Doses maiores

7 de dezembro de 2010

Wikileaks: o capitalismo vaza. E fede

O assunto do momento é o Wikileaks, site dedicado ao vazamento de documentos governamentais secretos. Desde julho, já foram revelados quase 350 mil papéis. A Secretária de Estado americana, Hillary Clinton, disse que se trata de “um ataque ao mundo”. A cúpula sobre mudanças climáticas do México estaria sendo afetada pela divulgação dos documentos. Julian Assange, fundador do Wikileaks, acaba de ser preso em Londres sob acusação de crimes sexuais.

Nada disso parece ser o que aparenta. É verdade que o mundo vem sofrendo os ataques de que fala a Sra. Clinton. Mas, os documentos vazados revelam que seu maior autor é o governo que ela representa. São milhares de telegramas e memorandos cheios de instruções para espionar, caluniar, mentir, omitir, atacar, sabotar. Seus alvos principais: governos rebeldes, movimentos sociais e partidos de esquerda.

O vazamento de documentos oficiais sobre a questão climática seria uma boa desculpa para justificar a impossibilidade de que se chegue a algum acordo decente. A prisão de Assange também é muito suspeita. Assim como é errado considerá-lo um terrorista anarquista e irresponsável.

Assange já disse que é a favor dos mercados. Além disso, o Wikileaks vem mantendo uma parceria informal com cinco grandes publicações mundiais: "Times", "Guardian", "Der Spiegel", "Le Monde" e "El País". Jornalões que nada têm de anarquistas ou terroristas. Tudo indica que o perigo representado por Assange é sua própria crença de que no capitalismo pode haver liberdade de expressão.

A avalanche de informações continua sendo administrada pelas grandes corporações da mídia. Difícil é esconder seu fedor. Já vale alguma coisa.

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6 de dezembro de 2010

Carta ao século 16: imagens vazias

Irmãos, cá estou. Ainda, no século 21. Cada vez mais espantado com os costumes desta época. Há algum tempo fui levado para o centro de uma de suas grandes cidades. Esqueçam nossos maiores burgos. Não passam de vilarejos se comparados ao menor dos ajuntamentos urbanos por eles chamados de metrópoles.

Dentre muitas outras de suas maravilhas, é impressionante a onipresença de imagens pela urbe. Ruas, praças, fachadas de edifícios, paredes em geral, veículos, postes, cercas. Quase tudo coberto de cartazes coloridos. Quase todos, retratando homens e mulheres bonitos, brancos e sorridentes. Aliás, bastante distintos da população que por entre eles circula.

Diante disso, indaguei um contemporâneo desta época cheia de maravilhas excêntricas. Questionei-o sobre os segredos que se escondem sob tais imagens? Afinal, em nosso tempo, as criações pictográficas requeriam um grande esforço de interpretação. Lembro de Piero della Francesca e suas pinturas cheias de enigmas. O ovo de avestruz sobre a cabeça da Virgem em “A Sacra conversação”. O “Flagelo de Cristo” e a dúvida sobre quem seriam os cavaleiros que se apresentam em primeiro plano.

Pensei que tamanha profusão de representações também guardasse seus segredos. Mais do que isso, fossem provas de que finalmente a figura humana tornara-se central em nossa civilização. Evidências de que o humanismo finalmente triunfara sobre o obscurantismo fanático das igrejas.

Mas não é o que meu interlocutor acabou por me explicar. Disse-me ele que as imagens que vi por todos os lados pouco significam. Não são mais do que anúncios para vender coisas. Longe da celebração do humano, representam um novo fanatismo. São cultos estéreis prestados a simples mercadorias.

Leia também Carta ao século 19: selvagem igualdade

3 de dezembro de 2010

Pro dia nascer feliz, em Manari

Em 2006, João Jardim lançou o documentário “Pro dia nascer feliz”. O filme acompanha o sistema educacional brasileiro desde a miséria dos sertões até o ensino dirigido aos filhos das famílias mais ricas do País. Mostra que em todos esses níveis é difícil ver alguma coisa que possa ser chamada de pedagogia. Ou seja, a formação de indivíduos capazes de desenvolver plenamente seus potenciais criativos e sociais.

O documentário poderia levar o espectador mais sensível ao desespero. Mas, esse sentimento dá lugar à esperança que surge da grande capacidade de resistência dos jovens envolvidos. Entre eles, Valéria Fagundes, nascida no município pernambucano de Manari, o mais pobre do Brasil. A produção de Jardim mostra a talentosa jovem de 17 anos enfrentando a dura realidade sertaneja com ajuda da leitura de Vinícius, Bandeira e Drummond. Transformando sua determinação em belos textos poéticos, cheios de sensibilidade e coragem.

Quatro anos depois, Valéria continua na luta. Faz faculdade de jornalismo em Recife. Não esquece sua sofrida Manari. A vida melhorou um pouco por lá. A exposição na mídia como cidade mais pobre do País trouxe algum investimento. Nada que modificasse muito a situação. É isso que Valéria quer mostrar em um documentário que está dirigindo. Mas não só. Ela diz que seu lugar de nascimento tem muitas e belas histórias para contar.

Lá, de onde menos se deveria esperar, é que surgem as mais bonitas certezas. Entre elas, aquela que cantou Cazuza. “Pro dia nascer feliz” não se pode ter medo de viver “por um triz”.

Leia mais em http://www.cartacapital.com.br/cultura/manari-por-ela-mesma

Sobre o documentário de João Jardim: Pro dia nascer feliz, quando parece impossível

2 de dezembro de 2010

COP-16 reúne manda-chuvas desastrados

A Conferência da ONU sobre Mudança Climática (COP-16) está em andamento no México. Os temas principais são o aquecimento global e problemas climáticos. Mas as pessoas comuns estão mais acostumadas com os boletins meteorológicos. Previsões diárias, famosas por sua grande margem de erro. De fato, a ciência do clima é tão complexa que inspirou a teoria do caos.

No entanto, os meteorologistas da imprensa falam do clima como se funcionasse em função da raça humana. Dizem “tempo instável”, “tempo bom”, “dia ruim”, etc. Instável, bom, ruim em relação ao quê e a quem? Chuvas, tempestades, raios, céu sem nuvens, são parte do sistema do planeta. Se causam aborrecimentos ou alegria para uma de suas espécies, pouco importa. Os fenômenos climáticos estavam por aí muito antes de nós. Devem continuar funcionando a seu jeito, depois que desaparecermos.

Ao mesmo tempo, é comum a utilização de imagens climáticas para descrever as incertezas da economia: "turbulências no mercado financeiro" ou "nuvens escuras no horizonte da economia". Quando se fala em crises econômicas, as previsões costumam ser tão inseguras quanto as dos boletins meteorológicos. Ora, crises econômicas são produto das relações humanas. Deveria estar a nosso alcance sua prevenção ou controle.

O fato é que os problemas que o clima nos causa estão diretamente relacionados à forma como a humanidade organiza sua produção no planeta. Talvez, o clima não seja caótico. O caos causado pelo capitalismo é que não combina com o meio em que vivemos.

Os dirigentes reunidos na COP-16 não vão resolver esse problema. Representam o capitalismo caótico. Falam em nome dos manda-chuvas mais desastrados da história humana.

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1 de dezembro de 2010

China e Estados Unidos: uma encrenca só

Em Cancún, no México, está começando a Conferência da ONU sobre Mudança Climática. Novamente, não deve haver avanços no estabelecimento de metas para redução dos gases que provocam mudanças climáticas.

Um dos maiores obstáculos para um acordo é um impasse entre Estados Unidos e China. Esta última só admite reduzir sua emissão de poluentes se os americanos derem o exemplo. Os Estados Unidos dizem que até fariam sua parte, mas desconfiam da transparência dos dados chineses. Tudo isso é conversa fiada. Essa briga é só a ponta de uma encrenca muito maior.

A verdade é que o parque industrial da China é multinacional. O grosso dos lucros de sua enorme produção vai para grandes empresários do mundo todo. Magnatas que transferiram seus negócios para lá. Muitos deles, americanos. Ao mesmo tempo, as compras chinesas movem as economias de meio mundo. Por fim, boa parte dos papéis da enorme dívida americana está aplicada em negócios chineses.

Uma diminuição do ritmo de produção na China poderia paralisar o comércio mundial. Também reduziria a remessa de lucros para a já enfraquecida economia estadunidense. O governo americano seria levado a emprestar mais a seus empresários. Sua dívida chegaria a níveis próximos do calote. E o calote afetaria a economia chinesa.

Enquanto isso, os problemas ambientais se acumulam. A vida humana no planeta vai chegando a níveis insustentáveis. E apenas uns 120 milhões dos 6 bilhões de membros da família humana lucram algo com isso tudo. Enfim, uma encrenca em que só o capitalismo poderia nos meter. E da qual não tem como nos tirar.

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