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15 de fevereiro de 2025

O ovo, a galinha, a gripe e o lucro

Para que servem as fábricas de sapatos? Para calçar as pessoas? Não, para lucrar com a venda de calçados. O mesmo vale para as indústrias de alimentação e de construção. Aos milhões de desnutridos e sem-tetos não basta serem humanos. Precisam ser consumidores.

Esta é a lógica do capitalismo. Sempre foi. Nem sempre isso fica tão evidente. O fetiche consumista, a ideologia dominante e a capacidade ilusionista da indústria do entretenimento conseguem esconder essa natureza fria e cruel do capitalismo. Mas vira e mexe, surgem casos que escancaram tudo.

Um exemplo assustador é o que está acontecendo com a produção de ovos nas imensas granjas dos Estados Unidos. As informações estão em um vídeo disponível na conta do Instagram do pesquisador em microbiologia Átila Iamarino.

Ele explica que os inúmeros casos de gripe aviária naquele país vêm levando ao adoecimento, morte e abate de milhões de galinhas. O resultado tem sido uma escassez de ovos que fez disparar o preço do produto no mercado.

As poucas grandes empresas do ramo contam com seguros para eventos como estes. Acontece que a indenização é paga em valores proporcionais aos que o produto teria caso chegasse aos consumidores. Ou seja, sobe o preço do ovo, sobe o valor das indenizações.

Resultado: muitos criadores estão simplesmente deixando seus galináceos adoecerem. Desse modo, conclui Iamarino, deixaram de criar galinhas para, não só criar gripe aviária, como condições para uma nova pandemia.

Ou seja, àquela velha pergunta sobre o que vem primeiro, o ovo ou a galinha, a resposta segundo a lógica capitalista é: o lucro.

A saúde pública? Que se dane.

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15 de setembro de 2023

Um Tribunal de Nuremberg para os crimes da pandemia

Renato Tasca, Rebeca Freitas, Júlia Pereira e Evelyn Santos publicaram um artigo na Folha, em 12/09/2023, com importantes informações e fatos a serem lembrados sobre o Covid-19.

Em primeiro lugar, a pandemia acabou, mas o coronavírus ainda circula no Brasil, infectando muitos e, às vezes, matando. Entre janeiro e junho deste ano, cerca de 10 mil morreram em decorrência da Covid-19. Mais do que doenças como diabetes e muitos tipos de câncer.

Em segundo lugar, em 2022, no Brasil, foi notificado quase o mesmo número de casos de Covid-19 do que em 2021. No entanto, os óbitos caíram seis vezes de um ano para o outro graças à vacinação, que finalmente chegou, apesar do criminoso boicote bolsonarista.

Falando em bolsonarismo, não podemos esquecer as 700 mil mortes, entre as quais destacam-se as de 4,5 mil profissionais de saúde, principalmente, auxiliares ou técnicos de enfermagem e enfermeiros.

O texto cita ainda um estudo que calcula que mais de quatro em cada 10 pessoas tiveram problemas de ansiedade por conta da pandemia, para não mencionar o aumento da violência doméstica e da taxa de suicídio. Também merece destaque a elevada mortalidade da população negra e entre os mais pobres, em relação à média da população.

Tudo isso deveria estar sendo julgado em uma espécie de “Tribunal de Nuremberg” relacionado aos crimes cometidos durante a pandemia do coronavírus no Brasil.

Um julgamento paralelo ao que começou ontem sobre o 8 de Janeiro. Ainda que com a dificuldade operacional, mas não intransponível, de exigir a presença de muitos de seus réus tanto em um como no outro tribunal.

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11 de janeiro de 2023

Por um Tribunal Popular da Pandemia

Eu não entendo que seja possíel retirar o país da crise social e institucional sem a reparação e a responsabilização pela crise da covid-19. Seria praticamente a mesma coisa que foi feita quando anistiamos e permitimos que agentes da ditadura continuassem sem a devida responsabilização. 

As palavras acima são de Paola Falceta, diretora da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas de Covid-19. Foram publicadas no portal Outras Palavras, em 13/12/2022.

Mais recentemente, o grupo Manifesto Coletivo lançou o abaixo-assinado “Anistia Nunca Mais”, no qual afirma:

O Brasil criou seus impasses por meio do esquecimento. Como se não falar, não julgar, não elaborar, pudesse nos garantir alguma forma de paz. Foi assim em vários momentos de sua história, criando uma verdadeira compulsão de repetição. As violências coloniais nunca foram objeto de elaboração devida. Da mesma forma, as violências da ditadura militar foram caladas através de uma anistia que, longe de ter sido resultado de algum “acordo nacional”, foi fruto de uma imposição dos próprios militares e da conveniência de seus aliados civis. Este é um país de silêncio.

O grupo defende uma mobilização popular urgente pela responsabilização do governo Bolsonaro pelos crimes cometidos durante a pandemia.

“Brasil Nunca Mais” era o nome do dossiê que revelou os crimes da ditadura empresarial-militar de 1964. Esse ato de coragem de um punhado de militantes contribuiu para a grande mobilização popular pelo fim da ditadura. Mas foi insuficiente para reverter a vergonhosa anistia que livrou o pescoço de seus carrascos. Não podemos permitir que isso se repita. É importante engrossar o abaixo-assinado. Mais importante, engrossar as mobilizações. “Sem Anistia!”

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8 de abril de 2021

Sonho ruim à base de cloroquina

“O que tira o sono dos especialistas em clima?”, pergunta reportagem de Samantha Baker, publicada na Deutsche Welle em 06/04/2021. A matéria tem por base uma enquete feita com uma dezena de especialistas envolvidos com os desafios climáticos.

A resposta da climatologista, Ruth Mottram, do Instituto Meteorológico Dinamarquês resume a preocupação que mais apareceu na consulta:

Estou menos preocupada de que estejam ocorrendo processos desconhecidos que não entendemos, e de que alguma catástrofe imprevista possa estar a caminho. Sabemos como será grande parte dos impactos. Acho que o que me deixa acordada à noite, no sentido metafórico, é realmente a interação entre o sistema físico e como as sociedades humanas vão lidar com ele.

De fato, não há nada mais preocupante no cenário atual que o elemento humano. Basta considerar a forma desastrosa como a pequena minoria que detém o poder no planeta vem lidando com a pandemia.

Não se trata apenas de alguns irresponsáveis que vêm desgovernando grande parte do planeta. Os governantes, em geral, têm tomado decisões preocupados muito mais com poderosos interesses econômicos.

Talvez, uma das origens desses problemas esteja nas décadas de desprezo dispensado às ciências sociais, enquanto se priorizam as chamadas “ciências duras”, com sua exatidão completamente míope em relação ao que ocorre na alma humana.

Quanto aos saberes das áreas biológicas, com destaque para a Medicina, tornaram-se cada vez mais enrijecidos por especializações tecnológicas que tratam órgãos, não pessoas. Abandonam a saúde para lucrar com a doença.

Não à toa, muitos médicos estão na vanguarda do atraso, receitando tratamento precoce à base de cloroquina.

Realmente, durma-se com um barulho desse.

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13 de abril de 2020

Pandemia: hora de criar trincheiras de solidariedade

“É uma guerra”, dizem Trump, Merkel, Macron. A utilização dessa metáfora para se referir à pandemia do coronavírus-19 vem sendo criticada com razão por muitas vozes sensatas.

A guerra contra as drogas veio para abater pobres e pretos. Na mira da guerra contra a AIDS estão os homossexuais. A guerra contra o terrorismo volta-se contra os muçulmanos.

Mas, na realidade, qualquer guerra raramente é justa. Por isso fomos contra a guerra do Iraque e do Vietnã. E muito antes disso, organizações de trabalhadores no mundo todo se opuseram à Primeira Guerra: “Paz entre nós, guerra aos patrões”.

Portanto, não há problema em aceitar a metáfora bélica, desde que saibamos que guerras, em geral, colocam lado a lado tanto combatentes sinceros como traidores. O objetivo pode até ser aniquilar o inimigo, mas os generais dos dois lados sempre utilizam os de baixo como bucha-de-canhão.

Na Primeira Guerra, os bolcheviques se opuseram firmemente ao conflito. Mas iniciada a participação russa e obrigados a pegar em armas, eles conquistaram muitos soldados para a revolução enquanto lutavam nas trincheiras.

A verdade é que já estamos em guerra. E já estão usando a maioria de nós como bucha-de-canhão. Diante disso, é preciso fazer como os bolcheviques. Nos juntarmos aos que já estão na luta.

As entidades populares e de esquerda precisam construir uma rede independente de solidariedade e apoio à população. Precisamos formar comitês coordenados e sob orientação dos trabalhadores da saúde pública.

Estas serão as únicas trincheiras possíveis, a partir das quais poderemos combater tanto as loucuras do capitão sociopata como a perversidade de comandantes como Witzel, Doria e Zema.

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