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18 de abril de 2020

Pandemia e oportunismo: parasitismo

Richard Lewontin e Richard Levins publicaram o artigo “Ciência e marxismo: uma abordagem dialética da saúde pública” antes da atual pandemia.

Marxistas e pesquisadores da Universidade de Harvard, os autores mostram como a saúde pública precisa ser abordada no interior de uma totalidade. Mais especificamente, no contexto da forma destrutiva com que capitalismo se relaciona com o ambiente planetário.

Um exemplo dessa visão totalizante aparece no trecho em que os autores destacam fato de que os estudos científicos na esfera da saúde pública:

...não prestam a mínima atenção na evolução ou na ecologia das interações entre as espécies. Os teóricos da saúde pública falharam em perceber que o parasitismo é um aspecto universal na evolução da vida. Em geral, os parasitas não lidam muito bem com a terra ou a água, portanto, se adaptam a habitats especiais, o interior de outro organismo. Evitam competição (quase completamente), mas têm que lidar com as exigências parcialmente contraditórias do novo ambiente: onde conseguir boa comida, como evitar as defesas do corpo e como encontrar uma saída e passar a outro hóspede. A evolução dos parasitas responde ao meio interno, às condições externas de transmissão e a tudo que fazemos para curar ou prevenir a doença. As grandes aglomerações de plantações, de animais ou de pessoas são novas oportunidades para as bactérias, para os vírus e os fungos, que logo tratam de se aproveitar.
Sempre que desconsideramos essas importantes inter-relações, deixamos de combater o colapso ambiental que se aproxima.

Enquanto isso, para o inimigo, a relação está clara: menos vidas consideradas descartáveis, mais lucros para uns poucos e poderosos parasitas.

Leia também:
Pandemia e oportunismo: keynesianismo para ricos
Sobre parasitas e bichos escrotos

19 de março de 2020

Coronavírus-19 e luta de classes

Mike Davis é um escritor, militante político, urbanista e historiador estadunidense. Suas investigações dedicam-se principalmente às relações entre poder e classes sociais.

Mas entre suas maiores preocupações estão também os sérios riscos patológicos causados pela organização capitalista da produção. É o caso de recente artigo publicado pelo portal da Boitempo, sobre as relações entre a pandemia do coronavírus-19 e a luta de classes.

Um trecho é tristemente esclarecedor:

...quem dispõe de um bom plano de saúde e também tem condições de trabalhar ou lecionar de casa está confortavelmente isolado, contanto que siga com prudência as diretrizes de segurança. Funcionários públicos e outros grupos de trabalhadores sindicalizados que gozam de uma cobertura decente terão de fazer escolhas difíceis, optando entre renda e proteção. Enquanto isso, milhões de trabalhadores de baixa renda do setor de serviços, trabalhadores agrícolas, desempregados e sem teto estão sendo atirados aos lobos.

Davis também lembra o que escreveu em seu livro “O monstro bate à nossa porta”, de 2005:

O acesso a medicamentos vitais, incluindo vacinas, antibióticos e antivirais, deveria ser um direito humano, universalmente disponível a preço zero. Se os mercados não tiverem condições de fornecer incentivos para produzir tais drogas de maneira barata, então os governos e as organizações sem fins lucrativos deveriam assumir a responsabilidade por sua manufatura e distribuição. A sobrevivência dos pobres deve sempre ser prioridade sobre os lucros do grande complexo farmacêutico.

É com esse tipo de proposta que podemos transformar a tragédia social que surge no horizonte em oportunidade para emperrar a máquina de morte e doenças do capitalismo. Mas não esperemos iniciativa alguma de governos.

11 de setembro de 2018

O capitalismo devora o coração do mundo íntimo

“O capitalismo corrói a saúde mental” é o título de reportagem de Manuel Yepe, publicada por America Latina en Movimiento em 20/08/2018.

A matéria refere-se ao livro “The Inner Level” (O Nível Íntimo), dos professores de epidemiologia Kate Pickett e Richard Wilkinson, lançado nos Estados Unidos.

Entre os dados da publicação, um levantamento indica que em 28 países europeus a desigualdade aumenta a ansiedade por manter ou elevar o status social em todas as faixas de rendas.

As formas mais frequentes de enfrentar essas ansiedades, dizem os autores, são:

...as drogas, o álcool e o jogo, mediante a alimentação como reconfortante, ou por meio do consumo de status e o consumismo conspícuo. Aqueles que vivem em lugares mais desiguais são mais propensos a gastar dinheiro em automóveis caros e a comprar bens de status; e são mais propensos a ter altos níveis de dívida pessoal porque buscam demonstrar que não são “gente de segunda classe” ao possuir “coisas de primeira classe”.

Ou seja, o “remédio” a que se recorre é o mesmo que alimenta a epidemia que faz adoecer.

O estudo, diz Yepe, demonstra que “a desigualdade devora o coração do mundo íntimo e aprofunda as ansiedades sociais da grande maioria da população”.

Mas nada disso é natural. Segundo Kate e Wilkinson, “nosso passado como caçadores-coletores igualitários, cooperativos e solidários na comunidade primitiva” prova isso. Desmente a falsa ideia de que somos, por natureza, competitivos, agressivos e individualistas. Temos todas as aptidões psicológicas e sociais para viver de maneira diferente. “A desigualdade não é inevitável”, concluem eles.

Inevitável, só a resistência, diríamos nós.

Leia também: Depressão, trabalho e tempo

20 de abril de 2018

Depressão, trabalho e tempo

No livro "O Tempo e o Cão - A Atualidade das Depressões", Maria Rita Kehl procura entender como os "transtornos depressivos" se tornaram epidêmicos nas últimas décadas.

Ela acha possível que o "aumento assombroso" dos diagnósticos de depressão esteja ligado ao interesse da indústria farmacêutica em turbinar suas vendas. Mas também "pode indicar que o homem contemporâneo está particularmente sujeito a deprimir-se".

Uma das explicações para essa predisposição estaria relacionada ao tempo. Por exemplo, na Idade Média:

Havia certa solidariedade entre o tempo do trabalho, comandado pelo percurso do sol, e o restante do tempo social, comandado pela Igreja, cujos sinos indicavam o momento das orações matinais e vespertinas...

Aos poucos, no entanto, os ciclos de produção artesanal passaram a se libertar da alternância das estações. O trabalho do artesão torna-se "mais submisso à ordem que ele mesmo criara do que aos ritmos naturais". O tempo urbano do comércio substituindo o tempo da Igreja.

"O indivíduo moderno também não é senhor de seu tempo", diz Maria Rita. "A diferença é que ele já não sabe disso". O tempo do trabalho invade cada vez mais "a experiência da temporalidade". São as:

...atividades de lazer, marcadas pela compulsão incansável de produzir resultados, comprovações, efeitos de diversão, que tornam a experiência do tempo de lazer tão cansativa e vazia quanto a do tempo da produção.

Desse modo, seria possível que:

Ainda que eles não saibam disso, a inadaptação dos depressivos em relação às formas contemporâneas de aproveitar o tempo pode ser reveladora da memória recalcada de outra temporalidade, própria do "tempo em que o tempo não contava".

18 de abril de 2018

Mais ataques ao SUS

Em 13/04, o portal EPSJV/Fiocruz publicou entrevista com José Sestelo, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), sobre a criação do Sistema Nacional de Saúde. Uma proposta dos tubarões do mercado para minar o SUS.

Sestelo diz que não há novidade na proposta:

Essa pauta empresarial vem sendo veiculada publicamente há vários anos. Acho que um dos principais instrumentos de divulgação disso foi o chamado “Livro Branco da Saúde”, que foi publicado na época das eleições majoritárias, em 2014.

Ainda, segundo ele:

Existe uma estratégia retórica de se utilizar esse termo - Sistema Nacional de Saúde - não diria que em oposição ao SUS, mas quase como uma ressignificação para o que a gente chama de SUS. Porque os empresários não querem a extinção do SUS, eles querem o SUS que seja conveniente aos seus interesses, como de fato tem sido. Mas eles querem ainda mais.

O entrevistador André Antunes pede um exemplo:

Essencialmente é tornar o SUS um grande resseguro, ou seja, tudo aquilo que não for comercialmente interessante para os empresários teria algum tipo de cobertura financiada pelo orçamento público. Os casos típicos são as condições crônicas, terapia renal substitutiva, transtornos de comportamento, enfim, condições em que o usuário recorre ao sistema de maneira frequente, em que ele não vai se curar, vai viver com aquilo. Essa é a visão...

Mas não se trata de coisa só de golpistas. Para citar apenas um exemplo, em fevereiro de 2015, Dilma sancionou a Medida Provisória 656, sobre renegociação das dívidas dos clubes de futebol. Escondida nela, a abertura do setor de saúde ao capital estrangeiro.

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18 de agosto de 2016

A Saúde Pública sob novos e piores ataques

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241 trata da limitação dos gastos públicos. É mais um dos golpes do governo golpista de Michel Temer.

Patrícia Cagni publicou matéria na Agência Pública sobre a proposta, em 12/08. Em discussão no Congresso Nacional, a PEC é apresentada pela equipe econômica como necessária para controlar as despesas públicas da União.

Na verdade, a proposta representa mais uma fase na destruição dos serviços públicos. No caso da Saúde, as verbas seriam congeladas, piorando o que já está ruim:

...como a população brasileira crescerá 9% e dobrará sua população idosa em 20 anos, de acordo com as previsões do IBGE, isso exigiria um aumento real do valor destinado para a saúde; entretanto, isso não ocorrerá. Em valores reais, o mesmo montante de recursos aplicado em 2017 será aplicado em 2037, havendo apenas uma correção monetária. O resultado será uma aplicação per capita cada vez menor no SUS, já que a demanda por serviços aumentará e o financiamento não, o que implicará uma piora da oferta e da qualidade dos direitos à saúde para os brasileiros. Esse exemplo da saúde é real para todos os demais direitos: educação, previdência, assistência, transporte, todos serão cada vez mais sucateados.

O texto também cita um cálculo da assessora política do Instituto de Estudos Socioeconômicos, Grazielle David. Segundo ela, “...se a PEC 241/16 estivesse em vigor desde 2003, por exemplo, a saúde teria sofrido uma perda acumulada de R$ 318 bilhões”.

Tudo isso tem um objetivo muito claro. Aumentar o caos nos serviços públicos a pretexto de sua entrega à exploração pelo grande capital.

15 de agosto de 2016

O ministro da Saúde e os esgotos

Cada vez que Ricardo Barros dá uma declaração, impossível não pensar nos esgotos do País. É o que nos leva a concluir o artigo “Indústria da doença, lucro vertiginoso”, publicado por Leandro Farias no portal Saúde Popular, em 11/08.

Farmacêutico Sanitarista da Fiocruz, Farias afirma que “apenas 48% dos domicílios brasileiros têm coleta de esgoto”. Enquanto isso, o SUS registrou em 2013 mais de 340 mil internações por infecções gastrointestinais no país. Cada “internação por essa patologia no SUS”, diz ele, custou “cerca de R$ 355,71 na média nacional”.

Ao mesmo tempo, “a Organização Mundial da Saúde, reforça o autor, afirma que “cada R$ 1 investido em saneamento gera uma economia de R$ 4 em saúde”.

O artigo também apresenta os generosos números dos negócios que exploram a saúde pública:

De acordo com o IBGE, o único setor que não sofreu queda nas vendas em 2015 foi o de artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos, que cresceu 3%. Os números da administradora de planos de saúde Qualicorp são claros: a empresa obteve lucro de R$ 61,4 milhões só no último trimestre de 2015, apresentando um avanço de 224% em relação ao mesmo período de 2014.

Com sua obsessão por planos de saúde, Ricardo Barros é representante direto desse mercado no governo. O mesmo governo que pretende piorar a situação, privatizando o saneamento básico e entregando mais um serviço público para a exploração pelo mercado.

E nem adianta argumentar que o objetivo é estancar a imundície que vaza das fossas nacionais. Fosse essa a intenção, não teríamos o ministro da Saúde que temos.

Leia também: Contra o impeachment... do SUS

1 de abril de 2015

Contra o impeachment... do SUS

   Raphael
Estamos vivendo um movimento de impeachment do SUS. Junto com a entrada do capital estrangeiro, temos que discutir a recente constitucionalização do subfinanciamento do SUS, com subtração de recursos. E agora a PEC 451 que propõe a obrigatoriedade de empregadores fornecerem planos de saúde. Acho que temos que ter uma agenda mais ampliada, discutir se esse padrão de privatização com essa extensão e com essa velocidade será compatível com a sustentabilidade e a perenidade do SUS. Há gente estudando Atenção Básica, Mais Médicos, etc., mas tem que haver uma discussão do possível início do fim do SUS. 

As palavras acima são de Mario Scheffer, professor de Medicina da USP. Foram ditas no seminário “A Gestão da Saúde no Brasil”, recentemente promovido pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva e Fundação Getúlio Vargas.

A denúncia de Sheffer refere-se à forma como a saúde pública vem tendo sua gestão privatizada de uma forma tão inteligente quanto nociva. Não se trata de desestatizar o patrimônio público, mas de disponibilizá-lo para que o setor privado lucre em prejuízo do atendimento digno à população.


Essa situação vem acontecendo desde o governo Fernando Henrique, quando foram aprovadas as Organizações Sociais. Foi reforçada pelo governo Lula com as
Parcerias Público-Privadas. A colaboração de Dilma veio com a abertura do setor ao capital estrangeiro através de uma recente Medida Provisória.

Todas essas medidas são incompatíveis com os direitos incorporados à Constituição de 1988. Sua ilegalidade escandalosa seria suficiente para ter levado ao impeachment tanto governos tucanos como petistas. Mas foi soterrada pelo moralismo conservador que só enxerga a corrupção divulgada pelas páginas dos jornais.


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Abram alas para o capital estrangeiro na Saúde

3 de fevereiro de 2015

Abram alas para o capital estrangeiro na Saúde

Muito antes do carnaval, já havia gente usando máscaras. E, justo agora, que a folia se aproxima, resolveu deixá-las cair.

O exemplo mais recente foi a sanção da Medida Provisória 656 pela presidenta Dilma. O caso ganhou repercussão devido ao veto à imoral renegociação das dívidas dos clubes de futebol embutida na MP.

Mas pouco se falou de outro artigo da MP, aceito sem maiores problemas. Trata-se da abertura do setor de saúde ao capital estrangeiro. Uma medida inconstitucional e extremamente negativa para a saúde pública do País.

O governo alega que o capital estrangeiro já vem participando do setor há muito tempo. A nova lei teria apenas regulamentado uma situação de fato. É verdade. É o que mostra, por exemplo, a entrada no Brasil dos grupos Carlyle e UnitedHealth. E este último já chegou comprando a Amil.

O problema é que esta invasão de dinheiro forasteiro já deveria ter sido questionada pelas autoridades por sua total ilegalidade. Ao invés disso, preferem usá-la para dizer que, arrombada a porta, deixemos que os invasores fiquem à vontade. Quem sabe, até aceitem um cafezinho.

Como se aproxima mais uma folia momesca, só nos resta cantar como sugeriu Márcio Amaral. O médico, militante em defesa da saúde pública e vice-diretor IPUB-UFRJ, puxa o coro:


Ô Abre alas para o CAPITAL
Ô Abre Alas para o CAPITAL
Se é estrangeiro, isso não faz mal (E)
Pouco me importa se é INCONSTITUCIONAL!
(Repete e substitui o último verso por)
Nesse governo só tem CARA DE PAU!
 
O pior é que por debaixo das máscaras que já caíram parece haver muitas outras.

Leia também: A cobertura universal que só serve à saúde do capital

22 de dezembro de 2014

A cobertura universal que só serve à saúde do capital

Sempre que se fala em saúde e educação, uma aparente unanimidade surge. Todos são a favor de acesso universal, com qualidade. Não é bem assim. Em geral, têm grande peso na grande mídia, governos e parlamentos propostas que procuram transformar esses direitos em mercadoria.

É o que mostra, por exemplo, a matéria “Cobertura Universal de Saúde: a nova aposta do capital”, publicada por André Antunes e Maíra Mathias na última edição revista “Poli”, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz.

A reportagem denuncia a criação de uma Cobertura Universal de Saúde (CUS), defendida pela Fundação Rockefeller e pelo Banco Mundial, com a cumplicidade da Organização Mundial da Saúde.

O objetivo seria garantir “que todas as pessoas obtenham serviços de saúde de boa qualidade quando assim necessitarem, sem que sofram danos financeiros em seu pagamento”. Mas falar em pagamento significa ignorar que estes serviços já foram pagos pelos impostos. Principalmente, aqueles que recaem sobre o consumo e atingem fortemente os mais pobres.

A CUS não passa de um novo ataque neoliberal aos direitos das populações do mundo. A própria ideia de cobertura remete ao mercado segurador. Só seria atendido quem está “coberto” por um plano assistencial. E, mesmo assim, todos sabemos como funcionam os planos de saúde. Paga-se caro para um atendimento de qualidade muito duvidosa.

O verdadeiro objetivo da CUS é ampliar as fontes de especulação financeira. A proposta foi oficializada em 2005, mas entrou no cenário econômico com força depois da crise de 2008. A ideia é recuperar a saúde do grande capital às custas da saúde dos povos do mundo.

Não deixe de ler a
matéria,aqui

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O SUS à venda nas eleições

11 de agosto de 2014

O Ebola e a pior das epidemias

O Ebola já matou mais de mil pessoas na África. Em 05/08, o portal “Outras Palavras” publicou reportagem de Jane Merrick sobre a questão. A matéria cita John Ashton, presidente do Instituto de Saúde Pública do Reino Unido. Comparando a epidemia atual à da Aids, ele afirmou:

Em ambos os casos, parece que o envolvimento de grupos minoritários menos poderosos contribuiu para a resposta tardia e o fracasso em mobilizar recursos médicos internacionais adequados (…) No caso da Aids, levou anos para que o financiamento de pesquisa adequada fosse posto em prática, e apenas quando os chamados grupos “inocentes” se envolveram (mulheres e crianças, pacientes hemofílicos e homens heterossexuais) a mídia, os políticos, a comunidade científica e as instituições financiadoras levantaram-se e tomaram conhecimento.

Ashton responsabiliza a indústria farmacêutica, que volta seus esforços apenas para mercados rentáveis. A Aids talvez tenha sido uma das primeiras epidemias a revelar o surgimento do que os especialistas chamam de “medicalização da vida”.

Segundo Suely Rozenfeld, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, a medicalização:

... leva pessoas saudáveis a acreditarem que estão doentes e pessoas que estão um pouco doentes a acreditarem que estão muito doentes. Isso acaba gerando um enorme aumento de mercado para vendedores e administradores de insumos de saúde, como os medicamentos, os equipamentos e os exames laboratoriais, entre outros. Leia mais aqui.

Não à toa, a produção farmacêutica é a segunda mais rentável do mundo, logo atrás da indústria bélica. É a produção de morte e doença para benefício de alguns poucos e poderosos monopólios. Efeito trágico da maior das epidemias: a praga capitalista.

2 de fevereiro de 2014

Privatizações petistas: dinheiro público, lucros privados

As privatizações petistas são mais discretas que as tucanas. Elas privatizam mais os recursos do Estado do que seu patrimônio. Um exemplo é o programa “Minha Casa Minha Vida”.

Em 30/01, a Carta Capital publicou o artigo “Como não fazer política urbana”, de Ana Paula Ribeiro, Guilherme Boulos e Natalia Szermeta. O texto revela que após anos de existência do programa, “o déficit habitacional aumentou em quase 1,5 milhão de moradias”.

Para entender como isso aconteceu, o melhor é ler o texto. Mas, basicamente, o artigo diz que o programa acabou beneficiando cinco gigantes do mercado: Odebrecht, Camargo Correia, OAS, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão. Essas empreiteiras entregaram 1 milhão de novas casas. Mas 2,5 milhões de famílias perderam suas moradias devido à enorme especulação imobiliária.

Algo parecido ocorre no setor educacional. Grandes grupos de ensino foram turbinados pelos recursos públicos do Prouni e do Fundo de Financiamento Estudantil. As ações na Bolsa do setor dispararam. O valor de mercado do grupo Anhanguera cresceu 29%, do Kroton, 73% e da Estácio, 47%. 

Apesar disso, a Gama Filho e a UniverCidade deixaram professores sem salários e alunos sem aulas no Rio de Janeiro. E vem mais por aí. O Plano Nacional de Educação em debate no Congresso quer mais vagas públicas nas escolas. Mas elas podem ser oferecidas também pelo setor privado, mediante financiamento público.

Na saúde, a ofensiva acontece via terceirização da gestão dos hospitais federais por empresas. O objetivo é fazer convênios para que os planos de saúde passem a utilizar a rede de atendimento do SUS.

A criatividade petista assusta. E dá vergonha.

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7 de outubro de 2013

O SUS à venda nas eleições

Em 05/10, o jornal Valor publicou o resumo de um debate sobre os 25 anos de existência do SUS. Foram convidados o ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão, o médico sanitarista Gonzalo Vecina Neto, o superintendente do Hospital Sírio-Libanês, Bernard Couttolenc e o professor Mário César Scheffer, da Faculdade de Medicina da USP.

O texto está no site do jornal e vale a leitura. Mas merecem destaque algumas informações dadas por Scheffer:

O SUS foi pilhado desde a origem, faz milagre com o pouco que tem. Países com sistemas universais, nos quais o SUS se inspirou, reservam, em média, 7% do PIB para a saúde pública. No Brasil, são 3,6%. Estamos numa encruzilhada.

A Constituição diz que o SUS deveria ter 30% do orçamento da Seguridade Social. Se isso estivesse vigorando hoje, seriam R$ 195 bilhões. O orçamento federal do SUS está em R$ 84 bilhões.

Depois de dizer que 70% da rede hospitalar é privada e denunciar a presença das Organizações Sociais nos postos de saúde e hospitais públicos, Scheffer concluiu:

Há dois projetos claros em disputa: um é o projeto do movimento sanitário, o original, que significaria mais recursos públicos para o SUS e regulação do setor privado; o outro é o crescimento artificial dos planos de saúde, com planos baratos no preço e medíocres na cobertura.

A qual desses dois projetos servem os atuais governantes? Basta verificar as doações eleitorais de 2010. Os planos de saúde investiram R$ 12 milhões. 28% desses recursos direcionados ao PMDB, 18% ao PSDB e 14% ao PT. Dilma, recebeu R$ 1 milhão e Serra, metade disso.

30 de agosto de 2013

O cirurgião que não podia usar as mãos

Em meio às hostilidades contra os médicos estrangeiros que chegaram ao Brasil, os conservadores não hesitaram em revelar seu racismo secular. Por isso, algumas pessoas andaram divulgando a história de Hamilton Naki na internete.

Este sul-africano nascido pobre em uma pequena aldeia chegou a dar aulas de medicina na Universidade da Cidade do Cabo. Mas jamais pode clinicar porque as leis racistas do apartheid proibiam que negros exercessem a medicina.

Naki começou a trabalhar na universidade como jardineiro. Aos poucos desenvolveu suas habilidades e conhecimentos tratando animais que serviam de cobaias. Seu talento e inteligência chamaram a atenção do médico Christiaan Barnard, com quem passou a trabalhar como técnico de laboratório. Mesmo recebendo um aumento na remuneração permaneceu registrado como jardineiro.

Barnard ficou famoso por ter realizado o primeiro transplante de coração bem sucedido entre seres humanos, em dezembro de 1967. Mas há relatos que dizem que o verdadeiro responsável pela cirurgia foi Naki. Ele teria orientado seus colegas, já que não podia tocar nos pacientes. Chegou a ser fotografado com os restante da equipe, mas a direção da faculdade afirmou que se tratava de um faxineiro.

Com o fim do apartheid veio o reconhecimento. Em 2002, Naki foi condecorado com a Ordem Nacional de Mapungubwe, destinado aos notáveis da ciência médica do país. Em 2003, finalmente recebeu o diploma de medicina da Universidade da Cidade do Cabo. Morreu dois anos depois, aos 78 anos.

A história poderia ser considerada bonita, mas não é. Nenhum reconhecimento apaga a vergonha que representa o racismo. Principalmente, em um ofício cuja missão maior é salvar vidas.

Leia também: Os médicos cubanos e a direita à vontade

29 de agosto de 2013

Os médicos cubanos e a direita à vontade

Nojentas muitas das reações à vinda de médicos estrangeiros patrocinada pelo governo brasileiro. Principalmente, em relação aos profissionais cubanos. Há de tudo. Do racismo mal disfarçado à xenofobia, passando por um anticomunismo digno dos porões do DOI-CODI.

Mas é mais um episódio que mostra a complexidade do momento político que vivemos. Queiramos ou não, quem governa o País há mais de 10 anos é um partido de esquerda. É verdade que governa protegendo os interesses da direita. Mas para a grande maioria da população ser petista é ser de esquerda.

A própria burguesia faz questão de lembrar isso a todo momento. É a desculpa para pagar com ingratidão os enormes favores que recebe do governo petista. A mesma ingratidão que leva a grande mídia a amaldiçoar diariamente os atuais governantes como esquerdistas enlouquecidos.

É isso que explica por que a direita ficou tão à vontade nas ruas em junho. Ela deixou de ser o alvo principal. Os setores que representa continuam sendo a principal causa por trás das desgraças sociais, mas se escondem atrás do biombo que os petistas e seus aliados lhes oferecem.

Neste cenário, o grande desafio da oposição de esquerda é combater os inimigos da direita e denunciar o comportamento vergonhoso de seus cúmplices no governo. Tudo isso sem ser confundida com a esquerda governista ou com as odiosas forças do conservadorismo.

Não é fácil. Nem sempre conseguimos. Mas é preciso manter a mira ajustada. E quando o racismo, a xenofobia e o anticomunismo atacam, não dá pra vacilar. A prioridade é pau neles!


31 de julho de 2013

Médicos: nem vilões, nem heróis. Trabalhadores

Recentemente um dos setores mais conservadores da sociedade viu sua condição de profissão liberal ser extinta pelos operadores dos planos de saúde que exploram a mais-valia obtida através da prestação dos serviços. Assim, aqueles que foram selecionados através de provas excludentes nas escolas de medicina e que sonham algum dia virar burgueses estão hoje na rua para lutar por reivindicações trabalhistas. Sim, os médicos agora fazem parte da classe trabalhadora, mesmo que não tenham consciência dessa nova relação com os meios sociais da produção.

O trecho acima é de um artigo de Ricardo Palácios, médico colombiano com diploma revalidado no Brasil. Foi publicado na revista Carta Capital em 07/07, logo depois de o governo brasileiro anunciar a intenção de “importar médicos estrangeiros”.

O texto faz uma série de considerações com que se pode concordar ou não. Menciona a situação precária dos profissionais credenciados pela rede particular, mas não cita a precariedade dos que trabalham no SUS. De qualquer modo, vale pelo alerta para a “proletarização” da douta profissão.

Médicos também têm direito de errar. O mesmo vale para sindicalistas. Mas os sindicalistas médicos abusam desse direito ao concentrar seus protestos contra a “importação” de colegas estrangeiros. De fato, se pensarmos na calamitosa situação do sistema de saúde brasileiro, a medida é superficial, demagógica e beira a irresponsabilidade.

Mas a mobilização da categoria precisa avançar muito além disso. Os médicos conscientes têm que assumir sua condição de trabalhadores. Deixar de agir como corporação e unirem-se às lutas dos outros explorados. “Ei, você aí de jaleco, também é explorado!” Não rima, mas é verdade.

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4 de junho de 2013

A gravidade do caso Angelina Jolie

A decisão de Angelina Jolie de retirar as mamas merece todo o respeito. Mas é preciso lembrar o enorme peso das decisões tomadas por uma estrela mundial.

A grande imprensa tratou o caso com pouco rigor e muito sentimentalismo. Felizmente, há quem aborde a situação com mais lucidez. É o que fez Bernardo Pilotto, por exemplo. Ele publicou o artigo “Angelina Jolie e o preventivismo liberal” em sua página na internete. O texto lembra a tradicional polarização no debate sobre a saúde pública, entre prevenção e cura.

Do ponto de vista dos interesses da grande maioria da população, privilegiar a medicina preventiva traz resultados sociais muito mais relevantes. Já a prática curativa costuma fazer a alegria das grandes empresas de medicina privada e medicamentos.

O problema é que atitudes como a de Angelina tendem a valorizar uma prevenção paranoica e individualista, saudável apenas para o mercado bilionário da saúde privada. Mas pode ser ainda mais grave.

Em entrevista à revista da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, o médico e pesquisador Luís Castiel levantou sérias suspeitas. Segundo ele, há denúncias de que os testes aos quais Angelina foi submetida estão para ser patenteados pela empresa Myriad Genetics.

O anúncio da atriz provocou a rápida valorização das ações da empresa. Além disso, pode ter levado a opinião pública a influenciar a Suprema Corte americana a decidir em favor do direito de propriedade dos genes humanos pelas grandes corporações.

As chances de Angelina desenvolver câncer eram altas. Mas a probabilidade de que muito mais do que sua saúde esteja em jogo também é elevada.

Leia o texto de Bernardo Pilotto, aqui. E entrevista de Luís Castiel, aqui.

3 de abril de 2013

O pior efeito do crack

O pesquisador André Antunes publicou o artigo “Crack, desinformação e sensacionalismo”, na revista Poli, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. O texto mostra que há muito espetáculo interessado e pouca preocupação social envolvendo a questão.

Entre outros estudos, ele cita o “II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil”, feito em 2005 pelo Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo.

Os dados mostram que 0,7% dentre 8 mil entrevistados já havia feito uso de crack na vida. Mas o consumo de álcool obteve 74,6% das respostas e o de tabaco, 44%. E entre as drogas ilegais, a maconha aparece com 8,8%, e a cocaína, com 2,9%.

É verdade que consumidores de crack morrem mais. Mas segundo o estudo “Causa mortis em usuários de crack”, do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, de 2006, os óbitos estavam muito mais relacionados “à violência e à vulnerabilidade às doenças infectocontagiosas do que propriamente ao consumo da substância”.

Segundo Sergio Alarcon, psiquiatra e doutor em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, o crack incomoda porque “desnuda a miséria humana para muitos daqueles que certamente prefeririam mantê-la na invisibilidade”.

Devolver essa miséria às sombras é um dos objetivos da atual campanha de captura brutal dos usuários de crack. Outro é “limpar” os centros urbanos decaídos para viabilizar grandes empreendimentos imobiliários. Tudo com o apoio venenoso da grande imprensa.

O crack é uma praga, mas o pior de seus efeitos são as soluções adotadas pelas autoridades.

11 de março de 2013

Dilma financia a Saúde... privada

“União quer ampliar acesso a planos de saúde”, diz o título da matéria da Folha de S. Paulo, publicada em 27/02. Não se trata daquelas reportagens falsas com pretensões de fazer graça. Não é piada. Logo abaixo do título, “Governo tem negociado medidas com empresas do setor e já analisa redução de impostos e maior financiamento”.

É isso mesmo. O governo Dilma, que muitos teimam em considerar aliado dos trabalhadores e coveiro do neoliberalismo, faz mais uma das suas.

Não basta apenas eleger os bilionários como clientes preferenciais dos bancos públicos. É  pouco conceder bilhões em isenções fiscais para empresários, inclusive R$ 34,6 bilhões que deixaram de ir para a Seguridade Social em 2011.

Também é preciso colocar dinheiro no setor privado de saúde. Um ramo comercial que vendeu serviços ruins e parciais a 47 milhões de pessoas em 2011. É campeão de queixas no Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor, e não tem do que se queixar: movimenta cerca de R$ 80 bilhões anuais. Já o orçamento da União para a saúde, ficou em R$ 72 bi para atender muita mais gente, incluindo os próprios clientes dos planos.

Mas tudo isso é perfeitamente compreensível. Afinal, dizem os jornais, os “Planos de saúde doaram R$ 12 milhões nas últimas eleições”.

O fato é que as privatizações continuam, só não têm caráter oficial. É por isso que a Frente Nacional contra a Privatização da Saúde lançou o Manifesto de Repúdio à Proposta do Governo Federal de Subsidiar os Planos Privados de Saúde. Mais que isso, o governo petista merece o combate do conjunto dos movimentos sociais.

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Saúde pública e unanimidade restrita

23 de janeiro de 2013

Troque sua saúde por uma geladeira nova

Em 2008, o Congresso Nacional acabou com o CPMF. O governo Lula fez o maior escândalo. Alegou que se tratava de uma vitória neoliberal. A Saúde perderia arrecadação. Os cofres públicos ficariam sem R$ 40 bilhões anuais.

Desde então, os governos petistas vêm se especializando em "desonerar a folha de pagamento". São várias isenções de tributos para os empresários. Eles prometem manter a produção e o nível de emprego. Garantidos, mesmo, só os milhões que deixam de pagar em contribuições sociais.

Em 22/01, o jornal Valor divulgou levantamento feito pela Receita Federal feito a seu pedido. O estudo revelou que esse tipo de isenção tributária deve somar R$ 53,2 bilhões neste ano e R$ 62 bilhões, em 2014.

Em 17/01, Viviane Tavares publicou artigo no site da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio /Fiocruz. O texto chamado “Quem vai pagar a conta?” esclarece que, ao abrir mão de impostos como IPI, PIS e Cofins, o governo tem ”optado pelo incentivo ao mercado em detrimento das políticas sociais”.

O artigo cita dados da Associação Nacional dos Fiscais de Contribuições Previdenciárias. As renúncias das receitas da Cofins, por exemplo, chegaram a R$ 34,6 bilhões, em 2011. Isso equivale à metade de toda a despesa em Saúde.

Façam as contas. Tudo isso representa bem mais que os tais R$ 40 bilhões perdidos pelo fim da CPMF.

O artigo de Viviane coloca as coisas nos seguintes termos: entre geladeiras novas e saúde pública de qualidade, a escolha parece óbvia. Mas o governo federal prefere a primeira opção e vai colocando a maioria da população na maior fria.

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