Blog de Sérgio Domingues, com comentários curtos sobre assuntos diversos, procurando sempre ajudar no combate à exploração e opressão.
31 de outubro de 2024
As rupturas que o capital nos impõe
A ideia pode render bons desdobramentos em termos de entretenimento. Se a pretensão, porém, é representar uma situação aflitiva, talvez não seja muito convincente. Afinal, tudo o que a maioria de nós desejaria é sair do trabalho e esquecer suas tarefas e responsabilidades. Mas isso não só não acontece, como cada vez mais nossa vida privada é invadida por incessantes demandas profissionais. Corpo e mente perseguidos e exauridos até muito depois do horário de trabalho.
Trabalho remoto em tempo integral e semanas com apenas um ou meio dia de folga vêm se tornando regra para muita gente. Seja trabalhando para desumanos empregadores humanos, seja para aplicativos transformados em capatazes cibernéticos. Ao mesmo tempo, nada nesse esforço todo garante a estabilidade da atividade ou melhor remuneração. Mudanças cada vez mais rápidas nos processos produtivos tornam descartável, barateiam e desqualificam nossa força de trabalho.
Por outro lado, talvez a série pudesse até servir como metáfora sobre a alienação do trabalho sob o capitalismo. Um fenômeno que está longe de ser recente, mas que nem por isso perdeu sua força, aprofundando a fragmentação e esvaziando de sentido a imensa maioria dos processos laborativos. Revelando a fissura entre aquilo que somos e o que fazemos. O primeiro sendo escravizado pelo segundo.
Mas ruptura pra valer é a que teríamos que construir em relação ao poder do capital. E os caminhos para isso não estão disponíveis em nenhum streaming.
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7 de junho de 2023
Inteligência artificial e alienação social
Não é verdade que o que distingue o ser humano dos outros animais é o uso das ferramentas. Mas elas certamente desempenham um papel fundamental, funcionando como extensões e aperfeiçoamentos dos atributos de nossa espécie.
É o martelo imitando o punho, a faca potencializando os dentes, a lança ampliando o alcance dos braços ou as rodas aumentando a velocidade de nossos deslocamentos. O advento das máquinas-ferramenta tornou possível ultrapassar muito nossas capacidades naturais.
Em meados do século passado, surgiu o computador, que tenta mimetizar o cérebro. Seria apenas uma tentativa frustrada, se a alienação da sociedade capitalista não tivesse conseguido rebaixar nossa inteligência até nos tornar dependentes da burrice cibernética.
Mas como sempre dá pra piorar, surgiu a inteligência artificial. Já é possível, por exemplo, definir alguns parâmetros e deixar que algoritmos autodidatas façam o trabalho de multidões de tarefeiros intelectuais. Quase todos condenados ao desemprego, evidentemente.
Outro risco muito provável é deixar essa novíssima ferramenta decidir o que é verdadeiro ou não. Com o agravante de que para os algoritmos a verdade é aquilo que se encaixa nos padrões mais conservadores e preconceituosos da vida social. Além disso, há a possibilidade de que as campanhas eleitorais se transformem em uma disputa entre poucas e poderosas máquinas cibernéticas de marketing político. O vitorioso seria o proprietário do aplicativo mais eficiente.
Claro que nada disso seria possível, se um dos principais fundamentos da sociedade capitalista não fosse a separação entre trabalhadores e meios de produção, incluindo suas ferramentas. Separação que se manifesta como alienação política, ao manter a democracia fora do alcance da grande maioria.
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