Doses maiores

17 de dezembro de 2018

O que fazer com as conjunções adversativas em 2019

Para o escritor paulistano Ricardo Lísias, os tempos não estão para contemporizações. Por isso, ele eliminou todas as conjunções adversativas — mas, no entanto, todavia, entretanto, contudo, não obstante — de seu novo projeto literário, “Diário da catástrofe brasileira”.

É assim que Ruan de Sousa Gabriel introduz a entrevista que fez com Lísias, publicada na revista Época em 15/12/2018. “Eu não quero contemporizar. De todas as funções gramaticais, a adversativa é que não podemos usar agora. Já fizemos isso demais. Eu já fiz isso demais”, afirma.

Segundo o repórter, Lísias “não engoliu nenhuma das formulações da intelectualidade de esquerda que, primeiro, assegurava que Jair Bolsonaro jamais seria presidente e, agora, esforça-se para explicar o sucesso eleitoral da direita”.

Seu alvo principal é o que chama de “safatlismo”, referindo-se ao filósofo Vladimir Safatle. Segundo ele:

...trata-se da mania de explicar tudo, sempre analisando os outros e jamais colocando em questão os próprios equívocos. Quando ocorrem, por mais evidentes e patéticos que sejam, a pessoa simplesmente continua o hábito da explicação, sem jamais anunciar — e muito menos discutir — o erro que cometeu.

É justa a revolta do escritor com alguns de nossos intelectuais. Mas (opa!) o fenômeno poderia ser chamado de “haddadismo”, também. Ou “lulismo”.

A militância de esquerda costuma usar a expressão “conjuntura adversa” para situações desfavoráveis. Jamais foi tão adequada. E numa situação dessas, fica difícil não utilizarmos as tais conjunções adversativas. Elas nos ajudam a questionar raciocínios fechados como os que andaram nos colocando em muitos becos sem saída, ultimamente.

De qualquer maneira, e sem mais “poréns”, que saibamos enfrentar as adversidades de 2019 com muita luta!

Leia também:
Desesperadamente otimistas

14 de dezembro de 2018

Um super-heroi muito sinistro

Eu dava aulas de português em uma pequena cidade do interior paulista. Aos poucos, fui me tornando amigo e confidente de alguns alunos e alunas.

Um deles manifestou mal-estar em relação ao padre da paróquia local. Logo desconfiei de pedofilia, mas no estágio em que as coisas se encontravam, não havia como ter certeza. Disse a ele para se afastar do pároco. Foi o que aconteceu.

Foi, então, que o vigário passou a me acusar de incentivar o pecado entre meus alunos. De falar de sexo com crianças. Ensinar doutrinas ofensivas à moral e à religião. De ser um agente do diabo, um comunista.

Minha vida virou um inferno.

Um sábado, fui beber no Bar da Encruzilhada. Conheci um sujeito estranho, com quem acabei desabafando sobre minha situação. Ele me disse algumas palavras cujo sentido não entendi direito devido ao estado avançado da bebedeira.

Acordei de ressaca no dia seguinte, mas determinado a tirar satisfações com o tal padre. Fui até a igreja e ele já foi me recebendo com ofensas. Fiquei nervoso. Senti um cheiro de enxofre. Apaguei. Quando dei por mim, estava em casa com muitas dores no corpo.

Algum tempo depois, soube que o padre fora à delegacia confessar seus crimes de pedofilia. Também afirmou que um demônio o visitara e exigira que se entregasse à polícia. Essa parte do depoimento foi ignorada pelo delegado.

Depois disso, a criatura voltou a sair de dentro de mim várias vezes. Sempre para fazer justiça contra gente hipócrita e suja como aquele padre. Parece que me tornei uma espécie de super-herói. Meu superpoder é o cramunhão!

Leia também:
Machado, o Diabo e sua igreja

13 de dezembro de 2018

A sombra chinesa sobre 2019

Uma guerra comercial entre Estados Unidos e China é uma das mais graves ameaças para a economia mundial em 2019. Mas o gigante asiático também apresenta sérios problemas internos.

A China foi fundamental para evitar um colapso econômico mundial após a crise de 2008. Mas houve um custo. Entre 2000 e 2008, a dívida bruta chinesa ficou entre 150 e 180% do PIB. Mas de 2009 a 2018 essa proporção quase dobrou, chegando a 300%.

Os números são de um artigo de José Eustáquio Diniz Alves, pesquisador da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.

Jenny Clegg, especialista britânica em assuntos chineses, prevê que a China pode superar os Estados Unidos como potência econômica antes de 2030. Mas avisa que o país vem mantendo:

...níveis elevados de dívida e ainda pode ocorrer um crash ao estilo chinês. Poderá a China limitar, ou ao menos resistir, as pressões de uma guerra comercial com os Estados Unidos? De fato, as perspectivas para a economia estadunidense também não são boas. A recuperação da economia produzida pelo corte de impostos de Trump pode ser efêmera e o presidente do slogan “América primeiro” pode se ver obrigado a aprender que os Estados Unidos e a China se necessitam mutuamente.

O problema é que ninguém parece muito preocupado em aprender coisa alguma. Trump é péssimo aluno. A liderança chinesa, por sua vez, acha que pode fugir aos efeitos das implacáveis leis capitalistas tornando sua economia cada vez mais capitalista.

Enquanto isso, por aqui, o futuro presidente se elegeu dizendo que não entende nada de economia. Fora isso, tá tudo ok, certo?

12 de dezembro de 2018

Gramsci explica o que é ser marxista

Karl Marx não é para nós nem a criança que geme no berço nem o terror barbado dos sacristãos. Não é nenhum dos episódios anedóticos de sua biografia, nenhum gesto brilhante ou grosseiro de sua animalidade humana exterior. É um cérebro vasto e sereno que pensa, um momento único da busca laboriosa e secular que a humanidade faz para se conscientizar de seu ser e de sua mudança, capturar o misterioso ritmo da história e dissipar seu mistério, ser mais forte em pensar e fazer. É uma parte necessária e integrante do nosso espírito, que não seria o que é se Marx não tivesse vivido, pensado, rasgado faíscas de luz com o choque de suas paixões e suas ideias, suas misérias e seus ideais.

O trecho acima é de um artigo escrito por Antonio Gramsci em 1918 para o centenário de nascimento do grande revolucionário.

O texto começa perguntando: “Somos marxistas?”. Uma pergunta, diz ele, cujas possíveis respostas consumirão “rios de tinta e estupidez”. Mas para enfrentar essa questão de modo adequado, afirma, o mais importante é entender que “Marx não escreveu um evangelho”. Que ele:

...não é um messias que deixou uma série de parábolas carregadas de imperativos categóricos, regras absolutas e indiscutíveis, fora das categorias de tempo e espaço. Seu único imperativo categórico, sua única norma é: "Proletários do mundo todo, uni-vos". Portanto, a diferença entre marxistas e não marxistas teria que consistir no dever de organização e propaganda, no dever de organizar e associar-se. Demais e muito pouco...

É o básico e o fundamental. É só o começo, mas indispensável.

Leia também: As feministas que leem Marx não estão contentes

11 de dezembro de 2018

Os narcisos da esquerda não ouvem música sertaneja

Em dezembro de 2018, as músicas mais tocadas segundo o site https://maistocadas.mus.br/ eram interpretadas por Gusttavo Lima, Felipe Araújo, Humberto e Ronaldo, Wesley Safadão, Luan Santana, Zé Neto e Cristiano, Henrique e Juliano, Eduardo Costa, Bruno e Marrone.

Com exceção do forró de Safadão, o restante dos artistas canta música sertaneja. A predominância masculina, vez por outra, abre exceção para Marília Mendonça, Maiara e Maraísa e Simone e Simaria.

Quase todos os nomes dessa lista certamente são desconhecidos da grande maioria dos setores militantes da esquerda. Mas este é só um exemplo. Nossa ignorância é grande não apenas em relação ao gosto musical das multidões. E isso ficou tragicamente claro com o resultado das últimas eleições presidenciais.

Deveríamos ter prestado muito mais atenção ao mundo externo a nossos circuitos acadêmicos, partidários, militantes. Externo à nossa MPB, ao nosso jazz, aos nossos barzinhos da moda e, principalmente, ao nosso olhar distante e altivo.

Nada disso quer dizer que vamos prestar mais atenção ao senso comum para aceitar passivamente sua lógica. A indústria por trás desses sucessos não apenas lucra muito financeiramente. Também capitaliza na disputa de valores.

As músicas mais ouvidas falam basicamente sobre o mesmo tema. Baladas, bebida e mulheres. Estas últimas, geralmente, fazem os homens sofrer. Elas vivem a rejeitá-los. Reprovam suas traições e orgias. São belas, mas cruéis. Enfim, uma misoginia que pretende ser sutil atravessa as rimas.

Segundo nosso poeta favorito, “Narciso acha feio o que não é espelho”. Não tem nada de muito bonito na paisagem cultural da sociedade em que vivemos. Mas não adianta fingir que ela não existe.

10 de dezembro de 2018

Um habeas corpus para nossos cérebros

Bilhões são gastos por governos, corporações e investidores no treino de algoritmos de computadores (...) na atual e insana corrida para criar as chamadas inteligências “artificiais”, largamente anunciadas como “AI”. Enquanto isso, o treinamento de nossas crianças e seus cérebros (já superiores aos algoritmos de computador) é subfinanciado. As escolas estão dilapidadas, instaladas em condições precárias, frequentemente em áreas poluídas enquanto os professores são mal pagos e precisam de maior respeito. Como nossas prioridades tornaram-se tão enviesadas?

Na realidade, não há nada de artificial nos algoritmos ou sua inteligência: o termo AI é uma mistificação! O termo que descreve a realidade é “Aprendizado de máquina treinadas por humanos”, na atual e insana luta para treinar estes algoritmos a mimetizar inteligência humana e funcionamento cerebral.

O trecho acima é de Hazel Henderson, fundadora da empresa Ethical Markets Media, em artigo publicado no portal Outras Palavras.

Segundo ela, é urgente “enfrentar o uso desumano de seres humanos, que emprega nossas habilidades, adquiridas com esforço, para treinar algoritmos que depois nos substituem”. São técnicas, afirma, que forçam desempregados e sobreviver na “economia de bicos”. Ou seja, no trabalho precarizado, largamente disseminado por empresas como a Uber.

Diante disso tudo, Hazel propõe ampliar o “habeas corpus”, instrumento jurídico criado em 1215 na Inglaterra. Mais do que dispor de nossos próprios corpos, precisaríamos garantir também a posse de nossos cérebros e de toda a informação que geramos. Seria um “habeas corpus de informação”.

A proposta faz todo o sentido. Mas o que dizer dos muitos lugares no mundo em que nem mesmo o habeas corpus criado no século 13 é respeitado?

7 de dezembro de 2018

As feministas que leem Marx não estão contentes

Um belo texto de Laura Fernández Cordero sobre a obra de Marx e o feminismo está disponível no portal da Unisinos. Doutora em Ciência Sociais pela Universidade de Buenos Aires, ela afirma ser um “veredicto muito infeliz” dizer que Marx era "cego ao gênero".

Laura começa por descrever Marx como:

...o marido da abnegada Jenny, companheira no caminho do exílio e da miséria. O obstinado por um empreendimento revolucionário, que estava sempre acima de sua família. Aquele que, apesar do anacronismo, mereceria a acusação homofóbica. Aquele que fez teoria sobre a situação das mulheres em termos antropológicos, históricos e políticos. E também aquele Marx que acompanhou o crescimento de três filhas e escritoras políticas e, quando isso não era comum, levou a sério o questionamento de uma mulher (sabe-se que foram necessários muitos rascunhos para responder Vera Zasúlich sobre a viabilidade de uma revolução na atrasada Rússia czarista).

Exatamente por isso, diz ela, havia mulheres que prestavam atenção ao que ele fazia. Foram elas que “tiraram-lhe as barbas junto com outros feminismos não marxistas”. “Traduziram a dominação patriarcal em teorias, em conceitos, em revoluções pessoais, em práticas políticas”. Seriam:

Laboriosas mineiras dessa mina falaciosa que é a "natureza humana". Escavadoras que perfuraram o solo tranquilo do Ocidente viril, assim como aquela velha escavação da revolução que Marx esperançava.

Estariam ajudando a promover “uma revolução da subjetividade que, longe do novo homem, continua a pôr em xeque a tão mencionada universalidade do humano”.

Afinal, conclui Laura, Marx “não era um conciliador, nem um cara gentil. Ele não estava contente. Nós feministas que lemos Marx também não estamos”.

Leia também: Os preconceitos raciais de Marx

6 de dezembro de 2018

Os genes recessivos do fascismo

Em seu livro “A Pátria Educadora em Colapso”, Renato Janine Ribeiro narra seus poucos meses como Ministro da Educação de Dilma Roussef. 

Em setembro de 2015, ele afirma ter recebido alguns deputados que diziam representar a bancada católica. Queriam banir a educação sexual das escolas. As aulas deveriam se limitar ao funcionamento dos órgãos reprodutores. “Só a biologia!”, resumiu um deles.

Em matéria publicada pelo El País, em 04/12/2018, Felipe Betim descreve alguns momentos do 4º Congresso Nacional do Movimento Brasil Livre (MBL), realizado na capital paulista. 

Falando para quase mil pessoas, um dos dirigentes da organização conservadora reivindicou o caráter “rebelde” do movimento, afirmando que ao falar “da biologia, que existe homem e mulher, e não 50 gêneros, estamos sendo subversivos”.

Num e noutro momento, a tentativa de reduzir a vida social a seu nível biológico. Comportamentos históricos seriam produto de determinações puramente naturais. 

A esse reducionismo, o marxista estadunidense Fredric Jameson respondeu no artigo "La política de la utopía", publicado na edição da “New Left Review” de janeiro de 2004, do seguinte modo:

...dado que a natureza humana é histórica e não natural, dado que é um produto de seres humanos e não é inatamente registrada em genes ou em DNA, os seres humanos podem mudá-lo, isto é, não é uma condenação ou um destino, mas, ao contrário, o resultado da práxis humana.

A tentativa de “biologizar” a vida social, criando hierarquias congênitas, é certamente um dos traços genéticos do fascismo. Mesmo que nos casos acima ele ainda apresente caráter recessivo, cabe à práxis socialista e libertária impedir que se torne socialmente dominante. 

5 de dezembro de 2018

Coletes amarelos: sem essa de check-list ideológico

Os coletes amarelos estão nas ruas francesas quebrando e queimando tudo. Protestam contra o aumento do preço do diesel, muito utilizado em veículos leves na França. O governo Macron alega que a medida visa desestimular o uso de combustíveis sujos.

Não é bem assim. Nuno Ramos de Almeida em artigo publicado no portal Outras Palavras explica que o presidente francês cortou 4 bilhões de euros de impostos aos mais ricos e 41 bilhões em taxações para grandes empresas e multinacionais. Também diminuiu em 10 bilhões os tributos sobre capitais. Enquanto isso, o diesel ficou mais caro para trabalhadores que dependem dele para se deslocar ou trabalhar.

Tudo indica que o movimento é semelhante às manifestações de 2013 no Brasil. Motins cuja orientação ideológica precisa ser disputada.

Artigo de Rosana Pinheiro-Machado, disponível no The Intercept, discute a dificuldade das esquerdas em lidar com movimentos desse tipo:

...a esquerda precisa disputar, primeiro o que é possível: indivíduos, redes e inserções. Quando os motoristas de aplicativos pararem – porque isso um dia deve acontecer –, e o Brasil entrar num novo surto de “o que está acontecendo?”, seria mais inteligente não exigir carteirinha de “bom trabalhador” nem check-list de entrada no clube ideológico. Os trabalhadores precarizados tendem à direita pela própria natureza injusta e individualista de seu trabalho, mas isso não elimina a injustiça que está lá de forma latente. O populismo de direita, esse sapo medonho, se veste de príncipe, não escolhe militante, estende a mão e acolhe. Uma grande parte de nós tem feito o oposto: rechaçado, ridicularizado e tachado tudo aquilo que não compreende.

Fica a dica.

Leia também:
Junho de 2013: tentando controlar o que não pode ser controlado
A pedagogia da resistência está nas ruas

4 de dezembro de 2018

Edição genética e escolhas humanas

No final de novembro, He Jiankui, cientista da Universidade de Shenzhen, na China, anunciou ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados do mundo. O objetivo seria tornar imunes ao vírus do HIV as duas gêmeas nascidas do procedimento.

O anúncio causou uma onda inicial de indignação. A edição genética de embriões é condenada pela grande maioria da comunidade científica. É que essa técnica poderia causar problemas imprevisíveis e irremediáveis para quem as sofre e seus descendentes.

Por isso, a prática é vetada por lei em vários países. Mas como não há impedimento legal na China, a questão passou a ser somente ética. Nem tudo o que não é proibido, pode necessariamente ser feito. É um debate que envolve valores. O maior deles sendo a integridade da vida humana.

Uma das alegações do geneticista chinês em sua defesa é que portadores de HIV sofrem muito preconceito em seu país. De novo, a questão envolve valores. A solução seria priorizar a manipulação genética ou o combate à discriminação?

O fato é que em se tratando de valores, aqueles que dominam a sociedade atual estão muito claros. É só observar as ações de empresas como “Editas”, “Intellia” e “Crispr Therapeutics”, proprietárias de patentes ligadas à técnica utilizada por He. Nos últimos dias, o preço de seus papéis disparou, com aumentos entre 10 e 20%.

Há muito conhecimento milenar acumulado sobre a importância das escolhas humanas. Mas ele continua a ser desprezado por áreas de pesquisa científica que foram sequestradas pela busca do lucro.

Enfim, tudo indica que o chinês está no caminho certo. A humanidade é que não.

3 de dezembro de 2018

Os preconceitos raciais de Marx

Em 1862, Marx escreveu o seguinte sobre Ferdinand Lassalle, socialista alemão com quem mantinha relações conflituosas:

...essa mistura de judaísmo e germanismo, de um lado, e o estoque básico de negroide, de outro, devem inevitavelmente dar origem a um produto peculiar. A impertinência do sujeito também é do tipo crioulo.

Comentários vergonhosos como esse, vez ou outra, aparecem nos escritos de Marx. E não só em relação a Lassalle. Mas isso bastaria para caracterizá-lo como racista?

Em primeiro lugar, tais opiniões estão registradas apenas em cartas. A grande maioria delas, dirigidas a Engels, seu melhor amigo e confidente. Ou seja, tinham um caráter muito pessoal e privado. É como se fossem aquelas conversas de boteco em que muita bobagem é dita sem cuidado algum.

Em segundo lugar, não há nada na obra de Marx que justifique discriminações desse tipo. Ao contrário, toda ela é marcada por um constante esforço de desnaturalização das diferenças entre povos e pessoas. Nela não há espaço para hierarquias raciais.

Isso não significa ficar cego ao racismo de alguns de seus pretensos seguidores. Stalin, por exemplo, era antissemita. Mas esta era só uma das muitas traições do ditador soviético em relação às principais concepções marxianas.

Comemorar o bicentenário do nascimento de Marx não significa destacar apenas suas inegáveis qualidades. Ele não era racista, mas podia ceder a preconceitos raciais. E o exame detalhado de sua correspondência pessoal certamente encontrará outras manifestações discriminatórias.

O fato é que Marx foi um grande revolucionário, mas também um homem de seu tempo. Na verdade, de nosso tempo, ainda muito mergulhado em preconceitos e discriminações sociais.

Leia também:

16 de novembro de 2018

No canto mais escuro do medo, uma luz

O capítulo “O Sobrado” inaugura a saga “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo. O ano é 1895, cidade de Santa Fé, finalzinho da guerra entre gaúchos republicanos e federalistas.

O primeiro personagem a aparecer é o tenente republicano José Lírio, o Liroca. Sua missão é manter o cerco a um sobrado em que federalistas se refugiam. Deve ocupar a torre da igreja voltada para o casarão e impedir a tiros o acesso ao poço que fica na praça em frente. O objetivo é matar de fome e sede os ocupantes do casarão.

O problema de Liroca é sua covardia. Para chegar à igreja, é preciso atravessar a praça, sob risco de ser alvejado pelos ocupantes do sobrado. “Donde lhe vinha tanto medo?”, pergunta-se Liroca. Paralisado, murmura para si mesmo: "Lírio é macho, Lírio é macho”. Palavras que sempre repetia quando ia entrar em combate.

Por fim, mais por vergonha que por coragem, em correria trôpega e desesperada, José Lírio acaba chegando a seu posto. Lá do alto, aguarda e vigia. De repente, alguém sai do sobrado e corre até o poço. Liroca aguarda que ele encha seus baldes e atira. Erra os disparos de propósito. Não tem coragem de privar os inimigos, principalmente as mulheres e crianças que estão com eles, de um pouco de água.

Se o pior acontecer, o medroso Liroca poderia nos servir de inspiração. É a coragem arrancada com muito sofrimento do canto mais escuro do medo. Dignidade suficiente apenas para vencer a covardia, mas o bastante para não se render a toda crueldade que a barbárie impõe.

Até dezembro!

14 de novembro de 2018

As incríveis contradições da “universidade com partido” chinesa

Nas últimas semanas, pelo menos 12 estudantes universitários em cinco cidades chinesas foram detidos pelo governo. Seu crime? Promover manifestações em favor de direitos dos trabalhadores, como liberdade de organização sindical e melhores condições de trabalho.

O curioso é que os acusados se reivindicam marxistas e foram inspirados pelas obras de Marx que estudam em sala de aula. O ensino do marxismo é obrigatório nas universidades chinesas. Uma espécie de “universidade com partido” oficializada.

Além disso, nas comemorações pelo 200º aniversário de Marx, o presidente Xi Jinping afirmou que o revolucionário alemão estava “totalmente correto”.

Tudo muito contraditório, sem dúvida. Mas nada que deveria surpreender em um país cujo regime político continua se afirmando comunista, ao mesmo tempo em que sua economia tornou-se fundamental para o equilíbrio do capitalismo mundial.

Além disso, há certa coerência no que disse Jinping. Muito do que aconteceu no capitalismo global nas últimas décadas dificilmente pode ser explicado sem auxílio da teoria econômica marxista. Não à toa, as obras de Marx voltaram às livrarias no mundo todo.

O problema é que Marx nunca foi apenas um teórico. Se não existe prática revolucionária sem teoria revolucionária, o oposto também é verdadeiro. E os estudantes entenderam isso muito bem. Para azar deles, mas também do governo chinês.

Tudo isso, porém, pode ser apenas uma advertência. No país que tem a maior classe operária de todos os tempos, é razoável a chance de que seus membros construam seu próprio marxismo. Na periferia das universidades, mas no centro da luta de classes.

Seria um desastre para o regime chinês. Uma esperança para a humanidade.

Leia também:
Nova crise mundial pode arrastar até a China

13 de novembro de 2018

Pequeno teste sobre mídias sociais

Pawel Kuczynski
Considere as seguintes afirmações sobre as mídias do mundo contemporâneo:

… distorceram lentamente nossos hábitos mentais e atrofiaram continuamente nossa capacidade e disposição de nos envolvermos uns com os outros como cidadãos responsáveis.

Sua ascensão e domínio na vida cotidiana de bilhões de pessoas a transformaram em um "meta-mídia", uma tecnologia que contém, estrutura, altera e continua muitas, se não todas, as formas de mídia anteriores.

Um instrumento que direciona não só o nosso conhecimento do mundo, mas as próprias formas de nosso conhecimento.

Funciona como um mito. Uma maneira de entender o mundo que não é problemático, não é totalmente consciente e que parece, em uma palavra, natural. Um mito é um modo de pensar tão profundamente enraizado em nossa consciência que é invisível.

As afirmativas acima correspondem a:

a) Televisão  (   )
b) WhatsApp  (   )
c) Facebook  (   )
d) Twitter  (   )
e) Todas as anteriores  (   )

Gabarito: trata-se de trechos adaptados do livro “Nos divertindo até morrer”, de Neil Postman. Como a obra é de 1985, a resposta lógica seria “a”.

Mas eles aparecem também no livro “Antisocial Media: How Facebook Disconnects Us and Undermines Democracy (Mídia antissocial: como o Facebook nos desconecta e enfraquece a democracia)”, de Siva Vaidhyanathan, historiador e pesquisador de mídia da Universidade da Virgínia. A publicação é de 2018 e ainda não tem tradução para o português.

Segundo esse autor, a resposta correta só poderia ser “c”. E, realmente, toda a argumentação do brilhante estudo de Vaidhyanathan mais que justifica a escolha.

Mas, cá entre nós, caberia recurso em defesa da alternativa “e”.

Leia também: Rir pra não pensar

Sobre a ascensão do fascismo na Itália de Mussolini

Trecho de outro artigo esclarecedor de Gilberto Calil sobre a ameaça fascista:

...a constituição do governo Mussolini não implicou de imediato a constituição de um regime fascista. Entre novembro de 1922 e junho de 1926, a Itália tinha um governo liderado por um fascista – tal como teremos no Brasil a partir de janeiro próximo – mas em uma condição de transição na qual subsistiam determinadas liberdades. Neste contexto, Gramsci ao longo de 1923 fundamentou a proposta de investir na articulação política entre o operariado do Norte com o campesinato do Sul como caminho para efetivar um processo revolucionário e derrotar o fascismo. Em abril de 1924, em eleições que se realizaram ainda com certas condições de liberdade, Gramsci foi eleito deputado e retornou à Itália para assumir seu mandato. Pouco depois de Gramsci ter assumido como deputado, o deputado socialista Giacomo Matteoti foi assassinado por fascistas logo após de ter proferido um discurso denunciando fraude eleitoral e agravamento da violência política. Gramsci então defendeu que a única alternativa de resistência seria a convocação imediata de uma greve geral, rompendo com o imobilismo legalista e confrontando abertamente o governo fascista. Sua posição não se impôs e a escalada repressiva seguiu seu curso, até que ao longo de 1926 completou-se a reconfiguração do regime italiano e, em novembro, Gramsci teve seu mandato cassado e sua prisão decretada. As estratégias de apaziguamento e conciliação, a crença em que as instituições do Estado seriam capazes de conter o fascismo ou que ele seria destruído pelos seus próprios erros, acabavam, enfim, por produzir o resultado tantas vezes antecipado por Gramsci.

Leia também: O povo dos macacos aguarda as ordens dos gorilas

12 de novembro de 2018

O povo dos macacos aguarda as ordens dos gorilas

O que é o fascismo, visto em escala internacional? É a tentativa de resolver os problemas da produção e da troca através de rajadas de metralhadoras e de tiros de pistola

O trecho acima é de Antônio Gramsci e foi escrito nos anos 1920. A citação aparece no artigo de Gilberto Calil, “Gramsci e o Fascismo: A posição da pequena burguesia”.

Depois de identificar o fascismo como um fenômeno internacional, o revolucionário italiano afirma que em todos os países seu principal elemento de apoio social é a pequena e média burguesia. E referindo-se à obra “O Livro da Selva”, de Rudyard Kipling, compara essa camada ao:

...povo dos macacos, que acredita ser superior a todos os outros povos da selva, que acredita possuir toda a inteligência, toda a intuição, todo o espírito revolucionário, toda a sabedoria de governo.

Tendo perdido importância social, diz Gramsci, esse extrato “busca de todos os modos conservar uma posição de iniciativa histórica: ela macaqueia a classe operária, também faz manifestações de rua”, às quais busca corromper com um antiparlamentarismo conservador.

Difícil não lembrar de nossa atual situação e seus desdobramentos políticos. Por isso, Calil conclui, acertadamente:

Até recentemente podíamos ressalvar que ainda não se evidenciava a constituição de uma base militante organizada nos moldes de tropa de choque e a escalada da violência que a caracteriza. Não é possível mais ter a mesma segurança, e, portanto, é urgente reconhecer o fenômeno do fascismo, os elementos que o particularizam e a exigência imediata de seu enfrentamento.

Afinal, de um lado, há o povo dos macacos, de outro, os gorilas de prontidão.

Leia também: Atualizando a República de Weimar

9 de novembro de 2018

Rir pra não pensar

Em coluna publicada em 12/02/2017 na revista Época, Helio Gurovitz escreveu que o mundo da “pós-verdade” e “da anestesia intelectual” das redes sociais lembra menos "1984", de George Orwell, do que “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley.

A ideia vem do livro “Nos divertindo até morrer”, escrito em 1985 pelo teórico da comunicação estadunidense Neil Postman:

Na visão de Huxley, não é necessário nenhum Grande Irmão para despojar a população de autonomia, maturidade ou história”, escreveu Postman. “Ela acabaria amando sua opressão, adorando as tecnologias que destroem sua capacidade de pensar. Orwell temia aqueles que proibiriam os livros. Huxley temia que não haveria motivo para proibir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse lê-los. Orwell temia aqueles que nos privariam de informação. Huxley, aqueles que nos dariam tanta que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley, que fosse afogada num mar de irrelevância”.

(...)

"Orwell temia que nossa ruína seria causada pelo que odiamos. Huxley, pelo que amamos”, escreve Postman. Só precisa haver censura, diz ele, se os tiranos acreditam que o público sabe a diferença entre discurso sério e entretenimento.

(...)

O alvo de Postman, em seu tempo, era a televisão, que ele julgava ter imposto uma cultura fragmentada e superficial, incapaz de manter com a verdade a relação reflexiva e racional da palavra impressa. (...) Mas suas palavras foram prescientes: “O que afligia a população em Admirável mundo novo não é que estivessem rindo em vez de pensar, mas que não sabiam do que estavam rindo, nem que tinham parado de pensar”.


Leia também:
A perigosa era do domínio pelas mentiras

7 de novembro de 2018

A perigosa era do domínio pelas mentiras

Pawel Kuczynski
Uma eleição presidencial sem debate sobre programas de governo. Um vencedor cuja campanha baseou-se em um circuito de mentiras e distorções grosseiras que alcançava grandes parcelas da população, mas passou despercebido por muitas de suas principais vítimas. Em especial, forças de esquerda, movimentos sociais e meios acadêmicos.

A utilização eleitoral das redes virtuais em escala gigantesca para disseminar material fraudulento em doses curtas, grossas e que ocupam cada momento do dia. Declarações desencontradas, contraditórias, ditas e desditas de hora em hora. Durante a campanha, depois dela e no futuro sombrio que nos aguarda.

Uma estratégia eleitoral inspirada na tática vitoriosa de Donald Trump, que atraiu boa parte de seus votos por meio da desinformação mais grosseira. Algo que só poderia ter ocorrido pela primeira vez e com tais proporções no centro do imperialismo mundial, onde o domínio do valor de troca sobre o valor de uso é o mais extremado. Onde a circulação da informação definitivamente se rendeu à lógica da mercadoria e passou a valer por seu alcance e não por critérios como objetividade e precisão. Pelas curtidas que atrai e não pelos fatos que relata.

Tudo isso faz parte do que vem sendo chamado de era da pós-verdade. Mas, concretamente, não passa daquilo que os poderosos de todos os tempos sempre utilizaram amplamente para dominar e subjugar: mentiras, calúnias, misticismo e preconceito. A grande diferença é que tudo isso vem impregnando o tecido social de maneira inédita, normalizado por uma economia política em que a circulação especulativa de capital contagia as relações humanas de maneira avassaladora e muito perigosa.

Muito perigosa...

Leia também:

6 de novembro de 2018

A real sobre o “Plano Real” de Sérgio Moro

Nomeado Ministro da Justiça do próximo governo, Sérgio Moro diz que pretende colocar em prática um “Plano Real contra a corrupção”.

A comparação nos obriga a lembrar que o Plano Real representou muito mais do que o fim da inflação descontrolada. Seu objetivo maior era retirar do terreno sindical a luta em torno da repartição dos lucros entre trabalhadores e patrões. Com inflação baixa, as frequentes greves por melhores salários escassearam.

Era a primeira fase de um processo de afastamento das lutas e conflitos para longe dos locais de trabalho e das ruas. Greves e manifestações foram sendo substituídas por eleições periódicas e lobbies parlamentares. A disputa seria travada agora na arena eleitoral, procurando eleger governos que promovessem políticas redistributivas.

Foi o que se buscou fazer com a eleição e reeleição dos governos petistas. Mas, aí, já estávamos na fase da austeridade econômica, que amarrou os governos ao respeito absoluto ao orçamento fiscal, mesmo que isso custasse enormes cortes nas verbas dos serviços públicos mais essenciais.

Mas voltando ao Plano Real, na real, ele representou uma renovação da inserção subordinada da economia nacional no sistema imperialista mundial. Já o “Plano Real” de Sérgio Moro, na real, seria uma renovação do presidencialismo de coalizão.

Despido de sua toga, Moro deve travar um combate à corrupção ainda mais seletivo e partidário. Sua missão seria ajudar a aprovar as medidas ultraliberais do futuro governo, menos por meio de negociatas fisiológicas do que por chantagens envolvendo denúncias não necessariamente verdadeiras contra parlamentares rebeldes.

Já aos movimentos sociais e organizações de esquerda, estão reservados o Código Penal e a legislação antiterrorista.

 
Leia também: 
Na pós-democracia, a política comandada pela economia
Lula dentro da armadilha

5 de novembro de 2018

O fim da imprensa e da internete

“Não ignore as mudanças do Brasil de Bolsonaro”, adverte Leandro Demori em artigo publicado no Intercept Brasil, em 28/10/2018.

Dois trechos se destacam. O primeiro fala em “fim da internet”:

Todo o caos fértil que a rede nos pareceu em meados dos anos 90 e depois, toda aquela libertação dos meios tradicionais nos anos 2000, se transformou em um engenho de algoritmos no qual nós somos os animais a empurrar a roda. Animais que votam com a cabeça entupida de desinformação.

O segundo é sobre uma imprensa moribunda:

É preciso também falar sobre a insistência da imprensa em conversar só com a elite intelectual. Sobre o linguajar complicado, a profusão de jargões, as matérias escritas para serem elogiadas pelos colegas jornalistas, para terem lugar cativo nas newsletter de iniciados, e para serem ignoradas pela população em geral. Esse sistema perdeu, foi humilhado por memes e notícias falsas. A separação antiga entre “jornalismo e opinião” – como se não pudesse haver “jornalismo” mentiroso e “opinião” informativa e embasada – perdeu o sentido. Porque não importa o que nós, jornalistas, achamos sobre esses velhos cânones, o que importa é a percepção das pessoas.

Segundo ele, não “é mais possível construir uma manchete em que Bolsonaro acusa o PT de fraude nas urnas sem dizer que ele não tem provas”.

E conclui: “O jornalismo precisa parar de fingir que não é parte do jogo e que existe só para ‘reportar os fatos’”.

Se Demori espera ser ouvido pela grande mídia, jamais conseguirá. Mas suas advertências são perfeitas para a imprensa de esquerda. Este setor que também precisa ser salvo do falecimento.

1 de novembro de 2018

Desesperadamente otimistas

“Desesperadamente otimista”, foi assim que Christine Lagarde, diretora-gerente do FMI, declarou estar se sentindo quanto ao futuro próximo da economia mundial.

Foi na reunião anual entre Banco Mundial e FMI, ocorrida de 9 a 14/10/2018, na Indonésia. Provavelmente, ela quis dizer que precisa estar otimista ou terá que admitir que é grande a possibilidade de uma nova catástrofe econômica para breve.

Entre as maiores preocupações, um nível de endividamento jamais visto desde a Segunda Guerra, a guerra comercial entre Estados Unidos e China e as “fintechs”. Estas últimas são a mais recente invenção infernal do capital.

As fintechs são instituições financeiras de alta tecnologia, que fogem às regulamentações do setor. Por isso, até recentemente, eram chamadas de “bancos das sombras”.

Ganharam status de “novas tecnologias”, mas continuam perigosas. Talvez, um novo tipo de subprime, que, tal como as fintechs, surgiu com o pretexto de facilitar crédito aos mais pobres.

Enquanto isso, no Brasil, não poderíamos estar em pior situação para enfrentar um novo surto da crise que começou em 2008. O governo eleito prometeu coisas contraditórias a públicos diferentes.

Se apresenta tanto como protetor da soberania nacional, como ultraliberal, disposto a escancarar a economia aos investimentos estrangeiros.

Afirma que não quer vender o país para a China, mas ataca o Mercosul, cujo enfraquecimento poderia deixar terreno livre para o capital chinês.

Para não falar na disposição de lidar com crises sociais decorrentes de uma nova recessão mundial na base da repressão mais brutal.

Enfim, tal como a diretora do FMI, também estamos desesperadamente otimistas, mas nosso otimismo depende demais de nossa vontade. Que ela seja poderosa.

Leia também: Lutar. Sempre!

31 de outubro de 2018

A esquerda do “porque sim”

A busca pelas possíveis causas de nossa imensa derrota certamente terá que passar por entender a “psicologia das massas”.

Nessa direção, uma entrevista de Clarisse Gurgel para a Carta Capital, ainda em 2017, fornece pistas importantes.

Formada em Artes Cênicas e doutora em Ciência Política pela UERJ, Clarisse diz que um grande problema de nossa esquerda é a utilização da “ação performática” como “tática preferencial”.

E o que seria isso? Basicamente, diz ela:

... é você simular que está sendo espontâneo e atuar de forma efêmera, ou seja, sem continuidade. É priorizar eventos, como atos, marchas, passeatas, abraços a monumentos etc.

O problema, continua Clarisse, é que:

Quando a esquerda parte da ação da rua, ela está invertendo o processo. Ir para a rua é o ápice. A esquerda precisa recuperar a ação que fazia nos locais de trabalho, nas associações de moradores, nos núcleos partidários, nos movimentos sociais.

Além disso, a arena da ação performática seria aquela em que os conservadores mais se sentem à vontade. Encontram nela condições ideais para fazer valer o “significante mestre” de sua preferência.

Significante mestre, explica, é qualquer declaração que tenha o efeito de uma mãe dizer a uma criança: “é porque é”.

Por exemplo, a afirmação “não queremos que o Brasil se torne uma Venezuela” ganha caráter de grave ameaça devido à campanha da grande mídia contra o regime chavista.

Também temos nossos significantes mestres, nossas palavras de ordem. O problema é estarmos reduzidos a eles em um meio hostil a nossos valores. Dissemos muitos “porque sim” e grande parte da sociedade contestou: “porque sim não é resposta”.