Doses maiores

5 de fevereiro de 2015

DOI-Codi: uma vovó rejuvenescida

Os carrascos do DOI-Codi gostavam tanto do que faziam que batizaram seu local de “trabalho” de “Casa da Vovó”. Este também é o título do livro recém-lançado pelo jornalista Marcelo Godoy sobre um dos maiores centros de repressão da ditadura militar.

Outro apelido para o lugar era “açougue”. Bastante adequado, pois em suas dependências, pelo menos 66 pessoas morreram e 39 foram torturadas. Número admitido pelos 25 agentes da repressão entrevistados pelo autor.

Godoy também cita a influência da doutrina de segurança francesa sobre o aparato repressivo nacional. Segundo essa concepção surgida no combate aos revolucionários argelinos, a guerra contra a subversão deve começar não a partir do primeiro tiro disparado, mas do primeiro panfleto distribuído.

Baseada nesse princípio, a repressão da ditadura castigou não apenas a oposição armada, mas qualquer um que divulgasse ideias ou intenções não aceitas pelo regime. Uma evidência clara do caráter fascista e covarde das ações cometidas pelos carrascos militares.

Godoy também cita algumas práticas aperfeiçoadas pelo DOI-Codi que continuam até hoje. Agora, castigam principalmente pobres e pretos, maiores vítimas das execuções e torturas cometidas pela polícia.

Mas, há pouco tempo, reapareceu outro mecanismo fascista daquela época que estava esquecido. Foi colocado em uso durante a prisão ilegal de dezenas de manifestantes, processados por participar dos protestos iniciados em junho de 2013.

Entre as “evidências” apresentadas contra os acusados, estão escutas telefônicas, camisetas, revistas, livros, panfletos... Enfim, intenções e ideias.

Meio século depois, a vovó não só continua firme, como rejuvenesceu ao rever sua antiga amiga, a doutrina francesa. Um reencontro gentilmente promovido por seus novos netos e afilhados.

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A volta da “austeridade” que nunca foi embora

Em 01/02, o insuportável William Waack apresentava mais um “Globo News Painel”. O tema era “Políticas de austeridade e seus efeitos”. Os convidados, como quase sempre acontece, eram especialistas ligados ao mercado e acadêmicos fãs dele.

Durante uma discussão sobre semelhanças entre Brasil e Grécia, todos concordaram quanto às diferenças entre as situações econômicas dos dois países. Mas um dos participantes, o economista Paulo Rabelo de Castro, sugeriu que aqui, como lá, medidas de austeridade já vêm sendo adotadas há muito tempo.

Segundo Rabelo, a política econômica é a mesma desde FHC. Trata-se da combinação superávit primário e juros altos. E citou a contribuição petista para a continuidade dessa história. Há dez anos, disse ele, o Brasil vem mantendo uma média de 3% do PIB destinado ao superávit primário. Algo que nenhuma economia do mundo fez, garantiu.

O superávit primário representa uma enorme sangria dos recursos públicos. São cerca de R$ 67 bilhões embolsados anualmente por 20 mil famílias através dos títulos da dívida pública brasileira. O Bolsa-Família paga R$ 25 bilhões a 14 milhões de famílias.    

Rabelo é presidente da SR Rating, uma agência de avaliação de risco. Também afirmou ter se formado na mesma escola que Joaquim Levy, o atual campeão das medidas de austeridade do governo Dilma. Nem um pouco inclinado a radicalismos esquerdistas, portanto.

Já a realidade, esta, sim, é radical. Em 2014, o setor industrial sofreu queda de 3,7%, mas o bancário cresceu 18%. Mesmo assim, os governistas continuam dizendo que Dilma descontentou os banqueiros. E a oposição afirma que precisamos de mais austeridade. Caminham separados na mesma direção.

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3 de fevereiro de 2015

O orgulho de ser gay e anticapitalista

Há filmes que surpreendem pela capacidade de nos deixar otimistas. “Orgulho” (“Pride”), de Matthew Warchus, é um deles. A trama é relativamente simples, mas envolve situações muito complexas.

Trata-se da história de um coletivo gay que decide apoiar trabalhadores em greve nos anos 1980, na Inglaterra. Mais especificamente, os mineiros que, em 1984, iniciaram uma paralisação que duraria dois anos.

O movimento grevista não envolvia apenas salários ou condições de trabalho. Seu maior objetivo era impedir que o neoliberalismo de Margareth Thatcher triunfasse, destruindo sindicatos e empregos.

O problema é que o preconceito impedia as lideranças dos mineiros de aceitar a ajuda dos ativistas homossexuais. A aliança somente se consolidaria em uma pequena cidade próxima a Londres. Lá também os gays foram recebidos com hostilidade. Mas contando com a ajuda das mulheres do lugarejo, conquistaram a tão necessária unidade de classe entre explorados e oprimidos.

As contradições são mais agudas porque os homossexuais também passavam por um momento terrível. As inúmeras mortes que a AIDS começava a causar eram comemoradas como manifestação do castigo divino pelos conservadores. Infelizmente, entre estes últimos também estavam muitos trabalhadores. Daí, a resistência de muitos gays em apoiar os grevistas.

O filme aborda, de modo direto e claro, o enorme desafio que é unir a luta contra a exploração com o combate à opressão. No caso desta produção baseada em fatos reais, o final é emocionante e capaz de enternecer até os mais amargos corações socialistas. 

O filme parece não ter marcado presença nos cinemas brasileiros. Mas vale a pena procurá-lo na internete. Dá orgulho de ser gente.

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Abram alas para o capital estrangeiro na Saúde

Muito antes do carnaval, já havia gente usando máscaras. E, justo agora, que a folia se aproxima, resolveu deixá-las cair.

O exemplo mais recente foi a sanção da Medida Provisória 656 pela presidenta Dilma. O caso ganhou repercussão devido ao veto à imoral renegociação das dívidas dos clubes de futebol embutida na MP.

Mas pouco se falou de outro artigo da MP, aceito sem maiores problemas. Trata-se da abertura do setor de saúde ao capital estrangeiro. Uma medida inconstitucional e extremamente negativa para a saúde pública do País.

O governo alega que o capital estrangeiro já vem participando do setor há muito tempo. A nova lei teria apenas regulamentado uma situação de fato. É verdade. É o que mostra, por exemplo, a entrada no Brasil dos grupos Carlyle e UnitedHealth. E este último já chegou comprando a Amil.

O problema é que esta invasão de dinheiro forasteiro já deveria ter sido questionada pelas autoridades por sua total ilegalidade. Ao invés disso, preferem usá-la para dizer que, arrombada a porta, deixemos que os invasores fiquem à vontade. Quem sabe, até aceitem um cafezinho.

Como se aproxima mais uma folia momesca, só nos resta cantar como sugeriu Márcio Amaral. O médico, militante em defesa da saúde pública e vice-diretor IPUB-UFRJ, puxa o coro:


Ô Abre alas para o CAPITAL
Ô Abre Alas para o CAPITAL
Se é estrangeiro, isso não faz mal (E)
Pouco me importa se é INCONSTITUCIONAL!
(Repete e substitui o último verso por)
Nesse governo só tem CARA DE PAU!
 
O pior é que por debaixo das máscaras que já caíram parece haver muitas outras.

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2 de fevereiro de 2015

Um oásis libertário e feminista na Síria

Na cidade de Kobane, região da Rojava, no norte da Síria, há um oásis de luta libertária. Ele surgiu quando seus habitantes expulsaram os representantes da ditadura Assad da cidade, em 2011. A partir daí, foram criadas assembleias populares e conselhos compostos paritariamente por curdos, árabes, assírios e armênios cristãos. Todos com representação feminina garantida. Trata-se de uma espécie de comuna anarquista, que tenta armar todos os seus membros para não precisar de polícia, exército e muito menos de um Estado.

Além disso, em pleno mundo islâmico, foi formado o exército feminista “União de Mulheres Livres – Estrela”. Suas integrantes foram responsáveis por grande parte das operações que expulsaram as temidas forças do Estado Islâmico de Kobane, em janeiro passado. Para os “jihadistas”, a derrota foi desastrosa porque desmentiu sua fama de invencibilidade. Mas foi ainda mais doloroso perder para mulheres, a quem desprezam e querem ver oprimidas e não utilizando armas com grande habilidade.

Infelizmente, essa corajosa iniciativa revolucionária deve atrair inimigos de todos os lados. Além dos Estado Islâmico e as potências da região, como a Turquia, também os membros da OTAN. O objetivo da guerra na Síria é substituir uma ditadura por outra. Não permitir que surjam e prosperem comunas libertárias. A experiência curda lembra a Comuna de Paris, o início da revolução dos sovietes e a resistência espanhola contra o fascismo.

Talvez, possa se mostrar tão fundamental como essas outras experiências históricas. Mesmo derrotadas, elas deixaram conquistas que incomodam os poderosos até hoje. Que o oásis curdo faça florescer muitos jardins nos desertos de injustiças em que vivem os povos do mundo.

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