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31 de outubro de 2024

As rupturas que o capital nos impõe

Há uma série da TV Apple, chamada “Ruptura”, cuja sinopse oficial diz o seguinte: “Mark lidera uma equipe de funcionários cujas memórias foram cirurgicamente divididas entre vida profissional e pessoal...”.

A ideia pode render bons desdobramentos em termos de entretenimento. Se a pretensão, porém, é representar uma situação aflitiva, talvez não seja muito convincente. Afinal, tudo o que a maioria de nós desejaria é sair do trabalho e esquecer suas tarefas e responsabilidades. Mas isso não só não acontece, como cada vez mais nossa vida privada é invadida por incessantes demandas profissionais. Corpo e mente perseguidos e exauridos até muito depois do horário de trabalho.

Trabalho remoto em tempo integral e semanas com apenas um ou meio dia de folga vêm se tornando regra para muita gente. Seja trabalhando para desumanos empregadores humanos, seja para aplicativos transformados em capatazes cibernéticos. Ao mesmo tempo, nada nesse esforço todo garante a estabilidade da atividade ou melhor remuneração. Mudanças cada vez mais rápidas nos processos produtivos tornam descartável, barateiam e desqualificam nossa força de trabalho.

Por outro lado, talvez a série pudesse até servir como metáfora sobre a alienação do trabalho sob o capitalismo. Um fenômeno que está longe de ser recente, mas que nem por isso perdeu sua força, aprofundando a fragmentação e esvaziando de sentido a imensa maioria dos processos laborativos. Revelando a fissura entre aquilo que somos e o que fazemos. O primeiro sendo escravizado pelo segundo.

Mas ruptura pra valer é a que teríamos que construir em relação ao poder do capital.  E os caminhos para isso não estão disponíveis em nenhum streaming.

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7 de junho de 2023

Inteligência artificial e alienação social

Não é verdade que o que distingue o ser humano dos outros animais é o uso das ferramentas. Mas elas certamente desempenham um papel fundamental, funcionando como extensões e aperfeiçoamentos dos atributos de nossa espécie.

É o martelo imitando o punho, a faca potencializando os dentes, a lança ampliando o alcance dos braços ou as rodas aumentando a velocidade de nossos deslocamentos. O advento das máquinas-ferramenta tornou possível ultrapassar muito nossas capacidades naturais.

Em meados do século passado, surgiu o computador, que tenta mimetizar o cérebro. Seria apenas uma tentativa frustrada, se a alienação da sociedade capitalista não tivesse conseguido rebaixar nossa inteligência até nos tornar dependentes da burrice cibernética.

Mas como sempre dá pra piorar, surgiu a inteligência artificial. Já é possível, por exemplo, definir alguns parâmetros e deixar que algoritmos autodidatas façam o trabalho de multidões de tarefeiros intelectuais. Quase todos condenados ao desemprego, evidentemente.

Outro risco muito provável é deixar essa novíssima ferramenta decidir o que é verdadeiro ou não. Com o agravante de que para os algoritmos a verdade é aquilo que se encaixa nos padrões mais conservadores e preconceituosos da vida social. Além disso, há a possibilidade de que as campanhas eleitorais se transformem em uma disputa entre poucas e poderosas máquinas cibernéticas de marketing político. O vitorioso seria o proprietário do aplicativo mais eficiente.

Claro que nada disso seria possível, se um dos principais fundamentos da sociedade capitalista não fosse a separação entre trabalhadores e meios de produção, incluindo suas ferramentas. Separação que se manifesta como alienação política, ao manter a democracia fora do alcance da grande maioria.

Leia também:  Fascismo atualizado por algoritmos

28 de junho de 2018

O que é o bicho humano para os conservadores

A rigor, no básico, no raso, o ser humano é só outro bicho. Precisa comer, beber e defecar como quase todas as outras espécies.

Mas essa raça dos viventes se torna específica quando precisa trabalhar. Não se trata apenas de transformar o meio à sua volta. É preciso moldá-lo conforme expectativas que mudam continuamente.

Segundo Marx, as mais habilidosas das abelhas são inferiores ao pior arquiteto porque não projetaram a colmeia antes de construí-la. Mas o trabalho, como o conhecemos hoje, torna a grande maioria de nós muito mais próxima do inseto que do engenheiro.

Este parece ser um dos princípios de onde parte o filme “Arábia”, de Affonso Uchôa e João Dumans.

A anedota que dá nome à produção, descreve a chegada de alguns operários contratados para fazer uma obra nas arábias. Diante da imensidão do deserto, eles só conseguem se perguntar quanto de cimento será necessário para transformar toda aquela areia em concreto.

Em outro momento, dois carregadores debatem sobre qual carga mais castiga suas costas. Dos pesados sacos de cimento à fedorenta ração para peixe, o menu de opções é grande. E mostra o grau de degradação a que pode chegar a labuta dos mais explorados entre os explorados.

É a faina que aliena e brutaliza, ao mesmo tempo. É o concreto da fadiga constante frente à abstração de seus objetivos. É uma exploração imposta por laços tão precários que até o patrão fica longe das vistas.

A rigor, no básico, no fundo, é nessa concepção rasa do bicho humano que se baseia todo o pensamento conservador. E se ergue a atual sociedade.