31 de agosto de 2018

Um pensador que sonha, um sonhador que pensa

A lembrança da Comuna de Paris foi durante muito tempo o pesadelo das classes dominantes mundiais. E uma das lendas sobre ela atribui seu surgimento à Internacional Comunista, sob a liderança de Marx.

Em sua biografia sobre o grande revolucionário, Francis Wheen revela o contrário. Apesar de alguns de seus membros terem sido eleitos para a Comuna, a Internacional nem mesmo se posicionou oficialmente sobre ela durante os dois meses de sua duração. Apenas encarregou Marx de escrever um discurso de apoio, que só apareceria após a derrota dos “comunardos”.

Mas por muito tempo, prevaleceu a lenda. E com base nela um correspondente do “New York World” foi à Inglaterra, em julho de 1871. Sua missão, “inspecionar a toca” daquele “ogro” incendiário. Chegando à residência de Marx, relata ele:

...enquanto esperava meu anfitrião, observei cuidadosamente um vaso na mesa lateral em busca de uma bomba. Procurava cheiro de pólvora, mas só encontrei aroma de rosas. Rastejei sorrateiramente de volta ao meu lugar, e esperei melancolicamente pelo pior. Ele entrou, cumprimentou-me cordialmente e nos sentamos frente a frente. Sim, eu estava diante da revolução encarnada, do verdadeiro fundador e espírito orientador da Associação Internacional. Daquele que advertiu ao capital que jamais lutasse contra o trabalho, ou teria sua casa incendiada. Em uma palavra, diante do grande patrono da Comuna de Paris

Mas Marx também impressionou o jornalista de um outro jeito:

É só olhar para sua imensa testa, para saber imediatamente que estamos diante da mais formidável união de forças: um sonhador que pensa, um pensador que sonha.

Esta, certamente, foi a parte mais verdadeira da reportagem.

30 de agosto de 2018

A esquerda, entre o bar e a igreja

Em 1923, Leon Trotsky escreveu vários artigos, reunidos sob o título “Problemas da vida cotidiana”.

Entre as maiores preocupações do texto está a atração exercida pelos bares e igrejas junto aos trabalhadores. Com o estabelecimento das oito horas de jornada máxima, boa parte das horas restantes eram ocupadas pelo álcool e pela fé.

A bebida preocupava pelas consequências de seu consumo exagerado para a saúde. A devoção, devido ao monopólio exercido pela reacionária Igreja Ortodoxa.

A solução? “O cinema é um ótimo concorrente não só da taverna, mas também da igreja”, diz ele. Afinal:

O elemento de distração, de entretenimento, de passatempo, desempenha um papel enorme na cerimônia religiosa. Através da encenação, a igreja age sobre os sentidos: visão, audição, olfato (incenso). E sobre a imaginação. O gosto dos homens pelo teatral (...) é muito forte, indestrutível e insaciável desde a infância à idade avançada.

Mas, continua Trotsky, “na igreja, a mesma ‘encenação’ se repete a cada ano, enquanto que no cinema as pessoas podem ver, no mesmo dia e, ao mesmo tempo, tanto festas pagãs como rituais judaicos ou cristãos”.

Por isso, ele propunha a criação de uma rede de cinemas estatais que exibiria produções socialistas e libertárias.

Infelizmente, a contrarrevolução stalinista enterraria essa proposta, patrocinando produções cinematográficas conservadoras, cheias de apologia ao partido, ao grande líder, à pátria, à família.

Mas o importante aqui é notar como Trotsky se preocupava com a dimensão lúdica e estética da vida cotidiana dos trabalhadores.

Nesse aspecto, grande parte da nossa esquerda pouco avançou. Não sai do bar e despreza a fé popular sem oferecer alternativas.

29 de agosto de 2018

A lógica antidemocrática dos memes

Já circula pelas redes a foto da palma da mão de Bolsonaro, captada durante sua entrevista ao Jornal Nacional, ontem. Nela estavam escritas as palavras Deus, Família, Brasil.

Óbvio que nem ele teria dificuldades para lembrar de palavras tão simples. Muito provavelmente, foram inscritas para gerar “memes”. Segundo a Wikipedia:

Meme é um termo criado em 1976 por Richard Dawkins no seu bestseller “O Gene Egoísta” e é para a memória o análogo do gene na genética, a sua unidade mínima. É considerado como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros).

O candidato Enéias Carneiro marcou as eleições presidenciais de 1989 a 1998. Muito antes de os memes se popularizarem, ele já tinha o seu. Era o bordão “Meu nome é Enéias”.

Com tempo minúsculo no horário eleitoral, a isso se resumiam as propostas de Enéias. Apesar disso, foi eleito deputado federal em 2002, com mais de 1,3 milhão de votos.

A grande popularidade de Enéias mostrava que o pouco tempo para propaganda eleitoral não lhe era necessariamente prejudicial. Ao contrário, ele tinha menos chance de revelar suas ideias políticas grosseiras. Ruim, mesmo, só para o debate político.

No horário eleitoral, Bolsonaro terá direito a apenas 9 segundos diários. É o que basta para disparar muitos memes, enquanto suas ideias pré-históricas e propostas sem consistência ficam em segundo plano.

Qual a solução? Para começar, tempo igual e suficiente para que todas as candidaturas exponham seus programas e ideias. Mais horário eleitoral obrigatório, menos Jornal Nacional. Mais democracia, menos memes.

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28 de agosto de 2018

Sobre esquisitões e Inteligência Artificial

Em 40 anos, nos arriscamos a perder completamente o controle do planeta para as mãos de um pequeno grupo que desenvolve a Inteligência Artificial (IA). Esse é o cenário catastrófico. Para evitá-lo, precisamos que as pessoas participem do diálogo.

As palavras acima são de Max Tegmark, em entrevista publicada por El País, em 14/08/2018. Na condição de diretor do Future of Life Institute de Cambridge, deve saber do que está falando.

Segundo o entrevistado, atualmente, os rumos das pesquisas sobre a Inteligência Artificial são definidos por algumas poucas “companhias tecnológicas e governos”. Setores, que, para ele, “não necessariamente são os mais bem qualificados para tomarem essas decisões para toda a humanidade”.

Mas Tegmark também entende que a questão não deveria ser limitado a:

...um grupo de freaks (esquisitões) da tecnologia, como eu, e sim que incluamos psicólogos, sociólogos e economistas para que participem do diálogo. Porque, se o objetivo é a felicidade humana, temos que estudar o que significa ser feliz.

Ou seja, tecnologia é importante demais para ficar sob responsabilidade exclusiva dos tecnólogos. A participação dos esquisitões das ciências humanas é igualmente necessária.

Por outro lado, acrescentaríamos, aqueles que não dominam conhecimento específico nenhum a não ser o de suas próprias opiniões e interesses também precisam ter direito a voz. Principalmente, a grande massa de trabalhadores que pode ficar sem emprego devido à utilização da IA em grande escala.

Em outras palavras, precisamos de mais debate, participação, crítica e explicitação das contradições.

Difícil é explicar isso para freaks como os do movimento Escola sem Partido, com seu ódio às ciências humanas e à democracia.

27 de agosto de 2018

Juntos com Lula na prisão

A prisão de Lula começou a ser decidida quando o Juiz Moro divulgou ilegalmente a famosa gravação de uma ligação telefônica de Dilma para ele. Foi ali que a campanha pelo impeachment retomou o impulso que vinha perdendo.

Mas a deposição de Dilma permitiria a Lula fazer um discurso de oposição quase imbatível a um governo ilegítimo, corrupto e em meio a uma profunda crise econômica.

Prender o petista, portanto, parecia ser a única solução. Parecia, mas...

Alguns setores da direita até tentaram avisar. Encarcerar Lula o transformaria em mártir cuja redenção se daria com seu retorno glorioso à presidência da república.

Além disso, com o PT fora do governo, se sustenta pouco o discurso de que o partido também foi responsável pelo caos social que tomou conta do país. Ainda que isso seja verdade.

E na memória recente de tempos melhores, só aparece o ocupante da cela de Curitiba. Com isso, as cartas de que dispunha a burguesia mostraram-se inúteis. De oposição ao lulismo, gente como Aécio e Alckmin passou a representar a política velha e corrupta.

Resultado, Lula cresceu tanto nas pesquisas que passou a ser prejudicial criticá-lo junto aos mais pobres. E estes, devido a nossa imensa desigualdade, formam a grande maioria do eleitorado.

Mesmo Bolsonaro mantém seus ataques ao PT evitando mencionar sua maior liderança.

De modo que Lula poderia dizer algo como: “Vocês me prenderam, sem se dar conta de que ficariam presos a mim”.

O pior é que dessa prisão não escapa nem boa parte da esquerda não petista, cujo lulismo já não consegue esconder.

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24 de agosto de 2018

Marx bebe todas e vandaliza

Que Marx gostava de uns bons goles é relativamente conhecido. Mas Francis Wheen dá mais alguns detalhes em sua biografia sobre ele.

Por exemplo, quando jovem, Marx foi co-presidente do Trier Tavern Club, uma sociedade com cerca de trinta estudantes universitários de sua cidade natal, cuja principal ambição era embebedar-se o mais frequentemente possível: o que lhe custou certa vez uma detenção por 24 horas, embora a prisão não impedisse que seus amigos lhe trouxessem ainda mais bebida e um baralho para aliviar o cumprimento da sentença.

Já em idade mais madura, Marx, Edgar Bauer e Wilhelm Liebknecht saíram para um passeio etílico por Londres. Pretendiam tomar pelo menos um copo de cerveja em cada bar pelo caminho. Como a rota incluía nada menos que dezoito pubs, chegaram ao último dispostos a alguma confusão.
Foi o que aconteceu. Bauer tropeçou em uma pilha de pedras de pavimentação. “Opa, tive uma ideia!” disse. Pegou uma delas e acertou um lampião de gás em cheio. O absurdo contagiou seus acompanhantes, que acertaram mais quatro ou cinco lampiões. Era madrugada e as ruas estavam desertas. Mas o barulho atraiu a atenção de um policial, que rapidamente chamou reforços.

Felizmente, o pequeno bando de baderneiros conhecia bem as redondezas. Segundo Liebknecht:

Eram três ou quatro policiais atrás de nós. Marx mostrou uma agilidade de que eu jamais suspeitara. Depois de alguns minutos de perseguição, conseguimos entrar numa rua lateral e passar por um beco, despistando completamente os policiais. Agora estávamos a salvo. Eles não tinham nossa descrição e chegamos a nossas casas sem mais aventuras.

Muito bonito, hein!


23 de agosto de 2018

Justiça social à moda tupi-guarani

O livro “História da riqueza no Brasil”, de Jorge Caldeira, traz várias revelações importantes. Principalmente em relação aos modos de vida dos povos indígenas, antes da invasão europeia.

O maior grupo era o tupi-guarani. Seus diversos núcleos tribais exibiam um nível parecido de conhecimentos, domínio tecnológico e costumes. Mas o mais interessante era o que ocorria com a produção. Não é verdade que eles viviam em economias de subsistência, sendo incapazes de produzir estoques.

Em apenas três ou quatro horas diárias de trabalho, afirma Caldeira, eles produziam não apenas o necessário para sobreviver, mas o suficiente para manterem estoques de segurança alimentar. Enquanto isso, na mesma época, a fome castigava a Europa

Sempre que um excedente é produzido, começa a surgir a desigualdade social. Um grupo se destaca ao assumir o controle do estoque. Aparece a divisão entre produtores e não produtores. Nesse momento forma-se o governo como unidade separada do restante da sociedade.

Mas os Tupi-Guarani adotaram uma solução peculiar para conciliar abundância material com igualdade social. O esforço econômico se voltava para a eficiência da distribuição, no lugar de ampliar a produção acumulada numa sociedade dividida.

Além disso, do ponto de vista ambiental, todo trabalho estava relacionado à preservação. Não fazia sentido trabalhar mais quando isso não representasse mais preservação ou colocasse em risco os recursos naturais.

Não se trata de copiar experiências surgidas de realidades culturais e históricas muito diferentes da nossa. Mas é inegável que há muito a aprender com algumas sociedades indígenas.
                                                                                        
Elas mostram que mesmo uma sociedade desigual e produtiva não precisa ser governada pela desigualdade e pela destruição ambiental.

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O comunismo sob ameaça, no Brasil

22 de agosto de 2018

Capitalismo sem monopólio da propriedade ainda é capitalismo

Edmar Bacha é um economista neoliberal, famoso por ter ajudado a criar o Plano Real. Recentemente, anda entusiasmado com um livro lançado nos Estados Unidos. Trata-se de “Mercados Radicais: Desenraizando o capitalismo e democracia para uma sociedade justa”, de Yale Glen Weyl e Eric Posner.

Em artigo para “O Globo”, Bacha resumiu a proposta do livro.

Os donos de bens de capital teriam que declarar em registro público os preços desses bens. Sobre esses valores, eles pagariam um imposto cuja arrecadação garantiria uma renda básica para todos os cidadãos. Por outro lado, os proprietários seriam obrigados a vender os bens para qualquer pessoa pelo valor declarado.

Assim, enquanto o imposto faria com que o proprietário tendesse a subestimar o preço do bem, a obrigação de vendê-lo, e ao preço declarado, faz com que ele tenda a declarar um preço honesto.

Desse modo, diz ele, “todo capitalista passa a ser uma espécie de posseiro. Eles retêm o direito ao uso do bem, mas têm que vendê-lo caso alguém ofereça um preço maior do que o seu por ele”.

Mas fundamental para o capitalismo não é necessariamente o monopólio da propriedade dos meios de produção. É o monopólio de seu controle. Prova disso são alguns dos mais recentes sucessos do mercado mundial.

A Uber é a maior empresa de transporte urbano e a AirBnb, de hospedagem. Nenhuma delas possui automóveis ou hotéis. Ambas monopolizam enormes fatias do mercado. É a “mão invisível do mercado” em sua forma mais acabada.

O que Bacha considera “uma bela utopia” é só mais uma tentativa de repaginar a velha e feia exploração.

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Tudo o que é sólido termina em exploração

21 de agosto de 2018

Marx mostra que a ocasião não faz apenas ladrões

Uma das características mais marcantes dos textos de Marx é a ironia. Importante lembrar disso ao ler o trecho abaixo. Pertence a um rascunho para “O Capital” chamado “Teorias da Mais-Valia”, escrito entre 1861 e 1863:

Um filósofo produz ideias; um poeta, poesia; um pastor, prédicas; um professor, compêndios etc. Um criminoso produz crimes. Observe-se mais de perto a relação desse ramo de produção com o todo da sociedade e dar-se-á conta de muitos preconceitos. O criminoso produz não apenas crime, mas também o direito criminal e assim também o professor que dá palestras sobre direito criminal e ademais o inevitável compêndio de onde o professor retira a "mercadoria" que lança no mercado. Disso advém incremento da riqueza nacional. Sem falar no prazer privado que a leitura dos compêndios criminais proporciona - como nos ensina o Prof. Roscher, referindo-se àquele que ele mesmo produziu. O criminoso produz além disso a polícia e a justiça criminal, juízes, carrascos, jurados e assim por diante. E todos esses ramos de atividade, que compõem grande parte das divisões sociais do trabalho, desenvolvem certas faculdades do espírito humano, inventam novas necessidades e novas formas de satisfazê-las.

Mas não há qualquer ironia em muitas situações sociais contemporâneas produzidas pela criminalidade. Um instantâneo delas pode ser flagrado em reportagens corriqueiras cujos títulos são, por exemplo, “Segurança privada fatura bilhões com violência nas ruas” ou “Segurança é tema central de candidatos ao governo do estado”. E ainda, “Violência faz audiência de programas policiais na TV disparar”.

Ou seja, a ocasião não produz apenas ladrões, mas principalmente enormes lucros e mais repressão.

20 de agosto de 2018

Neoliberais progressistas. Eles existem

Pawel Kuczynski 
Falar em “neoliberalismo progressista” chega a doer nos ouvidos. Como poderiam ser progressistas políticas que retiram direitos e conquistas e entregam às leis de mercado os destinos de povos inteiros?

Mas não é nada disso. O conceito é da filósofa e feminista estadunidense Nancy Fraser. Em ótima entrevista publicada no portal Outras Palavras, ela diz:

O que é específico do “neoliberalismo progressista” é que ele combina políticas econômicas regressivas, liberalizantes, com políticas de reconhecimento aparentemente progressistas. Sua economia política baseia-se em “livre comércio” (que em realidade significa livre movimentação do capital) e desregulamentação das finanças (que empodera investidores, bancos centrais e instituições financeiras globais para ditar políticas de “austeridade” para o Estado por meio de decretos e da chantagem da dívida). Entretanto, seu lado de reconhecimento centra-se na compreensão liberal do multiculturalismo, do ambientalismo e dos direitos das mulheres e LGBTQ [lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer]. Inteiramente compatível com o neoliberalismo financeiro, essa compreensão é meritocrática, oposta ao igualitarismo. Focados na “discriminação”, eles buscam assegurar-se de que uns poucos indivíduos “talentosos” de “grupos sub-representados” possam ascender ao topo da hierarquia corporativa e alcançar posições e remuneração paritárias com os homens heterossexuais brancos de sua própria classe.

O que não é mencionado, contudo, é que enquanto esses poucos “quebram o teto de vidro”, todo o resto continua preso no porão.

Essa combinação é explorada com sucesso pela direita para alimentar um clima de ressentimento contra as lutas progressistas.

Em plena campanha eleitoral, esse importante debate chega atrasado ao Brasil. Mas as eleições vão passar, as encrencas vão permanecer e, muito provavelmente, se tornar ainda mais graves.

17 de agosto de 2018

Os subterrâneos do abolicionismo estadunidense

“The Underground Railroad: Os caminhos para a Liberdade” é um belo livro de Colson Whitehead. Ganhador do Pulitzer 2017, descreve em linguagem metafórica a rede de apoio à fuga de negros da escravidão do sul estadunidense no século 19.

Seguem abaixo algumas das muitas passagens bonitas e doloridas da obra:

Terra e pretos para cuidar dela eram uma caução melhor do que qualquer banco poderia oferecer. Terrance era mais ativo, sempre bolando planos para aumentar os carregamentos que eram mandados a Nova Orleans. Ele extraía cada dólar possível. Quando o sangue dos pretos era dinheiro, o homem de negócios experiente sabia perfurar a veia.

Preciosos momentos minúsculos:

Às vezes um escravo se perde num breve redemoinho de libertação. No movimento de um suave devaneio entre os sulcos da lavoura ou desenredando os mistérios de um sonho ocorrido de manhãzinha. No meio de uma música numa noite cálida de domingo. E então vinha, sempre: o grito do feitor, o chamado para trabalhar, a sombra do senhor, o lembrete de que ela é um ser humano apenas por um minúsculo momento numa eternidade de servidão.

Sobre o desejo de fugir:

...todo escravo pensa nisso. De manhã e de tarde e de noite. Sonha com isso. Todo sonho é um sonho de fuga, mesmo se não parece. Mesmo quando era um sonho de sapatos novos.

A música em meio à servidão:

Bata palmas, dobre os cotovelos, balance os quadris. Há instrumentos e músicos, mas às vezes um violino ou um tambor fazem aqueles que os tocam de instrumentos, e todos são escravizados pela música.

E viva Aretha Franklin!

16 de agosto de 2018

Notícias póstumas sobre um capitalismo moribundo

Em 12/08/2018, o Estadão reproduziu reportagem publicada pelo “The Economist” sobre o livro “Quebradeira: como uma década de crises financeiras mudou o mundo”, ainda sem edição brasileira.

A obra do historiador britânico Adam Tooze mostra que os principais mecanismos causadores da crise mundial de 2008 continuam em pleno funcionamento.

Um trecho da resenha afirma:

Ninguém que dormisse em 2006 e despertasse para observar os mercados financeiros hoje teria ideia de que houve uma crise. Os preços das ações nos EUA tiveram repetidamente novas altas e as valorizações foram superadas apenas pelas épocas de bolha de 1929 e 2000. As taxas de juros pagas por governos e corporações para tomar dinheiro emprestado são muito baixas, tomando-se por base padrões históricos. Em termos globais, o volume da dívida em relação ao PIB é quase tão alto quanto era antes da crise.

Outra passagem utiliza a seguinte metáfora:

Os bancos centrais interromperam um ataque cardíaco econômico global com uma cirurgia de emergência, mas o paciente voltou aos velhos hábitos de fumar, beber demais e se encher de comida gordurosa. Ele pode até parecer saudável, mas o próximo ataque poderá ser mais violento, e as técnicas de ressurreição que funcionaram uma década atrás podem não dar certo uma segunda vez.

Chris Harman, no entanto, prefere outra imagem. Em seu livro “Capitalismo Zumbi”, de 2009, ele afirma que o capitalismo estaria “morto para o efeito de atingir objetivos humanos e de responder a sentimentos humanos”, mas é “capaz de exercer atividades causadoras de caos em seu próprio entorno”.

Em outras palavras, seja agonizando, seja morto, o sistema permanece fatal.

Leia também: Nova crise mundial pode arrastar até a China

14 de agosto de 2018

O jovem Marx antecipa o Marx maduro

Em uma bela passagem de sua biografia sobre Marx, Francis Wheen descreve uma importante continuidade entre um Marx muito jovem e aquele das barbas grisalhas:

A vida adulta de Marx tem o ritmo das marés. Avanços e recuos, no quais surtos de espuma são seguidos pelos longos rugidos da água recuando. Essa alternância entre envolvimento e isolamento estava em grande parte fora de seu controle. Era ditada por acidentes e circunstâncias - doença, exílio, problemas domésticos, reversões políticas, amizades rompidas. Mas também pode ser visto como um experimento voluntário na conciliação entre as demandas da teoria e prática, a contemplação privada e o engajamento social.

(...)

E ele sentiu esse dilema mais agudamente do que a maioria, já que manter-se integrado à sociedade sempre foi uma de seus maiores obsessões.

(...)

Aos dezessete anos, em um trabalho de escola, Marx escrevia: "O principal guia a nos orientar na escolha de uma profissão é o bem-estar da humanidade e nossa própria perfeição", escreveu. "Não se deve pensar que esses dois interesses possam estar em conflito". Afinal, afirmava, a natureza humana foi constituída de tal maneira que os indivíduos somente alcançaram o apogeu quando se devotaram aos outros. Alguém que trabalha apenas para si mesmo "talvez se torne um homem famoso por seu conhecimento, um grande sábio, excelente poeta, mas jamais poderá ser um homem verdadeiramente grande". A história aclama apenas os que enobreceram sua tribo e "a própria religião nos ensina que o ser ideal a quem todos se esforçam por copiar se sacrificou pela humanidade”.

Era fácil perceber que aquele rapaz iria longe! E sempre bem acompanhado.

Leia também: Marx e Engels, devotos de Santo Agostinho

13 de agosto de 2018

Em resposta ao incansável racismo do general Mourão

O General Mourão, em mais uma declaração infeliz, afirmou que os negros são malandros e os indígenas indolentes.

Em 12/08/2018, o colunista Reinaldo José Lopes publicou na Folha uma boa resposta a essas maluquices. Lembrou um relato de Antonio Pires de Campos, de 1723, segundo o qual, os indígenas Parecis eram “incansáveis” em suas lavouras, sempre plantadas em “admirável ordem”. Além disso, construíam estradas “muito direitas e largas”, conservando-as “tão limpas e consertadas que se lhe não achará nem uma folha.”

Lopes também pergunta que malandragem africana teria “levado guerreiros negros do atual Sudão a conquistar todo o orgulhoso Egito dos faraós por volta de 700 a.C.?” Ou a fazer com que o povo shona, na Idade Média, tenha construído “a poderosa cidade de pedra do Grande Zimbábue, com tamanho e complexidade que nada deviam às maiores cidades europeias medievais?”

Mas voltando à suposta indolência indígena, também seria bom lembrar uma importante obra de Jorge Caldeira, lançada em 2017. Em “História da Riqueza no Brasil” o historiador afirma, por exemplo, que:

… os Tupi-Guarani mantinham um tal equilíbrio entre produção econômica, alianças diplomáticas, chefia política na guerra e destinação ritual dos excedentes que não os obrigava a criar uma função especializada de governo, com a permanente divisão dos membros da sociedade entre governantes e governados. Mesmo assim havia governo: as instituições indicadas pelo costume funcionavam com regularidade e desfrutavam do respeito de todos.

Respeito de todos é algo de que o general, certamente, jamais vai desfrutar devido a sua incurável mentalidade racista. Produto de séculos de preguiça mental e estupidez incansável.

Leia também: O Alto Xingu e as utopias possíveis

10 de agosto de 2018

Celular no modo boteco

O questionário CAGE consiste de quatro perguntas criadas para detectar problemas com alcoolismo. Mas ele pode ser utilizado para outras formas de dependência. Por exemplo:

- Você já tentou diminuir ou cortar ("Cut down") o uso do celular?
- Você já ficou incomodado ou irritado ("Annoyed") com outros porque criticaram seu jeito de lidar com o celular?
- Você já se sentiu culpado ("Guilty") por causa da forma como utiliza o celular?
- Você já teve que recorrer ao celular para aliviar os nervos ou reduzir os efeitos de uma ressaca ("Eye-opener")?

A sugestão inspira-se em entrevista de Catherine Price, autora do livro “Como largar o celular: Manual de Desintoxicação”. No depoimento publicado pelo portal Público, em 30/07/2018, ela fala sobre estratégias para reconquistar “o tempo que se perde ao celular”.

Mas dieta absoluta não adianta, diz a entrevistada. É preciso “criar uma nova relação” com o aparelho.

Certo. Mas, tal como no caso da bebida, a dependência não pode ser tratada apenas em nível individual. A relação que precisa ser renovada não é apenas com certas substâncias ou tecnologias. É com o mundo ao redor.

Segundo Catherine, o primeiro passo para uma vida melhor é “romper a relação amorosa com o celular”.

De novo, ela está correta. Mas os próximos passos deveriam caminhar em direção ao rompimento com outras relações nada amorosas. Principalmente, com as formas de exploração e opressão que, frequentemente, transformam prazeres e facilidades em vício e sofrimento.

Enquanto isso, e como é sexta-feira, que tal começar colocando o celular no “modo boteco” e celebrar com amigos e amores do melhor jeito possível?

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Militância por aplicativo

9 de agosto de 2018

O que Trotsky diria sobre Bolsonaro e os golpistas?

Trotsky dizia que aprendeu tudo o que precisava saber sobre uma organização revolucionária com cinco trabalhadores.

Um deles sempre foi militante socialista. Um defensor intransigente dos oprimidos, à frente de qualquer luta dos explorados.

Outro era um reacionário nato. Havia nascido e morreria sendo um fura-greve. Depois de morto, se houvesse uma greve no céu, ele a combateria.

Mas os três trabalhadores restantes não eram nem revolucionários nem reacionários. Às vezes, eram influenciados por um, às vezes, por outro. Oscilavam entre os dois, sempre em disputa.

Segundo Trotsky um objetivo importante das organizações revolucionárias seria empurrar os trabalhadores do meio para perto dos militantes socialistas. Afastá-los o máximo possível da influência dos ultraconservadores de direita.

Em palavras simples e didáticas, o grande revolucionário russo estava descrevendo a boa e velha disputa de hegemonia.

Poderíamos usar essa imagem para o quadro eleitoral atual. Muitos dos eleitores declarados de Bolsonaro são reacionários natos. Mas não a maioria.

O mesmo pode ser dito daqueles milhões que foram às ruas pelo impeachment. Uma parte deles é formada por ultraconservadores incuráveis. Mas para a maioria, há alguma esperança.

Se tratarmos a todos como inimigos, estaremos empurrando o conjunto deles para perto dos setores reacionários.

É preciso aprender a dialogar com os “trabalhadores do meio” para disputar sua consciência política. Até porque sem eles, não haverá um processo de transformação envolvendo a grande maioria explorada e humilhada.

Mas, atenção, disputar hegemonia não é igual a participar de eleições. Reduzir a primeira à segunda significa, aí sim, render-se à hegemonia dos que controlam o sistema político dominante. Os mesmos que tornaram Bolsonaro viável.

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Trotsky, o revolucionário aprendiz

8 de agosto de 2018

Bilionários do mundo preparam sua Arca de Noé

Douglas Rushkoff é especialista em autonomia humana na era digital. Em 01/08/2018, publicou artigo contando como foi convidado para dar uma palestra em um resort de alto luxo para poderosos executivos do mundo das finanças.

Qual era o grande objetivo dos participantes?

Seguindo o exemplo de Elon Musk e sua colonização de Marte, ou do envelhecimento revertido de Peter Thiel ou do projeto de Sam Altman e Ray Kurzweil de baixar suas mentes em supercomputadores, preparavam-se para um futuro digital que tinha muito mais a ver com a intenção de transcender a condição humana e se proteger do perigo real e presente da mudança climática, o aumento dos níveis do mar, os grandes fluxos migratórios, as pandemias globais, o pânico nacionalista ou o esgotamento dos recursos, do que com a construção de um mundo melhor. Para eles, o futuro da tecnologia na realidade consiste em uma coisa: a capacidade de fuga.

Para eles, diz Rushkoff, “a evolução humana reduziu-se a um videogame, no qual ganha a partida quem encontrar a janela de saída, levando junto com eles seus melhores amigos: Musk, Bezos, Thiel, Zuckerberg...”.

Esse corja parasita quer simplesmente deixar para trás o planeta, seus bilhões de pobres e remediados, e imensos problemas, muitos dos quais causados ou agravados por ela própria.

Rushkoff acerta ao dizer que “a condição humana não tem a ver com a sobrevivência ou saída individual. É um esporte de equipe. Qualquer que seja o futuro que aguarda a humanidade, afetará a todos nós”.

Mas bem que poderíamos sabotar essa Arca de Noé deles só pra vê-los afundar em pleno dilúvio.

Leia também: O dilúvio tupinambá e o desastre capitalista

7 de agosto de 2018

Marx e Engels, devotos de Santo Agostinho

Um dos livros mais famosos da dupla Marx e Engels é “A Ideologia Alemã”, de 1846. Seu trecho mais conhecido é o que imagina como seria a atividade humana em uma sociedade comunista.

Nela ninguém estaria restrito a um círculo exclusivo de atividades, mas seria possível atuar nos mais diversos ramos de trabalho. A sociedade regularia a produção geral, de modo que seria possível:

...que eu faça hoje uma coisa e amanhã outra, que cace de manhã, pesque á tarde, crie gado à tardinha, critique depois da ceia, tal como me aprouver, sem ter de me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico.

Na biografia que escreveu sobre Marx, Francis Wheen brinca ao perguntar quem, afinal, limparia os sanitários ou cortaria o carvão nesse “Nirvana” social.

Wheen também conta que a um espertalhão que perguntou quem iria engraxar-lhe os sapatos sob o comunismo, Marx teria respondido irritado: “Você!”. E a um amigo que disse não conseguir imaginar Marx vivendo satisfeito em uma sociedade igualitária, ele teria dito: "Nem eu. Estes tempos virão, mas já estarei longe.”

Apesar da constante penúria, Marx levava um estilo de vida burguês o suficiente para que lhe viessem a lhe fazer falta certas mordomias numa sociedade mais justa.

Poderíamos acusá-lo de defender posturas do tipo “faça o que digo, mas não o que faço”. Mas nem ele nem Engels jamais tentaram esconder ou negar suas origens sociais. Muito menos se privavam de luxos como bons vinhos, excelentes jantares, charutos, etc.

Nesse particular, os dois estariam mais para seguidores de Santo Agostinho, que teria dito: “Senhor, livrai-me das tentações, mas não hoje”.

Leia também: Vitórias de Marx nos tribunais

6 de agosto de 2018

Marx, inteligência artificial e polinização humana

O trabalho da abelha não é apenas a produção de mel e cera. Seu verdadeiro trabalho ecológico e reprodutor da vida é a polinização, infinitamente mais produtivo.

Ao retirar os favos de mel preenchidos pelo trabalho reprodutor das abelhas, o apicultor se apropria do mel e da cera e as obriga a trabalharem além do que fariam sem a sua intervenção. O trabalho de polinização é ignorado pelo apicultor, mas fundamental para manter o ciclo natural que torna possível sua atividade.

A atividade humana é muito mais do que o trabalho remunerado. Abrange, por exemplo, criação, educação, aprendizagem da linguagem, da escrita, produção da língua, dos símbolos, da cultura, trabalho voluntário, trabalho doméstico...

Conforme o capitalismo se desenvolve, essa “polinização humana” também vai sofrendo uma predação contínua. Na época da inteligência artificial, do digital e da ciência e suas aplicações, a captação do valor começa a se dar também pelas plataformas interativas digitais e pelos aplicativos em rede. São novas formas de aproveitar essa polinização humana, a partir de um imenso volume de interações.

Esse novo e mais esperto tipo de apicultor atende pelos nomes de Google, Amazon, Facebook, Apple, Microsoft, IBM, Twitter, Instagram e seus equivalentes chineses.

Tudo isso é um resumo da elaboração do economista e sociólogo francês Yann Moulier Boutang. Sem dúvida, uma hipótese bastante criativa sobre o funcionamento atual do capitalismo. Mas sua fonte de inspiração é de 1857. Trata-se do “Fragmento sobre as máquinas”, retirado dos chamados “Grundrisse”, uma espécie de rascunho de “O Capital”.

E Marx ainda vivia dizendo que não queria ser chamado de profeta. Vai se f%*#$@!

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3 de agosto de 2018

7.500 compositoras brasileiras e seus parasitas

Dificilmente uma pessoa que não seja muito especializada seria capaz de utilizar todos os dedos das mãos para enumerar quantas compositoras brasileiras conhece. Por isso, o número exposto no título acima parece tão surpreendente.

Ele é produto da pesquisa de pós-doutorado "Cartografias da Canção Feminina – Compositoras Brasileiras no século 20 [e um passeio pelos séculos XIX e XXI]”. Sua autora é Carô Murgel, doutora em História Cultural pela Unicamp.

Em entrevista a Arrigo Barnabé, no programa Supertônica, Carô lembra, por exemplo, que o famoso samba “Chiclete com Banana” não é de Jackson do Pandeiro, mas de sua mulher, Almira Castilho.

Não fosse pela desconhecida Dora Vasconcelos, obras-primas de Villa Lobos continuariam restritas às salas de concertos. Suas inspiradas letras permitiram a intérpretes como Olivia Byington e Monica Salmaso gravarem maravilhas como “Canção sentimental” ou “Cair da tarde”.

Helena dos Santos deveria ser famosa, mas não é. Negra e de origem pobre, ela é responsável por várias composições de sucesso gravadas por Roberto Carlos.

Alice Ruiz fez a letra de “Socorro”, musicada e interpretada por Arnaldo Antunes. Também compôs “Quase nada”, em parceria com Zeca Baleiro. Além disso, tem cerca de 50 músicas gravadas por artistas como Adriana Calcanhoto, Cássia Eller, Gal Costa e Ney Matogrosso. Mas é mais conhecida por ser viúva de Paulo Leminski.

Voltando ao século 19, Carô descobriu que muitas criações musicais femininas eram atribuídas a figuras tão genéricas e anônimas como “uma niteroiense talentosa”. E que até algumas décadas atrás, os direitos autorais de compositoras eram arrecadados em nome de seus maridos, pais, irmãos e outros parasitas masculinos do talento feminino.

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