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2 de dezembro de 2024

Eunice continua aqui e não está sozinha

O filme “Ainda estou aqui”, dirigido por Walter Salles e brilhantemente protagonizado por Fernanda Torres, merece todos os elogios. Mais do que torcer por sua premiação, o importante é fazer com que chegue a cada vez mais plateias aqui e no mundo.

O livro no qual foi baseado é de Marcelo Rubens Paiva, filho de Eunice e Rubens. Mostra a luta de Eunice para encontrar Rubens, após sua prisão pela ditadura e, mais tarde, pela responsabilização do regime por sua morte.

Mas Eunice não restringiu sua atuação a essa batalha, por mais justa e importante que fosse. Formou-se em direito e passou a combater a política indigenista genocida do regime militar. Em 1987, ajudou a fundar o Instituto de Antropologia e Meio Ambiente, organização que atuou até 2001 na defesa dos povos indígenas.

Sua disposição combativa só foi derrotada pela demência. A mulher que lutou pelo julgamento dos carrascos das vítimas da ditadura e pela preservação de sua memória tornou-se, ela mesma, vítima de amnésia.

A produção de Salles recupera a história não apenas da viúva de um grande homem, mas de uma guerreira pela liberdade e democracia.

No entanto, há muitas outras mulheres que estiveram nas mesmas trincheiras que ela. Infelizmente, muitas ficaram pelo caminho, mortas. Outras sobreviveram a prisões ilegais, tortura e violações. Mas poucas receberam o reconhecimento que merecem. Principalmente, as que estavam na liderança da resistência em favelas, periferias, quilombos, campos, aldeias indígenas e locais de trabalho. Enquanto for assim, Eunice e todas elas continuarão entre nós, inspirando, mas também exigindo, nossa permanência na luta por justiça e reparação.

Leia também: A amenidade assassina dos golpistas nacionais

26 de novembro de 2024

A amenidade assassina dos golpistas nacionais

No artigo “Golpe sangrento fugiria à nossa tradição”, publicado hoje no Globo, Pedro Doria relaciona sete golpes militares bem-sucedidos na história brasileira. “Em cada um desses momentos, diz ele, ao menos um general decidiu rasgar a Constituição”. Mas em nenhum deles foi derramado o sangue dos governantes depostos, ressalva Doria. E isso indicaria que “nossas ditaduras estavam num degrau mais ameno da barbárie vizinha”.

Por isso, argumenta o colunista, “dar golpes militares é coisa brasileira, sim”. Mas, referindo-se ao que foi planejado pelos bolsonaristas, prevendo uma série de assassinatos, não seria “um golpe brasileiro”.

Doria até admite que “a violência dos porões não foi pouca”, mas posicionar as barbáries das ditaduras de nossa história num nível “mais ameno” é um absurdo. Um desrespeito às milhares de vítimas torturadas, executadas e desaparecidas que não contavam com a integridade física garantida somente aos setores dirigentes.

Um golpe de estado sempre opõe parcelas da classe dominante a outras. Nesse caso, podem ocorrer prisões, exílio, processos jurídicos viciados, arbitrariedades. Mas são os de baixo que sofrem a mais extrema violência física. No regime militar, por exemplo, morreram mais de 8 mil, somente entre os indígenas.

Que as elites nacionais nunca tenham se confrontado até o derramamento de sangue não é um traço pitoresco de sua dominação. É uma evidência dos bons modos com que se relacionam, reservando a selvageria mais cruel aos de baixo.

A truculência bolsonarista não é uma excrescência irracional. É uma atitude correspondente ao ódio e repulsa das classes dominantes a qualquer possibilidade de que os explorados e oprimidos passem a confiar em suas próprias forças.

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13 de setembro de 2023

8 de Janeiro: nenhuma graça, só tragédia

Começou hoje o julgamento pelo STF dos golpistas de 8 de janeiro. Naquela data, as sedes dos três poderes em Brasília foram invadidas por fascistas que defendiam uma intervenção militar para depor o governo Lula.

Marx popularizou a ideia de que a história se repete primeiro como tragédia, depois como farsa.

Seguindo essa lógica, o tribunal que se instalou hoje poderia ter como causa a ser julgada apenas uma comédia tosca, encenada por bolsonaristas que tentaram repetir o trágico golpe de 1964.

Ou será que o Supremo poderia redimir o embuste sinistro produzido pela lei da anistia aprovada no final dos anos 1970? Aquela que assegurou impunidade aos assassinos e torturadores a serviço de uma ditadura que, naquele momento, começava a se recolher aos bastidores.

Mais de 40 anos depois, os togados da mais alta corte estariam prontos a levar a julgamento não apenas os golpistas patéticos de agora, mas também aqueles que, outrora, ficaram livres para voltar a cometer suas tenebrosas transações?

Ocorre que da mesma forma que Marx falava da famosa alternância histórica entre drama e comédia em termos puramente metafóricos, não há nada de caricato ou burlesco em todo esse processo.

Muitos dos que, hoje, deveriam ter amanhecido sentados no banco dos réus ocupam tranquilamente tribunas e gabinetes parlamentares e cargos no próprio governo que foi ameaçado de deposição.

Sem falar que na mesma corte cujas dependências foram depredadas pelos golpistas sentam dois juízes que se opuseram ao indiciamento dos responsáveis pelo vandalismo.

Enquanto isso, os porões das casernas continuam a reproduzir e chocar seus ovos de serpentes. Graça, nenhuma. Só desgraça persistente.

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15 de agosto de 2023

Doi-Codi: escavando as trevas

“Escavação no DOI-Codi acha inscrições nas paredes, objetos antigos e vestígios de sangue”, diz título de matéria publicada na Folha em 13/08/2023. O material foi encontrado durante escavações iniciadas em agosto e organizadas por arqueólogos reunidos em projeto envolvendo Unifesp, Unicamp e UFMG.

“Além de solas de sapato, botões, vidros e papéis de bala, foi encontrado material biológico que pode ser sangue no chão de algumas salas do prédio”, explica a reportagem.

O lugar ficou tragicamente famoso pelos inúmeros casos de tortura cometidos em suas dependências durante a ditadura militar. As vítimas eram homens, mulheres e até crianças, considerados terroristas por lutarem por democracia.

Como parte da iniciativa foram recolhidos depoimentos de sobreviventes daquele terrível período. Um deles foi Emílio Ivo Ulrich, segundo o qual, a tortura que sofreu “nunca teve fim”.

A atividade faz parte da arqueologia forense, voltada para o levantamento de elementos em investigações criminais. Mas há uma área de estudos chamada Arqueologia do Passado Contemporâneo, que se concentra em momentos mais recentes, aplicando suas técnicas ao período que abrange os séculos 20 e 21.

Uma dos mais respeitados estudiosos dessa área é Alfredo González-Ruibal, arqueólogo espanhol. Um de seus livros é “Uma arqueologia da era contemporânea”, ainda sem edição brasileira.  Nele, Gonzalez-Ruibal afirma que:

...os séculos 20 e 21, caracterizados por uma forma de modernidade excessiva e altamente destrutiva, são únicos na história da humanidade e essa singularidade deve ser concretizada em termos materiais.

De acordo com o arqueólogo, muitas vezes suas pesquisas transformam-se numa “viagem ao lado escuro do mundo contemporâneo”. Em nosso caso, as trevas nunca tiveram fim.

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12 de dezembro de 2022

O que era pra ser nunca deixou de ser o que é

O que era pra ser eleições diretas, em 84, tornou-se eleição indireta, em 85. O presidente deveria ser o opositor Tancredo Neves. Acabou sendo seu vice, criatura da ditadura supostamente derrotada.

O que era pra ser uma anistia que faria justiça às vítimas dos generais ditadores, garantiu impunidade aos que as perseguiram e torturaram.

Era para ser uma nova constituição que assegurasse conquistas sociais. Muitas delas ficaram no papel, mas manteve-se a tutela militar sobre o poder civil.

Era pra ser Lula presidente em 89, representando uma década de lutas populares radicalizadas. O eleito foi um nordestino corrupto com o decisivo e fraudulento apoio da oligarquia sudestina.

Fracassada a aventura mafiosa collorida, o que era pra ser uma vitória eleitoral de Lula foi abortada pelo Plano Real. As perdas salariais foram congeladas e os conflitos sindicais neutralizados. A dívida externa transformada em dívida pública passou a saquear orçamentos como os da Educação, Previdência e Saúde. Bilhões de reais dos cofres públicos passaram a ser apropriados diariamente por rentistas nacionais e estrangeiros.

O PT só chegou ao poder após o neoliberalismo desarmar os movimentos populares e domesticar a esquerda institucional. O poder público transformado em dócil gerente da austeridade fiscal.

Todas essas contradições se acumularam até que a crise econômica mundial passou de “marolinha” a “tsunami”. E o que era pra ser Dilma reeleita, em 2014, tornou-se um golpe liderado por seu vice, em 2016.

Era pra ser Bolsonaro reeleito e o fascismo consolidado. Felizmente, Lula não permitiu. Mas continuamos dependendo do que era pra ser, enquanto as coisas nunca deixaram de ser o que são.

Leia também: O tamanho da encrenca

18 de março de 2021

Militares no poder ou a volta dos que não foram

“A ESG voltou ao poder?” é o título de reportagem de Edelberto Behs, disponível aqui. A sigla refere-se à Escola Superior de Guerra e o texto fala sobre um trecho do livro “Segunda Guerra Mundial: todos erraram, inclusive a FEB”, de Joel Silveira. A obra é sobre a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra.

Participante da FEB, o então tenente-coronel Castello Branco teria ouvido pela primeira vez na Itália sobre a “necessidade de reformas de base para o Brasil”. Os princípios dessa reforma se tornariam os mesmos que orientariam a fundação da ESG:

a) as elites civis do Brasil faliram;
b) tem havido um completo descaso pelos problemas fundamentais do país;
c) os quadros dirigentes vêm sendo mal escolhidos e quase sempre se põe à testa de uma tarefa relevante a pessoa menos indicada para isso;
d) tem prevalecido, no trato da coisa pública, o interesse pessoal, sempre colocado acima do interesse nacional;
e) o alastramento da corrupção.

Com base nesses princípios, diz Silveira, a Escola pretendia formar:

...uma elite militar estudiosa, aplicada, em dia com os problemas do país, impaciente por participar não só da solução desses problemas, mas da direção de toda a vida nacional.

Esse projeto só se materializaria com a ditadura empresarial-militar de 1964. Finda esta, porém, ele jamais foi engavetado. Ao contrário, como observa Behs, na segunda década do século 21:

Um capitão foi escolhido pelo voto para a presidência da República e recheou o governo de militares em seis mil postos na estrutura federal.

Mas será que a ESG alguma vez realmente ficou longe do poder?

Leia também: A ditadura militar acabou. O poder militar, não

1 de março de 2021

A ditadura militar acabou. O poder militar, não

Em 04/10/2020, Olavo de Carvalho escreveu no Facebook:

Somente a direita mais imatura e boboca do mundo pode ter tido a ideia magnífica de conquistar a Presidência da República antes de haver dominado nem mesmo um pedacinho das universidades, da mídia e dos sindicatos.

Segundo Olavo, findo o regime militar, o comunismo dominou instituições, entidades classistas, universidades, escolas, mídia e indústria cultural.

Em nível mundial, o fim da própria União Soviética foi pensado para que os comunistas pudessem continuar seu trabalho de subversão da ordem sem levantar suspeitas.

Delirantes, essas afirmações representam uma total inversão do que vem acontecendo na realidade há décadas.

Não foi uma crescente “comunistização” da sociedade que seu seguiu ao fim da ditadura militar. Foi a militarização do cotidiano que se manteve e se aprofundou.

As torturas continuam ocorrendo nas delegacias. As PMs permanecem fortes e independentes em relação aos governantes eleitos. Representam o único braço do Estado realmente presente nos bairros pobres. Há uma legislação de exceção voltada especificamente contra os movimentos sociais.

Por fim, destaquemos recentes notícias segundo as quais desde que tomou posse, Bolsonaro dobrou o número de militares em cargos estratégicos em seu governo e triplicou a presença deles na administração pública.

Não foram os comunistas que continuaram a subverter a ordem, apesar de terem perdido sua “pátria socialista”. São os militares que se mantiveram em lugares-chave das estruturas de poder, mesmo privados de poderes ditatoriais.

A Bolsonaro coube apenas coroar esse trabalho ocupando a cadeira presidencial. Não sem antes ter seu caminho aberto pela quase totalidade das instituições desde a preparação e execução do golpe de 2016.

Leia também:
Quatro fatores para explicar o ascenso do bolsolavismo
Os vários golpes, os diversos golpistas

30 de agosto de 2019

Anistia: outro aniversário de uma lei muito podre

“Deveríamos ter forçado um pedido de desculpas dos militares”, diz José Genoino em matéria da Folha, publicada em 28/08/2019. Esta data marcava os 40 anos de aprovação da Lei da Anistia.

Porém, complementa o ex-dirigente petista, “foi melhor para o país não ter revisado a Lei da Anistia”. Palavras saídas da boca de alguém que foi preso e torturado pelos carrascos da ditadura.

Muito provavelmente, seja por estes e outros equívocos que o país esteja sob um governo dominado, não por aqueles que nunca pediram desculpas, mas por quem exige parabéns e aplausos pelos crimes que cometeram.

Não só admitem como se orgulham da tortura, assassinato e “desaparecimentos” de centenas de pessoas.

Mas pra encurtar a conversa, que tal lembrar a pílula A podre lei da Anistia, de novembro de 2011? Ela trazia o rock “Anistia”, dos Garotos Podres. A música lançada em 1988, denunciava o perdão que os militares concederam a si mesmos. Eis a letra:

Anistia?

Não queremos anistia
Aos torturadores
Não queremos que os assassinos
Fiquem impunes

Amordaçaram e torturaram
Toda uma nação
Nos deixaram órfãos
De uma mãe pátria

Como poderíamos
Perdoá-los
Se os cadáveres
Ainda estão fedendo

E as suas mãos
Ainda estão sujas de sangue
Sangue de uma geração
Sangue de toda uma nação

Para ouvir, clique aqui.

A pílula que trazia esta letra remetia a outra, de abril de 2011. Seu título era Bolsonaro, muito atual.

19 de outubro de 2018

Vem aí o infocalipse. Ou não...

Infocalipse. Este conceito foi criado por Aviv Ovadya, membro do Centro de Responsabilidade para Mídias Sociais do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Em entrevista concedida à agência Pública, em 30/05/2018, ele explica o que seria o infocalipse:

Você pode pensar na ideia como se, à medida que a qualidade das informações num geral diminui, a inteligência de todos os membros da sociedade e de todas as diferentes organizações que a tornam funcional, no geral, diminui, e, se você vai muito fundo nisso, sua sociedade basicamente desmorona.

Mas, segundo Ovadya, só chegaríamos a esse ponto se coisas como a falsificação de áudios e vídeos se tornassem regra. Pode ser, mas as atuais eleições no Brasil parecem mostrar que, entre nós, falta pouco.

Por outro lado, mentiras e distorções grotescas não surgem e se espalham do nada. Elas precisam ter alguma base real. Uma delas é formada por valores comportamentais. Por exemplo, é preciso haver um elevado nível de homofobia numa sociedade para que uma notícia falsa sobre distribuição de kits gays nas escolas sejam assumidas como verdade.

Outro fator importante é o velho e eficiente controle sobre as narrativas históricas. É o caso da Ditadura Militar. Somente o enterro proposital de fatos inegáveis da vida nacional possibilita ao primeiro colocado nas pesquisas eleitorais afirmar que esse terrível período de nossa história fez bem ao País.

Nesse último caso, são vários os responsáveis: monopólios da grande mídia, instituições coalhadas de antigos membros do regime ditatorial e até a omissão de algumas de suas maiores vítimas.

Coisas assim indicam que, talvez, estejamos mais próximos do apocalipse tradicional, mesmo.

Leia também:

13 de setembro de 2018

Quando no estado de direito, há mais estado que direito

Giovanni Arceno é um jovem escritor e mantém o blog Leia Brasileiros. Por meio dele, distribui diariamente, via e-mail, ótimos trechos de literatura nacional, da mais antiga à recentíssima.

Abaixo uma amostra que tem tudo a ver com os difíceis tempos em que vivemos:

Os homens não bateram, porque há muito naquela cidade, ou país, a polícia não precisava bater para entrar. Não traziam mandados judiciais, há muito os mandados tinham perdido a razão de ser. Não havia um estado de direito. Havia o estado, não o direito.

Os homens entraram, atravessaram a sala onde a família jantava, até então tranquilamente.

– Inspeção de rotina, comunicou o chefe dos homens que tinham entrado.

– Fiquem à vontade, disse o dono da casa, voltando para terminar a sopa, indiferente à súbita invasão. A indiferença significava apenas impotência.

Os homens vasculharam a sala, os quartos, o banheiro, o quarto das crianças, a cozinha, a área de serviço e o quarto da empregada. Quarto? Aqueles cubículos, senzalas que as imobiliárias fazem.

Voltaram da cozinha com uma cadeira branca de fórmica.

– Vamos levar esta cadeira. Amanhã o senhor apareça para prestar depoimento.

O trecho é do conto “Os homens que descobriram cadeiras proibidas”, do livro “Cadeiras Proibidas”, de Ignácio de Loyola Brandão. É de 1976 e diz respeito ao período da ditadura militar, claro. Mas há algum tempo que, em nosso estado de direito, voltamos a nos deparar cada vez mais com o estado do que com o direito.

Como se vê, é altamente recomendável ir lá no blog do Arceno para se inscrever.

14 de maio de 2018

O sargento Silvio e o general Geisel

Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.

O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.

Que nome devo dar a esse homem?

Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.

Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.

O herói redime a humanidade à deriva.

Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.

Está morto.

Um belíssimo sargento morto.

E todavia.

Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.

O trecho acima é da crônica “Herói. Morto. Nós.”, publicada por Lourenço Diaféria na Folha de S. Paulo, em 1977. O texto levou seu autor à prisão, por “ofensa às Forças Armadas”.

Episódios como esse mostram como a covardia com que os governos da ditadura militar torturavam e executavam prisioneiros também os tornava valentes diante de pessoas armadas apenas com máquinas de escrever.

E, “todavia”, figuras como Geisel morreram em seus leitos tranquilamente, livres de qualquer vergonha. Mas só elas ficaram livres. Nós não.

Leia também: A história como tragédia, farsa e fake

19 de fevereiro de 2018

A história como tragédia, farsa e fake

Segundo Hegel, a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa.

Marx utilizou a frase em “O 18 Brumário” tendo como alvo Luís Bonaparte, cuja mediocridade era ainda mais acentuada pela pretensão de ser sucessor de seu tio Napoleão.

Mas em sentido mais geral, Marx utilizou a frase de Hegel para se referir a momentos históricos em que os:

...homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestados os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada.

Na verdade, são estes momentos que se repetem, não a história. Um exemplo é a recente decretação da intervenção federal no Rio de Janeiro. Não falta quem queira vê-la como reencarnação do golpe de 64.

De um lado, aqueles que esperam uma reedição da ditadura militar para trancafiar e torturar lideranças das “classes perigosas”. Fingem desconhecer, porém, que isto já acontece há muito tempo, e ganhou considerável reforço com intervenções federais semelhantes, decretadas ainda durante os governos petistas.

De outro lado, há quem espere que a reencarnação de 64 acorde uma grande reação popular capaz de reverter a onda conservadora e abrir caminho para um retorno eleitoral da esquerda oficial.

Estes só não parecem lembrar que se a reação popular não veio em 64, quando o golpe foi pura tragédia, dificilmente viria agora, quando se apresenta em trajes pós-carnavalescos.

Acrescente-se a tudo isso a avalanche de versões tragicômicas que tomou as redes virtuais sobre o evento e teremos a mais nova variação da frase de Hegel. A história que já se repetiu como farsa, quase imediatamente, torna-se fake.