29 de junho de 2018

O futebol é cheio de planícies imensas

No romance “O drible”, Sérgio Rodrigues “recupera episódios sombrios da história recente do país e faz uma celebração do futebol raras vezes empreendida na literatura brasileira”, diz a apresentação da Companhia das Letras, editora da obra. E é verdade.

Em um trecho, por exemplo, o personagem Murilo Filho faz considerações muito bonitas, ao observar que no futebol:

...não é como no basquete, no vôlei, esses esportes em que a equipe mais talentosa e mais bem preparada faz valer sua superioridade noventa e nove por cento das vezes. O futebol é cheio de planícies imensas, horas mortas como a que nós acabamos de ver. Um bololô de ruído, intenções que não se concretizam, acidentes, lances de sorte e azar. Nas horas mortas pode acontecer tudo. Tudo mesmo, não é força de expressão. E quando acontece é de repente, um raio que cai e muda a paisagem por completo. É isso, Tiziu, que torna tão chato o videoteipe de um jogo que nós já sabemos como terminou. O futebol só pode ser revivido em melhores momentos, editado, enxugado, porque é a expectativa de ver qualquer momento se revelar um desses melhores momentos que leva a gente a transpor seus desertos imensos. Se nós já sabemos quais serão eles, e quando, a seca nos mata de sede. Pense naquele puto do Heráclito. Não se entra duas vezes no rio de uma partida, do mesmo jeito que ninguém vive duas vezes, sabe por quê? Porque sem a interrogação do futuro o futebol e a vida são de uma pobreza de bocha.

E Heráclito, todos sabemos, batia um bolão!

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28 de junho de 2018

O que é o bicho humano para os conservadores

A rigor, no básico, no raso, o ser humano é só outro bicho. Precisa comer, beber e defecar como quase todas as outras espécies.

Mas essa raça dos viventes se torna específica quando precisa trabalhar. Não se trata apenas de transformar o meio à sua volta. É preciso moldá-lo conforme expectativas que mudam continuamente.

Segundo Marx, as mais habilidosas das abelhas são inferiores ao pior arquiteto porque não projetaram a colmeia antes de construí-la. Mas o trabalho, como o conhecemos hoje, torna a grande maioria de nós muito mais próxima do inseto que do engenheiro.

Este parece ser um dos princípios de onde parte o filme “Arábia”, de Affonso Uchôa e João Dumans.

A anedota que dá nome à produção, descreve a chegada de alguns operários contratados para fazer uma obra nas arábias. Diante da imensidão do deserto, eles só conseguem se perguntar quanto de cimento será necessário para transformar toda aquela areia em concreto.

Em outro momento, dois carregadores debatem sobre qual carga mais castiga suas costas. Dos pesados sacos de cimento à fedorenta ração para peixe, o menu de opções é grande. E mostra o grau de degradação a que pode chegar a labuta dos mais explorados entre os explorados.

É a faina que aliena e brutaliza, ao mesmo tempo. É o concreto da fadiga constante frente à abstração de seus objetivos. É uma exploração imposta por laços tão precários que até o patrão fica longe das vistas.

A rigor, no básico, no fundo, é nessa concepção rasa do bicho humano que se baseia todo o pensamento conservador. E se ergue a atual sociedade.

27 de junho de 2018

Calma, torcedor, recomenda Drummond

Escrevendo para o Correio da Manhã, em 31/03/1959, Carlos Drummond de Andrade observa que “Pelé e Didi, dando duro na cancha” não estariam mais exaustos do que o “torcedor internacional”.

Citando um tal prof. Silva Mello, o poeta afirma que em um dos livros dele aprendeu que:

...o participante de jogo internacional despende seis vezes mais energia do que o trabalhador em mina de carvão (...), e que tais competições desportivas fornecem excelente material para as doenças cardíacas e do aparelho circulatório. Sinto-me tentado a ampliar a observação do mestre e a redigir uma nota palpitando que o gasto de energia do torcedor é doze vezes maior, e que ele está muito mais ameaçado de morte que o integrante de selecionado. O torcedor, na sua impotência, “joga” ainda mais do que o jogador, e como não tem bola alguma à sua frente, precisa socorrer-se de um esforço de imaginação de que Paulinho está dispensado. É certo que fica imune das agressões habituais nos gramados sul-americanos, porém os mais sensíveis se queixam de ter recebido na epiderme moral os coices distribuídos em River Plate pelo onze do “Celeste”.

Diante disso, aconselha:

O campeão não é campeão vinte e quatro horas por dia; chega uma hora de calçar os chinelos, e bocejar; um tempo de ver as flores; tempo de não sofrer mais do que o estritamente necessário, e desconfiar das glórias incômodas. De resto, não somos sessenta milhões de campeões, o que inflacionaria a espécie; eles são apenas onze e seus reservas. Penso nas coronárias e sugiro (diante do espelho): Calma, torcedor.

É isso aí. Calma!

26 de junho de 2018

Sobre pais e filhos separados

Quanto à cruel política adotada por Trump separando pais e filhos imigrantes, é importante esclarecer que não se trata apenas de medida determinada por um louco xenófobo e racista. É muito mais que isso:

Os africanos forçados à escravidão nos Estados Unidos eram frequentemente separados de seus filhos, não apenas durante o transporte até as Américas, mas muitas outras vezes, nas plataformas de leilão. Não foram milhares, e sim milhões de mães e pais, maridos e mulheres, pais e filhos, irmãos e irmãs separados uns dos outros à força. E tampouco se tratou de um período curto da história americana, mas de uma característica institucional da escravidão que perdurou nos EUA por quase 250 anos.

Não apenas as crianças africanas escravizadas eram rotineiramente separadas de suas famílias, mas também os povos indígenas. Do final do século XIX até os anos 1970, crianças indígenas eram regularmente retiradas de suas casas à força e enviadas a desumanas “escolas de índios”, onde seus cabelos eram cortados e onde eram despidos de seus nomes e culturas. Muitas delas nunca voltaram a encontrar suas famílias.

O que talvez seja mais chocante, no entanto, é o modo como os EUA – hoje, neste momento – separam tantas famílias cujas histórias não são consideradas dignas de nota. Falo da crise do encarceramento em massa, da qual a investida sobre os imigrantes é apenas mais uma peça terrível.

As palavras acima são de Shaun King, em artigo publicado pelo portal “The Intercept”, em 21/06/2018. Elas valem também para nós, que imitamos, inclusive, a prática de separar filhos e pais por meio de tiros disparados por policiais.

25 de junho de 2018

Muitas vezes, o marxismo foi melhor que Marx

“Todos os movimentos radicais mais interessantes das últimas quatro décadas brotaram fora do marxismo”. Esta é mais uma afirmação cuja falsidade Terry Eagleton demonstra em “Marx estava certo”.

Ele começa pelas palavras do teórico anticolonialista Robert J.C. Young:

No início do século XX, o movimento comunista era a única esfera em que a questão de gênero, ao lado das questões de nacionalismo e colonialismo, surgia e era debatida de forma sistemática. O comunismo foi o primeiro, e único, programa político a admitir a inter-relação dessas formas distintas de dominação e exploração [classe, gênero e colonialismo] e a necessidade de abolir todas elas como base fundamental para a consecução da libertação de cada uma”.

Cita também a feminista Michèle Barrett, para quem “afora o pensamento feminista não existe tradição de análise crítica da opressão à mulher que se compare à atenção incisiva dada à questão por sucessivos pensadores marxistas”.

Além disso:

Nas décadas de 1920 e 1930, praticamente os únicos homens e as únicas mulheres que pregavam a igualdade racial eram comunistas. A maior parte do nacionalismo africano após a Segunda Guerra Mundial, de Nkrumah e Fanon em diante, se apoiava em alguma versão do marxismo ou do socialismo.

Portanto, diz Eagleton, os marxistas “foram vanguardistas quanto às três maiores lutas políticas da Idade Moderna: a resistência ao colonialismo, a emancipação das mulheres e a luta contra o fascismo”.

Nada disso desculpa o eurocentrismo e as muitas atitudes preconceituosas manifestados por Marx em sua vida pessoal. Apenas mostra que o envolvimento do marxismo na luta de classes pode torná-lo melhor que seus melhores formuladores. Incluindo seu criador.

Obs.: Pílula número 1.800.

22 de junho de 2018

João Saldanha bem que avisou

O livro “Futebol e Outras Historias” reúne textos do jornalista João Saldanha, que treinou a seleção brasileira até às vésperas da Copa de 1970.

Militante firme do Partido Comunista, Saldanha até que durou muito tempo no comando do time brasileiro, sob a ditadura militar. Seu “erro” foi não admitir que os generais se metessem na escalação do selecionado.

Cobrindo a Copa de 1982, logo que chegou ao país-sede, ele escreveu:

...importante que os futuros responsáveis se mirem no exemplo desta Copa da Espanha, que teve tudo, mais do que nenhuma antes realizada, para fazer a mais grandiosa de todas.

Não há condição de um país organizador, digo, de uma federação organizadora, perder dinheiro. Mas não se trata de fazer um superlucro, como se estivessem fazendo uma competição financeira. Façam uma concorrência para no máximo um ou dois anunciantes trazerem sua .publicidade. Isto evitará este triste espetáculo visual que impede os espectadores de verem se a bola entrou ou se foi camuflada pelos cartazes.

Não são absolutamente necessários cinco mil guardas de trânsito para organizarem apenas dois ou três mil veículos. Se tanto. Nem tantas mocinhas e rapazes para mostrarem que a saída é ali onde está escrito saída. Coisas da vida onde a política eleitoral se mete.

Lá como cá também existem eleições. Por isso, fizeram na Espanha dezessete cidades-sede quando bastariam oito ou dez.

Em outro texto, ele acha que fazemos “estádios imensos em cidades pequenas e pobres em tudo” e que a “televisão tomou conta dos espetáculo”.

Saldanha morreu em 1990. Não tinha como imaginar o 7 x 1, mas provavelmente não ficaria supreso.

21 de junho de 2018

Desde Platão, destruindo a natureza sem culpa

Segundo a famosa alegoria de Platão, aqueles que estão presos em uma caverna acham que as sombras projetadas pela luz externa em suas paredes são toda a realidade a ser conhecida.

Para ele, nossas almas são como esses prisioneiros, escravizados pelo mundo da experiência sensorial, incapazes de ver diretamente a realidade e confundindo formas ilusórias com a verdade.

Poluída por desejos físicos, a parte da alma que é orientada pelo corpo está em conflito com sua parte espiritual.

Em uma pessoa disciplinada, explica Platão, o desejo obedece à razão, assim como, em um Estado bem organizado, as ordens inferiores obedecem aos governantes.

Trata-se de um cosmos dividido entre um mundo ideal, conhecido apenas pela alma, e o mundo material mutável, experimentado pelo corpo.

A tradição cristã se apropriou dessa concepção considerando o corpo como fonte de todo o pecado.

O filosofo Descartes daria novo impulso a essa separação. Dizer que “penso, logo existo” significa que é a mente separada do corpo que nos torna realmente humanos.

Nossos corpos são mera matéria sem valor intrínseco. E se isso é verdade para eles, deve ser igualmente verdadeiro para o resto da natureza - animais, plantas e tudo o mais.

Desse modo, pensadores religiosos e racionalistas podem discordar em tudo, exceto sobre a santidade da mente (alma) em contraste com o resto da natureza.

O relato acima é baseado no livro “The Patterning Instinct”, no qual Jeremy Lent procura explicar como a tradição ocidental aprendeu a destruir a natureza sem qualquer culpa.

O autor compara essa concepção com outras tradições, como a chinesa. Mas fica para a próxima.

20 de junho de 2018

Junho de 2013: tentando controlar o que não pode ser controlado

Há cinco anos, enormes manifestações tomaram as ruas. Setores petistas costumam acusar seus organizadores de perder o controle do movimento para a direita.

Reportagem de Felipe Betim, publicada por El País em 13/06/2018, dá outra visão. Cita estudo da “Artigo 19”, ONG internacional de direitos humanos:

No total, 849 pessoas foram detidas arbitrariamente em São Paulo e no Rio de Janeiro entre janeiro de 2014 e junho 2015 durante 740 protestos. Sete pessoas morreram. Já entre agosto de 2015 e dezembro de 2016, foram 1.244 detenções arbitrárias em todo o país.

Para coroar esse processo, o governo Dilma sancionou a lei “antiterrorismo” às vésperas das Olimpíadas de 2016. A proposta veio de um Congresso conservador, é verdade. Mas seu texto original foi assinado pelo então ministro petista Eduardo Cardozo e seu colega de governo, o tucano Joaquim Levy.

Portanto, se alguém facilitou o trabalho da direita nas ruas foi a violenta repressão a manifestações populares. Não a todos elas, porém. Como afirma a reportagem:

A ONG lembra que, durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, as maiores manifestações foram realizadas pelos partidários do afastamento e não houve qualquer incidente, o que indica uma repressão e criminalização seletiva por parte das autoridades.
                 
Ou seja, os governantes petistas ajudaram a reforçar o aparato militar contra manifestações que julgavam ser organizadas por seus inimigos. Mas esse mesmo aparato escolheu nada fazer quando o alvo dos protestos eram somente os governantes petistas.

Agora, esses mesmos setores querem vencer as eleições para retomar o controle de um aparato sobre o qual somente poderão ter algum controle rendendo-se a ele.

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19 de junho de 2018

Lições sobre os erros do antifascismo europeu

Muito interessante o artigo “Cinco lições de história para antifascistas”, de Mark Bray, publicado na Revista Serrote. O texto fala da Europa do começo do século passado. Naquele momento, centro do capitalismo mundial. Portanto, são muitas e profundas as diferenças com a situação atual no Brasil. Mas vejamos:

Como muitos socialistas e comunistas a princípio consideravam o fascismo uma variante da política contrarrevolucionária tradicional, eles se concentraram muito mais uns nos outros do que em seus inimigos fascistas.

(...)

Em 1921, os socialistas italianos assinaram o Pacto de Pacificação com Mussolini, e nem eles nem os comunistas achavam que a ascensão do Duce ao poder representaria mais do que uma nova oscilação para a direita no velho pêndulo da política parlamentar burguesa. Não foram muito diferentes, nesse sentido, da maioria dos socialistas espanhóis, que colaboraram com o governo militar de tintas fascistas de Primo de Rivera nos anos 1920. (...) [Para] o Partido Comunista da Alemanha, o fascismo não exigia resistência, mas paciência – seu lema era “Primeiro Hitler, depois nós”.

As passagens acima certamente dariam razão aos defensores de uma unidade construída a qualquer custo frente à onda ultraconservadora representada pela candidatura Bolsonaro. Mas destaquemos a seguinte observação sobre os socialistas alemães:

A liderança do partido se preservou para continuar buscando o poder pela via das eleições legítimas. Quando esse caminho foi definitivamente bloqueado, o partido se viu em dificuldades para mudar de linha.

O problema não era apenas a falta de unidade da esquerda contra o fascismo. Também era a aposta na resistência estritamente institucional a ele. Muito semelhante ao que acontece aqui e agora.

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O combate a Bolsonaro e outros “esquisitões”

18 de junho de 2018

O respeito de Marx pela natureza

Tornou-se comum dizer que Marx defendia a exploração dos recursos naturais como se não houvesse amanhã. Em “Marx estava certo”, Terry Eagleton mostra que não é bem assim. Em primeiro lugar, diz ele:

Como uma troca “metabólica” entre a humanidade e a natureza, o trabalho, para Marx, é uma condição “eterna” que não se altera. O que se altera (...) são as várias formas que nós, humanos, usamos para trabalhar a natureza.

Mas para Marx:

...a relação entre a natureza e a humanidade não é simétrica. No fim, como ele observa em “A ideologia alemã”, a natureza é que dá as cartas. Para o indivíduo, isso se chama morte. O sonho faustiano de progresso sem limites em um mundo material magicamente reativo ao nosso toque ignora “a prioridade da natureza externa”. Hoje, isso não é mais conhecido como sonho faustiano, mas como sonho americano.

Além disso, em “O capital”, Marx descreve a natureza:

...como o “corpo” da humanidade, “com o qual [ela] precisa estar em constante intercâmbio”. (...) Quando essa reciprocidade de ser e natureza se rompe, sobra para nós um mundo capitalista sem sentido, em que a natureza não passa de algo flexível para ser moldada da forma que nos convier. A civilização se torna uma vasta cirurgia plástica.

Outro trecho da mesma obra afirma:

Mesmo uma sociedade inteira, uma nação ou até todas as sociedades simultaneamente existentes não são proprietárias do globo. São apenas suas detentoras, usufrutuárias, e como (...) “bons pais de família” precisam passá-lo em condições melhores de geração em geração.

Os marxistas sempre buscarão um modo de garantir o amanhã.

Leia também:
O que Marx aprendeu com uma turma boa de briga
O que o socialismo marxista não é

15 de junho de 2018

No meio do caminho tinha uma bola

Pérolas de Carlos Drummond de Andrade retiradas do livro “Quando é dia de futebol”, que reúne várias de suas crônicas e poemas sobre o ludopédio nacional:

O campeão não é campeão vinte e quatro horas por dia; chega uma hora de calçar os chinelos, e bocejar; um tempo de ver as flores; tempo de não sofrer mais do que o estritamente necessário, e desconfiar das glórias incômodas. De resto, não somos sessenta milhões de campeões, o que inflacionaria a espécie; eles são apenas onze e seus reservas. Penso nas coronárias e sugiro (diante do espelho): Calma, torcedor.

Desabafou comigo, diante do chope amargo: – Se fosse só a Hungria contra nós, eu ainda aguentava. Se fosse a Hungria mais o juiz, que anulou dois gols da gente, ainda aguentava. Mas a Hungria, o juiz e os nossos locutores, tudo junto, espera lá, não há tatu que aguente!

Não há nada mais triste do que o papel picado, no asfalto, depois de um jogo perdido. São esperanças picadas.

Eu sei que futebol é assim mesmo, um dia a gente ganha, outro dia a gente perde, mas por que é que, quando a gente ganha, ninguém se lembra de que futebol é assim mesmo?

E já estou pensando em um futebol lento, mais do que lento, imóvel, em que os jogadores de ambos os times se sentem no chão para assistir à lenta germinação de uma folhinha de grama: o verde da vida.

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma...

E também é poesia, poeta, poesia!

14 de junho de 2018

O futebol na confusa terra dos irmãos do vento

O livro “O goleiro e outros textos sobre futebol” reúne nomes como Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, José Miguel Wisnik e Tostão.

O trecho que segue abaixo é de Paulo Mendes Campos. “História do Brasil” é uma crônica publicada na Revista “Manchete”, em 06/08/1966.

No texto, o cronista cita a derrota da seleção brasileira pelo Uruguai, em 1950, sua eliminação pela Hungria, em 1954 e o bicampeonato conquistado em 1962. Portugal eliminaria o Brasil na Copa de 1966.

E o Senhor disse:

Agora criarei o mais estranho de todos os países. E ele será verde-amarelo e atenderá no concerto das nações pelo nome de Brasil.

E o tórrido Brasil amará o futebol acima de pai e de mãe. Então criarei a Copa do Mundo. E um dia o Brasil perderá esse galardão na última batalha, dentro de seus próprios muros, quando lhe bastaria o empate. Quatro anos depois caberá aos comunistas eliminar os brasileiros, para que se aumente a confusão. E para que se aumente a confusão, criarei uma comissão técnica que não entenda nada de futebol. E esta será bicampeã do mundo. E o tórrido Brasil, chorando de alegria, beberá muita cachaça, e comerá muito pastel, e tocará muita cuíca. Aí, eis que farei o Brasil perder o Tri, e a Taça, e a Alegria para Portugal. Pois assim está escrito. Para que o brasileiro continue na sua confusão, irmão do vento, que ninguém entende.

O Tri, o Tetra e o Penta finalmente vieram. Mas nada disso parece ter nos tirado, irmãs e irmãos de vento, de nossa invicta confusão.

13 de junho de 2018

Lembrando algumas pílulas da última Copa

Na véspera de mais uma Copa, inevitável lembrar de sua edição anterior. A mais dolorida em toda a história do futebol brasileiro. E não só pelos péssimos resultados em campo.

Seguem, abaixo, algumas pílulas daquele momento.

“A prosa e a poesia do futebol, segundo Pasolini”, é sobre a ideia de Pier Paolo Pasolini de que o “futebol que exprime mais gols é o mais poético”. O cineasta italiano fez esta observação logo após o Brasil se tornar tricampeão, em 1970. Naquela época, sem dúvida, nosso futebol esbanjava poesia.

“Jogando em busca do empate” descreve como membros da tribo dos gahuku-gama, da Nova Guiné, jogam durante vários dias seguidos tantas partidas quantas forem necessárias para que se equilibrem exatamente as perdidas e ganhas por cada equipe. Ou seja, o objetivo é sempre o empate.

“Futebol, veneno e remédio” cita o livro “Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil”, de José Miguel Wisnik. Segundo o autor, o futebol é paixão nacional que é “veneno remédio, uma droga inebriante e potencialmente letal que oscila com uma facilidade excessiva entre o a plenitude e o vazio”.

O mesmo livro é comentado em “A geopolítica invertida do futebol”, em que Wisnik discute uma curiosa inversão entre o mundo do futebol e as relações de poder no mundo. Questão que volta a ser discutida em O futebol em meio a duas geopolíticas”.

“Entre a sujeira da Fifa e um juiz muito suspeito” e “Sobre a vitória alemã, a vergonha e as suspeitas” traz trechos e revelações do livro “Futebol ao sol e à sombra”, de Eduardo Galeano.

Leia também: O futebol entre o tribalismo e o nacionalismo

12 de junho de 2018

O futebol entre o tribalismo e o nacionalismo

Em artigo na Folha de 10/06/2018, o historiador Hilário Franco Júnior lembra que o futebol surgiu antes da consolidação dos estados nacionais. Teria, assim, uma vocação “tribalista”. Daí, diz ele, não faz sentido querer “transformar o tribalismo em nacionalismo.”

No último mundial de clubes, por exemplo, dizer que "o Grêmio é Brasil" despreza importantes “rivalidades tribais”. Tanto os torcedores do Internacional como os de todos os outros times vencedores daquela competição ficaram contra o tricolor gaúcho. Os sentimentos tribais teriam ficado acima de um “hipotético sentimento nacional no qual não se viam representados”.

O fenômeno não é exclusividade de nosso futebol. O historiador lembra a recente final da Liga Europa entre Atlético de Madrid e Olympique de Marseille. Nos respectivos países, as torcidas rivais de cada time queriam a derrota de seus conterrâneos. “Tratava-se de assunto tribal, não nacional”.

Para Franco Jr.:

...paixões violentas podem surgir tanto de sentimentos tribais como de sentimentos nacionais, mas estes últimos são mais difíceis de serem controlados devido ao seu alto grau de institucionalização e seus amplos recursos materiais e humanos.

A livre circulação dos atletas fez surgirem “verdadeiras seleções internacionais agregadas sob bandeiras tribais”. Desse modo, já “não é necessário esperar quatro anos para ver os nomes mais talentosos atuando lado a lado; basta acompanhar os principais campeonatos nacionais europeus e suas competições continentais”.

Por isso, não se pode esperar que a Copa do Mundo seja “instrumento de pacificação entre países de boa vontade”, como queria seu criador, Jules Rimet. “Basta que seja uma disputa esportiva limpa dentro e fora do campo”.

E mesmo isso já é pedir muito!

11 de junho de 2018

WhatsApp e eleições: relações perigosas

Duzentos e cinquenta e seis. Este é o número máximo de pessoas que podem ser incluídos num grupo de WhatsApp.

Isso significa que um movimento como a recente greve dos caminhoneiros, convocado principalmente por meio do aplicativo, organiza-se de modo muito fragmentado.

Essa fragmentação reforça aquela que já existe na categoria devido a sua dispersão geográfica e às diferenças no tipo e nos regimes de trabalho que desempenham. A única coisa que os uniu, possibilitando uma ação muito rápida e eficiente, foi o abusivo preço do diesel.

Porém, na hora de negociar com o governo, a fragmentação tornou-se um obstáculo. Centenas de “comandos de greve” virtuais não se entendiam. Confusão aproveitada principalmente por grupos de extrema-direita, que dispararam enorme volume de informações imprecisas ou falsas via “zap”.

Pedro Doria, em sua coluna no Globo de 01/06/2018, acha que alguns desses grupos tentaram aproveitar-se da greve dos caminhoneiros para provocar um novo 2013. Não conseguiram, diz ele, mas:

...conseguiram outras coisas. Porque todo mundo que se inscreve nos grupos deixa duas informações essenciais. A primeira: é alguém que procurou, que está querendo notícias novas. E, em segundo, celular com DDD. Ou seja: origem geográfica. A turma do marketing de guerrilha construiu, na crise, um banco de dados bem fornido de pessoas crédulas, engajadas, que formarão o marco zero da distribuição de fake news durante a campanha eleitoral.

Cento e vinte milhões é o número de usuários do WhatsApp no Brasil.

Cento e quarenta e sete milhões é aproximadamente a população nacional de eleitores.

Os dois números se aproximam perigosamente. E as eleições também.

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8 de junho de 2018

Fascismos renovados, esquerdas aprisionadas

“Um fascismo renovado percorre a Europa”, afirma o título do artigo de Eduardo Febbro publicado por Página/12, em 05/06/2018. Segundo ele:

Na América Latina, as direitas liberais chamam de populistas tudo o que vai da socialdemocracia à esquerda. Na Europa não: esse termo está globalmente identificado com as extremas direitas.

Seria o que Febbro chama de “fascismo renovado”, presente na Itália, Eslovênia, República Checa, Hungria, Grã-Bretanha, Holanda, Áustria, Polônia e França.

Paradoxalmente, diz ele, “esse grupo adotou alguns perfis retóricos que antes pertenciam exclusivamente à esquerda. O principal consiste em se apresentar como um ‘cinturão antissistema’”.

Essa reviravolta “retórica” lembra outra, mais próxima de nós. Há algumas décadas, a ideia de reformas servia para designar, por exemplo, a democratização da propriedade agrária e urbana. Ou o mais amplo acesso gratuito à educação. Hoje, passou a significar medidas neoliberais que eliminam direitos sociais, sucateiam serviços públicos e entregam o patrimônio estatal ao mercado.

Segundo alguns setores da esquerda, trata-se de uma disputa “de narrativas” ou “de ressignificações”. Mas seria melhor procurar nas relações materiais concretas as verdadeiras razões para tanto retrocesso.

Principalmente, na rendição da esquerda à burocratização de partidos e sindicatos. Na fé cega sem faca amolada nas disputas eleitorais. Na militância sectária distante daqueles a quem julgam representar os que absolutizam suas verdades revolucionárias ou seu “lugar de fala”.

Não à toa, o candidato considerado como “antissistêmico” nas próximas eleições é produto do que há de mais típico na atual estrutura política: ultraconservador, corrupto e truculento. E o personagem tido como fator desestabilizador pelo sistema, mergulhou tão fundo nele que tornou-se seu prisioneiro. Literalmente.

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7 de junho de 2018

O que Marx aprendeu com uma turma boa de briga

O relato abaixo é baseado na biografia “Karl Marx: Grandeza e ilusão”, de Gareth Stedman Jones.

Em 28 de setembro de 1864, um congresso de trabalhadores da Europa continental e Inglaterra foi realizado em Londres. Era o primeiro encontro do que viria a ser a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT).

Marx foi eleito para compor o Conselho Geral e designado para o subcomitê responsável pela preparação de uma “declaração de princípios”.

O que distinguia a AIT de associações internacionais anteriores era a participação dos líderes sindicais mais importantes de Londres. Essa nova geração surgiu, principalmente, entre os pedreiros, sapateiros e carpinteiros. E sua experiência nas greves os levou a concluir que novas e mais coordenadas formas de organização operária se tornavam necessárias

Uma de suas maiores preocupações eram os fura-greves. Como na Grã-Bretanha o movimento sindical já havia conquistado melhores condições de trabalho, trabalhadores de outros países eram atraídos para ocupar o lugar dos grevistas.

Diante disso, o principal objetivo da AIT era exportar para outros países os benefícios da legislação social britânica (limitação das horas de trabalho, restrição do emprego juvenil) e as conquistas do novo modelo de sindicalismo unitário por ela defendido.

33 associações sindicais filiaram-se à nova Internacional. Em 1868, o número chegou a 120.

Claro que a grande diversidade de trabalhadores e nacionalidades levava a muitas divergências. Mas o que unia a todos era uma verdade que Marx aprendeu com essa turma boa de briga e ajudou a inscrever no documento inaugural da AIT: “A emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores”.

Leia também: O que o socialismo marxista não é

6 de junho de 2018

Entre o comunismo e os chimpanzés

O comunismo fracassou, dizem, porque foi baseado em uma visão irrealista da natureza humana, enquanto o capitalismo foi bem-sucedido porque se fundamenta no aproveitamento da natureza egoísta de cada indivíduo para o bem supremo da sociedade. Uma história poderosa, é verdade, mas que se mostrou nas últimas décadas completamente errônea.

O trecho acima é do livro “The Patterning Instinct”, de Jeremy Lent, ainda sem tradução.

Para comprovar suas palavras, Lent cita o psicólogo evolucionista Michael Tomasello, para quem a principal diferença entre nós e os chimpanzés é que nos identificamos mais profundamente com outros de nossa espécie.

A competição social seria uma obsessão dos chimpanzés, e não dos humanos. As habilidades cognitivas que permitiram que desenvolvêssemos a linguagem, a cultura e a civilização foram impulsionadas pela cooperação social.

É o que o evolucionista chama de “intencionalidade compartilhada”: nossa capacidade de perceber que outro indivíduo está vendo a mesma coisa que nós, mas de uma perspectiva diferente.

Teria sido essa característica que permitiu aos primeiros hominídeos trabalharem de forma colaborativa em tarefas complexas e transformassem sua cultura de modo a lhes permitir compartilhar valores e práticas.

Já o antropólogo Christopher Boehm, diz o autor, teria descoberto que

...em praticamente todas as sociedades de caçadores-coletores, as pessoas se unem para evitar que alguns poderosos controlem os demais, usando comportamentos coletivos como expor ao ridículo, desobediência grupal e, em última instância, sanções extremas como o assassinato. Ele nomeia esse tipo de sociedade igualitária como uma "hierarquia de dominância reversa" porque "a maioria domina, ao invés de ser dominada".

Mas, enfim, sempre há quem prefira voltar a comportar-se como chimpanzés.

Leia também: A origem da propriedade privada e dos ângulos retos

5 de junho de 2018

Gandhi e Marthin Luther King: uma comparação

Costuma-se apresentar Martin Luther King como um “Gandhi negro”. Em seu livro “A Não Violência – Uma história fora do mito”, Domenico Losurdo mostra significativas diferenças.

Para King havia casos em que a violência a partir de baixo pode ser justificada. É o caso da África do Sul do apartheid.

Ele recomendava a avaliação realista das relações de força, não sua recusa incondicional. Achava, por exemplo, que qualquer tentativa por parte dos negros americanos de derrubar o opressor com violência jamais seria bem-sucedida:

Quem lidera uma rebelião violenta deve estar apto a oferecer uma avaliação honesta do número de vítimas que provavelmente vai haver em uma população que se levanta contra uma maioria rica e bem armada, que inclui uma facção de fanáticos direitistas, prontos para aproveitar com alegria a ocasião de exterminar milhares de homens, mulheres e crianças negros.

Ainda, segundo King:

Nunca uma revolução interna conseguiu derrubar um governo com meios violentos, a não ser quando o próprio governo já tinha perdido a fidelidade e o comando efetivo das próprias forças armadas. E todos em sã consciência sabem que nos Estados Unidos isso não acontece.

Realmente, foi uma situação como essa que permitiu a tomada do poder pelos sovietes em 1917.

Diferente de Gandhi, King recusava os meios violentos principalmente quando eles se concentram na exposição suicida dos revoltosos às forças repressivas.

Engels concordaria. Em 1895, na Introdução de “As Lutas de Classes na França”, ele respondeu aos “que nos acusam, hoje em dia, de moleza por não descermos diretamente às ruas”, que não havia porque fazê-lo “quando temos de antemão a certeza da derrota”.

4 de junho de 2018

Antes que os conceitos desapareçam

“Antes Que Tudo Desapareça”, de Kiyoshi Kurosawa, é mais um filme sobre invasão alienígena. Mas traz aspectos interessantes.

Os extraterrestres enviam alguns emissários para conhecer nossa espécie antes da conquista. O problema é que eles se comunicam e apreendem a realidade por meio de conceitos e não por palavras. Estas últimas, diz um deles, costumam causar grande confusão.

Para entender nossas visões de mundo, costumes, valores, os aliens “colhem” certos conceitos que identificam como sendo importantes para nós.

Acontece que ao fazerem isso, o conceito desaparece da mente daquele de quem foi colhido. Por exemplo, quando uma jovem teve a noção de “família” capturada, passou a desconhecer seus parentes.

Ou quando um rapaz ficou sem a ideia do que seria “propriedade”, deixou de ser um pacato morador da casa dos pais para fazer denúncias em praça pública.

O interessante, aqui, seria imaginar a produção de Kurosawa como uma espécie de metáfora sobre alguns aspectos importantes do estágio atual das relações humanas.

Conceitos não são fixos e válidos para tudo e todos. Mas certamente costumam proporcionar uma compreensão da realidade muito mais precisa do que meras palavras.

No entanto, são as palavras que vêm imperando naquele que vem se tornando um meio de comunicação cada vez mais onipresente: as redes virtuais.

São nelas, principalmente, que termos como “fascista”, “comunista”, “esquerda”, “direita” deixaram de ser conceitos para se transformar em noções rasas ou supostas ofensas.

O filme vale a pena, mas corre o risco de ficar datado. Em breve, poderemos regredir a um estágio em que não sobrarão conceitos para eventuais alienígenas colherem. Nos renderemos definitivamente aos pré-conceitos.

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