Doses maiores

27 de setembro de 2023

Ludismo e capitalismo de plataformas

“Movimento radical de resistência operária surgido na Inglaterra no século 19, promovendo a destruição de máquinas fabris”. Esta é uma resposta-padrão quando se busca por “Ludismo” na internete.

Mas desde que Edward Palmer Thompson abordou o fenômeno em seu livro “A formação da classe operária inglesa”, sabemos que o movimento foi bem mais que isso.

Segundo o historiador inglês, a luta ludita era contra a liberdade dos capitalistas de destruir tradições da vida produtiva, seja através de novas máquinas ou pela concorrência predatória, que arruinava pequenos negócios e achatava salários.

Os industriais que construíram sua fortuna por estes meios eram vistos pela maioria dos trabalhadores como alguém envolvido em práticas imorais e ilegais.

Thompson esclarece que os luditas defendiam uma comunidade democrática, na qual o crescimento industrial seria regulado de acordo com prioridades éticas e a procura do lucro subordinada às necessidades humanas.

Estamos em um momento em que se destroem empregos em alta velocidade. A experiência ludita pode ser importante, não pela destruição de máquinas, até porque muitas das ferramentas usadas para eliminar ocupações são aplicativos quase sem materialidade.

Os ludistas participaram da vanguarda das lutas que levaram à limitação da jornada diária de trabalho a dez horas, na Inglaterra. Para Marx, uma conquista em que, pela primeira vez, “a economia política da burguesia sucumbiu à economia política da classe operária".

É disso que se trata. Ficarmos atentos para lutas que possibilitem vitórias da economia política dos trabalhadores. Provavelmente, envolvendo força de trabalho explorada pelo capitalismo de plataforma, como entregadores e motoristas de aplicativos, empacotadores de gigantes varejistas, programadores e outros proletários digitais.

Leia também: A luta contra a exploração digital

2 comentários:

  1. Muito interessante. Enquanto lia ia pensando em como tratar hoje em dia, por exemplo, IA e outras tecnologias de ponta. Como diz, não dá para destruir materialmente as máquinas porque elas não tem esse tipo de materialidade, mas podemos impedir que ela se reproduza como foi a greve dos escritores de Hollywood. Um novo momento, de uma mesma luta contra o capital, que como cita, coloca a tecnologia para destruir vidas, cabe reverter esse processo como os luditas fizeram. Não pude resistir à similaridade das palavras: não como os lulistas. Bjs.

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    1. Rsss. Ludismo não é lulismo. Muito ao contrário. Mas há quem defenda a militância hacker como um novo ludismo. Pode até ser, mas acredito que não como principal frente de atuação. Esta tem que estar centrada na atividade o mais amplamente coletiva.

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