Doses maiores

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30 de setembro de 2023

Big thecs e a Mentalidade do capitalismo extremo

Abaixo, mais trechos do livro “A sobrevivência dos mais ricos”, de Douglas Rushkoff. Neles, o autor descreve o que chamou de “A Mentalidade”, fenômeno que tomou conta do Vale do Silício no início do atual século.

Em vez de continuar apenas fornecendo resultados de pesquisa a seus usuários, a Google entrou no negócio ainda mais lucrativo de fornecer dados dos usuários a seus verdadeiros clientes: os especialistas em mercado que procuram abordar os usuários e manipular seu comportamento.

Da mesma forma, Mark Zuckerberg mudou sua atividade da veiculação de anúncios para a venda de dados. Quanto mais tempo e mais emocionalmente ficamos envolvidos com a plataforma, mais o Facebook aprende sobre nós para enriquecer seus investidores às nossas custas.

Nessa nova versão do capitalismo extremo, a tecnologia digital é valorizada pela sua capacidade de expandir os negócios sem necessidade de contratar muita gente. Fórmula quase exclusiva para proporcionar maiores lucros e vender a imagem de empresa inovadora, turbinando o preço das ações.

Como explicou Scott Galloway, professor de administração da Universidade de Nova York, “decidimos que capitalismo significa ser amoroso e empático com as corporações e darwinista e severo com os indivíduos”. O governo socorreu prontamente bancos e empresas na recessão de 2008 e a crise da Covid aumentou a riqueza dos bilionários de 8,9 para 10,2 bilhões de dólares apenas no primeiro ano.

A Mentalidade incentiva uma forma de “vitória” que eleve seus vencedores humanos e empresariais acima daqueles que serão necessariamente deixados para trás. Deixados para trás literalmente, já que a ideia deles é abandonar o planeta que vêm ajudando a destruir.

Doses suspensas até meados de outubro.

Leia também: Da contracultura psicodélica às big techs neoliberais

28 de setembro de 2023

Da contracultura psicodélica às big techs neoliberais

Em seu livro “A sobrevivência dos mais ricos”, Douglas Rushkoff relata sua experiência como parte da geração que participou da onda tecnológica surgida no Vale do Silício.

No começo da década de 1990, diz ele, os mundos da contracultura e da informática pareciam idênticos. Os membros da comunidade psicodélica da Califórnia eram particularmente adequados para imaginar ambientes virtuais e novos modos de comunicação.

Recrutando sua força de trabalho em ambientes de rebeldia cultural, a revolução cibernética seria caracterizada menos pela burocracia militar do pós-guerra, ou pelas corporações de alta tecnologia, do que pelos “novos comunalistas”.

Se a internete tinha um inimigo, diziam os filhos da geração hippie, não seriam as empresas que ofereciam brinquedos para nossa diversão e ainda pagavam pelo nosso tempo. Era o governo, que usava computadores para jogos de guerra, prendia jovens hackers sob falsas acusações e tentava censurar nossa comunicação online.

A “Declaração de Independência do Ciberespaço” publicada por John Barlow, em 1996, atacava o autoritarismo governamental sobre a internete, considerada um novo “projeto coletivo da humanidade”. Mas poucos se lembram do lugar em que o documento foi lançado: “Davos, Suíça”. Em pleno Fórum Econômico Mundial, ponto de encontro dos campeões da globalização neoliberal.

Não percebíamos, conclui o autor, que banir o governo da internete criaria uma zona livre para a colonização corporativa. Foi aí que começaram a surgir monstrengos empresariais como Google, Facebook, Uber e Airbnb.

Novamente, um movimento surgido com pretensões rebeldes foi capturado pela lógica do capital. Contra isso não há garantias, a não ser a constante vigilância e mobilização militantes.

Leia também: Bilionários sem vestígios de humanidade

26 de setembro de 2023

Bilionários sem vestígios de humanidade

Nos Estados Unidos, é famosa a história do elevador de comida inventado por Thomas Jefferson para evitar que seus escravizados tivessem que subir as escadas carregando pratos e tigelas. No andar de cima, os comensais tinham apenas que abrir uma portinhola e o jantar estava servido.

Mas a engenhoca não foi criada para poupar as energias dos cativos. O objetivo era preservar os convidados da visão de pessoas bufando e suando. A comida chegava, sem nenhum sofrimento humano visível.

Muitos dos atuais processos tecnológicos são baseados nessa mesma lógica. Na etapa final da montagem dos celulares, por exemplo, os trabalhadores limpam cada unidade com um solvente que remove suas impressões digitais dos aparelhos. O produto pode causar abortos, câncer e reduzir a expectativa de vida de quem o manipula. Mas o que importa é a eliminação de todos os vestígios humanos.

Algumas das grandes inovações da Amazon existem somente para proteger seus clientes da realidade desagradável de seus processos de produção. Os entregadores nem tocam a campainha. Uma foto do pacote na varanda chega automaticamente à sua caixa de mensagens, enquanto Alexa emite um aviso. Não precisamos encarar a pobre alma que dirige o caminhão, muito menos aqueles que correm entre os robôs no galpão.

Robôs não substituem os custos humanos e as condições degradantes de trabalho. Eles os escondem.

As informações acima são do livro “A sobrevivência dos mais ricos”, de Douglas Rushkoff. Convidado a falar para alguns bilionários das big techs, o autor fez esse relato para tentar explicar que tipo de pessoas encontrou pela frente. Gente sem qualquer vestígio de respeito humano.

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19 de setembro de 2023

O medo egoísta de bilionários diante do apocalipse

Convidado a ir a um resort superluxuoso para debater com cerca de cem banqueiros, fui apresentado como um futurólogo.

Realmente, como humanista que escreve sobre o impacto da tecnologia digital nas nossas vidas, sou frequentemente confundido com um explorador do futuro. Mas nunca gostei muito de especulações desse tipo, especialmente diante de pessoas muito ricas.

Logo, ficou clara a verdadeira preocupação do grupo: Nova Zelândia ou Alasca? Qual região será menos impactada pela próxima crise climática? Só piorou a partir daí. Qual era a maior ameaça: as alterações climáticas ou a guerra biológica? Um abrigo deve ter seu próprio suprimento de ar? Qual é a probabilidade de contaminação das águas subterrâneas? Finalmente, o executivo-chefe de uma corretora explicou que havia quase concluído a construção de seu próprio bunker subterrâneo e perguntou: “Como posso manter a autoridade sobre os homens de minha força de segurança após o evento?” O evento. Esse era o eufemismo deles para colapso ambiental, agitação social, explosão nuclear, tempestade solar, pandemia ou um vírus malicioso de computador que destrói tudo.

Então, eu, descaradamente, sugeri que a maneira de garantir que seu chefe de segurança não cortasse sua garganta, amanhã, seria pagar uma festa de aniversário para a filha dele, hoje. Eles gargalharam. Pelo menos, eu os estava divertindo.

O relato acima é do livro “A sobrevivência dos mais ricos: fantasias de fuga de bilionários da tecnologia”, de Douglas Rushkoff, ainda sem edição nacional. É a experiência de um teórico marxista dos meios de comunicação contratado para explicar a ricaços onde instalar e como planejar seus bunkers do Juízo Final.

A leitura promete...

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Ora, (direis) explorar as estrelas!