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15 de outubro de 2024

Os palavrões do Antropoceno

Muito do que parece ser resultado das alterações climáticas é, na verdade, promovido por políticas de racismo e exclusão incorporadas à lógica do capitalismo fóssil. É assim que Ian Angus introduz o conceito de “exterminismo” em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”.

Em 1980, o historiador inglês E. P. Thompson, diz ele, criou o termo “exterminismo” para descrever as possíveis consequências da corrida nuclear.

Mas Angus prefere citar o escritor estadunidense Stan Goff, que utiliza o conceito de Thompson em seu relato sobre o Katrina, desse modo: “O exterminismo é a aceitação explícita ou não de mortes em massa como preço a ser pago pela preservação do poder econômico e político da classe dirigente. O exterminismo não se caracteriza por ações ofensivas, mas, frequentemente, ocorre por negligência calculada. Seus instrumentos são pobreza, doença, subnutrição e catástrofes ‘naturais', geralmente facilitadas pelo isolamento econômico e deslocamento populacional em massa”.

Nos dias que se seguiram ao furacão Katrina, em 2006, várias centenas de pessoas, incluindo bebês de colo e idosos cadeirantes, tentaram deixar Nova Orleans atravessando uma ponte para Gretna, cidade do outro lado do Rio Mississipi. Mas a força policial da localidade impediu o acesso, disparando tiros para o ar. As autoridades locais não permitiriam a entrada de “desabrigados” negros em Gretna.

Portanto, não surpreende o fato de que 46% dos moradores das áreas mais atingidas pelo Katrina fossem negros, em comparação com os 26% das áreas sem maiores estragos.

Antropoceno e exterminismo são dois conceitos malditos criados pela sociedade industrial. Precisamos nos livrar do capitalismo fóssil, para que nunca mais precisemos usar palavrões como esses.

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11 de outubro de 2024

O Titanic das catástrofes ambientais

Estima-se que 90% do comércio mundial é feito por navios que emitem anualmente mais gases de efeito estufa que 205 milhões de automóveis. Se esses cargueiros fossem um país, seriam o sexto maior emissor, ficando logo abaixo do Japão e acima da África.

Mas esse não é todo o problema. Quem afirma que na crise ambiental estamos todos no mesmo barco, ou está enganado ou está enganando. Muitos cargueiros dos países ricos, por exemplo, despejam seu lixo em águas de países periféricos para cortar custos logísticos e ambientais.

A imensa maioria das vítimas de catástrofes ambientais estão nos países dependentes e 75% delas são mulheres. Os países mais pobres, principalmente os que ficam ao sul do Saara, na África, são os mais atingidos. Dentro de cada nação, os mais pobres, mulheres, crianças e idosos têm maior probabilidade de perder suas casas e meios de subsistência devido às alterações climáticas. Também têm mais chances de morrer.

Cada vez mais, a divisão não é apenas entre ricos e pobres, ou conforto e pobreza: é entre sobrevivência e morte.

Continuamos navegando em nosso Titanic enquanto ele se dirige lentamente rumo a um mar escuro e ameaçador. Os marinheiros entram em pânico e aqueles que pagaram passagens mais baratas já começam a cair na água.

Como diz a escritora Arundhati Roy:

Os ricos ficam despreocupados ao saber que os botes salva-vidas são reservados aos passageiros de sua classe. E a tragédia é que eles provavelmente estão certos.

Os dados e argumentações acima estão no livro “Enfrentando o Antropoceno”, de Ian Angus.

Leia também: Capitalismo fóssil: só danos, sem redução

8 de outubro de 2024

Capitalismo fóssil: só danos, sem redução

Desde o século 19, a relação entre o crescimento do capitalismo e o aumento das emissões de gases de efeito estufa tem sido muito estreita. Esses gases liberam muito carbono na atmosfera devido ao uso excessivo de combustíveis fósseis.

Combustíveis fósseis estão presentes na produção de alimentos, roupas, moradias, aquecimento, remédios, transporte, comunicações, entretenimento e muito mais. O capitalismo nasceu e sempre foi fóssil, afirma Ian Angus em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”.

Estudos realizados por diversos grupos ambientalistas demonstram que é perfeitamente plausível uma transição completa para combustíveis renováveis e sem carbono. Mas a um custo estimado em US$ 100 trilhões. Muito caro?

Durante a Segunda Guerra, foram produzidos cerca de 6 mil navios, 850 mil aviões, 5 milhões de tanques, 8 milhões de armas de grande porte e as bombas atómicas. Tudo em apenas seis anos e ao custo de muitos trilhões de dólares. O mesmo esforço poderia ser feito em relação à troca das matrizes energéticas? Sim, mas não sob o capitalismo.

O fato é que os combustíveis fósseis são a força motriz que garante ao capitalismo lucros nos níveis necessários para sua reprodução. O problema é que essa reprodução beneficia apenas uma pequena maioria e ainda causa os mais terríveis efeitos colaterais para o restante de nós. É só olhar em volta para constatar isso.

O capital é viciado em lucros e dependente de petróleo, gás e carvão. Mas quem sofre com essa relação patológica é a imensa maioria da humanidade. Ficamos com cada vez mais danos, sem qualquer redução. O capitalismo é uma droga de que precisamos nos livrar urgentemente.

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4 de outubro de 2024

O ambientalismo militar dos Estados Unidos

Em seu livro “Enfrentando o Antropoceno”, Ian Angus informa que o orçamento militar dos Estados Unidos em 2013 foi de 1,7 bilhões de dólares. Cerca de 130 vezes mais do que os gastos com programas humanitários ou com medidas de prevenção contra as alterações climáticas.

É impossível determinar o impacto dos gastos bélicos estadunidenses sobre as alterações climáticas, porque as emissões militares foram excluídas do Acordo de Quioto. Mas estima-se que um milhão de barris de petróleo por dia é “um número seguro e até conservador”. Isso seria suficiente para aumentar o total das emissões dos Estados Unidos em escandalosos 5%.

Basta dizer que 70% do peso de todos os soldados, veículos e armas norte-americanos compõe-se de derivados de combustível fóssil. Ou seja, o exército estadunidense é altamente inflamável. Principalmente quando suas bombas incendeiam cidades, aldeias e vilarejos pelas periferias do mundo.

Mas o governo estadunidense está preparado para os problemas ambientais desde 2003. Durante a administração Bush, o Pentágono fez um estudo intitulado “Um cenário abrupto de mudanças climáticas e suas implicações para a segurança nacional”. Segundo o documento, os Estados Unidos provavelmente poderiam sobreviver a ciclos de cultivo menores e condições climáticas adversas sem perdas catastróficas. Desde que as fronteiras sejam reforçadas em todo o país para conter imigrantes famintos indesejados vindos do Caribe, México e América do Sul. E o fornecimento de energia seja reforçado através de alternativas como energia nuclear, energias renováveis, hidrogénio e contratos exclusivos com o Oriente Médio.

Claro que tudo isso vai depender de muita força bélica. Ou seja, o militarismo estadunidense tanto causa como reforça o apocalipse ambiental.

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18 de julho de 2024

O apocalipse na sala de estar

“Os fundamentos míticos do capitalismo” é o título de um artigo muito interessante recentemente publicado por Gil-Manuel Hernández i Martí, professor da Universidade de Valência. O autor relaciona uma série de mitos da tradição ocidental a temas como capitalismo, antropocentrismo e aquecimento global.

Além disso, apresenta o conceito de “capitalismo catabólico”. Catabolismo, diz Martí, refere-se a “mecanismos metabólicos de degradação através dos quais um ser vivo devora a si mesmo”.

Ao canibalizar-se, afirma, “o capitalismo catabólico transforma a escassez, a crise, o desastre e o conflito numa nova esfera de obtenção de lucro. Ou seja, a mercantilização do apocalipse acaba gerando lucrativas expectativas de negócios”.

Parece um pouco complicado. Mas outro conceito talvez possa ajudar. Trata-se do termo “realismo capitalista”, criado por Mark Fisher e descrito por Martí como “uma condição cultural e política em que o capitalismo permeou tão profundamente a sociedade que é percebido como a única forma possível de organizar a vida. Assim, mesmo quando as pessoas reconhecem os problemas e os fracassos do capitalismo, é-lhes difícil imaginar e trabalhar alternativas significativas, devido à hegemonia esmagadora do pensamento capitalista”.

Em outras palavras, o capitalismo matou o futuro, enquanto vai destruindo o presente. Para não falar na transformação do passado em uma maçaroca de episódios soltos e isolados. Tudo isso agravado pelo caos informacional que a extrema direita vem colocando a serviço do sistema que afirma combater.

Talvez, uma imagem que consiga traduzir toda essa confusão seja a que ilustra esta pílula. Afinal, nada mais esclarecedor dos tempos atuais que colocar à venda a explosão de uma bomba atômica como objeto de decoração.  

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27 de maio de 2024

O apocalipse é lucrativo demais para ser adiado

Uma das séries de maior sucesso em exibição atualmente é “Fallout”. Adaptação de um videogame de sucesso, ela tem como cenário um mundo destruído por guerras nucleares.

A radiação mata e adoece gravemente todos os habitantes do planeta, exceto uns poucos privilegiados que vivem em refúgios subterrâneos vendidos pela empresa Vault Tec.

Bem antes das guerras devastadoras, os executivos da Vault Tec apostaram nos enormes lucros decorrentes da venda de bunkers em uma situação de apocalipse nuclear. O problema é que o evento tardava a acontecer e as vendas despencavam. A oportunidade não podia ser desperdiçada e a empresa providenciou para que não fosse.

Fora do mundo das séries e games, a realidade é um pouco mais sutil e complexa. Mas a lógica parece ser a mesma. Poderosos trilionários fabricam foguetes e idealizam colônias espaciais e interplanetárias como refúgio para o fim do mundo.

Mas uma guerra nuclear traria consequências imprevisíveis. Mais eficiente é apressar o aquecimento global. Seus efeitos são mais graduais e tudo indica que pouparão os poucos ultraprivilegiados do mundo e seus auxiliares de luxo infiltrados nos governos.

Nenhum desses trilionários e seus serviçais vai para o espaço. Preparam bunkers para seu próprio uso e daqueles poucos que podem pagar.

Enquanto isso, automóveis elétricos engrossam o trânsito das grandes cidades. Enormes redes varejistas turbinam ainda mais o consumismo gerador de lixo e de ocupações sub-remuneradas. Imensos monopólios de informação semeiam o caos nas relações sociais. Combustível fóssil continua queimando, vegetação virando carvão, cidades inteiras são inundadas, rios são envenenados...

Não há tempo a perder. O apocalipse é lucrativo demais para ser adiado.

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