Doses maiores

31 de outubro de 2011

Até Machado achava escola um saco

Para cúmulo do desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do Morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que boiava no ar, uma coisa soberba. E eu na escola, sentado, com o livro de leitura e o livro de gramática nos joelhos.

O trecho acima pertence ao “Conto de escola”, de Machado de Assis. Logo ele, cuja leitura obrigatória torna as aulas ainda menos atraentes para crianças e adolescentes.

O conto representaria o que realmente pensava o grande escritor sobre a vida escolar. Pelo menos é o que diz Arnaldo Niskier, em reportagem de Sérgio Pugliese na coluna “A pelada como ela é”, publicada em 29/10 no “O Globo”.

E olha que na época de Machado não havia TV, rádio, internete, mp3, shopping, videogame, etc. Mesmo sem todas essas tentações, a escola já conseguia ser chata.

Segundo Michel Foucault, a escola é produto da mesma lógica que criou prisões, hospitais, manicômios e fábricas. Instituições pertencentes ao que o filósofo francês chamou de “sociedade disciplinar”, a partir do século 18.

Para Foucault, esse poder disciplinar nasceu da transferência do poder dos monarcas para burocratas que se espalham pelas várias instituições sociais. Desse modo, o poder teria se transformado em micropoderes. O perigo dessa visão é perder de vista estruturas que não têm nada de micros, como as pertencentes ao Estado. Mas tanto Foucault, como Machado valem várias leituras.

Para ler o conto de Machado de Assis, clique aqui.

Leia também: Queremos a preguiça de Deus

30 de outubro de 2011

A fantástica fábrica de novelas

O jornal Valor de 28/10 lembrou os 60 anos de telenovela no Brasil. A primeira foi ao ar em dezembro de 1951, pela TV Tupi. Mas o destaque da reportagem foi a Globo, atual potência em termos de teledramaturgia no País. A matéria traz dados e informações impressionantes. Por exemplo:
...as roupas usadas nas tramas das telenovelas da Rede Globo nunca têm a aparência de que acabaram de sair da loja (...). [Elas] são lavadas com uma substância que tem tonalidade cinza, secadas e passadas para convencer o telespectador de que o figurino faz parte de um mundo real, palpável e próximo.
A produção cenográfica também é espantosa. A reportagem cita a Galeria do Rock, que fica na capital paulista e é cenário da novela "Tempos Modernos":
Muita gente queria saber em que horário eram feitas as gravações - nas madrugadas ou aos domingos? Nada disso. A cenografia construiu uma réplica do centro comercial alternativo paulistano. Absolutamente todas as fachadas das lojas foram reproduzidas, com seus acervos de discos, camisetas, sapatos etc.
Alguns números:
- O principal estúdio da emissora é o Projac, que ocupa uma área de 1,65 milhão de metros quadrados.

- 6,5 mil pessoas circulam diariamente pelo Projac. Destas, cerca 6 mil são funcionários, prestadores de serviço, atores e figurantes.

- Todas as etapas de produção são integradas - pré-produção, gravação, pós-produção e atividades de infraestrutura - e resultam todo ano em 2,5 mil horas de programação - equivalentes a cerca de 1,2 mil filmes em longa-metragem.

- Cada novela conta com 160 cenários de estúdio, refeitos três vezes, o que dá um total de 480 unidades.

- Só em 2009, foram produzidas 60 mil peças cenográficas, entre elas 17 cidades. O acervo de figurinos soma 280 mil peças.

- Cada capítulo custa cerca de R$ 450 mil. Ao multiplicar por 180, chega-se a um custo de de R$ 81 milhões.

- Estima-se que o faturamento no horário das 21 horas chegue a R$ 300 milhões, sem contar a venda de novelas para outros países, como Portugal.
Como se vê, tanto investimento dá lucro. Ao mesmo tempo, a emissora funciona como um poderoso aparelho privado de hegemonia a favor da ordem. Fazendo cabeças com muita competência.

Por outro lado, trata-se de uma verdadeira fábrica, com um exército de trabalhadores. Já pensou uma greve? Ia ser um drama e tanto!

Leia texto de 2005 sobre o tema: Aos 40 anos, a Globo quer ser a senhora do destino

Leia também: Trabalhe de graça pra Globo

27 de outubro de 2011

O problema do PCdoB é a extrema direita

O ministro dos Esportes, Orlando Silva, finalmente caiu. Apesar disso, as denúncias que o atingiram não foram provadas até agora. Seu partido diz que o caso todo não passa de sabotagem da direita. Na verdade, a grande responsável é a extrema direita.

O novo titular da pasta é Aldo Rebelo. E uma das primeiras personalidades a parabenizá-lo foi a senadora Kátia Abreu. Trata-se da presidenta da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, entidade que representa o agronegócio nacional. Ou seja, o setor mais truculento da conservadora classe dominante brasileira.

A senadora usou seu twitter para declarar o seguinte sobre o novo ministro: “Aldo Rebelo faz parte de um time do bem! Parabéns ao governo pela escolha”. Não deixa de ser um reconhecimento merecido. Afinal, Rebelo se uniu à bancada ruralista para alterar o Código Florestal. Uma proposta que pretende acabar de vez com leis que mal conseguem proteger o meio ambiente.

Rebelo também merece ser lembrado por sua atuação na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara Federal. Em 18 de outubro, ele se uniu ao fascista Jair Bolsonaro em votação contra um projeto pela revisão da Lei da Anistia. A proposta pretendia permitir o julgamento de torturadores da ditadura militar. Rebelo colaborou para manter impunes carrascos que executaram dezenas de corajosos membros de seu próprio partido.

Tudo indica que a extrema direita realmente vem sabotando o PCdoB. Mas de dentro para fora.

Leia também: A salsicha de Aldo Rebelo

26 de outubro de 2011

Karaokê no século 17

Prezados amigos do século 19, sabeis como admiro a vida dos habitantes do século 21. Mas, por vezes, sinto que eles mesmos parecem se deslumbrar demasiadamente com sua própria época.

É o caso do entusiasmo com que alguns falam sobre as possibilidades criativas de seus avançados meios de comunicação. Uma delas é o “hipertexto”. Trata-se de textos que podem ser lidos, e modificados por várias pessoas através de ágeis redes de comunicação. Algo que eles chamam de “meio interativo”. É um assombro, sem dúvida alguma.

No entanto, fez me lembrar da utilização da escrita manual antes da popularização da imprensa no século 16. Diferente do texto impresso, o manuscrito acabava por passar por vários copistas. Nesse percurso ia sendo modificado. Digam-me se isso também não pode ser chamado de “meio interativo”? E com a vantagem de não haver tantas preocupações com direitos autorais.

Outra invenção que encanta os viventes destes tempos é o que eles chamam de karaokê. Uma forma de diversão em que os participantes cantam acompanhando música e letra transmitidas por um aparelho. Tal prática não é tão nova assim. Na Inglaterra do início do século 17 era costume homens e mulheres se reunirem para cantar em tabernas. E nestes lugares, as letras das canções eram pintadas nas paredes para que todos pudessem cantar juntos.

Não contesto as evidentes diferenças tecnológicas. Mas, quem sabe, falte um pouco de informação histórica a muitos daqueles que pensam e teorizam sobre seu próprio tempo. Seria prudente que se deixassem encantar menos por experiências que, talvez, não sejam tão recentes assim. Falta-lhes mais informação e humildade.
(Com base no livro “Uma história social da mídia: de Gutenberg à Internet”, de Asa Briggs e Peter Burke).

Leia também Ao século 15: fossos e jacarés

Morre o editor dos quadrinhos inteligentes

Em 26 de setembro passado, morreu Sergio Bonelli. Infelizmente, ele era conhecido por poucos no Brasil. Principalmente, por quem gosta de quadrinhos que combinam inteligência com diversão.

Afinal não é sempre que se vê num gibi personagens que citam Durkheim. Ou aventuras do velho oeste que mostram como os "heróis" americanos massacraram os indígenas. São assim os quadrinhos italianos que Bonelli publicava.

Seu mais famoso personagem é o caubói Tex Willer. Mas foram outros títulos que se tornaram modelos da combinação entre ótimos roteiros, personagens marcantes e belos desenhos. Estamos falando de Ken Parker, Mágico Vento, Dylan Dog, Júlia Kendall, Martin Mystère e muitos outros. Alguns desses títulos, encontrados facilmente nas bancas.

Tudo isso sem falar na colaboração de Bonelli na divulgação de artistas como Hugo Pratt, Giancarlo Berardi, Ivo Milazzo, Milo Manara, Guido Crepax, Gianfranco Manfredi e Tiziano Sclavi.

Para conhecer um pouco sobre essa arte que é conhecida como “fumetti” em italiano, leia o texto abaixo:

Os inteligentes quadrinhos italianos