Doses maiores

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13 de março de 2025

Só o proletariado pode derrotar o fascismo

Em junho de 1923, ao discursar no Congresso da Internacional Comunista, a revolucionária alemã Clara Zetkin advertiu:

O fascismo não é de modo nenhum a vingança da burguesia contra um proletariado que se tivesse insurrecionado de maneira combativa. Sob um ponto de vista histórico e objetivo, o fascismo ocorre, sobretudo, porque o proletariado não foi capaz de prosseguir sua revolução.

Esta afirmação continua válida. É verdade que não havia qualquer revolução em curso quando começou a atual onda conservadora que se tornou fascista. Mas não podemos esquecer as revoltas que vieram na esteira da crise econômica de 2008, com inúmeras revoltas, paralisações e greves em países como Grécia, Turquia, Egito, Tunísia, Espanha, Estados Unidos e Brasil, entre 2010 e 2013.

Que tais revoltas não tenham dado início a processos revolucionários significou uma grande derrota para a esquerda mundial. Que o vazio deixado por essa derrota tenha sido ocupado por forças de extrema-direita foi uma vitória do grande capital.

De qualquer maneira, a fala de Clara Zetkin mostra que a derrota do proletariado é condição necessária para permitir que a burguesia faça uso do fascismo sem freios e constrangimentos.

Os regimes fascistas apresentam as condições ideais para o domínio do capital. Quando isso não é possível, a democracia parlamentar/eleitoral é apenas tolerada pela burguesia, não almejada por ela. Mesmo as conquistas e direitos mais limitados foram arrancados com muita luta e mantidos a ferro e fogo pelas classes subalternas.

Não há vitória do fascismo sem derrota do proletariado. Não há vitória da luta antifascista sem o protagonismo dos explorados.

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11 de março de 2025

Forte declive à direita, rumo ao fascismo

...esse “cinturão” não impede que todo o espectro político se mova cada vez mais para a direita e que as forças do centro –e mesmo socialdemocratas e verdes– assumam bandeiras, slogans, postulados e discursos promovidos pela extrema direita. Se todo o espaço político se torna mais conservador, há uma transferência comprovada em grande parte da Europa em que os socialdemocratas se tornam mais centristas, o centro se torna mais conservador e a direita se aproxima de posições mais extremas, beirando, por exemplo, a xenofobia.

O trecho acima é do artigo “O vendaval extremista na ‘Europa alemã’”, recentemente publicado por Sergio Ferrari. O “cinturão” a que ele se refere é um compromisso assumido pelos maiores partidos alemães de não compor coalizões governamentais com partidos neonazistas como o Alternativa para a Alemanha.

Mas como diz Ferrari, se todo o espaço político se torna mais conservador, carrega com ele todo o resto. É como aqueles esconderijos dos vilões da versão televisiva do Batman, que tinham o chão sempre inclinado para o lado direito.

Atualmente, o mundo inclina-se fortemente à direita, com pesos pesados como Trump, Netanyahu, Putin e outros se juntando num dos lados e fazendo escorregar em sua direção adversários cujas convicções antifascistas são leves demais para fazer o contrapeso.

Mas isso não é novo. Os liberais, democratas e legalistas sem compromisso de classe com os de baixo nunca foram capazes de enfrentar o fascismo. Ao contrário, sempre buscaram formas de conciliar com seus defensores.

Não tem Batman do nosso lado. A experiência histórica mostra que só os explorados e oprimidos são capazes de derrotar o fascismo.

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8 de março de 2025

O que deixamos de aprender com Trotsky

Trotsky dizia que aprendeu tudo o que precisava saber sobre uma organização revolucionária com cinco trabalhadores. Um deles sempre foi um militante socialista, defensor intransigente dos oprimidos, à frente de qualquer luta dos explorados. Outro deles era um reacionário nato. Havia nascido e morreria sendo um fura-greve. Mas, os outros três trabalhadores não eram nem revolucionários nem reacionários. Às vezes, eram influenciados pelo reacionário, às vezes, pelo revolucionário. Ficavam no meio dos dois, sempre em disputa.

Segundo Trotsky, o objetivo de uma organização revolucionária é empurrar os trabalhadores que ficam no meio para perto do militante revolucionário. E oferecer a este organização, consciência e conhecimento sobre as tradições de luta. Elementos que lhe permitam conquistar os trabalhadores em disputa e isolar a direita.

O fascismo, especialista em espelhar e distorcer os métodos socialistas a favor de seus objetivos, faz o mesmo trabalho de isolar a militância de esquerda e empurrar as pessoas que vacilam para perto de suas organizações. Mas com uma grande diferença. O fascismo conta com um ecossistema social e político extremamente favorável. Esse ambiente propício surgiu de décadas de domínio ideológico do neoliberalismo e de um Estado omisso ou cúmplice em relação aos crimes do fascismo. Mas também, e principalmente, das contradições internas dos setores explorados e oprimidos, que os levaram a abandonar o terreno de combate e a ser derrotados em várias frentes de luta.

O que Trotsky defendia não era mais do que a necessidade de travar uma disputa de hegemonia com as classes dominantes que vá muito além das disputas eleitorais e da ocupação de postos governamentais.  

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23 de novembro de 2024

A luta contra a escala 6x1 e o reformismo sem medo

O cientista político Marcos Nobre afirma que a direita brasileira atualmente divide-se entre uma ala “com medo” e outra “sem medo”. Esta última não teme se unir a fascistas como Bolsonaro. A primeira receia que o fanatismo bolsonarista abra brechas no sistema de dominação. Por isso, apoiou a única opção disponível capaz de enfrentar a extrema direita e, ao mesmo tempo, manter as mobilizações sociais em banho Maria.
 
Já André Singer, outro cientista político, chamou o projeto de esquerda dominante no País de lulismo. E sua essência seria um reformismo fraco, com mudanças graduais e limitadas, sem ameaças à ordem e em aliança com setores conservadores.

Mas veio a onda ultraconservadora, o golpe de 2016, a eleição de um presidente fascista com suas políticas sanitárias genocidas e pretensões golpistas de voltar ao poder. A resistência representada por Lula a tudo isso foi fundamental, mas deixou ainda mais ralo o tal reformismo fraco.

Felizmente, muitas vezes, a luta de classes assume as formas mais inesperadas. É o caso da campanha contra a escala de trabalho 6x1. Uma luta que não apenas ganhou enorme apoio popular, como foi protagonizada por duas pessoas negras: um trabalhador precarizado gay e uma deputada federal trans. Sob um conservadorismo extremado e a mais selvagem lógica neoliberal, trata-se de um exemplo evidente do que pode fazer um reformismo forte e destemido. 


O trágico é que essa situação também revelou as enormes contradições no interior do campo antifascista. Demonstrou que o oposto do reformismo forte não é um reformismo fraco, mas uma esquerda com medo.

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11 de novembro de 2024

Como se desperta um demônio

Em 1936, George Orwell publicou “A caminho de Wigan Pier”, sobre as terríveis condições de trabalho dos mineiros ingleses. Mas o livro também denunciava os preconceitos de setores da esquerda contra a chamada classe média. Eis um trecho:

Economicamente, estou no mesmo barco com o mineiro de carvão, o operário braçal e o trabalhador rural; basta que alguém me lembre disso e irei lutar ao lado deles. Mas culturalmente sou diferente do mineiro, do operário braçal e do trabalhador rural; e, se você enfatizar esse aspecto, pode acabar me armando contra eles. Se eu fosse uma anomalia solitária, isso não teria importância, mas o que vale para mim vale para incontáveis outras pessoas. Cada bancário pensando no dia da demissão, cada lojista tentando se equilibrar à beira da falência estão essencialmente na mesma posição. Eles são a classe média que vai afundando, e a maioria deles se aferra à sua superioridade, sob a impressão de que ela os mantém com a cabeça fora d’água. Não é boa política já começar lhes dizendo que joguem fora o colete salva-vidas. Há um perigo óbvio de que nos próximos anos grandes faixas da classe média deem uma repentina e violenta guinada para a direita. Ao fazer isso, podem tornar-se uma força tremenda. Até agora a fraqueza da classe média sempre se baseou no fato de que esses cidadãos nunca aprenderam a se unir, mas, se os assustar de tal modo que eles acabem se unindo contra você, pode descobrir que despertou um demônio.

Mas, na época, o “demônio” já estava bem acordado e tinha nome: nazifascismo.

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7 de novembro de 2024

A esperança escondida em uma bomba aérea

Em uma cidade do País Basco, durante a guerra civil iniciada pelo ditador Francisco Franco, uma bomba atingiu a praça central, mas nunca explodiu. Os moradores não ousaram movê-la, muito menos desarmá-la. Lá permaneceu por anos durante a ditadura Franco como um símbolo de morte, do poder do regime e do castigo para quem se rebelou.

Um dia, um dos habitantes decidiu remover o dispositivo sozinho. Mas logo muitos se juntaram a ele. A ideia era desarmar a bomba e levá-la para longe. Mas no lugar do detonador, encontraram um papel contendo algumas palavras escritas em alemão. Felizmente, havia uma pessoa que conseguiu traduzi-las: “Saudações de um operário alemão que não mata inocentes”, dizia o bilhete.

A partir daquele momento, decidiram manter a bomba na praça como símbolo da resistência, do fim do medo e do poder de um povo com consciência de classe. Tudo isso porque um trabalhador alemão arriscou a pele, em meio à ditadura nazista, e deixou claro que nem o medo nem o regime seriam capazes de torná-lo mais um monstro.

Se você vive sob regime fascista ou sob qualquer regime de morte e tem o estranho “privilégio” de ser empregado, recebendo um salário, dentro dele, você o sabota. Não precisa estudar ciências políticas para saber disso. Você precisa somente de sensibilidade e empatia, e de saber as consequências humanas das políticas que estão sendo aplicadas diante do seu nariz.

O relato acima é o resumo de um capítulo do livro “Pelo buraco da fechadura”, recém-publicado por Mário Prata. Mostra como é possível arrancar esperança dos momentos mais trágicos.

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4 de novembro de 2024

A única maneira de um nazista ser bom

“O crime do bom nazista”, de Samir Machado de Machado é um dos semifinalistas do Prêmio Jabuti na categoria romance de entretenimento. Trata-se de uma trama policial em que se destaca a homoafetividade dos personagens principais.

Mas para além do fascinante desafio de desvendar a autoria de um crime, o leitor ou leitora ficam sabendo da terrível perseguição a que eram submetidos os homossexuais sob o regime nazista. Por exemplo, no seguinte trecho:

E Rudolf então lhe contou da carga de trabalhos exaustivos a que os prisioneiros homossexuais como eles eram submetidos, muito maior do que a de qualquer outro prisioneiro, pois era crença corrente que o trabalho duro os curaria. Contou dos estupros que ele e outros homossexuais estavam sofrendo, das surras, de ter os testículos mergulhados em água fervente, as unhas arrancadas, contou das coisas que lhes introduziam no ânus para divertimento dos guardas, algumas tão compridas que perfuravam seus intestinos e os faziam sangrar até a morte, contou daqueles que foram simplesmente espancados até morrer, enfim, de como eram tratados como a mais baixa das criaturas. Pois, aos olhos nazis, que cultuavam sobretudo a própria masculinidade, eles eram mais baixos até mesmo do que ciganos ou judeus.

Também somos informados de que o primeiro movimento homossexual de que se tem notícia surgiu na Alemanha no final do século 19, com a fundação do Comitê Científico-Humanitário, pioneiro mundial na organização dos homossexuais, resistindo até a ascensão nazista, em 1933.

Por fim, o livro nos obriga a concordar quando um de seus personagens afirma que o único bom nazista possível é o que está morto.

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15 de julho de 2024

Decolonialismo de extrema direita

O título acima é de um artigo publicado pela historiadora britânica Miri Davidson. O texto está em inglês, mas pode ser lido por tradução automática.

Não deixa de ser surpreendente vincular a extrema direita a um movimento que combate as tragédias causadas pela dominação violenta de populações inteiras por parte das potências coloniais. Um campo de conhecimento e de luta surgido graças ao empenho militante de forças da esquerda.

Em seu texto, a historiadora cita o caso da extrema direita francesa, que considera a sociedade europeia como vítima de uma “colonização de imigrantes árabes e africanos” que estaria substituindo os “nativos” brancos e cristãos.

Essas teorias também ganharam uma multidão de adeptos nos Estados Unidos. Principalmente, entre os republicanos, com Trump propondo medidas de deportação em massa, caso seja reeleito em novembro.

Enquanto isso, em Israel, Netanyahu usa o genocídio para "descolonizar" os territórios ocupados há milênios por palestinos, defendendo um Estado em que judeus sejam considerados legítimos habitantes e os árabes, invasores.

Mas este processo não é tão recente. Não à toa, o Partido Nazista se chamava Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Agora, como antes, a ideia é tirar proveito dos descontentamentos, ressentimentos e revoltas populares diante do funcionamento socialmente destrutivo e contraditório do sistema capitalista. Virar do avesso as manifestações, expressões e palavras-de-ordem antissistema para transformá-las em armas do sistema.

Essa tática, porém, só se torna realmente vitoriosa graças às frustrações deixadas pelas derrotas da esquerda. Em especial, dos setores que ocupam postos governamentais e parlamentares empenhados em se credenciar como salvadores do sistema.

Não existe luta anticolonial de direita. Muito menos, anticapitalismo capitalista.

Leia também: A origem fascista do nazismo de esquerda

8 de julho de 2024

Derrotas da direita que a direita comemora

A vitória dos trabalhistas não é motivo para comemorar. Bem, é uma boa notícia que os conservadores de direita tenham perdido, mas é uma má notícia que a direita e o Partido Trabalhista tenham vencido. Um partido neoliberal.

As palavras acima são de um recente artigo de Ken Loach, combativo cineasta britânico. Referem-se ao recente resultado das eleições britânicas, que consagrou o líder trabalhista Keir Starmer. Segundo Loach, “um político de direita, intransigente e orientado para o livre mercado”.

Loach lembra a situação de outros países também. Na França, Macron é considerado de centro, mas é de direita, diz ele. As medidas de austeridade fiscal e o alinhamento ao imperialismo de seu governo pavimentaram o caminho para o crescimento da extrema direita francesa.

O mesmo vale para os Estados Unidos, onde há dois portadores de demências distintas disputando o comando de um sistema político e social cheio de patologias como o racismo, o completo abandono dos mais pobres e a guerra a povos do mundo inteiro.

A verdade é que o neoliberalismo colocou os governos das principais economias do mundo em piloto automático. Mesmo os que são eleitos contra seu ideário, dificilmente conseguem deter a continuidade de suas políticas.

No Brasil, nossa barreira contra o bolsonarismo fascista é frágil. Sólidas, mesmo, somente as fundações do neoliberalismo. No atual governo elas estão disfarçadas de “arcabouço fiscal” e podem tornar o terreno social e político ideal para novas ofensivas ultraconservadoras.

Os neoliberais puro-sangue continuam preferindo a eficácia destrutiva do fascismo. O cerco ao governo petista vem se fechando rapidamente. Nada a comemorar por aqui também.

Leia também: Como a esquerda deve apoiar Lula?

11 de junho de 2024

O avanço da extrema direita e a política das selfies

Jordan Bardella tem 28 anos e é conhecido como "Rei da Selfie" porque multidões de jovens querem tirar fotos com ele. Com mais de 1 milhão de seguidores nas redes virtuais, poderá tornar-se o mais jovem primeiro-ministro da França, se seu partido, o Reagrupamento Nacional (RN), de extrema direita, obtiver maioria nas próximas eleições para a Assembleia Nacional. Possibilidade fortalecida pelas recentes eleições para o Parlamento Europeu, nas quais o RN mais que dobrou sua bancada.

Em reportagem para o jornal italiano Repubblica, Anais Ginori cita as palavras do marqueteiro de Bardella, Pascal Humeau: “Esse sorriso parece natural, mas trabalhamos nele durante meses. O objetivo era que as pessoas dissessem: para um fascista, ele parece bonito”.

Sem dúvida, um fenômeno assustador. Mas apesar de novo, não é tão recente. Faz parte da onda conservadora que começou a nascer há dez anos no rastro da crise de 2008.

Desde então, surgiram novos tipos de organização partidária ligados à enorme influência das redes virtuais na vida social. Alguns estudiosos chamam essas organizações de “partidos digitais” ou “partidos plataforma”. Muitas delas até surgiram a partir da militância de esquerda, mas sua tendência à fragmentação, superficialidade e irracionalismo se adequou melhor ao ideário ultraconservador.

A necessária e urgente reação da esquerda não pode se limitar à luta nas redes. A raiz das vitórias da extrema direita está nas respostas que oferece aos problemas concretos da vida cotidiana das maiorias. Respostas absolutamente equivocadas, mas que conseguem se impor, frente a uma esquerda que ou se limita a administrar a barbárie neoliberal ou não consegue enxergar para além de suas selfies políticas.

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21 de maio de 2024

O PT virou unidade de política pacificadora

A frase acima é de Pedro Arantes, professor da Unifesp, em entrevista concedida ao podcast “Ilustríssima Conversa” e publicada em 18/05/2023. O tema do programa é o lançamento de "8/1: a Rebelião dos Manés", livro que o entrevistado escreveu junto com Fernando Frias e Maria Luiza Meneses.

O título da obra se refere à tentativa de golpe ocorrida em janeiro de 2023 pelos bolsonaristas. Ou pelos “manés”, segundo a terminologia adotada pelo ministro do STF, Luís Barroso, para os apoiadores de Bolsonaro.

Arantes considera equivocada a postura de menosprezar e ridicularizar os “manés”. Afinal, a eleição de Bolsonaro provou que o grotesco e o caricato devem ser levados muito a sério.

O entrevistado também acha que o combate ao fascismo pela política de “redução de danos” pode acabar aumentando os danos. Os dados da realidade mostram que vivemos sob um sistema incapaz de atender as necessidades e anseios da grande maioria da população. Mesmo assim, grande parte da esquerda insiste em defendê-lo a qualquer custo. O resultado é mais frustração e ressentimento funcionando como combustível para forças extremistas conservadoras como o bolsonarismo.

Ao mesmo tempo, assistimos apáticos ao crescimento do punitivismo promovido por figuras como Alexandre de Moraes. A mesma justificativa jurídica utilizada contra os golpistas de janeiro pelo ministro do STF, por exemplo, levou à prisão de manifestantes do Movimento do Passe Livre em São Paulo. Enquanto isso, diz Arantes, a “esquerda institucionalizada deixou de construir a luta social, a formação, a educação”.

Difícil discordar. O PT tenta manter uma paz que não existe. Abana uma bandeira branca que já foi toda rasgada por tiros.

Leia também: Dobrando a aposta neoliberal no fascismo

13 de maio de 2024

Dobrando a aposta neoliberal no fascismo

“Ricos devem ganhar mais com Lula 3, que não repetirá expansão da classe C”, diz matéria da Folha, de 14/04/2024.

“O Brasil não repetirá nos próximos anos a forte migração de membros da classe D/E para a C dos dois primeiros mandatos de Lula”, afirma o texto.

“Desta vez, será a classe A e em menor grau a B as maiores ganhadoras” devido aos juros elevados, baixo dinamismo da economia e espaço limitado no orçamento público para aumentar transferências de renda aos mais pobres.

Por “espaço limitado no orçamento público” entenda-se a “austeridade fiscal”, cujo verdadeiro objetivo nada tem a ver com o alardeado saneamento das contas públicas. Trata-se do pagamento da imoral e fraudulenta “dívida pública”, que redireciona imensos recursos públicos a uma minoria minúscula formada por grandes capitalistas daqui e do exterior.

Como diz a reportagem, na repartição do bolo das rendas públicas são “justamente os ganhos de capital dos mais ricos, empresários ou pessoas que têm dinheiro aplicado, que farão a diferença”. Dinheiro aplicado onde? Nos títulos da dívida pública.

O próprio texto revela toda a perversidade social por trás desse mecanismo: “em 2023 as despesas com juros da dívida pública somaram R$ 718,3 bilhões. Como comparação, o Bolsa Família destinou R$ 170 bilhões a 21,1 milhões de domicílios." Sem falar dos recursos negados a serviços públicos e programas sociais tão importantes como o SUS, educação, Reforma Agrária, políticas ambientais, defesa civil, habitação popular, transporte público.

Essas mesmas políticas neoliberais foram fundamentais para chocar os ovos de serpente bolsonarista. Dobram-se as apostas na calamidade social de que o fascismo se alimenta.

Leia também: Combatendo o bolsonarismo sem moderação

7 de maio de 2024

Combatendo o bolsonarismo sem moderação

“Bolsonarismo moderado”. Essa expressão anda provocando debates nas redes virtuais nos últimos dias. Teria surgido a partir de uma coluna publicada por Joel Pinheiro da Fonseca, na Folha de S. Paulo.

Moderação e bolsonarismo são incompatíveis. Mesmo assim, há quem acredite nessa possibilidade e acha que um dos candidatos a encarná-la seria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Mas basta observar o desempenho do governador na segurança pública para constatar que o bolsonarismo é incapaz de ser moderado. O número de pessoas mortas por policiais militares em São Paulo mais que dobrou no primeiro trimestre deste ano. Tarcísio também promoveu no Guarujá a maior chacina desde a matança do Carandiru. Atrocidades que ele cita com orgulho.

Tarcísio sabe que qualquer moderação é eleitoralmente suicida para quem quer manter os votos bolsonaristas. O governador sustenta altos níveis de aprovação popular, não apesar da truculência de sua política de segurança, mas graças a ela.

O Bolsonarismo é uma espécie de fascismo. E o fascismo não se deixa moderar porque se alimenta de uma realidade social cujas consequências catastróficas castigam a grande maioria sem qualquer comedimento.

Foi assim no século passado, quando o liberalismo capitalista causou crises que mergulharam o mundo no fascismo e em duas grandes guerras. O mesmo está acontecendo agora, com o neoliberalismo provocando novas e maiores catástrofes, não só econômicas, mas humanitárias, sanitárias, ambientais e bélicas.

Combater o bolsonarismo é combater o fascismo. Mas só é possível derrotar ambos atacando o sistema que alimenta essas bestas feras. Quem fala em luta antifascista sem falar em luta anticapitalista ou está enganado ou está enganando.

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18 de março de 2024

Neoliberalismo e extremismo de direita

Fundamentalismo religioso, guerra híbrida, dissonância cognitiva, militarismo, anarcocapitalismo, caos informativo, neofascismo. Estas são apenas algumas das chaves explicativas presentes no debate sobre a onda ultraconservadora que vem varrendo o mundo. Mas que elemento ideológico poderia dar coerência a esse caos conceitual? Um bom palpite é: o neoliberalismo.

Segundo Gramsci, a ideologia dominante reúne os elementos díspares e contraditórios que estão espalhados pelo senso comum para combiná-los de forma a justificar a ordem social. O resultado é uma massaroca que mistura religião, filosofia, valores tradicionais e modernos, crenças e preconceitos etc.

Ora, o neoliberalismo vem cumprindo perfeitamente essa função. Longe de ser apenas um modelo econômico, é uma racionalidade que penetrou toda a sociedade. Manifesta-se, por exemplo, na teologia que concebe a fé como instrumento de sucesso pessoal, no empreendedorismo como forma de ascensão social nas periferias e na organização racional da criminalidade promovida pelo PCC. Está na empresa e no sindicato. Nos governos, partidos, igrejas, mídias, universidades, ONGs. Ela impõe a mercantilização e financeirização da vida e um individualismo mergulhado na concorrência selvagem. Contaminou todas as esferas sociais, incluindo amplos setores da esquerda.

São muitas décadas de hegemonia neoliberal na Europa e Estados Unidos. Nos países dependentes, esse processo começou atrasado, mas foi sincronizado pela crise de 2008. Uma crise que o neoliberalismo criou e para a qual apresentou como solução a generalização do extremismo de direita a que estamos assistindo nos últimos anos.

Combater o neoliberalismo de forma abstrata não é suficiente para nos tirar dessa enorme encrenca. Mas se continuarmos a ignorá-lo vamos afundar ainda mais na barbárie.

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21 de setembro de 2023

Derrotas de baixo para cima

“A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. As melhores tradições da esquerda sempre acreditaram nessas sábias palavras ditas por Marx.

Ou seja, transformações radicais que coloquem um fim à sociedade capitalista só acontecerão a partir do rés-do-chão social.

Essa foi a inspiração daqueles que atuaram na resistência à ditadura militar, à democracia tutelada que a sucedeu e aos ataques neoliberais dos anos seguintes. Mas esse trabalho de base praticamente desapareceu no final do século passado.

Há até pouco tempo, considerávamos isso apenas um momentâneo atraso em nossas lutas. Como se os espaços que abandonamos aguardassem pacientemente nosso retorno.

Não demorou muito para que fôssemos lembrados da pior forma possível que a direita também sabe atuar no solo sujo do capitalismo.

Nos bairros pobres rasgados pela violência e desesperança, igrejas dominadas por lideranças ultraconservadoras estenderam uma rede que finge amparar, enquanto prega o pior fanatismo e elege os maiores canalhas.

Já a criminalidade, na ausência de qualquer trabalho de conscientização progressista, organizou-se, modernizou-se, adotou métodos racionais, fez da delinquência empreendedorismo.

O mesmo empreendedorismo que ONGs bem intencionadas semearam pelas periferias para que a uberização do trabalho viesse fazer sua farta colheita. No lugar da dura luta por empregos e salários dignos, a competição feroz por corridas e encomendas valendo uns poucos reais.

Por fim, nos deparamos com lideranças fascistas infiltradas nos próprios movimentos sociais, sindicatos, conselhos tutelares. Presentes em alianças que vão da vereança ao senado, do prefeito ao presidente, do fisiologismo de direita a seu equivalente de esquerda.

Mas não há como consertar nada disso pelo alto porque foi de lá que desabamos.

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29 de maio de 2023

As fake news e o jornalismo conservador

Como já vimos, apelar às verdades científicas para combater as fake news é insuficiente e contraditório. O mesmo vale para o jornalismo.

Por décadas, a esquerda denunciou e combateu os monopólios de comunicação, controlados pelo grande capital e a serviço das classes dominantes. É o que mostram, por exemplo, o apoio à ditadura militar, o boicote às Diretas-Já, o favorecimento a Collor e a campanha pelo impeachment de Dilma. São episódios que evidenciam a atuação desse verdadeiro partido informal na defesa da ordem conservadora.

Ocorre que, à medida que a esquerda ganhava espaço nos governos e parlamentos, deixava de lado o combate aos impérios midiáticos, ao mesmo tempo em que se afastava do cotidiano das camadas populares. Confundimos luta contra-hegemônica com disputa eleitoral.

Livres para atuar, lideranças conservadoras se aproveitaram dessas contradições para convencer vastos setores populares de que os veículos da grande mídia são utilizados pelos comunistas para atacar os “sagrados” valores patriarcais, cristãos, nacionalistas e hierárquicos.

De modo oportunista, a extrema-direita declarou guerra contra algumas alas do partido midiático, como os grupos Globo e Folha. Diante disso, a defesa que muitos de nós, corretamente, assumem da atividade dos jornalistas é distorcida de modo a parecer cumplicidade com seus patrões. Para piorar, setores importantes da esquerda passaram a confiar à grande imprensa a tarefa de resistir às mentiras e distorções da extrema-direita.

Esses elementos mostram que a atividade jornalística, por si só, é incapaz de resistir às ofensivas mentirosas do fascismo. Afinal, como disseram Marx e Engels, nas sociedades de classe, as ideias dominantes tendem a ser as ideias das classes dominantes.

Leia também: Ciência e fake news: eugenia e negacionismo

22 de maio de 2023

As “massas” não são ingratas, ignorantes ou traidoras

“Políticas sociais mudam a cabeça do povo?”, pergunta o título do artigo que Frei Betto publicou, recentemente, no “Le Monde Diplomatique”.

Logo no início, o autor diz que a resposta à questão é não. Lembra, por exemplo, os vários direitos sociais conquistados “em setenta anos de União Soviética”. Mesmo assim, o povo russo deu boas-vindas ao capitalismo.

Depois, recorda os 13 anos de governos do PT, que asseguraram à população de baixa renda benefícios como Bolsa Família, salário mínimo acima da inflação, cotas nas universidades e redução da miséria, da pobreza e do desemprego. No entanto, Dilma Rousseff foi derrubada e Bolsonaro foi eleito. Lula voltou, mas venceu por apenas 2 milhões de votos.

Betto usa esses e outros argumentos para afirmar, com razão, que “é real o risco de a direita voltar à presidência da República em 2026”. Mas discorda de quem considera “as massas” ingratas. Por isso, propõe duas medidas: um intenso trabalho de educação popular pelo método Paulo Freire. Para isso, defende a utilização da Empresa Brasileira de Comunicação, “poderoso sistema de comunicação em mãos do governo federal”.

São propostas corretas, mas insuficientes. Por outro lado, a constatação do articulista sobre o comportamento das massas está correta. Elas não são ingratas, ignorantes, traidoras. Não precisam de boas intenções ou lições de moral. Querem respostas concretas para os terríveis problemas causados por uma sociedade profundamente injusta e violenta.

O fascismo já apresentou suas respostas. Elas aprofundam e radicalizam os males sociais. Já nós, se insistirmos em consertar um sistema irrecuperável, estaremos fadados ao fracasso e a nos tornar alvo preferencial da ira popular.

Leia também: A besta do fascismo continua fora da jaula

19 de maio de 2023

A besta do fascismo continua fora da jaula

Não nos enganemos, o governo Lula é uma ponte a ser queimada. E, se for necessário, ainda durante a travessia.

Bolsonaro não foi um raio num céu azul. A possibilidade de sua vitória foi um ponto cego até meses antes da eleição, mas apenas para as forças de esquerda e setores da direita tradicional. A maior parte da burguesia graúda começou a apostar suas fichas no capitão fascista logo que ele se tornou competitivo.

Era uma aposta que tinha seus riscos, mas o baronato capitalista nacional preferiu isso a aceitar o petismo liberal da candidatura Haddad por causa da sombra de Lula que pairava sobre ela.

É costume dizer que o fascismo é uma fera que a burguesia mantém na jaula até que seja preciso libertá-la. Mas, quando solto, todo animal desembestado pode causar tantos problemas que não há exorcismo que dê jeito. Foi o que aconteceu com a besta de plantão. Alguns de seus cuidadores, como a Globo e alguns outros monopólios de comunicação, chegaram a ter as mãos mordidas pela ingrata criatura.

Mas se Bolsonaro acabou se dando mal, o bolsonarismo continua vivo e operante. No Congresso, no governo de estados importantes como São Paulo, Rio e Minas, nos parlamentos pelo país afora e na própria base de apoio do governo petista.

A tarefa das classes dominantes agora é se livrar de Lula o quanto antes. Com menos de seis meses de governo, os editoriais dos grandes jornais não deixam dúvidas sobre isso. Incluindo aqueles cujas patas dianteiras ainda estão envolvidas em ataduras.  

A besta recuou, mas não voltou pra jaula. Está disponível.

Leia também: Os neoliberais têm um comunismo pra chamar de seu

4 de maio de 2023

Os neoliberais têm um comunismo pra chamar de seu

O fantasma alardeado pela direita fanatizada é o comunismo. A mera defesa de direitos básicos, liberdade de comportamento, diversidade religiosa e sexual, combate à desigualdade, a estupidez fascista transforma em silenciosa e sistemática revolução comunista. Segundo esses maníacos-repressivos, nossos ordeiros partidos de esquerda defenderiam programas tão radicais quanto o repertório dos primeiros discos dos Titãs ou dos Racionais.

Mas os fanáticos da direita neoliberal também têm um comunismo pra chamar de seu. É o “populismo econômico”, no qual se enquadra qualquer um que ouse apenas desconfiar da “austeridade fiscal”. Uma fórmula econômica grosseira que se resume ao “não pode gastar mais do que se arrecada”. Mantra que só não serve quando se trata de pagar a impagável dívida pública.

Sob essa ladainha presente na grande maioria dos textos editoriais e colunas de especialistas medíocres, esconde-se o escoadouro de recursos públicos para a roleta do cassino das Letras do Tesouro Nacional, em torno da qual sentam-se banqueiros e grandes empresários em geral. Tanto locais como alienígenas.

É isso que explica a teima do BC em manter os juros altos, apesar das humildes genuflexões petistas diante desse altar da ortodoxia neoliberal. Esse episcopado zeloso dos interesses de seitas como a da Faria Lima. Com mandato todo-poderoso, sem um único voto popular.

De modo que o governo Lula continuará acossado pelo fanatismo fascista e pela intolerância neoliberal. O primeiro atacou em 8 de janeiro e não pretende parar. O segundo faz o mesmo há décadas e deve continuar. Ambos mal disfarçam sua simpatia mútua, baseada no ódio aos pobres e a qualquer política com cheiro de redistribuição de renda.

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17 de março de 2023

Demissões, barbárie e fascismo

Em 09/03/2023, a Meta, controladora de WhatsApp, Facebook e Instagram, anunciou uma “reestruturação global”. Nome pomposo para medidas que pretendem demitir 11 mil funcionários, ou 13% de sua força de trabalho.

Após o anúncio das demissões, as ações da Meta, que acumulavam queda de 70% na bolsa Nasdaq, de Nova York, começaram a subir e fecharam em alta de 5%.

A mera perspectiva de demissões em massa bastou para que o “mercado” recuperasse a confiança na corporação responsável pelas dispensas. Segundo os critérios empresariais, colocar gente no olho da rua é demonstração de eficiência e deixa os acionistas muito felizes.

E isso não vale apenas para o monopólio das redes virtuais. Há muitos anos, os neoliberais dizem que um elevado nível de desemprego é saudável para a economia. Ajuda a manter os salários baixos e o mercado estável.

As consequências desse lógica, como precariedade, desigualdade, injustiça, sofrimento e miséria, não interessam. Elas não aparecem nos balanços empresariais.

Nesse momento, é importante lembrar que, no “Mein Kampf”, Hitler afirmou que a luta de classes não é inerente ao capitalismo. Segundo o genocida alemão, os conflitos classistas só começaram quando surgiu o capital por ações. Essa inovação financeira teria destruído a ligação pessoal que até então unia patrões e trabalhadores.

Tudo isso não passa de um delírio. Nunca houve uma ligação pessoal entre patrões e trabalhadores que não passasse pela exploração. Mas é um delírio que o capitalismo reforça, criando um estado de barbárie social. Essa lógica desumana e irracional do ponto de vista dos interesses da grande maioria abre avenidas para o avanço do fascismo.

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