Doses maiores

Mostrando postagens com marcador crise ambiental. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crise ambiental. Mostrar todas as postagens

4 de outubro de 2024

O ambientalismo militar dos Estados Unidos

Em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, Ian Angus informa que o orçamento militar dos Estados Unidos em 2013 foi de 1,7 bilhões de dólares. Cerca de 130 vezes mais do que os gastos com programas humanitários ou com medidas de prevenção contra as alterações climáticas.

É impossível determinar o impacto dos gastos bélicos estadunidenses sobre as alterações climáticas, porque as emissões militares foram excluídas do Acordo de Quioto. Mas estima-se que um milhão de barris de petróleo por dia é “um número seguro e até conservador”. Isso seria suficiente para aumentar o total das emissões dos Estados Unidos em escandalosos 5%.

Basta dizer que 70% do peso de todos os soldados, veículos e armas norte-americanos compõe-se de derivados de combustível fóssil. Ou seja, o exército estadunidense é altamente inflamável. Principalmente quando suas bombas incendeiam cidades, aldeias e vilarejos pelas periferias do mundo.

Mas o governo estadunidense está preparado para os problemas ambientais desde 2003. Durante a administração Bush, o Pentágono fez um estudo intitulado “Um cenário abrupto de mudanças climáticas e suas implicações para a segurança nacional”. Segundo o documento, os Estados Unidos provavelmente poderiam sobreviver a ciclos de cultivo menores e condições climáticas adversas sem perdas catastróficas. Desde que as fronteiras sejam reforçadas em todo o país para conter imigrantes famintos indesejados vindos do Caribe, México e América do Sul. E o fornecimento de energia seja reforçado através de alternativas como energia nuclear, energias renováveis, hidrogénio e contratos exclusivos com o Oriente Médio.

Claro que tudo isso vai depender de muita força bélica. Ou seja, o militarismo estadunidense tanto causa como reforça o apocalipse ambiental.

Leia também: Antropoceno e luta de classes

24 de maio de 2024

O que guerras e calamidades revelam sobre paz e normalidade

Uma das metáforas favoritas da grande mídia, governos e especialistas é a que compara a calamidade que atingiu o Rio Grande do Sul a uma guerra.
 
A imagem simbólica vem a calhar para lembrar a velha máxima de que uma das primeiras vítimas em uma guerra é a verdade. O que não faltam são mentiras e falsidades sobre a calamidade em terras gaúchas. As mais descaradas são obra das forças extremistas da direita. Mas também há distorções mais sutis, cometidas pela grande mídia em sua pesada disputa hegemônica.
 
Mas sejam guerras ou calamidades, é costume dizer que tais situações revelam o pior do ser humano. No caso das cidades gaúchas são saques organizados por milícias, batalhas entre quadrilhas, violência policial sob pretexto de defesa da ordem, distribuição de comida estragada, doações de coisas inúteis disfarçadas de caridade e outros exemplos desanimadores.
 
Tudo isso revelaria a verdadeira natureza humana: um oceano de egoísmo e falsidade cercando pequenas ilhas de solidariedade e boas intenções.
 
As noções mais básicas da sociologia, porém, recomendam que troquemos essa concepção genérica de “ser humano” pelo conceito menos vago de relações sociais. São nestas que imperam os valores do convívio social, não nos indivíduos que as compõem.
 
Eventos extremos não revelam a maldade e o egoísmo inerentes à espécie humana. Apenas acentuam as leis, regras, costumes, valores que regem certas sociedades em tempos de pretensa normalidade.

No caso de sociedades profundamente injustas como a nossa, nem mesmo os supostos momentos de paz e normalidade conseguem se distinguir de situações de guerras e catástrofes. É quando nenhuma metáfora dá conta da realidade.

Leia também: Solidariedade popular e valorização do capital

8 de maio de 2024

Solidariedade popular e valorização do capital

“Com experiência da pandemia, empresas agem rápido”, diz reportagem publicada no Globo, em 08/05/2024. Vejamos um trecho:

O desastre que atinge o Rio Grande do Sul gerou uma rápida resposta das empresas. Ancoradas na experiência que enfrentaram na pandemia de Covid-19, as empresas se mobilizaram para fazer chegar aos gaúchos doações de recursos, alimentos, kits de higiene, entre outros itens.

O Movimento União BR, organização especializada em criar hubs de emergência, já arrecadou mais de R$ 8 milhões de empresas e pessoas físicas, com mais de 200 mil itens entregues, entre refeições desidratadas (de fácil armazenamento), kits de higiene pessoal e filtros purificadores de água. Tudo em prol das vítimas das chuvas no Rio Grande do Sul.

A matéria cita parcerias de empresas com ONGs como a Central Única de Favelas e o Instituto da Criança. Petrobrás, Itaú, Ambev, Bradesco, Santander, Latam são algumas das corporações envolvidas.

Não há como acreditar na boa fé desses poderosos CNPJs do PIB nacional. E não se trata apenas de hipocrisia.

Tal como na pandemia, essas iniciativas certamente servirão para aperfeiçoar a logística de muitos desses gigantes capitalistas. A legítima e heroica ajuda da população, muito provavelmente, será usada para incrementar a agilidade e precisão das técnicas de embalagem, transporte e entregas. A solidariedade popular canalizada para o aperfeiçoamento do ciclo de valorização das mercadorias.

A implantação desses novos métodos e tecnologias, geralmente, pressupõe mais precarização da força de trabalho justificada pela emergência da situação, mas tornada definitiva, posteriormente.

O capitalismo ajuda a causar tragédias com as quais embolsa lucros graúdos. De quebra, veste a máscara hipócrita da responsabilidade social.

Leia também:
A “virtude cidadã” que destroça direitos
Faça a sua parte (trouxa!)

15 de dezembro de 2023

O planeta rumo à eliminação de algumas de suas pragas

A 28ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP28) acabou há poucos dias. Aconteceu nos Emirados Árabes. Sob a presidência de um sultão, o país tem a sexta maior reserva de petróleo do mundo.

Um detalhe importante é que a maior representação do agronegócio veio do Brasil. Eles eram 10% dos membros de grandes indústrias mundiais do setor presentes. Todos juntos e misturados na grande delegação liderada pelo presidente Lula.

A próxima edição deve ocorrer no Azerbaijão, que, apesar de não ser governado por um sultão, tem um terço de sua economia ligado aos combustíveis fósseis.

Já a COP30, em 2025, será em Belém, na Amazônia. Seria bom lembrar que, em agosto passado, a capital paraense foi sede da Cúpula da Amazônia, que reuniu oito países da região. Do encontro resultou a chamada “Declaração de Belém”. Mas o documento não fixou metas ou prazos para a conservação florestal. A necessidade de zerar o desmatamento foi mencionada apenas como "um ideal a ser alcançado".

O texto também evitou estabelecer um compromisso de pôr fim à exploração dos combustíveis fósseis na Amazônia. A única autoridade a protestar contra isso foi o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que não se deixou influenciar pelo próprio sobrenome.

O fato é que apesar da heroica resistência dos movimentos populares, essas conferências vão cada vez mais se tornando um ponto de encontro de poderosos produtores de sujeira ambiental de todo tipo.

Enquanto isso, o planeta arde como uma febre que antecede o agravamento da doença que pode expelir algumas pragas de seu organismo. Adivinhem quem está entre essas pragas?

Leia também: O capitalismo verde e os latifundiários dos ventos

11 de dezembro de 2023

O capitalismo verde e os latifundiários dos ventos

Em 02/12/2023, o presidente da COP28 anunciou várias promessas para investimentos em energia renovável. A principal delas pretende triplicar a capacidade instalada global desse tipo de recurso até 2030. Mas, como no mundo dominado pelo capitalismo sempre tem um “mas”, a eliminação de novos investimentos em combustíveis fósseis ficou fora do texto.

O filósofo e escritor Airton Krenak costuma dizer que não adianta nada adotar fontes renováveis de energia se elas não substituírem recursos energéticos mais sujos, como petróleo, carvão e gás.

Fontes sustentáveis de energia não anulam os estragos sociais e ambientais. Apenas diminuem seu impacto. Enquanto não tomarem o lugar das fontes mais poluentes, acrescentarão novos problemas aos antigos. Além disso, é preciso considerar o caráter monopolista que assume a quase totalidade dos empreendimentos capitalistas na atualidade.

Vejamos o exemplo da energia eólica. Segundo um artigo publicado pelo portal ClimaInfo, empresas desse setor controlam pelo menos 262 mil hectares no Rio Grande do Norte, atualmente. Isso representa 5% da área do estado ou quase duas vezes o tamanho da capital paulistana. Metade disso está sob controle de 27 empresas sediadas aqui e a outra metade, com 19 companhias estrangeiras. “São os latifundiários dos ventos”, diz o texto.

Enquanto isso, os pequenos proprietários que arrendaram suas terras para as instalações eólicas viram seus rendimentos despencarem. Até porque estão impedidos por cláusulas contratuais de cultivar ou criar animais para não interferir na captação do vento.

Este é só um exemplo a mostrar como o verde das energias alternativas capitalistas restringe-se à cor do dinheiro que geram, tornando sustentáveis apenas os enormes lucros de uma minoria exploradora.

Leia também: Capitalismo, arqueologia, mandantes e executores

19 de setembro de 2023

O medo egoísta de bilionários diante do apocalipse

Convidado a ir a um resort superluxuoso para debater com cerca de cem banqueiros, fui apresentado como um futurólogo.

Realmente, como humanista que escreve sobre o impacto da tecnologia digital nas nossas vidas, sou frequentemente confundido com um explorador do futuro. Mas nunca gostei muito de especulações desse tipo, especialmente diante de pessoas muito ricas.

Logo, ficou clara a verdadeira preocupação do grupo: Nova Zelândia ou Alasca? Qual região será menos impactada pela próxima crise climática? Só piorou a partir daí. Qual era a maior ameaça: as alterações climáticas ou a guerra biológica? Um abrigo deve ter seu próprio suprimento de ar? Qual é a probabilidade de contaminação das águas subterrâneas? Finalmente, o executivo-chefe de uma corretora explicou que havia quase concluído a construção de seu próprio bunker subterrâneo e perguntou: “Como posso manter a autoridade sobre os homens de minha força de segurança após o evento?” O evento. Esse era o eufemismo deles para colapso ambiental, agitação social, explosão nuclear, tempestade solar, pandemia ou um vírus malicioso de computador que destrói tudo.

Então, eu, descaradamente, sugeri que a maneira de garantir que seu chefe de segurança não cortasse sua garganta, amanhã, seria pagar uma festa de aniversário para a filha dele, hoje. Eles gargalharam. Pelo menos, eu os estava divertindo.

O relato acima é do livro “A sobrevivência dos mais ricos: fantasias de fuga de bilionários da tecnologia”, de Douglas Rushkoff, ainda sem edição nacional. É a experiência de um teórico marxista dos meios de comunicação contratado para explicar a ricaços onde instalar e como planejar seus bunkers do Juízo Final.

A leitura promete...

Leia também:
Bilionários do mundo preparam sua Arca de Noé
Ora, (direis) explorar as estrelas!

15 de setembro de 2023

Capitalismo, arqueologia, mandantes e executores

Uma das tarefas da arqueologia dos tempos contemporâneos é reconstituir ligações e genealogias, diz Alfredo Gonzalez-Ruibal, em seu livro “Uma arqueologia da era contemporânea”.  

Segundo ele, o desempenho dessa função assemelha-se à crítica do fetichismo proposta por Marx. Na maioria dos casos, as ligações já são vagamente conhecidas, mas esquecidas: dissociamos as mercadorias das suas origens obscuras e da violência dos seus efeitos. É por isso que nos sentimos tão chocados quando somos forçados a comparar o contexto do consumo de mercadorias ao das suas condições de produção.

As ligações entre o consumo de carne bovina e a destruição da Amazônia, por exemplo, são sistematicamente apagadas, e esse apagamento é essencial para a continuação e expansão do sistema capitalista, cujo caminho de destruição é “apagado, escondido ou ignorado”

Em 2006, Gonzalez-Ruibal trabalhou em um projeto arqueológico em acampamentos madeireiros e fazendas de gado estabelecidas ilegalmente dentro de uma reserva indígena no Maranhão. Foram mapeadas áreas desmatadas, rotas e acampamentos de madeireiros e inventariados os diversos objetos que ficaram para trás após uma operação policial. A “feiura” da floresta violada, os rios sujos e a miséria dos acampamentos contrastam com o luxo dos móveis feitos com madeiras “nobres” e o alegre consumo de carne no Brasil e em outros lugares.

O caso acima exemplifica como, muitas vezes, a modernidade torna difícil estabelecer as ligações entre crimes ambientais, de um lado, e consumismo glamourizado, do outro.

Ou seja, entre os mais importantes mecanismos de manutenção do capitalismo está o ocultamento das relações entre mandantes e executores. Não poucas vezes, apelando aos sangrentos préstimos de jagunços e capangas.

Leia também: Doi-Codi: escavando as trevas

7 de setembro de 2023

Seremos capazes de ouvir as baleias?

A inspiração é a chave. Se pudéssemos comunicar com os animais, fazer-lhes perguntas e receber respostas – por mais simples que essas perguntas e respostas possam revelar-se – o mundo poderá em breve ser motivado o suficiente a, pelo menos, iniciar um processo capaz de deter a destruição descontrolada da vida.

As palavras acima são do biólogo estadunidense Roger Payne e aparecem na reportagem “Can We Talk to Whales?” (“Seremos capazes de conversar com baleias?”), recentemente publicada na revista New Yorker. Payne trabalha na Iniciativa de Tradução de Cetáceos, criado em 2017. A sigla do projeto em inglês é “Ceti”, lembrando propositalmente “Seti” (Search for Extraterrestrial Intelligence), cuja tradução é “Busca por Inteligência Extraterrestre” e está em operação desde os anos 1980.

Mas enquanto o Seti procura inteligência nas estrelas, o Ceti volta seus esforços para gravar a linguagem usada pelas baleias cachalotes. As gravações estão sendo feitas na ilha caribenha da Dominfica. Com caráter interdisciplinar, a iniciativa inclui biólogos e linguistas, mas também pesquisadores de inteligência artificial (IA), robótica e computação.

Pois é, não se trata de entrar em contato com possíveis civilizações alienígenas como nas obras de ficção científica, mas robôs e cérebros eletrônicos também estão envolvidos.

Os robôs são, principalmente, para capturar os sons nas enormes profundidades a que chegam as baleias. A inteligência artificial, para dar conta das milhares de combinações possíveis na enorme massa de áudios já captados.

Agora, é torcer para que das profundezas oceânicas nos cheguem bons conselhos sobre como poderemos escapar das catastróficas confusões ambientais que estamos provocando. Isso se não fizermos ouvidos moucos, claro.

Leia também: Como é ser um morcego?

25 de agosto de 2023

Uma porteira na foz do Amazonas

Uma justificativa utilizada para as enormes contradições dos governos petistas é seu caráter de governos em disputa. Pode ser. Mas que setores da sociedade realmente disputam os rumos dos governos petistas?

A questão da exploração de petróleo no Amapá é um exemplo claro de troca de fogo amigo nas disputas entre as forças que compõem o governo Lula. Em meio a esse tiroteio estão indígenas, populações locais e trabalhadores da área, como os petroleiros. Partiu destes últimos um documento aprovado no 36º Congresso Regional dos Petroleiros do Sindipetro PA/AM/MA/AP, em junho passado.

Nele, os representantes da categoria manifestam-se em defesa da “fase de exploração do Projeto Amapá Águas Profundas”. Entendem que o país “deve conhecer as reservas de seus recursos naturais estratégicos, numa perspectiva geopolítica e de soberania energética”. E caso elas existam seja criado um “marco legislativo” no qual estariam previstas várias ações para diminuir o impacto da exploração, prioridade do retorno financeiro para as populações locais, assim como a destinação de metade dos recursos obtidos para a transição energética para fontes sustentáveis, projetos de sustentabilidade e desenvolvimento científico.

O posicionamento reflete um esforço de intervenção por parte de um importante setor, diretamente envolvido na questão. Vale a leitura atenta.

Mas acontece que neste, como nos governos petistas anteriores, a verdadeira disputa de seus rumos ocorre entre diferentes alas do grande capital. No caso, opõem-se o desenvolvimentismo predador do século passado a um “identitarismo ecológico” que denuncia a destruição ambiental capitalista sem responsabilizar o capitalismo.

Diante dessa situação, o risco maior é a famosa boiada do Ricardo Salles. Melhor não abrir novas porteiras.

Leia também: Lula: três canoas e um iceberg

24 de agosto de 2023

No pós-apocalipse, sob orientação indígena

Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), da ONU, o número de indígenas no mundo é maior que o da população estadunidense, terceira maior do planeta.

São cerca de 370 a 500 milhões de indígenas, espalhados por 90 países. Eles vivem em todas as regiões geográficas e representam 5 mil culturas diferentes.

Quase 70 milhões de mulheres e homens indígenas dependem das florestas para sua subsistência, e muitos outros são agricultores, caçadores ou pastores.

As florestas onde vivem armazenam pelo menos um quarto de todo o carbono das florestas tropicais. Isso equivalia a quatro vezes o total de emissões globais de carbono em 2014.

Seus valores de respeito à natureza, solidariedade comunitária e práticas sustentáveis contrastam fortemente com os modos de vida da grande maioria da humanidade. Também se revelam muito mais adequados para fazer frente à crise não só ambiental, como social, cultural e até espiritual que castiga o mundo contemporâneo.

Diante dos desastres climáticos, envenenamento ambiental, esgotamento de recursos, injustiça social deveríamos olhar para eles como modelos. Ao invés disso, não paramos de desalojá-los, humilhá-los, matá-los.

Tornou-se costume dizer que é mais fácil imaginar o fim do mundo que o fim do capitalismo. Os indígenas não têm esse problema. O apocalipse para eles chegou há séculos. Agora, assistem o capitalismo arrastar grande parte da humanidade para o abismo.

Se não conseguirmos impedir o pior, alguns de nós sobreviverão entre os escombros de uma civilização suicida. E, quem sabe, as várias nações indígenas espalhadas pelo mundo nos ensinarão como superar o apocalipse com dignidade, sabedoria e esperança.

Leia também: Vidas indígenas também importam