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7 de agosto de 2014

O banco dos BRICS, abutres e urubus

Em 15 e 16/07, representantes dos “Brics” (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) se reuniram em Fortaleza, Ceará. Anunciaram a criação de um banco de desenvolvimento para financiar projetos do grupo e de outros “países em desenvolvimento”.

Mas a nova instituição já surge a serviço de velhos objetivos. É o que diz a “Carta de Fortaleza”, divulgada por movimentos populares de várias parte do mundo. Segundo o documento, o modelo de desenvolvimento proposto é:

... baseado na extração intensiva da natureza, na concentração do poder e da riqueza e na adaptação jurídica e política das instituições aos interesses dos grandes mercados e no agravamento das injustiças sociais e ambientais.

O novo banco tem sido considerado uma forma de garantir proteção econômica e agilizar a ajuda financeira a seus membros em caso de crise. Mas há um enorme desnível de poder interno ao grupo.

A China é a segunda economia do mundo. Prestes a se tornar a primeira. Além disso, seu parque industrial deixa o restante dos países do grupo no chinelo. Compra commodities de baixo valor acumulado e vende tecnologia de ponta. Não à toa, a sede do novo banco será em Xangai.

Há quem pense que a medida contribuirá para afastar a influência das “potências imperialistas” ou fugir dos riscos dos chamados “fundos abutres”. Pura ilusão. De um lado, o imperialismo esmagador do capital chinês. De outro lado, não há barreiras capazes de impedir que papéis das dívidas públicas venham a cair em garras rapinantes, como aconteceu com a Argentina.

No máximo, trocaríamos abutres por urubus, mas isso não parece nada tranquilizador.

20 de maio de 2013

A ilusória agonia do imperialismo

Ignacio Ramonet publicou “O mundo em 2030” na Carta Maior, em 16/05. O artigo cita algumas conclusões de um documento elaborado pela CIA chamado “Tendências mundiais 2030: novos mundos possíveis”. Trata-se de um relatório entregue aos presidentes americanos a cada início de mandato.

Entre as muitas constatações do documento estaria o “declínio do Ocidente”. Por “Ocidente” entenda-se Alemanha, Reino Unido, França e o nada ocidental Japão. Potências que estariam perdendo participação na economia mundial. Enquanto isso, países como China, Índia, Brasil, Rússia, África do Sul estariam em ascensão.

E ainda haveria o surgimento de novos ”polos hegemônicos regionais”. Seria o caso de Colômbia, Indonésia, Nigéria, Etiópia, Turquia e Vietnã. Desse modo, estaria se configurando um “mundo multipolar”, em que “novos atores” poderiam “disputar a supremacia internacional a Washington e aos seus aliados históricos”, diz Ramonet.

Mas, afinal, o que significa “disputar a supremacia internacional” se não competir pelos mercados mundiais? Imperialismo não é sinônimo de dominação por parte de impérios nacionais. É a forma como o sistema capitalista funciona em nível mundial. No ocidente e no oriente.

Os tais “novos atores” estão apenas lutando por uma participação maior no saque aos povos e recursos do planeta. Aliás, a China já vem assumindo esse papel claramente. Inclusive, avançando sobre regiões de interesse da economia brasileira. Entre elas, a América do Sul, que o capital que tem sede aqui considera seu quintal.

Que a CIA esteja preocupada é natural. Que o relatório mostra contradições que devem ser aproveitadas pelas forças anticapitalistas é inegável. Mas que setores da esquerda estejam comemorando uma suposta agonia do imperialismo é miopia.

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19 de abril de 2013

Ficha suja para empresas? Nem pensar

Em 17 de abril de 1996, acontecia o massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará. Nessa data, foram mortos 21 trabalhadores sem-terra que participavam de uma manifestação pela Reforma Agrária. As mortes foram obra da polícia em operação financiada pela mineradora Vale do Rio Doce, que teve a circulação de seus caminhões dificultada pela manifestação.

A culpa da Vale está documentada na papelada do processo judicial sobre as mortes, segundo a reportagem “Financiadora do massacre de Carajás, Vale é repudiada no Rio”. A matéria de Vivian Virissimo foi publicada pelo jornal Brasil de Fato, em 17/04.

Dezessete anos depois, a Vale não continua apenas impune. Também é uma das clientes preferenciais do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). E ampliou seu raio de ação. Faz vítimas em outros lugares do mundo. É o que diz a reportagem “Polícia dispersa protesto contra a Vale em Moçambique “, publicada pela BBC Brasil, em 17/04.

A matéria afirma que policiais dispersaram um protesto de moradores que foram desalojados devido à instalação de uma mina de carvão da Vale no país africano. “Os manifestantes bloqueavam desde a tarde de terça-feira a ferrovia pela qual a empresa escoa sua produção”,diz o texto.

A Vale atropela populações pobres e trabalhadores com apoio e financiamento de um banco estatal. Não seria o caso de bloquear dinheiro público para uma empresa com uma ficha corrida dessas? Claro que não. Parlamentares e governantes, com ficha suja ou não, não permitiriam. A grande maioria deles está em seus postos graças ao financiamento dessas corporações poderosas.

2 de abril de 2013

Os imperialistas nanicos dos BRICS

Os chamados BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) criaram seu próprio fundo de emergência. São US$ 100 bilhões para eventuais situações de crise econômica. Seria uma alternativa ao Fundo Monetário Internacional, dominado por Estados Unidos e Europa.

A palavra “alternativa” não significa necessariamente algo oposto em relação àquilo de que pretende se diferenciar. Neste caso, está mais para imitação com ares de farsa. É o que se deduz de matéria da BBC Brasil sobre o evento. Com o título “ONGs criticam 'postura imperialista' dos BRICS”, o texto foi publicado por Ruth Costas, em 27/03.

O encontro aconteceu no Centro de Conferência Internacional de Durban, África do Sul. Os líderes políticos e empresários dos chamados “emergentes” se reuniram sob um esquema de proteção digno de imperialistas de primeiro time, com direito a barreiras, muros de ferro e tropas numerosas de policiais.

Mas não é só nisso que os líderes dos BRICS imitam governantes europeus e americanos. O avanço da China sobre a África, por exemplo, não deve nada aos colonialistas de séculos passados. Logo atrás, vêm as empresas brasileiras, tentando dar sua contribuição na exploração social e destruição ambiental do continente.

O encontro conseguiu criar até um evento paralelo, como nos eventos do imperialismo tradicional. Cerca de 40 ONGS, sindicatos e outros movimentos criaram o "BRICS a partir de baixo".

O pior é ver boa parte da esquerda justificando essa espécie de colonialismo júnior. Apoiando esses dirigentes politicamente nanicos, que disputam lugar na mesa sangrenta do imperialismo sênior.

6 de janeiro de 2013

“Nosso imperialismo” chega a Cuba

“Odebrecht chega a Cuba”, diz Fernando Caulyt em reportagem publicada no Deutsche Welle, em 03/01. A empreiteira brasileira recebeu a concessão de uma empresa açucareira por 13 anos. Trata-se do primeiro investimento estrangeiro no setor agrícola desde a Revolução de 1959. Seria a “abertura do agronegócio no país”, segundo o artigo.

Especialistas divergem sobre o real significado da medida. Mas o professor da Universidade de Brasília, Carlos Eduardo Vidigal, é otimista. Ele acredita numa abertura progressiva e calculada ao mercado internacional. E cita como exemplo a China, que teria desenvolvido “seu projeto de potência econômica sem abandonar o comunismo".

O fato é que os cubanos precisam encontrar uma saída para uma crise que já dura décadas. Não apenas devido ao criminoso boicote estadunidense. A ilha está pagando um preço muito elevado pela equivocada dependência em relação à falecida União Soviética.

Mas apostar no caminho chinês não é a saída. A China tornou-se uma potência econômica às custas de trabalho superexplorado, direitos mínimos e pouca liberdade. Quase tudo para benefício das poderosas multinacionais lá instaladas. De comunismo, só o nome fantasia.

A matéria diz que a empreiteira brasileira já executa obras no valor de mais de 900 milhões de dólares no porto de Mariel. E 85% do projeto são financiados pelo BNDES. Parcerias como esta já fazem estragos aqui, no restante da América Latina, além de Oriente Médio e África. É uma das alavancas do terrível “imperialismo jr.” brasileiro.

O governo dos Estados Unidos pode ficar tranquilo. Parece que seu parceiro na invasão do Haiti também começa a ajudá-lo em Cuba.

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12 de dezembro de 2012

Capital brasileiro saqueando Moçambique

“Empresas verde-amarelas redescobrem o país e, juntas, desbancam Portugal do posto de maior investidor estrangeiro”. É assim que o caderno “Amanhã” de O Globo resume a forte presença de empresas brasileiras em Moçambique.

Publicada em 11/12, a matéria mostra todo o poder do capital sediado no Brasil em terras moçambicanas. Vale, Camargo Corrêa e Odebrecht, à frente. A primeira explorando carvão e as outras construindo obras gigantescas. Muito provavelmente, provocando as mesmas tragédias sociais e ambientais que cometem aqui e em outros lugares do mundo.

Como se não bastasse, “o agronegócio está virando a mais nova frente de atividade para os empresários brasileiros”, diz a reportagem. Os reis da soja, milho e algodão estão de olho em seis milhões de hectares. As terras pertencem ao Estado e o governo escolheu o capital “verde e amarelo” como favorito para explorar essa imensidão territorial.

A matéria fala do grande potencial da savana moçambicana. Considerada semelhante ao cerrado brasileiro, ela receberá o “Pró-Savana”, da Embrapa. Um programa de cooperação que repetirá o que foi feito no Centro-Oeste brasileiro: “a implantação de monoculturas voltadas à exportação”.

O resultado desta opção para o nosso cerrado foi um desastre. A destruição de grande parte de sua fauna e flora nativas. A cientista política Ana Saggioro Garcia foi ligeiramente citada na reportagem. Lembrando o título do livro de Eduardo Galeano, ela disse: “A sensação é a de ‘veias abertas’ da terra, sendo sugadas, indo para fora”.

É o Imperialismo Jr. brasileiro substituindo os colonizadores portugueses. E com ajuda de um governo de esquerda. Que o povo moçambicano nos perdoe tamanha vergonha.

14 de novembro de 2011

No Paraguai, neoliberalismo de verdade

Em 10/11, a CBN fez uma entrevista com Wagner Weber, presidente do Centro Empresarial Brasil-Paraguai. Em depoimento a Carlos Sardenberg, ele descreveu o Paraguai como um paraíso para os neoliberais, ainda que não tenha dito isso.

Segundo Weber, investir no Paraguai é um grande negócio. Nem tanto pelo baixo custo da mão de obra. Afinal, o salário mínimo local é de 740 reais. É que os trabalhadores do país produzem cerca de dois meses a mais por ano que seus companheiros do Brasil.

Isso aconteceria porque são cinco feriados a menos por ano e apenas 12 dias de férias para quem trabalha há menos de cinco anos. Férias com 30 dias somente após 10 anos de trabalho na mesma empresa. A jornada semanal é de 48 horas.

A carga tributária em relação ao PIB é de apenas 8%. Não há imposto de renda para pessoa física ou jurídica. Tudo isso explicaria um crescimento econômico espantoso. Os setores de pecuária e manufatureiro vêm crescendo 7% ao ano nos últimos 20 anos.

Weber também diz que a esquerda quase não existe no país. É verdade que o atual governo foi eleito com apoio dela. Mas 98% dos membros do Congresso Nacional são de centro-direita e a instituição manda mais que o presidente da república.

Só não se falou sobre as conseqüências disso tudo para a maioria da população paraguaia. O país ocupa a posição 107 no Índice de Desenvolvimento Humano. Bem abaixo da grande maioria dos países latino-americanos.

É ou não é um paraíso do neoliberalismo? Talvez por isso o capital brasileiro esteja tão bem por lá.

Leia também: O imperialismo jr. entre sonhos e pesadelos

18 de outubro de 2011

Vexames da esquerda estatal

Entre 8 e 9 de setembro aconteceu um encontro em Buenos Aires promovido por “Capital Intelectual” e “Le Monde Diplomatique”. Sami Nair, professor da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha, participou do evento. Em artigo publicado no jornal El País de 13/10, ele comentou:
Quanto às revoluções na Tunísia e no Egito, nos inteiramos pela boca de intelectuais vindos da Venezuela, do Brasil e inclusive da Argentina, de que estas não eram mais do que “movimentos sociais violentos” e de maneira nenhuma revoluções.
Diz Nair que tais setores acusaram os defensores das “revoluções árabes” de “complacência com o imperialismo ocidental”. E que:
...tudo parecia transcorrer como se, ao defender essas revoluções, nos dispuséssemos, sem sabê-lo, a aceitar possíveis intervenções imperialistas contra certos regimes atuais da América Latina.
Referindo-se à Líbia, Nair chama de “piada de mau gosto” a defesa que tais representantes da esquerda latino-americana fizeram de Kadafi como “amigo das revoluções”. E concluiu:
Esses “revolucionários” estão na realidade mais próximos da razão de Estados dos regimes que defendem do que da solidariedade com os oprimidos.
Ou seja, é muito provável que se trate de apoiadores de Dilma, Chávez e Cristina Kirchner. Antigos militantes e atuais ocupantes de postos num Estado que pensam controlar. Sempre dispostos a defender seus “governos de esquerda” acima de tudo. Inclusive, de levantes populares contra ditaduras sangrentas.

Claro que o imperialismo está intervindo nos acontecimentos do norte da África e Oriente Médio. Mas daí a defender ditaduras como a da Líbia há uma enorme distância. Consequência da crença estúpida de que socialismo do século 21 será produto de ações de cima para baixo. Vergonhoso!

Leia também: As duas posses de Evo Morales

29 de setembro de 2011

As duas posses de Evo Morales

Evo Morales foi eleito presidente da Bolívia duas vezes. Em cada uma delas, houve duas cerimônias de posse. A primeira, celebrada segundo rituais indígenas. A segunda, no parlamento do País, seguindo formalidades herdadas do colonizador.

Os dois rituais mostram a dualidade do governo Evo. De um lado, a chegada ao poder a partir de um movimento popular vindo de baixo. De outro, esse mesmo poder domesticando as forças populares na figura de seu maior representante.

Essa contradição leva o governo a vários choques com sua base de sustentação. O episódio mais recente envolveu protestos contra a construção de uma rodovia que atravessará um milhão de hectares de território indígena. Obra financiada pelo capital brasileiro, vergonhosamente apoiada por Lula.

As manifestações aconteceram no domingo, 25/09. Foram violentamente reprimidas por tropas do governo. Quase 300 manifestantes foram presos. O que levou a novos protestos, incluindo a convocação de uma greve geral. A ministra da Defesa pediu demissão. Morales acabou suspendendo as obras temporariamente.

Tudo isso mostra os limites estreitos de conquistas feitas no campo da legalidade controlada pelos poderosos. A vitória de Evo desagradou a minoria branca, mas cobra um alto preço. O da adoção de uma lógica em que não há espaço para o respeito aos valores e interesses dos explorados.

A posse que realmente valeu não foi a que seguiu as tradições indígenas. O socialismo no século 21 é mais necessário do que nunca. De cima para baixo, jamais vai funcionar.

Leia também: Estragos do imperialismo jr. brasileiro

31 de agosto de 2011

Estragos do imperialismo jr. brasileiro

Há quem diga que um de nossos maiores problemas é o neocolonialismo. Pode ser, mas não no pólo passivo. Os capitais com sede no Brasil continuam a fazer estragos contra vários povos no mundo. Vejamos o que diz reportagem de Adelson Rafael, publicada no jornal moçambicano O País, em 23/08:
O neocolonialismo brasileiro em Moçambique certamente não contribuirá com o desenvolvimento socialmente justo deste país. Se, por um lado, o Brasil pode oferecer conhecimento técnico para o cultivo de sementes na savana africana, por outro o país tem a oferecer um modelo insustentável de agronegócio, baseado na monocultura, na degradação ambiental e na concentração de terras nas mãos de poucos.
O jornalista refere-se às técnicas de plantio utilizadas no cerrado brasileiro. Sobre o assunto, cita José Pacheco, ministro da Agricultura moçambicano. Elogiando os agricultores brasileiros, ele diz que pretende “repetir em Moçambique o que fizeram no cerrado há 30 anos”.

E o que é que os agricultores brasileiros vêm fazendo há 30 anos? Destruindo o cerrado, através das atividades do agronegócio. Principalmente, com plantio de soja e criação de gado.

Ainda segundo o jornal:
Moçambique é um dos 49 países mais empobrecidos do mundo, com 70% da população abaixo da linha da pobreza, e onde os agricultores têm grande dificuldade em aceder a crédito para a produção de comida.
Enquanto isso, o movimento indígena da Bolívia protestava contra a visita de Lula ao país. O ex-presidente participou de um fórum patrocinado pela OAS, no dia 30/08. A construtora é responsável por uma estrada que cortará um parque nacional no norte da Bolívia. São 306 km, ao custo de US$ 322 milhões, financiados pelo BNDES. A rodovia atravessará um milhão de hectares em um território indígena onde vivem três etnias.

São as façanhas do imperialismo jr. brasileiro.

Leia também: Lula, savana, cerrado e moto-serra

24 de junho de 2011

O imperialismo jr. entre sonhos e pesadelos

Em 22/06, Mauricio Dias publicou na CartaCapital números sobre as exportações brasileiras. O texto destaca que:
Para a América Latina seguem os produtos brasileiros industrializados, de maior valor agregado. Esse bloco de países, nos últimos 12 meses, pagou um preço médio de US$ 1.491 a tonelada. As exportações para a China, essencialmente produtos primários, a tonelada cai a US$ 197.
Produtos de “maior valor agregado” são aqueles que dominam um mercado. Sua elevada proporção nas exportações para os países vizinhos implica o predomínio de nossa economia sobre a deles.

Por outro lado, perdemos feio nas transações comerciais com a China. Produtos primários são típicos de economias fracas. Nós os vendemos aos chineses a 200 dólares a tonelada. É o preço que pagamos por um par de tênis ou um aparelho eletrônico. Muitas vezes, de origem chinesa.

Os problemas não param por aí. Na mesma edição de CartaCapital, artigo de Luiz Gonzaga Beluzzo fala sobre "O mergulho da indústria". Diz que nos setores de média e alta intensidade tecnológica, o País acumulou 65 bilhões de déficit comercial em 2010. É um mau sinal. Sintoma de queda nas atividades com maior capacidade para gerar valor.

O Brasil é considerado uma “potência emergente”, ao lado da China e outros países. Mas os números acima mostram o tamanho da encrenca. O crescimento da economia chinesa explodiu porque o parque industrial estadunidense foi quase todo transferido para lá. Atraído pela mão-de-obra barata e abundante. Garantido pelo capitalismo estatal chinês.

Nada parecido aconteceu com a nossa economia. Ela até vai bem quando faz valer seu poder no quintal latino-americano. Comparados à China, porém, estamos longe de realizar os sonhos dos imperialistas brasileiros. Apesar disso, os capitais com sede no Brasil já são o pesadelo dos povos que são nossos vizinhos.

Leia também: Imperialismo jr. e o acordo de Itaipu

6 de junho de 2011

Humala assusta mercado, só no Peru

“Vitória de Humala derruba bolsa de Lima e títulos do Peru”, diziam alguns jornais, logo após o anúncio da eleição de Ollanta Humala para presidente do país. O candidato foi abertamente apoiado por Lula e o PT.

Já, Ben Ramsey, um analista do JP Morgan, em Nova York, recomendou a compra dos títulos do país. Segundo ele, "tendemos a ver a venda acentuada de papéis do Peru como uma oportunidade de compra". O consultor acha que "Humala será mais moderado do que o esperado”. Então, quem comprar os títulos do governo agora, em baixa, vai lucrar quando o preço se recuperar.

Trata-se de algo parecido com o que ocorreu com a eleição de Lula, em 2002. O chamado “mercado” entrou em pânico. Mas, o presidente petista logo se mostrou confiável. Honrou os compromissos que assumiu com a política econômica anterior na “Carta ao Povo Brasileiro”. Aliás, o novo presidente peruano fez o mesmo. No caso dele, o documento chamou-se “Compromisso com o Povo Peruano”.

A candidata derrotada é Keiko Fujimori, filha do ex-ditador, Alberto. Era a favorita dos republicanos estadunidenses. Uma aliada natural do imperialismo americano. Por seu lado, Humala declarou-se mais próximo de outro vizinho poderoso: “O Brasil pode ser o primeiro país que eu irei visitar, se for eleito”, declarou à Folha, no dia 04/06.

Nas ruas de Lima, dizem que a eleição representava a escolha entre dois imperialismos: o brasileiro e o americano. Ou melhor, o júnior e o veterano. Parece que o mais novo levou a melhor com a vitória de Humala. Nada a comemorar.

Leia também: Imperialismo brasileiro no Peru

31 de maio de 2011

Imperialismo jr. e o acordo de Itaipu

Em meados de maio, o Senado aprovou reajuste do valor pago pelo Brasil ao Paraguai para comprar o excedente da energia gerada pela usina de Itaipu. A medida triplica os valores pagos ao país vizinho. Estranhamente, ninguém reclamou muito. Nada de jornais e TVs fazendo escândalos.

Artigo do jornalista Sergio Leo ajuda a entender melhor o que está em jogo. “Por que ajudar os vizinhos” foi publicado no Valor de 30/05/2011. Alguns trechos merecem destaque. Referindo-se ao comércio externo brasileiro, a matéria afirma que:
...a América do Sul tem gerado saldos comerciais ao Brasil superiores a US$ 10 bilhões desde 2005. Entre 80% a 84% do que o continente compra do Brasil são mercadorias manufaturadas, de maior valor agregado, produtos para os quais é um mercado maior que o dos países desenvolvidos, segundo as estatísticas oficiais.
Ou seja, uma relação francamente favorável ao capital com sede no Brasil. Muito diferente de nossas transações com os parceiros comerciais mais fortes, como Estados Unidos, Europa e China.

Depois de lembrar que ”a expansão das empresas brasileiras encontra na América do Sul seu trampolim ideal”, o jornalista diz que o Paraguai:
...viu os investimentos do Brasil em negócios locais aumentarem de pouco mais de US$ 80 milhões em 2005 para mais de US$ 140 milhões em 2006, segundo o Banco Central, e ultrapassarem US$ 400 milhões em 2009, segundo estimativas locais.
E completa com informações reveladoras:
A cifra tende a subir com a construção de uma linha de transmissão que regularizará o fornecimento de energia à capital Assunção. O aumento dos investimentos, que se dirigem em grande quantidade para a agropecuária, metalurgia e confecções, mas também crescem em ramos como hotelaria, calçados, cimento e frigoríficos, faz com que o desempenho econômico do país cada vez mais tenha reflexos sobre o setor privado brasileiro. Previsões como a de que o Paraguai será o quarto exportador mundial de carne até 2014, são notícia de ganhos para empresários do Brasil.
Ainda mais esclarecedora é a seguinte afirmação:
É comum, para desqualificar programas de ajuda brasileiros aos vizinhos, lembrar que há regiões pobres no Brasil necessitando também de ajuda. Argumento capenga, que só prospera entre os que ignoram que os laços econômicos e de ajuda internacional são instrumento poderoso de influência e pressão sobre governos estrangeiros. O apoio a economias mais frágeis também traz benefícios ao doador, como bem percebe a Alemanha, maior contribuinte dos fundos de auxílio e coesão da União Europeia e principal beneficiário da dinâmica econômica criada no bloco.
Neste caso, seríamos uma espécie de Alemanha do Cone Sul. É o imperialismo jr. em ação novamente.

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26 de maio de 2011

Obama não deixa de ter razão

Em 25/05, Obama fez um discurso para o Parlamento Britânico. A respeito dos chamados países emergentes, disse:
"Países como a China, o Brasil e a Índia estão crescendo, criando mercados e oportunidades para nossos povos. Tais nações crescem porque estão baseadas nos valores que os Estados Unidos e o Reino Unido defendem”.
Alguns exemplos podem confirmar as palavras do presidente americano.

Em 06/05, a Folha Online, publicou nota com o título “Cenas do capitalismo à chinesa”. Uma foto mostra multidão na entrada da loja oficial da Apple em Pequim, no primeiro dia de venda do iPad 2. Trata-se de equipamento produzido pela Foxconn. A empresa ficou conhecida pelas péssimas condições de trabalho e baixos salários. Situação que teria motivado o suicídio de 14 de seus funcionários, em 2010.

A economia brasileira é outro exemplo do respeito aos valores citados por Obama. Basta lembrarmos as tragédias sociais que vêm sendo causadas por empresas como a CSA, no Rio de Janeiro. Por Belo Monte e Jirau no norte do País. Ou pelos choques de ordem nas grandes cidades, que atinge violentamente as populações pobres.

Tal como na China, são inegáveis as demonstrações do progresso capitalista. Um tipo de desenvolvimento que começou nas escuras, sujas e mortais fábricas londrinas. Financiadas pela escravidão nas Américas e pela pirataria apoiada pela coroa britânica.

Quanto aos Estados Unidos, citemos o historiador estadunidense Howard Zinn. Em seu livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, ele denuncia inúmeros episódios de perseguições, prisões, torturas, assassinatos, massacres. Suas vítimas: indígenas, negros, sindicalistas, migrantes, mulheres, homossexuais. Sem falar nos povos espalhados pelo planeta.

Obama não deixa de ter razão.

Leia também: Por um internacionalismo socialista
Imperialismo brasileiro no Peru

5 de abril de 2011

Imperialismo brasileiro no Peru

No domingo, 10/04, acontece o primeiro turno das eleições presidenciais no Peru. O atual presidente, Alan García, aprovou um pacote com mais de 30 grandes projetos de grandes obras.

As principais beneficiadas são grandes empresas brasileiras. Entre elas, Odebrecht, Camargo Correa e Queiroz Galvão. Segundo matéria da Folha de São Paulo de 03/04, as empreiteiras brasileiras estão envolvidas na construção de seis hidrelétricas. Os investimentos podem chegar a US$ 16 bilhões.

Segundo a matéria, as construtoras brasileiras são as maiores doadoras da campanha do ex-presidente e candidato Alejandro Toledo. A matéria da Folha alerta para o fato de que as hidrelétricas “são só uma fatia dos negócios brasileiros no país”.

As “múltis brasileiras” já teriam investimentos de US$ 3,5 bilhões a US$ 5 bilhões no país vizinho. Números que devem triplicar com as obras públicas previstas. Principalmente, em mineração, construção e energia.

A Odebrecht, por exemplo, está há 31 anos no Peru, diz a Folha. Já fez 54 obras que representam investimentos de US$ 4,4 bilhões. O que a matéria não diz é que, lá como cá, as maiores vítimas desse tipo de empreendimento são a população pobre e o meio ambiente. Sem falar nos próprios trabalhadores das obras.

O capital com sede no Brasil vem promovendo uma espécie de “imperialismo tupiniquim” na América Latina. Um “imperialismo jr.” que também faz estragos na África e no Oriente Médio desde, pelo menos, os governos militares.

Apesar disso, boa parte da esquerda brasileira comemora o sucesso do “empresariado brasileiro”. Aprendeu com Lula a alisar a cabeça dos que sempre exploraram a população, desde Cabral até FHC.

21 de fevereiro de 2011

Revolução Árabe ameaça capital brasileiro

Agora é na Líbia. Manifestantes teriam colocado fogo em prédios públicos. O ditador Muammar Kadafi ordenou bombardeios aéreos contra a população revoltada. Em meio a tudo isso, a imprensa destaca a situação de 130 empregados brasileiros da construtora Queiroz Galvão. Há pedidos para que a Força Aérea Brasileira os retirem de lá.

Isso nos faz lembrar que não são apenas os interesses do imperialismo americano e europeu que podem ser atingidos pelas revoluções no mundo árabe. O grande capital brasileiro está presente no Oriente Médio desde a época dos militares. Uma aproximação que fazia parte do rompimento da ditadura com o alinhamento automático aos Estados Unidos. Desde então, a presença de capital brasileiro na região só cresceu.

Entre 2003 e 2009, as transações comerciais entre o Brasil e países do Oriente Médio passaram de US$ 4,4 bilhões para 10,6 bilhões. Os negócios envolvem principalmente a construção civil, com forte presença das empreiteiras Andrade Gutierrez, Odebrecht e Queiroz Galvão. Mas, empresas como a Brasil Foods (Sadia e Perdigão), Vale do Rio Doce, Tubos Tigre, Boticário, Via Uno e Arrezzo também estão por lá.

A presença empresarial brasileira também chega à Líbia. E inclui a polícia de Kadafi. Os veículos projetados para reprimir manifestantes foram feitos aqui. São fabricados pela Centigon Brasil, filial brasileira da empresa americana O'Gara-Hess & Eisenhardt.

Não se sabe ao certo como vai acabar a onda de revolta nos países árabes e islâmicos. O ideal seria que as ditaduras e seus apoiadores capitalistas fossem devidamente castigados. E que tanto o imperialismo veterano, como o “imperialismo jr.” brasileiro fossem derrotados.

Leia também: O Irã e o “imperialismo jr.” brasileiro

26 de janeiro de 2011

Chorando o leite derramado da Nestlé

O governo anuncia que pretende restringir a presença do capital internacional na exploração dos recursos naturais brasileiros. Parece que a medida foi provocada principalmente pela gula chinesa. A China liderou o investimento estrangeiro direto no Brasil em 2010. Trouxe pra cá US$ 17 bilhões. Quase um terço do total. Boa parte disso foi usada no setor de mineração. US$ 7 bilhões, na compra de 40% do capital da petrolífera Repsol.

O fato é que nunca entrou tanto dinheiro estrangeiro no Brasil como nos últimos anos. E nunca houve tantas fusões e aquisições. Números comemorados por especialistas, empresários, governos e pela mídia comercial. Então, é melhor desconfiar.

O economista Adriano Benayon publicou três artigos sobre desnacionalização da economia na revista “A Nova Democracia”, entre novembro de 2010 a janeiro de 2011. Segundo, Benayon, “Em todos os setores da economia, as transnacionais vêm ampliando e aprofundando seus domínios”. Alguns dados sobre os investimentos estrangeiros:
Em 2001, 59,6% de seus investimentos foram no setor de serviços, 33% na indústria, e 7,1% em agropecuária e mineração. Em 2008, esses percentuais passaram a 38%, 32% e 30%.
A verdade é que o capital estrangeiro está no controle da economia nacional há bastante tempo. Ainda segundo Benayon:
75%, do capital total das grandes e médias empresas em atividade no Brasil [estão] sob controle de subsidiárias, registradas no Brasil, de transnacionais com matrizes sediadas no exterior, ou diretamente por empresas estrangeiras.
Ao mesmo tempo, o economista diz que “gigantes nacionais”, como a Petrobras e a Vale, têm a maior parte dos lucros abocanhada por acionistas estrangeiros. Considerando-se esse tipo de participação, aqueles 75% de controle internacional subiriam para uns 90%.

Detalhe: a Repsol, invadida pelos chineses, é espanhola. Então, falar em defender a indústria nacional é como chorar um leite que foi derramado há muito tempo. Aquele cuja produção está sob controle da Nestlé, Parmalat, Fleischmann-Royal, Cirio e Danone.

Melhor admitir que a idéia é proteger os capitalistas transnacionais que já exploram nossos recursos naturais contra seus concorrentes asiáticos.

Leia também: Limitação mais que limitada

11 de janeiro de 2011

Ciúmes, esquerdismo e imperialismo júnior

O Globo vem reproduzindo vazamentos do Wikileaks sobre as relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. São documentos da embaixada americana em Brasília que circularam em 2009. Neles, a política externa do governo Lula é chamada de anti-ianque, ciumenta e esquerdista.

 

Apesar de vir de quem vem, a caracterização não deixa de fazer sentido. Não é difícil passar por “anti-ianque” diante da arrogância do Estado americano. Quanto à “ciumeira” brasileira, explica-se pela obsessão do Estado nacional por transformar o restante da América do Sul em seu quintal. Meta cujo alcance vive a ser atrapalhada pelas constantes intromissões ianques na região.

 

Em relação a nossa diplomacia esquerdista, sempre haverá os que acreditam na vocação socialista e anti-imperialista do governo Lula. Crença de comprovação quase impossível. Foram muitos os serviços governamentais prestados a Odebrecht, Camargo Correa, Eike Batista, Itaú, Friboi etc. Verdadeiras potências capitalistas nacionais. Responsáveis por grandes estragos ambientais e sociais entre os povos vizinhos. Orgulhos do imperialismo jr. brasileiro. Aquele que esperneia e grita contra seu concorrente forte, grande e desajeitado do norte.

 

O Wikileaks revela as sujeiras do andar de cima. Daqueles que sempre estiveram no poder e também dos que chegaram recentemente a ele.

 

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17 de novembro de 2010

O cólera e a cólera no Haiti

As mortes por cólera no Haiti já ultrapassaram os mil casos.

Cena mostrada no Jornal das Dez, da Globo News, em 28/10/2010: uma equipe de autoridades sanitárias fazia testes nas águas de um córrego. Procuravam a origem do vírus causador da doença. Um caminhão tanque encostou e começou a despejar um líquido. As autoridades perguntaram o que era aquilo. O motorista disse que eram dejetos vindos de uma base de soldados da ONU do Nepal. Detalhe: o cólera que vem provocando tantas mortes no Haiti é típico do Nepal.

Em janeiro, um terremoto matou mais de 200 mil haitianos. As tropas da ONU agiram rapidamente. Mas para resgatar funcionários da própria ONU. É o que diz o professor de Antropologia da Unicamp, Omar Ribeiro Thomaz. Ele estava presente no país quando aconteceu a tragédia. Em seu relato, Thomaz diz que as tropas da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah) são chamadas de turistas pela população local.

A verdade é que a presença das tropas da ONU, lideradas pelo Exército brasileiro, só têm causado problemas e revolta entre os haitianos. Uma manifestação popular contra a Minustah deixou duas pessoas mortas e pelo menos 25 feridas na segunda-feira, dia 15. Se não estão causando o cólera, com certeza estão provocando a cólera popular.

Leia aqui o relato de Omar Ribeiro Thomaz.

20 de maio de 2010

Imperialismo Jr. II

Para quem se entusiasmou com o acordo entre Irã e Turquia patrocinado pelo Brasil, seria bom lembrar alguns momentos da política externa brasileira.

Em 1861, D. Pedro II recusou convite do presidente Lincoln para participar de uma invasão do México, então ocupado por tropas de Napoleão III. Só lhe interessava a parte sul do continente.

Em 1909, o Barão do Rio Branco ameaçou romper as relações com os Estados Unidos, caso seu governo continuasse a pressionar o Chile a pagar US$ 1 milhão a uma empresa norte-americana.

Em 1974, o ditador Ernesto Geisel assinou o Acordo de Cooperação Nuclear com a Alemanha, apesar dos fortes ataques da imprensa e do Congresso estadunidenses.

Em 1982, outro ditador, general Figueiredo, declarou apoio à Argentina contra a Inglaterra na Guerra das Malvinas. O objetivo era entregar a exploração do petróleo das ilhas para a Petrobrás.

Em janeiro de 1995, Fernando Henrique Cardoso negociou um cessar-fogo em conflito armado entre tropas do Equador e do Peru.

Em junho de 2001, o mesmo Fernando Henrique declarou que o “Mercosul é mais que um mercado. O Mercosul é, para o Brasil, um destino”. Na época o ex-secretário de Estado americano, Henry Kissinger, disse que essa posição significava um potencial conflito entre Brasil e os Estados Unidos sobre o controle do Cone Sul.

Em nenhum desses momentos estavam em jogo convicções anti-imperialistas ou pacifistas. O objetivo maior sempre foi viabilizar os lucros de capitais sediados no Brasil. Aqui ou em pedaços disponíveis do planeta.

O Estado brasileiro não ficou menos imperialista porque seu comando hoje é petista. Ao contrário, aumentou a pretensão de entrar para o clube dos imperialistas seniores.

Leia também: O Irã e o “imperialismo jr.” brasileiro