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17 de março de 2025

Elon Musk, Asperger e síndrome de nazismo

Em maio de 2021, Elon Musk declarou ser portador da síndrome de Asperger, que faz parte do chamado Transtorno do Espectro do Autismo. Em janeiro de 2025, ele fez um gesto nazista em um evento organizado por Donald Trump. Seus defensores logo apareceram com várias desculpas esfarrapadas para tentar esconder o significado do ato. Entre elas, sua condição de autista.

O transtorno psicológico que Musk alega ter foi identificado cientificamente pela primeira vez por Hans Asperger, em 1944. Pediatra, Asperger foi um dos pioneiros no estudo sobre neurodiversidade durante o período da chamada Viena Vermelha, entre 1918 e 1934. Nessa época, o Partido Socialdemocrata governou a capital austríaca e implementou diversas políticas públicas progressistas em áreas como saúde, educação, habitação e transporte.

Após a Segunda Guerra Mundial, Asperger alegou ter se oposto aos nazistas, atuando na proteção de crianças consideradas anormais contra medidas de higiene racial. Ocorre que em 2018, foram descobertas fortes evidências de sua colaboração na execução de políticas de eugenia e eliminação de crianças com deficiência, entre outras barbaridades.

Nada disso invalida os avanços obtidos a partir das descobertas feitas pelo cientista vienense. Além disso, o trabalho dele fez parte de um esforço coletivo dos trabalhadores austríacos por melhores condições de vida e combate ao supremacismo ariano. Asperger não foi o primeiro nem o último a ter prestado bons serviços à sociedade antes de se render ao fascismo.

Ao tentar esconder o nazismo de Musk por trás de uma condição neurológica que afeta dezenas de milhões de pessoas, seus seguidores mostram-se tão indignos e desprezíveis como ele. Ou como Asperger.

Leia também: O poder paralelo de Elon Musk e outros magnatas

14 de março de 2025

Estados Unidos: o Estado a serviço do fascismo

Está no Facebook o artigo “Hoje os servidores públicos norte americanos e depois nós: efeito Orloff”, de Ricardo Queiroz. Começa assim:

Trump e Musk não estão apenas desmantelando o Estado americano. Estão construindo um modelo. Um protótipo. Um experimento de laboratório que a direita internacional poderá replicar onde for conveniente. O que acontece hoje nos EUA não é uma exceção: é um ensaio. E a intenção é clara – transformar a destruição do serviço público em um espetáculo bem-sucedido, pronto para ser exportado.

O texto oferece um bom pretexto para combater o mito de que o fascismo defende a estatização generalizada da economia. O fato é que os regimes fascistas na Itália e na Alemanha privatizaram várias empresas estatais, logo que chegaram ao poder. Era preciso agradecer o apoio que receberam das burguesias italiana e alemã, entregando-lhes o patrimônio público.

Estatizações estão muito longe de ser a solução para as profundas contradições da sociedade capitalista. Mas a entrega do patrimônio público aos grandes predadores do mercado é muito pior.

Segundo Queiroz, abandonar o Estado “à sanha privatista de Trump e Musk é aceitar a falácia de que a destruição do público tornará tudo mais eficiente. Não tornará”, diz ele. Não é bem assim. A “destruição do público” pode trazer mais eficiência, sim. Mas a eficiência a serviço de um Estado voltado exclusivamente aos interesses das classes dominantes, ainda mais repressivo em relação à organização política dos explorados e oprimidos e apostando pesado em políticas socialmente genocidas e ecologicamente apocalípticas.

A situação é assustadora. O fascismo está voltando com tudo em pleno centro do capitalismo mundial.

Leia também: O tudo ou nada de Trump

25 de fevereiro de 2025

O tudo ou nada de Trump

A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção e, com elas, todo o conjunto de relações sociais. A conservação do velho modo de produção numa forma inalterada era, pelo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. O revolucionamento constante da produção, a perturbação ininterrupta de todas as condições sociais, a incerteza e agitação contínuas distinguem a época burguesa de todas as anteriores.

O jornalista Luiz Carlos Azedo citou as palavras acima no artigo “Um pouco de Marx para explicar as loucuras de Trump”, publicado no Correio Braziliense. São de Marx e Engels e estão no Manifesto Comunista. Segundo Azedo, o trecho mostra-se profético em relação ao governo Trump. Afinal, diz ele, “para modernizar a sua economia e enfrentar a China, o presidente dos Estados Unidos põe em xeque tudo o que obstrui suas intenções, inclusive a democracia e a ordem mundial”.

Faz sentido, mas Trump apenas escancara o papel caótico e desagregador que a burguesia e seus vários setores desempenham sempre que a luta de classes permite.

Os explorados estão desorganizados e desorientados. O sistema imperialista sob estresse, com vários polos em disputa. O império estadunidense debate-se em seu declínio, mas tem munição, literalmente falando, para aliviar seus problemas, causando muito sofrimento, destruição e morte, principalmente para as maiorias exploradas e oprimidas da população mundial.

É a aposta no tudo ou nada da dominação do capital. A ela os trabalhadores e a humanidade em geral deveriam responder tal como Rosa Luxemburgo há mais de 100 anos: contra a barbárie, só o socialismo.

Leia também: Big thecs: o autoritarismo neoliberal escancarado

24 de fevereiro de 2025

O genocídio por inteligência artificial já chegou

“‘Blade Runner’, ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’, ‘O Exterminador do Futuro’, ‘Matrix’. Essas produções cinematográficas representaram um dos maiores temores da humanidade: o da sinistra criatura que se emancipa de seu criador, aniquilando-o”, escreve Pablo Elorduy, no artigo “A máquina dos assassinatos em massa: Vale do Silício abraça a guerra”, publicado recentemente.

Mas, adverte ele no mesmo texto, a questão:

...não é se as máquinas um dia se erguerão para colocar sua bota sobre o rosto da humanidade, mas sim como já estão sendo usadas para travar guerras, violar liberdades civis e silenciar populações dissidentes.

Hasbora, Replicator, Hivemind são programas de inteligência artificial capazes de matar dezenas de pessoas com uma simples operação. Mas eles não funcionariam, em toda sua capacidade, sem os dados fornecidos pelas gigantes da tecnologia Google, Amazon, Microsoft, Meta e OpenAI, cada vez mais “alinhadas ao projeto cultural, econômico e político encarnado pelo novo César americano, Donald Trump”, diz Elorduy.

Sem as informações fornecidas por meio de acordos como o Projeto Nimbus assinado em 2021 pela Google e Amazon com as autoridades israelenses, afirma ele, as forças israelenses não seriam capazes de cometer o massacre da população de Gaza.

Para completar, no início de fevereiro passado, a Google eliminou de suas diretrizes uma cláusula que proibia o desenvolvimento de IA destinada a fins militares.

Tudo isso mostra que a presença dos donos das big techs na posse de Trump não ocorreu a contragosto. Ao mesmo tempo, a utilização militar de inteligência artificial é bem anterior ao primeiro governo Trump.

As criaturas robóticas são sinistras, realmente. Mas muito menos que seus criadores.

Leia também: Big thecs: o autoritarismo neoliberal escancarado

18 de fevereiro de 2025

Big thecs: o autoritarismo neoliberal escancarado

Dora Kaufman é especialista dos impactos sociais da Inteligência Artificial e autora do artigo “É ilusão achar que regulamentar resolve tudo no meio digital”, publicado no Globo em 17/02/2025.

Como diz o título de seu texto, Dora preocupa-se com as dificuldades para que o “poder público” coíba abusos decorrentes da utilização da inteligência artificial. Seria preciso criar as leis adequadas, implementá-las e fiscalizar seu cumprimento. Tarefa que implicaria um “custo excessivo para o poder público”, diz ela.

A situação é ainda mais complexa, afirma Dora:

...pelo fato de as grandes empresas de tecnologia americanas, as big techs, se configurarem como principais “adversárias” do Estado nas iniciativas regulatórias. Elas dominam a infraestrutura digital e oferecem serviços essenciais tanto para a sociedade quanto para o próprio Estado. AWS (Amazon), Azure (Microsoft) e Google Cloud controlam quase 67% da computação em nuvem. Android (Google) e iOS (Apple) dominam o mercado de sistemas operacionais para smartphones, enquanto o Chrome (Google) detém 68% do mercado mundial de navegadores e o Safari (Apple), 17%. Além disso, no primeiro semestre de 2024, a Meta captou 64% dos gastos globais com anúncios em redes sociais.

Os números realmente são muito preocupantes, mas também reveladores. O fato é que regulamentações nunca passaram de um disfarce para encobrir a coincidência dos interesses de classe de monopólios privados e estados. Recorrer a elas hoje é insistir na farsa, ainda mais quando uma figura como Trump pilota a mais poderosa máquina governamental do mundo.

Muito dificilmente, haverá qualquer tipo de regulação. Mas, pelo menos, o autoritarismo do capitalismo neoliberal ficaria mais escancarado.

Leia também: Zuckerberg, Musk, Bezos têm razões

6 de fevereiro de 2025

Zuckerberg, Musk, Bezos têm razões

Ao se negar a controlar os algoritmos de ódio e discriminação de suas redes virtuais, o proprietário da Meta faz o que qualquer capitalista faz. Cuida de seus lucros. Ao morder a mão do estado que o alimentou, promovendo o desmonte das estruturas públicas que não o interessam, Musk faz o mesmo.

Não peçam aos donos ou acionistas majoritários das petroleiras que abram mão dos enormes lucros que conseguem explorando combustível fóssil para salvar grande parte da humanidade do colapso climático. Isso não faz sentido tanto quanto pedir algo semelhante a Zuckerberg e Musk, em nome de salvar a “democracia” ou respeitar o bem coletivo.

A presença dos dois, mais Bezos e executivos da Microsoft, Apple e Google na posse de Trump é mais do que esclarecedora. Todos eles têm razão. Ou melhor, todos eles têm as suas razões. As razões da acumulação do capital, da opressão e ataques aos setores minoritários ou minorizados, da exploração econômica, da destruição bélica e da espoliação territorial, cultural, mineral, energética e ambiental dos países periféricos.

Ao mesmo tempo, em relação aos interesses da enorme maioria da humanidade e de grande parte da vida no planeta, todos eles estão completamente errados. O gesto nazista do dono da X não deixa dúvidas sobre isso e o torna representante legítimo e pleno de seus colegas bilionários e do governo a que eles servem e do qual se servem.

Leia também: O imperialismo na fase digital do capitalismo

5 de fevereiro de 2025

Jus soli, jus sanguinis e racismo sanguinário

“Jus soli” é uma expressão latina que significa "direito de solo" e indica um princípio pelo qual uma nacionalidade pode ser atribuída a um indivíduo de acordo com seu lugar de nascimento.

O jus soli contrapõe-se ao “jus sanguinis” que significa "direito de sangue". Trata-se do princípio pelo qual a nacionalidade é determinada ou adquirida pela nacionalidade de um ou de ambos os progenitores.

Os esclarecimentos acima estão na Wikipédia e são necessários para explicar por que Donald Trump anunciou que pretendia revogar a nacionalidade de filhos de imigrantes sem cidadania que nasceram nos Estados Unidos. Ou seja, o presidente estadunidense pretendia adotar o "direito de sangue" como única forma de permitir a concessão de cidadania a imigrantes.

Não deu certo porque há um princípio equivalente ao “jus soli” na Constituição estadunidense. Mas as ameaças não levadas à frente por Trump não costumam gerar frustrações entre seus seguidores. Ao contrário, acabam por inflamar neles mais racismo e xenofobia. A discriminação racial que ele não consegue incorporar na lei insufla ainda mais o ódio racista das ruas e aparatos de repressão.

Na verdade, são muito fortes as suspeitas de que por trás das legislações dos países que optam pelo “jus sanguinis” há motivações racistas. Por consequência, nada mais coerente com o fascismo de Trump que a tentativa de adotar uma prerrogativa baseada na herança sanguínea.

Até porque tudo indica que o novo chefe de um dos países mais racistas do mundo pretende derramar muito sangue de não brancos em solo estadunidense e fora dele.

Leia também: Trump, Debord e a prevalência do falso

3 de fevereiro de 2025

COP30 em plena fornalha

Segundo reportagem da agência Deutsche Welle, o índice de cobertura vegetal por habitante recomendado pela Organização Mundial da Saúde é cerca de 9 a 12 árvores por metro quadrado. Belém, em plena Amazônia, tem hoje uma média de 2,5 árvores por metro quadrado para cada morador.

Como todos sabem, é lá que vai acontecer a 30ª edição da Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP30.

Belém é capital do estado que foi um triste recordista nacional em desmatamento em 2024, com 73.836 km². Uma área pouco menor que um país como a Escócia, por exemplo.

Santarém, outro grande município paraense, entrou em estado de emergência em setembro último devido às queimadas. Ocupou, naquele momento, o segundo lugar como cidade mais poluída do mundo, atrás apenas de Nova Délhi, na Índia.

Enquanto isso, indígenas ocupam a Secretaria Estadual de Educação, em Belém, desde o dia 23/01/2025. Protestam pela substituição das aulas presenciais em suas aldeias por transmissões online. Sendo que até o fornecimento de energia elétrica é precário em seus territórios. O detalhe é que a empresa contratada para transmitir as aulas é a Starlink, de Elon Musk, hoje alto funcionário do campeão mundial do negacionismo climático, Donald Trump.

Nada disso deveria surpreender. A última COP, aconteceu no Azerbaijão, conhecido como o berço da indústria moderna dos combustíveis fósseis. Ou seja, a Conferência do Clima das Nações Unidas, depois de montar seu circo em um dos grandes fornecedores de petróleo e gás do mundo, vai se instalar em uma das maiores fornalhas do planeta.

Negacionistas e poderosos do capitalismo fóssil agradecem.

Leia também: O planeta rumo à eliminação de algumas de suas pragas

30 de janeiro de 2025

Trump, Debord e a prevalência do falso

No mundo realmente invertido, a verdade é um momento do falso.

(...)

O conceito de espetáculo unifica e explica uma grande diversidade de fenômenos aparentes. As suas diversidades e contrastes são as aparências desta aparência organizada socialmente, que deve, ela própria, ser reconhecida na sua verdade geral. Considerado segundo os seus próprios termos, o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana, isto é, social, como simples aparência. Mas a crítica que atinge a verdade do espetáculo descobre-o como a negação visível da vida; como uma negação da
vida que se tornou visível.

Os trechos acima são do livro “A sociedade do espetáculo” do marxista francês Guy Debord. A obra é de 1967. Na época de seu lançamento, muita gente deve ter sentido dificuldades em entender os fenômenos que a obra abordava. Desde então, sua compreensão ficou bem menos difícil. Nos últimos dez anos, suas afirmações são quase uma descrição da realidade objetiva. A recente volta de Donald Trump à frente do governo mais poderoso do mundo deve tornar os momentos verdadeiros ainda mais raros, enquanto promove catástrofes e tragédias cada vez mais reais e concretas.

Leia também: A sociedade do espetáculo é capitalismo atualizado

29 de janeiro de 2025

A Estátua da Liberdade e o supremacismo branco

Há um poema inscrito em uma placa instalada no interior da Estátua da Liberdade. É "O Novo Colosso", da poeta estadunidense Emma Lazarus. Abaixo um trecho:

Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gêmeas.
"Mantenham antigas terras sua pompa histórica!", grita ela
Com lábios silenciosos: "Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado”.

Os versos são considerados uma declaração de acolhimento da nação estadunidense aos foragidos e exilados do mundo todo.

A
estátua foi inaugurada apenas 20 anos depois do fim da escravidão nos Estados Unidos. Sem a força de trabalho de milhões de africanos escravizados, era necessário atrair os que não tinham outra opção além de serem explorados pelos capitalistas ianques. Após o jugo que submeteu pessoas cativas por séculos, surge o abraço “acolhedor” discriminatório e xenófobo que vitimou irlandeses, italianos, judeus e chineses e, mais recentemente, alcançou latinos e muçulmanos. Isso para não falar dos territórios indígenas ocupados a ferro e fogo.

Trump pode ser acusado de tudo, menos de não ser coerente com a tradição racista e genocida que tornou grande a América supremacista branca.

Leia também: Trump e o ancestral racismo da América

21 de novembro de 2024

Trump e o ancestral racismo da América

“Make America Great Again”, brada Donald Trump. A tradução seria “Faça a América Grande Novamente”.

Para que não restem dúvidas sobre qual é a grandeza “americana” a que ele se refere, que tal lembrar as palavras de alguns daqueles que são considerados os maiores homens da história estadunidense.

Em 1785, Thomas Jefferson escreveu em “Notas sobre o estado da Virgínia”:

Sugiro, portanto, apenas como conjetura, que os negros, quer constituindo originalmente uma raça distinta, quer diferenciados pelo tempo e pelas circunstâncias, são inferiores aos brancos tanto física como mentalmente.


Em 1751, Benjamin Franklin publicou “Observações sobre o aumento da humanidade”, no qual manifestava sua contrariedade em relação ao tráfico negreiro pelas seguintes razões:

Por que incrementar o número dos filhos da África transportando-os para a América, onde nos é oferecida uma oportunidade tão boa de excluir todos os negros e escuros, e de favorecer a multiplicação dos formosos brancos e vermelhos?

Por fim, em  1858, durante campanha eleitoral em que disputava uma cadeira no senado, Abraham Lincoln declarou:

Existe uma diferença física entre as raças branca e negra que, em minha opinião, sempre impedirá que as duas raças vivam juntas em condições de igualdade social e política. E, na medida em que não podem viver dessa maneira, enquanto permanecerem juntas deverá existir uma posição de superioridade e uma de inferioridade, e eu, tanto quanto qualquer outro homem, sou a favor de que essa posição de superioridade seja conferida à raça branca.

Como se vê, Trump não representa nenhuma ruptura com a tradição histórica estadunidense e prova que a “América” jamais foi grande.

Leia também: De quem seria a culpa por um retorno de Trump?

5 de novembro de 2024

De quem seria a culpa por um retorno de Trump?

“Não vai acontecer aqui” é um romance, de 1935, do escritor estadunidense Sinclair Lewis. Publicado durante a ascensão do fascismo na Europa, descreve a eleição de um senador fictício para Presidente dos Estados Unidos. Suas promessas de campanha incluíam reformas econômicas e sociais drásticas e o regresso ao patriotismo e aos valores tradicionais. Após a eleição, o novo presidente se torna ditador com a ajuda de uma implacável força paramilitar à semelhança das SS nazistas.

As informações acima são da Wikipédia.

Em 1931, três anos antes da publicação do livro de Lewis, “policiais de Los Angeles cercaram um parque público frequentado por latinos, prenderam 400 pessoas, todos de pele escura, enquanto o mesmo se repetia em hospitais, mercados, igrejas, clubes e associações. Em pouco tempo, mais de 1,8 milhão de mexicanos foram deportados por ordem do governo de Herbert Hoover – 60% com cidadania americana”.

O relato acima é da jornalista Dorrit Harazim. E o trecho abaixo é de um artigo de Vijay Prashad:

Em 1964, o marxista polonês Michał Kalecki escreveu o artigo “O fascismo de nossos tempos”. Nele, Kalecki disse que “embora não aprecie a ideia de grupos fascistas tomarem o poder, a classe dominante como um todo não faz nenhum esforço para suprimi-los e se limita a reprimendas por excesso de zelo”.

Essa atitude persiste até hoje: a classe dominante como um todo não teme a ascensão desses grupos fascistas, mas apenas seu comportamento “excessivo”, enquanto as seções mais reacionárias das grandes empresas apoiam financeiramente esses grupos.

Ou seja, se Trump voltar ao poder, os últimos na fila dos culpados serão os eleitores estadunidenses.

Leia também: Destino Manifesto: a doutrina genocida estadunidense

8 de outubro de 2022

Deus nos salve da América

“Ideias de 'guerra civil' nos EUA incendeiam redes sociais” diz reportagem de Ken Bensinger e Sheera Frenkel publicada no The New York Times e reproduzida pelo Globo, em 06/10/2022. 

Segundo o texto: 

Mais de um século e meio depois do fim da Guerra Civil verdadeira, o mais violento conflito da História dos EUA, as referências a uma nova guerra civil se tornaram lugar comum na direita. Embora o termo seja usado de maneira dispersa em alguns casos, como em uma analogia à crescente divisão partidária no país, especialistas afirmam que, para alguns, a expressão é bem mais do que uma metáfora.

Após a apreensão de documentos na residência do ex-presidente Donald Trump, “publicações no Twitter mencionando uma ‘guerra civil’ dispararam quase 3.000% em questão de horas”, diz a reportagem.

Mas o fenômeno não se limita à internete. Em campanha para as eleições legislativas de novembro, multiplicam-se os casos de republicanos prevendo uma guerra civil nos comícios que realizam por todo o país. 

“No final de agosto, informa o texto, uma pesquisa com 1,5 mil adultos conduzida pelo instituto YouGov e pela revista Economist apontou que 54% dos entrevistados que se identificaram como ‘republicanos convictos’ acreditavam que uma guerra civil era algo provável na próxima década.”

Estamos falando de uma sociedade com elevado índice de armamento da população. Some-se a isso a mentalidade delirante que prevalece em grande parte do país, além do racismo a rasgar-lhe as entranhas. Por fim, trata-se da nação cuja contribuição para todo tipo de desequilíbrio no planeta já é decisivo. Imagine se resolver se dilacerar...

Deus nos salve dessa América dos infernos!

Leia também: Destino Manifesto: a doutrina genocida estadunidense

5 de outubro de 2020

Estados Unidos x China: mandarinatos esclerosados

Mais alguns destaques retirados do livro “A China venceu?, de Kishore Mahbubani. 

Os mandarins da dinastia Qing, senhores da China do século 19, não perceberam que a ascensão ocidental significava que a China precisava mudar de rumo. Resultado, o poderoso império de 18 séculos começou a ruir.

Hoje, é o império estadunidense que precisaria mudar de rumo para fazer frente ao forte crescimento do lado oriental do planeta. Mas dificilmente seus “mandarins” conseguirão fazer isso.

Geralmente, diz Mahbubani, governos eleitos democraticamente são mais flexíveis e adaptáveis do que sistemas políticos considerados rígidos e esclerosados, como o da China contemporânea.

O problema, alerta o autor, é que sob o disfarce de uma democracia em funcionamento, a sociedade estadunidense passou a ser dirigida por uma aristocracia endinheirada.

Mahbubani atribui essa situação principalmente a uma decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos tomada em 2010, que derrubou muitas das restrições legais ao uso do dinheiro para influenciar o processo político.

Desse modo, diz o autor, as decisões do sistema político estadunidense já não seriam determinadas pelos eleitores, mas pelos financiadores de campanhas eleitorais.

Na verdade, essa situação política é muito anterior a 2010. Mas, de qualquer maneira, Mahbubani parece acertar ao dizer que o sistema de dominação estadunidense está se tornando tão rígido quanto a antiga dinastia Qing.

E não só do ponto de vista político. A “América” há muito tempo também deixou de ser capaz de sustentar a ilusão de que é a terra das oportunidades para todos.

Na próxima pílula, mais sobre essa rigidez quase cadavérica dos Estados Unidos. E sobre possíveis problemas políticos para os chineses também.

Leia também: Estados Unidos x China: como ignorar 1,4 bilhão de consumidores

2 de outubro de 2020

Estados Unidos x China: como ignorar 1,4 bilhão de consumidores

Em seu livro “A China venceu?,” Kishore Mahbubani mostra a situação contraditória da rivalidade comercial sino-americana.

A venda de aviões da Boeing para a China, por exemplo, subiu de US$ 1,2 bilhão, em 1993, para US$ 11,9 bilhões, em 2017. Já a GM vendeu aos chineses, em fevereiro de 2017, mais automóveis do que na época em que era a maior montadora do mundo.

Mas quando Donald Trump lançou uma guerra comercial contra a China, em 2015, nem Boeing nem GM se opuseram.

A principal queixa do governo estadunidense era que a China se tornou integrante da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2003, na condição de país em desenvolvimento. Na época, sua renda per capita era de US$ 2.900, semelhante à do Paquistão e Iêmen.

Em 2015, porém, a renda per capita chinesa havia aumentado para US$ 14.400 e sua economia tornara-se a segunda maior do mundo. Apesar disso, os chineses continuavam alegando necessitar das regras especiais da OMC para países em desenvolvimento.

Com isso, dizia Trump, as empresas chinesas desfrutariam de melhores condições para competir fora da China do que as oferecidas pelos chineses a empresas estrangeiras em seu país.

É nesse cenário que as propostas de Trump ganharam força. Ele quer que as grandes empresas americanas desloquem seus investimentos da China para outros lugares ou os levem de volta aos Estados Unidos.

O problema, lembra Mahbubani, é ignorar um mercado com 1,4 bilhão de consumidores. O maior de toda a história humana.

Este é só um exemplo das enormes contradições que opõem esses dois gigantes, mas também os mantêm amarrados um ao outro.

Leia também: Estados Unidos x China: potência x resistência




30 de setembro de 2020

Estados Unidos x China: guerra fria de sinais trocados (2)

Segundo Kishore Mahbubani, em seu livro “A China venceu?”, na Guerra Fria, os Estados Unidos eram frequentemente flexíveis e racionais na tomada de decisões, enquanto a União Soviética era rígida e doutrinária. 

Hoje, na nova “guerra fria” entre China e Estados Unidos acontece o contrário, diz ele. Os Estados Unidos se comportam como a União Soviética, e a China age como os Estados Unidos.

Por exemplo, observa o autor, é irracional que os Estados Unidos aumentem seus gastos militares, pois já possuem armas suficientes para destruir a China várias vezes. Portanto, o lógico seria que os estadunidenses reduzissem seus gastos militares e redirecionassem recursos para áreas críticas, como pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Os Estados Unidos têm 6.450 armas nucleares dos Estados Unidos. A China tem 280. Mas, se 280 é suficiente para impedir a América (ou a Rússia) de lançar um ataque nuclear à China, por que pagar mais?

O problema é que os gastos com defesa estadunidenses não são decididos segundo uma estratégia racional, mas são produto de um complexo e poderoso lobby da indústria armamentista e de equipamentos pesados.

Enquanto isso, diz Mahbubani, os chineses não estão aprisionados por nenhum lobby desse tipo. Estão mais preparados para tomar decisões coerentes de longo prazo para manter a China segura.

Para completar a ironia da situação, o autor lembra que, perto de sua derrocada, a União Soviética envolveu-se em uma invasão desastrosa do Afeganistão. Hoje, adivinhem quem está gastando trilhões de dólares em uma ocupação militar daquele mesmo país?

Amanhã, voltaremos a essa interessante comparação feita por Mahbubani entre União Soviética, Estados Unidos e China.

Leia também: Estados Unidos x China: guerra fria de sinais trocados

29 de setembro de 2020

Estados Unidos x China: guerra fria de sinais trocados

“A China venceu?” é uma possível versão para o título do livro de Kishore Mahbubani, lançado este ano e ainda sem tradução do inglês.

Nascido em Singapura e diplomata por 30 anos atuando na região asiática, Mahbubani adota em seu livro um ponto de vista liberal. Este enfoque deixa de capturar as enormes contradições que envolvem o gigante asiático em um sistema econômico global em constante crise e dando sérios sinais de esgotamento histórico.

Ainda assim, as informações que a obra traz e a abordagem que adota dão pistas importantes sobre as características da China, sua sociedade e sistema de dominação. Por isso, as próximas pílulas trarão comentários sobre o livro, na tentativa de ajudar a esclarecer o que poderíamos chamar de enigma chinês. 

Por enquanto, fiquemos com duas teses provocativas do autor. Na primeira, Mahbubani afirma que do século 1 ao 19, China e Índia dominaram a economia mundial. Os 200 anos posteriores de predomínio anglo-saxônico, portanto, seriam apenas uma curta interrupção dessa hegemonia asiática que começa a impor-se novamente.

A segunda: na Guerra Fria que opunha Estados Unidos e União Soviética, esta última se caracterizaria por sua rigidez econômica e política, enquanto os estadunidenses contavam com uma flexibilidade maior, proporcionada pela melhor adequação de sua economia de mercado às necessidades de uma acumulação capitalista cada vez mais globalizada.

Na atual “guerra fria”, seriam os Estados Unidos que encontram sérias dificuldades para se adequar aos novos desafios da economia mundial, enquanto o gigante asiático, autointitulado comunista, se movimenta com grande desenvoltura pelo cenário internacional.

Ou seja, vale a pena aguardar os próximos capítulos.

Leia também: Indústria americana, capital chinês, exploração global

18 de julho de 2020

Uma hipótese lunática, mas realista

A historiadora e combativa militante socialista Virginia Fontes costuma afirmar que crises capitalistas e crises do capital são coisas diferentes. As primeiras são parte integrante do sistema de produção. As segundas são aquelas que abalam o domínio do capital.

Exemplos de crises capitalistas seriam as sucessivas crises econômicas, tão comuns nos últimos 50 anos. Já as crises do capital, seriam aquelas que podem levar a revoluções como a Russa ou a Chinesa.

Aceita essa premissa, poderíamos pensar na seguinte hipótese: se o capitalismo precisa de crises para funcionar, quando elas se tornam agudas demais, o mais adequado para lidar com elas não seria apelar a governos que piorem suas consequências ao invés de enfraquecê-las?

Hitler e Mussolini desempenharam esse papel durante a enorme crise social e econômica dos anos 1930. Ambos se credenciaram junto aos setores dominantes, como os únicos capazes de apresentar uma alternativa à crescente revolta popular contra o capitalismo. Esta alternativa consistia em levar as massas a se rebelar em defesa do sistema e não contra ele.

Nada disso quer dizer que todos os governos teriam que assumir esse papel tresloucado. Basta que esse fenômeno ocorra em alguns lugares-chave da economia global. No caso do nazifascismo, eram duas economias secundárias da Europa. Ainda assim, capazes de causar os desequilíbrios necessários para que o sistema acionasse seu dispositivo de segurança. Uma mecanismo que permite ao capitalismo em crise aguda livrar-se de recursos humanos e materiais descartáveis.

Desdobramento dessa hipótese para o século 21: será que lunáticos, como Trump e Bolsonaro, à frente de duas das maiores economias no mundo, não estariam desempenhando papel semelhante?

Leia também: Sobre artrópodes, gado e nazismo

25 de março de 2020

Anticorpos contra o fascismo: o populismo

A grande mídia tem apontado o populismo de alguns governos como um dos grandes responsáveis pela tardia ou irresponsável reação ao coronavírus-19.

Populistas, nesse caso, seriam Trump, Bolsonaro, Boris Johnson...

Mas o fato é que populismo tem sido o conceito favorito da grande mídia e de seus “especialistas” quando se trata de evitar termos mais pesados, como fascismo.

Afinal, como considerar fascista um governante como Bolsonaro e continuar a apoiar muitas de suas decisões?

No seu livro “As novas faces do fascismo”, Enzo Traverso tenta esclarecer essa confusão.

Para o consenso estabelecido, diz ele, populismo seria “um procedimento retórico que consiste em exaltar as pessoas comuns, opondo-as à elite (...) a fim de mobilizá-las contra o ‘sistema’”.

Segundo essa categorização capenga, populistas seriam Sarkozy, Berlusconi e Orbán, assim como Chávez, Morales e Kirchner. O problema é que são ignoradas as muitas diferenças ideológicas radicais entre essas lideranças.

Chávez, por exemplo, seria um populista porque usaria a demagogia como técnica de comunicação. Mas seu populismo era a forma mais consistente de resistência política contra a globalização neoliberal em seu país, afirma o autor.

Já, os partidos “populistas” da Europa Ocidental se caracterizam por suas propostas xenófobas e racistas, procurando retirar direitos e conquistas das camadas mais baixas e marginalizadas da população.

Nesse último caso, trata-se de fascismo, não de populismo. E a forma como vêm reagindo à  atual pandemia só reafirma isso. Trump e Bolsonaro infestam o ar de fascismo sempre que abrem a boca para falar sobre o coronavírus.

Voltaremos ao tema, pois nos interessa desenvolver defesas eficazes tanto contra o coronavírus como contra o fascismo.

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13 de fevereiro de 2020

Fraturas na ditadura democrática estadunidense

A mais perfeita ditadura do mundo funciona há séculos sob o domínio de um partido único, com duas alas: a republicana e a democrata.

A ditadura estadunidense funciona tão bem que elege presidentes em um colégio eleitoral que, frequentemente, ignora a vontade popular. O último deles foi Trump. Com três milhões de votos populares a menos que Hillary Clinton, esse sistema não foi contestado nem mesmo por ela.

Este forte aparato político funciona como um muro contra alternativas mais democráticas. Principalmente, contra forças de esquerda. É este muro que coloca do mesmo lado Bush, Trump, Obama, Clinton...

Mas surgem sinais de rachaduras nesse paredão. Uma onda rebelde de esquerda vem varrendo grande parte da sociedade estadunidense. À frente dela, o senador Bernie Sanders.

Sanders luta para ser o candidato democrata nas eleições presidenciais defendendo uma plataforma política considerada radical. Na verdade, apenas propõe políticas de redistribuição de renda, ampliação dos serviços públicos, taxação da riqueza e limitações à especulação financeira. Mas basta isso para ser considerado um incendiário.

Sanders conta com forte apoio em categorias sindicais recentemente envolvidas em grandes greves e lutas. Suas propostas também vêm conquistando jovens, latinos, negros e muçulmanos.

Para muitos comentaristas, Sanders representa a maior chance de uma vitória democrata nas próximas eleições. Mas o maior inimigo dele hoje não são os republicanos. É a direção de seu próprio partido, que prefere ver Trump reeleito a permitir a vitória de um “incendiário”. Daí, as recentes sabotagens contra sua candidatura nas primárias democratas.

Há possíveis fraturas na poderosa muralha conservadora estadunidense. E isso é muito importante para os socialistas no mundo todo.

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