiça e frustrações em escala industrial. Nesses momentos, descobrem como combater, combatendo.

Se Marx dizia que o concreto é produto de múltiplos fatores, também chamou o proletariado mundial a se unir e lutar. E se as determinações do capital subjugam toda a humanidade, somente suas maiores vítimas podem fazer valer os elementos concretos da realidade capazes de impedir a completa instalação da barbárie.

O real não está em disputa nas redes, ainda que estas façam parte daquele. Não é embate de narrativas. É luta de classes e enfrentamento ideológico. Segundo, Rosa Luxemburgo o presente pode ficar grávido de futuro pela ação militante consciente e combativa. E é somente essa ação que pode deixar a realidade prenhe de verdade.

Leia também: Fake news e a doença terminal do capitalismo

11 de fevereiro de 2019

Rosa, ainda mais necessária que Lênin

Os erros cometidos por um movimento operário verdadeiramente revolucionário são infinitamente mais frutíferos e valiosos, historicamente falando, do que a infalibilidade do melhor "comitê central".

Esta é uma das mais conhecidas frases de Rosa Luxemburgo. Foi escrita em 1903, contra o que identificava ser uma tendência de Lênin a atribuir ao partido o papel de dono da verdade.

Em 1913, ela voltaria a escrever sobre a questão:

...através da análise teórica das condições sociais da luta, os socialdemocratas (socialistas) introduziram em um grau sem precedentes o elemento de consciência na luta de classes proletária; deram à luta de classes sua clareza de objetivos; criaram, pela primeira vez, uma organização permanente das massas trabalhadoras, configurando assim a espinha dorsal da luta de classes. No entanto, seria para nós um erro catastrófico determinar que, a partir de agora, cada iniciativa histórica do povo deve passar unicamente pelas mãos da organização partidária, e que as massas desorganizadas do proletariado se tornaram uma coisa amorfa, um peso morto na história. Pelo contrário, as massas populares continuam a ser a matéria viva da história mundial (...); somente quando há sangue circulando entre os núcleos organizados e as massas populares, apenas quando a mesma pulsação vital se faz sentir em ambos, os socialdemocratas podem se tornar capaz de grandes feitos históricos.

Em 1917, Rosa reconheceria os acertos da liderança bolchevique na tomada do poder na Rússia. Mas jamais abriu mão de suas advertências iniciais.

Aparentemente, vivemos tempos que deixaram para trás esse debate. Mas cada ação de resistência recoloca essa questão. E tornam Rosa ainda mais necessária que Lênin.

Leia também: A violência de classe, segundo Rosa Luxemburgo

28 de janeiro de 2019

Rosa Luxemburgo e a barbárie como opção

Neste janeiro, completam-se 100 anos da morte de Rosa Luxemburgo. No artigo “Rosa Luxemburgo, a marxista menos eurocêntrica?”, Isabel Loureiro afirma que a grande originalidade de sua obra não foi devidamente levada em conta pelo marxismo ortodoxo no século 20.

Trata-se da percepção de que:

...a pilhagem que ocorre nos países coloniais por parte do capital europeu”, que Marx restringia ao período da “acumulação primitiva”, é uma característica do capitalismo “mesmo em sua plena maturidade”. Nas suas palavras: “(…) já não se trata de acumulação primitiva, mas de um processo que prossegue inclusive em nossos dias. (…) O capital não conhece outra solução que não a da violência, um método constante da acumulação capitalista no processo histórico, não apenas por ocasião de sua gênese, mas até mesmo hoje”.

Passados cem anos, só aumentaram as evidências desse uso sistemático da violência nos processos de acumulação capitalista. Uma realidade ainda mais verdadeira para os muitos países que passaram pela catástrofe social e cultural que representou a dominação colonial.

Vários desses países estão, agora, sob governos cuja resposta a essa realidade violenta são políticas de aniquilação que atingem, principalmente, os mais pobres e indefesos. Mas não só, como mostram, no Brasil, o assassinato de Marielle e as ameaças de morte a outras lideranças de esquerda.

É preciso lembrar, porém, que Rosa foi executada covardemente em plena Europa, sede dos maiores impérios coloniais da época.

A grande revolucionária alemã dizia que a humanidade está diante da escolha entre socialismo ou barbárie. Sua própria morte é um dos muitos indicadores de que a opção dominante no capitalismo sempre foi pela barbárie.

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23 de janeiro de 2018

Vale do Silício, Rosa Luxemburgo e Marx

“Empresas do Vale do Silício, antes vistas como inovadoras, são hoje gigantes e alvo da desconfiança das pessoas”, diz Cora Rónai em sua coluna no Globo de 02/01/2018.

É só mais um dos muitos artigos na grande imprensa a demonstrar grande decepção com arrojados rapazes e suas “startups”. Este último termo refere-se a iniciativas empresariais criativas movidas pela ambição de ganhar muito dinheiro.

Na verdade, desse impulso surgem novos modos de explorar trabalho alheio. Seja por serviços como o Uber, seja pela venda dos dados pessoais de bilhões de pessoas.

Mas nada disso é novo. Em certo momento da história do capitalismo, muitos acreditavam que as pequenas empresas desapareceriam. Restariam apenas as corporações gigantes.

Uma das primeiras a se rebelar contra tal ideia foi Rosa Luxemburgo. Em “Reforma ou Revolução?” ela destaca o importante papel dos pequenos capitais na dinâmica capitalista. Eles seriam:

...pioneiros da revolução técnica de maneira dupla: no respeitante a novos métodos de produção nos setores antigos fortemente enraizados; e pela criação de novos setores de produção inexplorados pelos grandes capitais.

Mas não se trata apenas de mais um aspecto da produção capitalista. Ele é fundamental para a sobrevivência do sistema. É o que diz Marx em “O Capital”:

Assim que a formação do capital caísse totalmente nas mãos de um grupo de grandes capitais totalmente constituídos, o fogo vivificador da produção extinguir-se-ia – entraria em torpor.

Portanto, a onda de inovações simbolizada pelo Vale do Silício não é a primeira nem será a última. E a próxima, como a atual, será só mais uma nova forma de manter a velha exploração de classe.

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Tudo o que é sólido termina em exploração

4 de dezembro de 2017

Rosa Luxemburgo e a sabedoria da toupeira parlamentar

Em seu artigo “A Revolução Russa”, Rosa Luxemburgo faz críticas firmes, ainda que fraternas, a algumas das primeiras medidas tomadas pelo governo bolchevique.

Mas outro alvo importante do texto são as direções do Partido Comunista alemão. Elas não apenas deixaram de fazer a revolução em seu país como condenaram a Revolução Russa por sua “imaturidade”. Para esses reformistas, era preciso esperar, primeiro, a conquista da maioria do povo para, depois, tomar o poder.

A isto, Rosa responde:

Os bolcheviques resolveram assim a célebre questão da “maioria do povo”, pesadelo que sempre oprimiu os socialdemocratas alemães. Pupilos incorrigíveis do cretinismo parlamentar simplesmente transpõem para a revolução a sabedoria caseira do jardim de infância parlamentar: para fazer alguma coisa, é preciso ter antes a maioria. Portanto, o mesmo para a revolução: conquistemos primeiro a “maioria”. Mas a dialética real das revoluções inverte esta sabedoria de toupeira parlamentar: o caminho não conduz da maioria à tática revolucionária, ele leva à maioria pela tática revolucionária. Apenas um partido que saiba dirigir, isto é, fazer avançar, ganha seus seguidores na tempestade. A resolução com que Lênin e seus companheiros lançaram no momento decisivo a única palavra de ordem mobilizadora – todo o poder ao proletariado e campesinato – fez, praticamente de um dia para o outro, de uma minoria perseguida, caluniada, “ilegal”, cujos dirigentes (...) precisavam esconder-se nos porões, a dona absoluta da situação.

Não se trata de acreditar na clarividência de vanguardas. A “resolução de Lênin e seus companheiros” estava ancorada em muitos anos de forte trabalho de base junto a trabalhadores e população pobre.

Não é receita, mas fica a dica.

30 de novembro de 2017

Rosa Luxemburgo: o futuro pertence ao “bolchevismo”

Em setembro de 1918, Rosa Luxemburgo escreveu algumas notas que ficaram conhecidas pelo título “A Revolução Russa”. O texto faz uma crítica fraternal, mas muito firme, de várias medidas tomadas pelos bolcheviques em seus primeiros meses de governo.

As divergências de Rosa se relacionam, especialmente, às questões agrária e das nacionalidades, assim como ao que ela considerou serem restrições à liberdade política dos trabalhadores.

Mas pessoas muito próximas à autora, como Clara Zetkin, afirmaram que estas críticas já vinham sendo revistas por ela mesma. Afinal, Rosa fez suas anotações no isolamento de um cárcere alemão, com acesso restrito aos detalhes sobre a situação na Rússia.

Além disso, o texto veio à luz em 1922, três anos após a morte de Rosa. O responsável pela publicação foi Paul Levi, que travava uma luta ideológica com a direção do Partido Comunista alemão. Fator que, certamente, pesou mais do que qualquer respeito às preocupações teóricas de sua autora.

De qualquer modo, no final do texto Rosa reconhece o acerto da ousadia política dos bolcheviques durante o processo revolucionário russo. “Nesse sentido”, ela faz questão de enfatizar:

...o que permanece seu mérito histórico imperecível é que conquistando o poder político e colocando o problema prático da realização do socialismo abriram o caminho ao proletariado internacional e fizeram progredir consideravelmente o conflito entre capital e trabalho no mundo inteiro. Na Rússia, o problema só podia ser posto. Não podia ser resolvido na Rússia, ele só pode ser resolvido em escala internacional. E, nesse sentido, o futuro pertence em, toda parte, ao “bolchevismo”.

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