Até uns 10 anos atrás, viajar para países estrangeiros costumava ser bem complicado. Principalmente, devido à falta de domínio do idioma e dificuldades para se deslocar por ruas desconhecidas e pelo emaranhado de linhas de ônibus, trens e metrôs.
Mas, atualmente, o GPS nos guia pelas ruas e o aplicativo de tradução do celular facilita muito a comunicação. Além disso, é fácil pedir um carro no aplicativo e desembarcar no destino sem precisar trocar mais que duas palavras com o motorista.
O problema é que toda essa facilidade tende a nos tornar ainda mais impermeáveis a culturas diferentes da nossa. Há décadas, a indústria do turismo já vinha reduzindo a experiência de viajar aos atos de consumir e fazer imagens. Mas ainda era necessário tentar se fazer entender, nem que fosse para comprar um bilhete de metrô ou achar uma padaria.
Cometer enganos, ficar perdido ou ser mal entendido pode significar algum aborrecimento. Mas é o tipo de incidente que também pode nos levar a conhecer pessoas que nãos são necessariamente vendedores e profissionais do turismo. Contatos que podem render boas histórias e proporcionar experiências que não estão previstas nos guias e blogs de viagem.
Também no turismo, as relações entre coisas assumem o lugar das interações entre pessoas. É o fetichismo da mercadoria nos levando a viajar sem sair de nossas bolhas.
Mas, talvez, nem seja preciso sair do país para passar por experiências parecidas com essas. Turbinadas pelos aplicativos, as divisões de classe produzem cada vez mais estranhamento entre habitantes do mesmo país e falantes do mesmo idioma.
Leia também: O turismo da miséria e a miséria do turismo
Blog de Sérgio Domingues, com comentários curtos sobre assuntos diversos, procurando sempre ajudar no combate à exploração e opressão.
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6 de novembro de 2023
15 de setembro de 2023
Capitalismo, arqueologia, mandantes e executores
Uma das tarefas da arqueologia dos tempos contemporâneos é reconstituir ligações e genealogias, diz Alfredo Gonzalez-Ruibal, em seu livro “Uma arqueologia da era contemporânea”.
Segundo ele, o desempenho dessa função assemelha-se à crítica do fetichismo proposta por Marx. Na maioria dos casos, as ligações já são vagamente conhecidas, mas esquecidas: dissociamos as mercadorias das suas origens obscuras e da violência dos seus efeitos. É por isso que nos sentimos tão chocados quando somos forçados a comparar o contexto do consumo de mercadorias ao das suas condições de produção.
As ligações entre o consumo de carne bovina e a destruição da Amazônia, por exemplo, são sistematicamente apagadas, e esse apagamento é essencial para a continuação e expansão do sistema capitalista, cujo caminho de destruição é “apagado, escondido ou ignorado”
Em 2006, Gonzalez-Ruibal trabalhou em um projeto arqueológico em acampamentos madeireiros e fazendas de gado estabelecidas ilegalmente dentro de uma reserva indígena no Maranhão. Foram mapeadas áreas desmatadas, rotas e acampamentos de madeireiros e inventariados os diversos objetos que ficaram para trás após uma operação policial. A “feiura” da floresta violada, os rios sujos e a miséria dos acampamentos contrastam com o luxo dos móveis feitos com madeiras “nobres” e o alegre consumo de carne no Brasil e em outros lugares.
O caso acima exemplifica como, muitas vezes, a modernidade torna difícil estabelecer as ligações entre crimes ambientais, de um lado, e consumismo glamourizado, do outro.
Ou seja, entre os mais importantes mecanismos de manutenção do capitalismo está o ocultamento das relações entre mandantes e executores. Não poucas vezes, apelando aos sangrentos préstimos de jagunços e capangas.
Leia também: Doi-Codi: escavando as trevas
2 de março de 2023
Inteligência artificial: brincadeiras trágicas e nada eróticas
Em 17/02/2023, Pedro Dória publicou artigo no Globo mencionando o aplicativo Erotic Role Playing, que, na tradução do colunista, seria “Brincadeiras Eróticas”.
Disponível para iPhone ou Android, a versão gratuita oferece a modalidade amizade. Mas quem paga “pode transformar a relação em romance”. Não é um game, diz Doria. “O que as pessoas constroem com a inteligência artificial é intimidade real”.
Pessoas tímidas, solitárias, que por algum motivo perderam seu norte da vida, continua ele, encontrarão cada vez mais companhia em aplicativos desse tipo. Mas “vida, vida mesmo, acontece na relação com gente de verdade. A ilusão da inteligência artificial periga criar uma legião de imaturos incapazes de lidar com suas neuroses”, conclui corretamente o jornalista.
Tudo isso faz pensar no conceito marxista de fetichismo da mercadoria, segundo o qual, sob o domínio do capital, as relações humanas são cada vez mais intermediadas por coisas intercambiáveis.
O que na época de Marx ainda parecia muito abstrato, hoje está cada vez mais evidente. É um fenômeno econômico com sérias consequências para as relações sociais.
O pretexto é aliviar o sofrimento de milhões de solitários fabricados pela máquina insensível do capital. O resultado pode tornar tudo ainda mais falso, exceto quanto a sofrimento e dores, que se tornarão ainda mais reais e persistentes.
Coisas assim costumam levar a frustrações e ressentimento em larga escala. Elementos que estão entre as principais matérias-primas do fascismo. É o caso de muita gente cujas patologias foram agravadas pela internete. Estão sempre disponíveis para servir como soldados a serviço de racismo, homofobia, misoginia e outras doenças sociais.
Não é brincadeira, muito menos, erótica.
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