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7 de dezembro de 2022

China: concentração de poderes (e de problemas?)

A extensão do governo de Xi Jinping não é uma grande surpresa. Mao Tsé-Tung permaneceu no poder por aproximadamente 30 anos, assim como Deng Xiaoping. A novidade é a forma como ele se mantém no poder. Mao Tsé-Tung continuou no poder como presidente do partido. Deng Xiaoping foi nomeado presidente da comissão militar. Mas Xi Jinping se mantém no poder mudando as regras e impondo um novo sistema sob seu controle exclusivo. Esta não é uma diferença pequena. 

As palavras acima são de Francesco Sisci, pesquisador da Universidade Popular da China. Estão em uma recente entrevista sobre a reeleição de Xi para um terceiro mandato como secretário-geral do Partido Comunista, presidente da República e chefe da Comissão Militar Central. Um acúmulo de cargos poderosos sem precedentes.

Sisci vê nessa concentração de poder um sinal de que os governantes chineses “estão em grande dificuldade, porque julgaram mal uma série de questões e opiniões e agora se sentem perdidos”. Precisaram apertar o controle para melhor responder a possíveis crises, afirma.

Segundo o entrevistado, os maiores erros relacionam-se à situação externa, envolvendo Rússia, Ucrânia e Estados Unidos. A questão, diz, não é “se a Rússia sucumbirá, mas quando”. Além disso, Sisci vê instabilidades em regimes aliados, como o iraniano. Desse modo, a China estaria ameaçada “de ser sitiada por países hostis”, conclui. 

A análise destoa de várias outras, que veem na aproximação russo-chinesa a formação de um polo estável e poderoso. O problema é que o gigantismo da economia chinesa não permite grande margem para erros graves. Inclusive, por seus possíveis efeitos desastrosos para o resto do mundo.

Leia também: Os rinocerontes e os cisnes de Xi Jinping

1 de novembro de 2022

Os rinocerontes e os cisnes de Xi Jinping

No 20° Congresso do Partido Comunista Chinês, encerrado há poucos dias, Xi Jinping foi reeleito secretário-geral do partido e presidente da China e da Comissão Militar Central. É a maior concentração de poder desde Mao Tsé-Tung. 

Em janeiro de 2018, Xi fez um discurso em um seminário para os membros do Comitê Central do PCCh. Por seu caráter elucidativo, a publicação Vozes Chinesas divulgou um resumo do pronunciamento.

No discurso, Xi reafirma o socialismo chinês como parte do processo iniciado há mais de 170 anos, com Marx e Engels, e continuado por Lenin.

Mas a parte mais curiosa do pronunciamento é aquela em que Xi adverte “que a China entrou em um período de desenvolvimento em que oportunidades estratégicas, riscos e desafios são concomitantes e as incertezas e fatores imprevistos estão aumentando”. 

Assim, continua ele, vários eventos de "cisne preto" e "rinoceronte cinza" podem ocorrer a qualquer momento. Portanto, “devemos estar mais atentos aos perigos potenciais, estar preparados para lidar com os piores cenários e estar prontos para resistir a ventos fortes, águas agitadas e até mesmo tempestades perigosas”. 

A metáfora do rinoceronte cinza foi criada pela especialista em riscos Michele Wucker para descrever perigos altamente óbvios e prováveis, mas ainda assim negligenciados. Já cisnes negros simbolizariam riscos imprevisíveis ou altamente improváveis.

Difícil saber o que quis dizer o poderoso líder chinês. Mas ao se colocar a tarefa de construir o socialismo à frente de uma nação que vem se tornando importante pilar da globalização capitalista, Xi vai precisar encarar manadas de rinocerontes cinzas ferozes e bandos de cisnes negros desorientados.

Leia também: A China preocupada com o capitalismo digital

2 de julho de 2022

Mais turbulências lá fora, mais fumaça por aqui

Dois elementos importantes se destacaram no cenário internacional, recentemente. O primeiro aparece em artigo publicado por José Eustáquio Diniz Alves.

Em seu texto, o demógrafo e pesquisador ambiental chama a atenção para o encontro ocorrido em junho passado, em Pequim, do chamado BRICS, grupo de países que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Para começar, o autor lembra que os BRICS surgiram no começo do século em desafio à hegemonia do G7, grupo formado pelos maiores países capitalistas: EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá.

No período recente, os BRICS perderam espaço no noticiário internacional, mas Alves lembra que, em termos econômicos, o grupo ultrapassou o G7 em 2020. Dados do FMI, diz ele, mostram que em 1980, o G7 representava cerca de 50% do PIB global e o BRICS, cerca de 10%. Mas, atualmente, cada um dos dois grupos é responsável por 30% da produção mundial.

No encontro de Pequim, a China deu o tom, com o presidente Xi Jinping, criticando os Estados Unidos e afirmando que “a hegemonia Ocidental tem provocado inúmeras tragédias, conflitos e guerras”. Segundo Alves, a China “pretende liderar um BRICS renovado e ampliado”.

Outro novo elemento importante no panorama global é o fortalecimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Em meio à crise militar na Ucrânia, a Otan anunciou o aumento de suas forças de reação rápida de 40 mil para 300 mil homens na Europa.

A ambição chinesa e a disposição bélica ocidental podem causar mais turbulências no já agitado panorama global e atiçar o incêndio em nosso circo local.

Leia também: EUA e Ucrânia: uma cajadada, muitos coelhos

1 de junho de 2022

EUA e Ucrânia: uma cajadada, muitos coelhos

A guerra entre a Rússia e a Ucrânia já se arrasta por mais de três meses. Abaixo um pequeno resumo de um recente artigo de Chen Wenling, economista da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, do governo chinês.

Os Estados Unidos iniciaram o conflito russo-ucraniano para "matar três coelhos com uma cajadada só": usar a Ucrânia como peão para provocar o conflito, fortalecendo, assim, uma OTAN controlada por eles; romper os laços entre a Europa e Rússia, para acelerar o fluxo do dólar estadunidense e, por fim, fornecer contratos lucrativos para os cerca de 4 mil grupos de lobby do complexo militar-industrial dos EUA.

Em 2020, 37,4 trilhões de metros cúbicos de gás natural da Rússia foram exportados para a Europa. Com o conflito, as empresas de gás natural estadunidenses podem assumir esse lucrativo mercado.

Os EUA arrastaram a União Europeia para a guerra impactando gravemente seu crescimento econômico. Além disso, há um alto risco de que o euro seja desvalorizado devido à guerra.

Os Estados Unidos declararam a China seu maior concorrente estratégico. Mas não estão prontos para uma guerra "quente", já que sua economia e a chinesa estão intimamente ligadas. Além disso, os estadunidenses ainda não fizeram progressos substanciais no fortalecimento de sua cadeia de suprimentos, principalmente na produção de semicondutores. Taiwan pode ajudá-los, mas esse plano ainda não foi concretizado.

Ela admite que o conflito russo-ucraniano pode afetar a China em vários aspectos, mas acredita que o impacto geral sobre a economia chinesa não será significativo.

Resta saber a que ponto chegará o massacre de coelhos nessa troca de cajadadas.

Leia também: Ucrânia: observações de um especialista chinês

17 de maio de 2022

A China e seu pretenso capitalismo sob controle

“Por que a economia da China continua a crescer?”, pergunta Lu Feng, professor da Escola de Governo da Universidade de Pequim, em recente artigo.

De acordo com ele, “o sistema industrial chinês está mais sólido do que nunca, e não há fim à vista para o progresso tecnológico e para as mudanças estruturais do sistema industrial. Assim, a era dourada do crescimento econômico da China ainda está por vir”.

No artigo, Feng explica o advento dessa “era dourada” pelos seguintes fatores:

(1) o Estado domina a direção do desenvolvimento econômico; (2) a terra e os recursos naturais permanecem sob propriedade pública; (3) o sistema monetário e financeiro é controlado através da propriedade estatal dos principais bancos; (4) as maiores empresas industriais são estatais; (5) o governo mantém a capacidade de intervir diretamente na economia real através de investimentos em infraestruturas e grandes projetos tecnológicos e (6) o poder estatal atribui e fixa preços em áreas que afetam a segurança nacional.

Segundo o autor, esses fatores têm “assegurado que a economia da China se desenvolva de forma independente, não dominada por capitalistas e amplamente apoiada por toda a sociedade”.

A se crer na explicação, a China parece ter conseguido montar uma economia capitalista não dominada por capitalistas.

Enquanto isso, em abril, as atividades varejista e industrial chinesas caíram bruscamente por causa das medidas para evitar novos surtos de covid-19.

O que parece escapar ao especialista chinês é que nem mesmo os capitalistas ocidentais conseguem dominar o sistema que tanto os beneficia. Pandemias e crises climáticas são só os mais recentes dos efeitos nada colaterais do capitalismo.

10 de maio de 2022

Ucrânia: observações de um especialista chinês

Wang Xiangsui é cientista da Universidade de Aeronáutica e Astronáutica de Pequim. Publicou artigo em março passado, que traz alguns elementos importantes sobre a crise na Ucrânia.

Segundo ele, a economia mundial divide-se em três grandes esferas: a esfera do Euro, que representa mais de 70% do comércio interno europeu; a norte-americana, dominada pelos Estados Unidos; e a esfera oriental, composta principalmente pela China e países do sudeste asiático.

A Zona do Euro não tem força militar autônoma e sua segurança é garantida pela Otan, controlada pelos EUA. Enquanto isso, a Rússia é o único país europeu com grande poder militar. Sua integração à zona do euro tornaria a Europa um polo mundial difícil de abalar.

A economia russa depende da Europa e seu comércio exterior está limitado pelo dólar e pelo euro. Desse ponto de vista, está em uma posição fraca diante de estadunidenses e europeus.

Houve erros de todos os lados, continua Xiangsui. O governo da Ucrânia é favorável ao Ocidente, mas este é incapaz de dar o apoio de que os ucranianos necessitam. A eclosão da guerra arrastou a região europeia de volta às tradicionais disputas de soberania territorial.  

Por fim, a crise ucraniana deu um novo impulso à cooperação sino-russa. A China é um grande país produtor. A Rússia é o país mais rico em recursos naturais, mas precisa de um mercado grande e estável como o da China.

Os EUA cometeram um erro estratégico ao confrontar a Rússia, a China e a Europa. Já não é uma superpotência, mas apenas um dos muitos centros de poder do mundo, conclui Xiangsui.

Leia também: A Ucrânia no meio de uma guerra interimperialista

31 de janeiro de 2022

A China preocupada com o capitalismo digital

Em 23/01/2022, a Revista e-government do governo chinês publicou o artigo “Ganhando 1 bilhão por dia, como os gigantes da Internet extraem valor residual digital?”, do professor He Zhe, da Escola Central do Partido Comunista Chinês.

Em um trecho do texto, ele diz:

Na era industrial, pode levar décadas ou mesmo centenas de anos de trabalho árduo e acumulação de longo prazo para que um empresário comum se torne o homem mais rico (seja em um país ou no mundo), como Rockefeller, Carnegie, etc. Mas na era da economia digital, o efeito de agregação de capital em grande escala e a rápida expansão replicável da economia de dados podem permitir que um empreendedor tenha dezenas de bilhões ou centenas de bilhões de riqueza em um período muito curto de tempo (dentro de uns poucos anos). Isso significa que o efeito de aglomeração de capital na era da economia digital será mais evidente, o que pode levar a um resultado inevitável, ou seja, na era da economia digital, poderá ocorrer uma polarização mais grave, levando a uma série de consequências graves da polarização das classes sociais.

O texto é muito interessante, pois mostra como o pensamento oficial chinês está preocupado com as contradições do funcionamento do capital. A leitura atenta deixa claro, no entanto, que o objetivo maior é como fazer com que o sistema funcione sem os solavancos e crises para os quais a “governança” ocidental vem irresponsavelmente dando pouca atenção. Ou seja, o governo chinês está seriamente comprometido com a salvação do capital.

O artigo está aqui, em chinês, com conversão automática para o português.

Leia também: Revolução Chinesa e revolução permanente desviada

16 de julho de 2021

Revolução Chinesa e revolução permanente desviada

Após a Revolução Russa, a outra grande revolução vitoriosa ocorreria na China, em 1949. Mas, o marxista inglês Tony Cliff entendia que tanto a revolução chinesa como a cubana, mais tarde, seriam bem diferentes daquela ocorrida em 1917. E para explicar seu caráter, ele elaborou a teoria da revolução permanente desviada.

Em um artigo sobre essa formulação, o compatriota de Cliff, Duncan Hallas, explica:

...as proclamações de defesa do marxismo pelos seus dirigentes eram contraditórias com as idéias de Marx, para quem “a emancipação da classe trabalhadora será obra da própria classe trabalhadora”. Nem na China nem em Cuba os trabalhadores controlavam os meios de produção, e tampouco haviam cumprido um papel ativo, e muito menos dirigente, nos acontecimentos que haviam levado aos novos regimes.

Pelo contrário, argumentou Cliff, China e Cuba eram governados por um estrato de intelectuais com base, quando muito, no apoio passivo dos camponeses e trabalhadores. Foi esse estrato de intelectuais que assumiu o controle, e não a classe trabalhadora, como seria de se esperar segundo a teoria de Trotsky. Esse estrato foi capaz de usar a máquina estatal para nacionalizar a maior parte da economia, e lançar seus países em uma via nacional de desenvolvimento capitalista-estatal.

Acima de tudo, a teoria da revolução permanente “desviada” proporcionou - sem abandonar o espírito da contribuição pioneira de Trotsky ao marxismo - um modo de compreender o sucesso das revoluções chinesa e cubana, e também de outros regimes capitalistas de Estado menos “puros”, em realizar algumas das tarefas da revolução burguesa.

O artigo de Cliff sobre sua teoria está disponível aqui, em tradução automática.

Leia também: China: revolução socialista sem operários?

15 de julho de 2021

China: revolução socialista sem operários?

No prefácio de seu livro “A Revolução de 1905”, Trotsky diz que sua teoria da revolução permanente:

...pretende indicar que a revolução russa, embora diretamente relacionada com propósitos burgueses, não podia deter-se em tais objetivos: a revolução não resolveria suas tarefas burguesas imediatas sem o acesso do proletariado ao poder, e o proletariado, uma vez que tivesse o poder em suas mãos, não poderia permanecer confinado dentro do modelo burguês da revolução.

O proletariado teria que dar conta das tarefas democráticas enquanto avançava rumo aos objetivos socialistas, se não quisesse ser derrotado em ambas as frentes.

Mas se do ponto de vista marxista, uma revolução burguesa pode ocorrer sem uma vanguarda da burguesia, uma revolução socialista jamais aconteceria sem uma vanguarda operária. No entanto, quando assumiu o poder, o Partido Comunista Chinês (PCC) não tinha praticamente nenhum operário industrial entre seus filiados, sendo os camponeses maioria esmagadora.

A Revolução Chinesa teria sido, então, obra de uma vanguarda formada por camponeses? Poderia ser, desde que não fosse caracterizada como uma revolução socialista. Os interesses de classe dos camponeses podem levá-los a lutar pela democratização da propriedade dos meios de produção, jamais por sua socialização.

Basicamente, o PCC era um exército de camponeses dirigido por intelectuais das camadas sociais intermediárias. É por isso que jamais evoluiu da estatização dos meios de produção para sua socialização.

Para tentar dar conta dessa situação, o marxista inglês Tony Cliff propôs a teoria da revolução permanente desviada. Uma variação da formulação de Trotsky, para explicar também revoluções como a cubana e a vietnamita.

Mais detalhes na próxima e derradeira pílula desta série.

Leia também: A Revolução Chinesa e os desvios da revolução permanente

14 de julho de 2021

A Revolução Chinesa e os desvios da revolução permanente

Em 1949, quando as forças do Partido Comunista Chinês se aproximaram das grandes cidades da China, uma proclamação assinada por Mao Tsé-Tung determinava:

Os operários e demais trabalhadores devem continuar trabalhando e os negócios funcionando normalmente. Os funcionários públicos e a polícia devem permanecer em seus postos e obedecer as ordens do Exército de Libertação do Povo e do Governo Popular.

Que estranha revolução essa, que aconteceu com todas as atividades urbanas funcionando normalmente?

No entanto, uma transformação radical tinha acontecido. A China foi unificada. As potências imperialistas, expulsas. A propriedade latifundiária, extinta. Todas as tarefas essenciais de uma revolução burguesa foram realizadas, exceto a conquista de liberdade política para os trabalhadores. Mas quem fez essa revolução com características tão burguesas não foi a burguesia.

Até aí, tudo bem. Se a burguesia não faz, ela mesma, sua revolução, é a classe trabalhadora que deve fazê-la e avançar para as transformações socialistas, logo a seguir. É isso o que prevê a teoria da revolução permanente elaborada por Trotsky e que guiou os bolcheviques na fase derradeira da Revolução de 1917.

Mas no caso chinês, foi o campesinato sob a direção de quadros intelectuais de classe média, como Mao e outros militantes partidários, que fizeram a revolução. Não o proletariado industrial. Como explicar esse fenômeno sem desautorizar a teoria ortodoxa da revolução marxista?

Uma das teorias para explicar essa situação sem romper com a tradição marxista é a da revolução permanente desviada, do marxista inglês Tony Cliff. Será com base nela que tentaremos iluminar brevemente as contradições da Revolução Chinesa nas próximas pílulas.

Leia também: O socialismo utópico de Mao Tsé-Tung

13 de julho de 2021

Mao Tsé-Tung coloca Marx de cabeça pra baixo

Na China, a base do poder do partido comunista eram suas forças militares e territórios dominados. Desse modo, Mao Tsé-Tung não precisou fazer o esforço teórico que Lênin fizera. A atuação dos comunistas não dependia da compreensão sobre o que eram a China e o mundo, apenas do entendimento do potencial militar do Exército Vermelho.

A análise acima é do livro “O Mandato do Céu”, de Nigel Harris. Seriam os fatores destacados pelo autor que explicariam o idealismo filosófico do pensamento maoísta. Os elementos principais das concepções de Mao são de ordem moral. Para ele, o entusiasmo e a consciência, tão vitais nos pequenos partidos, são os fatores históricos decisivos, não a contradição entre forças produtivas e relações de produção. Não à toa, Mao afirmava:

Os homens não são os escravos da realidade objetiva. Quando a consciência dos homens entra em conformidade com a lei objetiva do desenvolvimento das coisas, a atividade subjetiva das massas populares pode se manifestar plenamente para superar todas as dificuldades, criar as condições necessárias e levar avante a revolução. Nesse sentido, o subjetivo cria o objetivo.

Mao seguiu essa lógica até sua as últimas consequências, diz Harris. Os fatores-chave da revolução e do desenvolvimento econômico são propaganda, educação, métodos de mudança de consciência, não as forças materiais de produção. Desse modo, dizia Mao:

Em primeiro lugar, crie a opinião pública e tome o poder. Em seguida, resolva a questão da propriedade. Posteriormente, desenvolva as forças produtivas em grande escala. Esta, em geral, é a regra.

Se Marx virou Hegel de cabeça para baixo, Mao inverteu Marx, conclui o autor.

Leia também: O socialismo utópico de Mao Tsé-Tung

12 de julho de 2021

O socialismo utópico de Mao Tsé-Tung

“O pensamento de Mao Tsé-Tung é um retorno às doutrinas pré-marxistas de socialismo”, diz Nigel Harris em seu livro “O Mandato do Céu”. Ideias que Marx caracterizou como "socialismo utópico" manifestaram-se amplamente na China sob o domínio do partido comunista, afirma ele.

A hostilidade às cidades, o retorno da classe trabalhadora urbana ao campo, a formação de comunidades agrário-industriais autossuficientes cuja função era impedir o fortalecimento de hierarquias, da burocracia, do trabalho especializado e garantir o desenvolvimento educacional do trabalho manual. Tais ideias eram fantasias reacionárias para Marx, já no século 19.

Somente o capital centralizado e a especialização do trabalho permitiriam a abundância que criaria condições para instaurar o socialismo. A igualdade não poderia ser baseada por muito tempo em socialização da pobreza, em ideais de abnegação ascética. Apenas o pleno desenvolvimento das forças produtivas garantiria acesso generalizado à abundância produtiva proporcionada pelo capitalismo.

A Revolução Chinesa nunca foi "traída". Os comunistas chineses da década de 1930 jamais propuseram a autoemancipação da classe trabalhadora. Mao não tinha os mesmos objetivos de Lênin. Sua meta era a libertação nacional

Na época de Mao, a distinção entre libertação nacional e luta internacionalista desapareceu. Na verdade, a primeira engoliu inteiramente a segunda. A libertação nacional foi um grande passo à frente para a China, mas seu caráter era muito diferente daquele que marcou a Revolução de 1917.

Segundo Harris, Mao se contentou com a versão do século 20 da revolução burguesa. O objetivo era liberar as forças produtivas às custas da emancipação dos trabalhadores. E é isso o que a China vem realizando, desde então.

Leia também: Mao Tsé-Tung, o pacificador da luta de classes

9 de julho de 2021

Mao Tsé-Tung, o pacificador da luta de classes

Um pouco sobre o pensamento do grande líder da Revolução Chinesa. Em seu livro “O Mandato do Céu”, Nigel Harris destaca a seguinte observação feita por Mao Tsé-Tung, em 1963: “Há dez anos não temos luta de classes. Tivemos em 1952 e em 1957, mas ocorreram apenas nos órgãos administrativos e nas escolas”.

Ou seja, diz Harris, a luta de classes seria uma atividade, tal como a política, a ciência, as artes... Sendo assim, pode e deve ser controlada e pacificada. Agindo como um legislador, Mao determinava o que deveria ser feito quanto às contradições de classe. Por exemplo:

A contradição entre explorador e explorado, que existe entre a burguesia nacional e a classe trabalhadora, é antagônica. Mas, nas condições concretas que existem hoje na China, tal contradição antagônica, se bem tratada, pode ser transformada em não antagônica e resolvida de forma pacífica.

“Onde as classes existem sem luta de classes e a luta de classes sem classes, tudo, mesmo as contradições, são negociáveis. Tornam-se uma questão de relações públicas bem administradas”, ironiza Harris.

A simplicidade das ideias de Mao a respeito da concepção de comunismo “é encantadora”, diz o autor. Certa vez, o líder chinês teria afirmado:

A classe feudal teve uma doutrina feudal, a burguesia uma doutrina capitalista, o budismo é budista, o cristianismo é cristão (...) por que então o proletariado não pode ter o seu comunismo?

Não à toa, a grande potência em que se transformou a China adotou a “harmonia” como seu principal valor. Mesmo que continue a sustentar o capitalismo mundial, um sistema que produz desequilíbrios descomunais em série.

Leia também: O projeto do PC chinês nunca foi essencialmente socialista

8 de julho de 2021

O projeto do PC chinês nunca foi essencialmente socialista

Quando foi fundado, o Partido Comunista Chinês (PCC) tinha em seu interior algumas importantes divergências estratégicas. A maior delas, opunha setores que defendiam a revolução a partir das cidades aos que entendiam que ela deveria começar pelo campo.

Entre estes últimos, estava Mao Tsé-Tung, que justificava suas posições com base na enorme superioridade numérica do campesinato frente ao operariado. O problema é que havia uma situação demográfica semelhante na Rússia e, nem por isso, os camponeses foram a vanguarda da Revolução de Outubro.

Mas outros fatores entraram em jogo, ajudando a consolidar a posição de Mao. Entre eles, o caráter fortemente militar e territorial que o processo revolucionário passou a ter com a invasão japonesa de 1937.

O PCC formou seu próprio exército para se defender da burguesia chinesa. Passou a usar esse exército para combater os japoneses e distribuir terra aos camponeses. A luta nas cidades tornara-se secundária.

Como diz Nigel Harris, em seu livro “O mandato do Céu”, foi assim que a revolução liderada por Mao se tornou uma luta por libertação nacional. Com isso, a autoemancipação dos explorados sumiu do horizonte do PCC.

Não que isso diminua a grande façanha realizada pelos comunistas chineses. Apenas mostra que seu projeto nunca foi essencialmente socialista.

Ser nacionalista pressupõe colocar o desenvolvimento econômico acima da socialização dos meios de produção. Transformar cooperativas em monopólios. Defender o fortalecimento do estado, não sua gradual dissolução. Promover o nacionalismo econômico, não o internacionalismo proletário.

A China é o que é hoje por causa dessa trajetória. E o que ela é hoje nada tem a ver com socialismo.

Continua...

Leia também: O PC chinês rumo ao poder, cada vez menos comunista

7 de julho de 2021

O PC chinês rumo ao poder, cada vez menos comunista

O processo revolucionário chinês teve início no final dos anos 30. Nesse período, o stalinismo já dominava o comunismo internacional.

Para Stalin, a revolução chinesa deveria ser liderada pela burguesia. Desse modo, a aliança estratégica não seria entre operários e camponeses contra a burguesia e o imperialismo. No lugar disso, o Partido Comunista Chinês (PCC) deveria se aliar ao Kuomitang, partido nacionalista, representante dos interesses do grande capital e dos latifundiários.

Moscou orientara o PCC a limitar suas reivindicações ao que fosse aceitável para os nacionalistas. Também forneceu armamento e enviou especialistas russos para transformar o Kuomitang em um novo partido bolchevique, mas sem o programa dos bolcheviques. Ou seja, sem ameaças aos interesses do grande capital e do latifúndio.

O problema é que os comunistas nunca abandonaram as lutas contra os patrões. E o Kuomitang não podia tolerar isso. Passou a perseguir o PCC visando aniquilá-lo. Os comunistas resolveram se defender iniciando uma guerra civil, que só diminuiu de intensidade diante da invasão japonesa de 1937.

Na luta contra os japoneses, os comunistas se mostraram muito mais combativos. Mas, principalmente, ganharam enorme apoio dos camponeses porque distribuíam terras nos territórios que reconquistavam ao inimigo. Algo que o Kuomitang, composto por latifundiários e grandes empresários, jamais poderia imitar.

Era o PCC abrindo caminho rumo ao poder. A questão é que enquanto fazia isso, ia se tornando cada vez menos comunista e cada vez mais nacionalista.

O relato acima tem por base o livro “O mandato do Céu”, de Nigel Harris. Continuaremos na próxima pílula.

Leia também: China: a revolução comunista que não foi comunista

6 de julho de 2021

China: a revolução comunista que não foi comunista

Em 10/08/1973 o banqueiro David Rockefeller escreveu um artigo no The New York Times em que dizia:

Qualquer que tenha sido o preço da revolução chinesa, ela obviamente teve êxito, não só produzindo uma administração mais dedicada e eficiente, mas também uma moral elevada e propósitos comunitários. (...) A experiência social na China, sob a liderança de Mao, é uma das mais importantes e bem sucedidas na história humana.

Três anos depois, Mao Tsé-Tung estava morto. Seu sucessor, Deng Xiaoping, anunciou sua nova política, afirmando: “Não importa a cor do gato, desde que ele cace o rato”. A caça era o desenvolvimento acelerado das forças produtivas, a ser perseguido mesmo que fosse necessário negociar com o imperialismo.

Mas o entusiasmo de Rockefeller já mostrava que essa nova política não era tão nova assim. Mais de 50 anos depois, banqueiros e magnatas em geral têm ainda mais razões para admirar os feitos econômicos dos chineses. A diferença é que agora eles se queixam de uma suposta concorrência desleal. Do mesmo jeito que o rato se queixaria do gato.

O mistério é como uma revolução feita por comunistas fez surgir uma potência econômica que, por exemplo, viria a salvar o capitalismo após uma de suas maiores crises, aquela ocorrida em 2008.

“O Mandato do Céu”, livro de Nigel Harris, ajuda a entender esse enigma. A obra mostra como os comunistas fizeram uma revolução contra os nacionalistas, mas com objetivos nacionalistas. Enquanto isso, a União Soviética, sob Stálin, apoiava não os comunistas contra os nacionalistas, mas estes contra aqueles.

Louco, né?

Tentaremos explicar essa confusão nas próximas pílulas.

Leia também: O comunismo chinês e sua lógica útil ao capital

5 de julho de 2021

O comunismo chinês e sua lógica útil ao capital

O Partido Comunista Chinês está completando 100 anos. Seria bom lembrar alguns fatos históricos sobre a organização e a grande revolução que liderou, sob comando de Mao Tsé-Tung.

Em 1949, os comunistas tomaram o poder na China e iniciaram mudanças radicais na estrutura produtiva. Segundo Nigel Harris, em seu livro “O Mandato do Céu”:

A participação privada na produção industrial caiu de 39% em 1952 para 16% em 1955. No final do mesmo ano, 82% da produção privada foram comprados pelo Estado. Em 1956, toda a indústria privada havia sido absorvida por empresas mistas.

Mas, continua Harris:

O regime manteve-se favorável aos empresários privados. Pagou indenizações com juros sobre o capital privado expropriado e empregou os ex-empresários privados com salários relativamente altos como gerentes das novas empresas mistas ou estatais.

Além disso, foi assim que Mao se dirigiu aos principais empresários chineses no final de 1956:

Não podemos dizer que a burguesia é inútil para nós. É útil, muito útil. Os trabalhadores não entendem isso porque, no passado, se envolveram em conflitos com os capitalistas nas fábricas. Devemos, portanto, explicar a situação aos trabalhadores. Se eles tomarem conhecimento do forte desejo de aprender que vocês demonstram em seus círculos industriais e comerciais, certamente mudarão de atitude...

O livro de Harris foi lançado em 1978. Na época, ninguém imaginava que a China se tornaria um pilar de sustentação da ordem capitalista mundial. Mas se houve mudanças importantes, ela não foram radicais. O pragmatismo conciliador frente à lógica capitalista continua o mesmo dos tempos maoístas.

Nas próximas pílulas, mais sobre esse processo com ajuda da obra de Harris.

Leia também: Na China, socialismo verdadeiro, só de baixo para cima

17 de novembro de 2020

Na China, socialismo de verdade, só de baixo para cima

Na China atual, mercado e Estado se complementam, diz Au Loong Yu, em seu livro “China: Um capitalismo burocrático”. Mas a verdade, afirma ele, é que, sob o atual regime, ambos são apenas instrumentos de exploração das massas trabalhadoras.

Por outro lado, a China apresenta uma característica importante. Na maioria dos países capitalistas, as esferas política e econômica são separadas uma da outra. Como resultado, as lutas econômicas dos trabalhadores tendem a permanecer setoriais e, geralmente, não políticas. Existe, portanto, a possibilidade de desenvolver um movimento sindical alienado da política. Na China, as duas esferas estão fundidas a tal ponto que a mão invisível do mercado é sempre apoiada pela bota visível do Estado, razão pela qual nem o simples sindicalismo independente e apolítico é tolerado.

É improvável que um movimento sindical de baixo para cima possa se desenvolver plenamente sem, ao mesmo tempo, conquistar liberdades fundamentais e, finalmente, a democratização do Estado. Isso dá um caráter radical a iniciativas sindicais pela base. Seus traços políticos e classistas podem se manifestar de forma mais direta.

O verdadeiro socialismo não será alcançado somente pelo desenvolvimento das forças produtivas. Socialismo é sinônimo principalmente de controle coletivo da produção, democracia política e redução do tempo de trabalho para dar aos trabalhadores condições de participar da administração da sociedade. Nenhum desses elementos está presente na China hoje.

Mas com meio bilhão de operários, há poucos lugares no mundo em que construir o verdadeiro socialismo seja tão possível como na China. Desde que, é claro, os trabalhadores chineses derrotem sua classe dominante e seus aliados do capitalismo ocidental.

Leia também:
China: fale sobre socialismo, enquanto implanta o capitalismo

16 de novembro de 2020

China: fale sobre socialismo, enquanto implanta o capitalismo

Dizimar o movimento que ocupava a Praça da Paz Celestial não foi um arroubo de ferocidade do governo chinês. Aquilo que os manifestantes contestavam era estratégico para os burocratas no comando. É o que explica Au Loong Yu, autor do livro “China: Um capitalismo burocrático”, que estamos comentando.

Esmagada a resistência em 1989, diz ele, iniciou-se uma década marcada por um processo radical de reestruturação produtiva. Em 2001, 86% das empresas estatais haviam sido reestruturadas e 70% delas foram parcial ou totalmente privatizadas. Com isso, dezenas de milhões de trabalhadores das empresas estatais ou "coletivas" foram demitidos. Acabaram sendo redirecionados ao setor privado, com salários menores e menos direitos.

O PC sempre se recusou a admitir que estava privatizando. Uma anedota popular descrevia assim a política do partido: "O capitalismo pode ser implantado desde que você não fale sobre isso. Mas você pode falar à vontade sobre o socialismo, desde que nunca venha a implementá-lo."

Muitos ex-diretores de empresas estatais se tornaram proprietários ou gerentes das empresas privatizadas. Líderes do partido se transformaram em investidores em 95% das empresas municipais, nas grandes cidades, e em 97% daquelas localizadas em pequenas comunidades rurais.

Por outro lado, uma nova classe trabalhadora, composta por 250 milhões de migrantes rurais, se formou. A princípio, era um grande exército de trabalhadores sem conhecimento de seus direitos. Mas as contradições não tardaram a se tornar agudas. As greves cresceram em número e radicalidade.

Mas, por enquanto, a grande maioria dos conflitos tem se limitado aos locais de trabalho, sem questionamentos aos centros políticos do país, fortemente controlados pelo partido.

Continua...

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