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1 de abril de 2020

Pandemia e oportunismo: militarização e exploração

"O mundo nunca mais vai ser o mesmo após a pandemia”, dizem todos diante da crise causada pelo coronavírus-19. É verdade. Mas se depender da vontade de quem manda nele, será ainda pior.

Mais desemprego, mais empregos informais, mais ocupações precarizadas, mais uberização das relações trabalhistas.

Mas não só.

“Estamos enfrentando uma guerra”, dizem governantes e grande mídia. Sob esse pretexto, estão militarizando ainda mais a vida social.

O modelo é a China, com seu sistema de detecção de febre por meio de câmeras. Com sua certificação de saúde física por aplicativos. Com seu sistema de crédito social, que, agora, não mede apenas o bom comportamento dos cidadãos, mas sua limpeza.

O toque de recolher já existia nas favelas e periferias pobres daqui e de outros lugares do mundo. Imposto pelo crime, seja ele organizado pela polícia ou não, agora, pode fingir ser legítimo como uma inocente campanha de vacinação.

“Vivemos uma exceção”, reafirmam grande mídia e governantes. Mas esse estado de crescentes restrições democráticas já vinha se impondo desde as jornadas de Junho de 2013, aqui, e desde outras revoltas em muitos outros lugares do mundo.

Contra a democracia racionada e a frustração das promessas de prosperidade para todos, largos setores da população responderam com revoltas em muitos países. Como resposta, receberam a criminalização de sua rebeldia.

Antes, era possível ocupar as ruas, ainda que fosse desaconselhável. Agora, será proibido.

O coronavírus gerou a oportunidade perfeita para o avanço rumo a um estágio mais extremado de repressão e abuso econômico. O capitalismo não estava preparado para essa pandemia. Seu sistema de dominação e exploração, sim.

Leia também: Pandemia e oportunismo: trabalho precarizado

18 de março de 2020

Coronavírus-19: o que mais está sendo incubado?

Raquel Varela é uma historiadora portuguesa muito combativa. Em seu blog, publicou uma nota importante sobre uma proposta em discussão em Portugal:

...declarar-se o Estado de emergência é um grave erro, vamos arrepender-nos se o permitirmos. Nós já suspendemos, contra o Governo, a circulação e o contacto, as ruas estão vazias, deprimentemente vazias. As lojas e restaurantes fecham porque não há clientes. Nem nas praias nos aglomerámos (...), nem nos jardins, nem nos passeios, todos estão afastados de todos. Tristes mas seriamente afastados. O que precisamos é que fechem os grandes lugares de trabalho não essenciais, e deixem os outros essenciais a laborar protegidos. Não precisamos nem devemos aceitar qualquer suspensão constitucional de direitos, porque a seguir a isto vem uma crise económica, que já estava engendrada, vêm os cortes de salários, mas com proibição de reuniões sindicais, direito de associação, que é isso que significa o Estado de emergência.

E concluiu, alertando:

Todos os sindicatos devem opor-se a isto frontalmente. A Ordem os Advogados, o Ministério Público. Todos os que sabem o que está em jogo, para além do medo. O Estado de emergência é contra as greves, não é contra o COVID.

Ela fala de um país sob um governo de centro-esquerda, reeleito recentemente após rejeitar a austeridade neoliberal como saída para a crise econômica. Este nem de longe é o nosso caso. Além disso, por aqui, nem é preciso decretar um “estado de emergência” para que direitos constitucionais sejam ignorados.

O governo Bolsonaro acaba de publicar portaria autorizando uso de força policial para forçar quarentenas e isolamentos. Algo muito ruim está sendo incubado.

17 de setembro de 2013

UPPs: os “smurfs” mostram as garras

“Caso Amarildo: Dois meses depois, 'ninguém sabe, ninguém viu', diz esposa”. Este é o título de  reportagem de Júlia Dias Carneiro publicada pela BBC Brasil, em 15/09. Desde 14 de julho, Elizabete Gomes da Silva e os seis filhos nada sabem do pedreiro que desapareceu na Rocinha.

Milhares de protestos no Brasil e no mundo cobraram "Onde está o Amarildo?" Grandes jornais estrangeiros como New York Times e Le Figaro divulgaram o caso. Mas nem a polícia espera encontrar o pedreiro com vida. Trabalha com duas possibilidades: crime cometido por traficantes ou por policiais militares. Deveria pensar também em crime cometido por policiais em conjunto com traficantes.

À BBC, Elizabete diz que “vem sendo intimidada por policiais e já foi chamada de ‘safada’ e ‘abusada’ ao passar por eles nas vielas da favela”. Seu crime?

Os policiais não gostaram da atitude que a gente tomou. Porque quantos Amarildos já morreram? Quantas pessoas não morreram dentro do morro, e a família não falou nada por medo? A gente botou a boca no trombone, protestou, fechou boca de túnel, entrou ao vivo na TV. Estamos gritando e pedindo justiça.

Até que demorou para que as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) mostrassem sua verdadeira face. Não para os moradores das comunidades onde foram instaladas. Estes já sentem na pele há muito tempo. Agora, o mundo sabe. A pacificação que elas trouxeram é a da repressão, tortura e morte.

Os policiais das UPPs eram chamados de “smurfs” pelo resto da corporação. Seriam otários “dando mole” para “bandidos e vagabundos”. Já podem se sentir respeitados por seus colegas de farda.