Doses maiores

30 de junho de 2014

Aos que pisam nossas flores

É famoso o poema que começa desse modo: “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor / do nosso jardim / E não dizemos nada / Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores”.

Essa peça poética costumava ser utilizada por setores de esquerda que se opunham a conciliações com a ditadura nos anos 1980. Dizíamos que quanto mais recuássemos, mais a ditadura nos arrancaria tudo até que chegasse a nos tirar “a voz da garganta”.

Os setores que acreditavam nisso fundaram o Partido dos Trabalhadores e a CUT. Foram aqueles que se recusaram a esmolar liberdades nos gabinetes. Preferiram as greves, o trabalho de base e a organização de grandes manifestações. Muitas vezes, sob ameaças de prisão, tortura e morte.

A manifestação anti-Copa realizada em 25/06, no Maracanã, foi dispersada a golpes de cassetete pela PM. A reportagem da Folha estava no local. Disse que “não havia nenhum tipo de confronto quando a PM agiu." Em São Paulo, o estudante da USP e militante de esquerda, Fábio Hideki Harano, foi preso sob falsas acusações.

Três décadas depois, avançamos muito. Mas aqueles que pisam flores não tiraram as botas de nossos canteiros.

O famoso poema costuma ser atribuído a Brecht ou Maiakovski. Na verdade, é do niteroiense Eduardo Alves da Costa. Mas a situação a que chegamos tem autoria confirmada. Governos estaduais e federal são igualmente responsáveis.

“Até que um dia,
 o mais frágil deles
 entra sozinho em nossa casa,
 rouba-nos a luz e,
 conhecendo nosso medo,
 arranca-nos a voz da garganta.
 E já não podemos dizer nada.”


27 de junho de 2014

A geopolítica invertida do futebol

Em “Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil”, José Miguel Wisnik discute uma curiosa inversão entre o mundo do futebol e as relações de poder no mundo. Citando Pierre Brochand, ele nota que:

... o mapa geopolítico do futebol inverte em boa parte a ordem das potências econômicas: Estados Unidos e Ásia são “minipotências” periféricas, Europa e América do Sul são “as superpotências consagradas”, e a África, graças ao futebol e só nele, uma potência emergente inserida simbolicamente “no jogo mundial do poder e da influência”.

A Copa em andamento parece dar razão a esta observação. Caíram Inglaterra, Espanha, Itália, Portugal. Ficaram times como Colômbia, Costa Rica, Nigéria e Argélia. As antigas colônias desbancando ex-metrópoles.

Por outro lado, surpreendeu a classificação dos Estados Unidos. Afinal, em território estadunidense o futebol está longe de fazer sucesso. Um dos motivos para essa antipatia em relação ao esporte seria a anemia de seus números. Em 90 minutos de jogo, são, no máximo, cinco ou seis gols. Muito diferente da enxurrada de pontos dos esportes americanos favoritos.

Então, o que explicaria a evolução do desempenho ianque, além da ação do acaso, que é exatamente um daqueles atrativos do futebol que o público estadunidense não compreende? Difícil saber, mas será que a presença de sobrenomes como González, Rimando e Bedoya na seleção americana não ajudariam a explicar?

A classificação americana bem que poderia ser uma pequena vitória contra o racismo ianque. Se for isso, aplausos para a façanha. Mas, dentro do campo, pode parar por aí. Que a maior potência mundial recolha-se a sua merecida insignificância futebolística.

26 de junho de 2014

A suruba eleitoral e quem já ganhou a Copa

No Rio de Janeiro, o candidato à reeleição, governador Luiz Fernando Pezão, tirou seu antecessor Sergio Cabral da disputa pelo Senado para lançar o ex-adversário Cesar Maia, do DEM. A chapa do PMDB já está sendo chamada de “Aezão”, devido ao apoio enrustido de Pezão a Aécio. O petista Lindbergh Farias quer o deputado Romário como candidato a senador. O ex-jogador é do PSB, de Eduardo Campos, adversário de Dilma.

A grande imprensa diz que se trata de uma orgia eleitoral, em que “ninguém é de ninguém”. Fácil falar assim. Dá a impressão de que eles, os políticos, só pensam neles. Mas por trás dessa suruba, estão poderosos cafetões. É só verificar como vão ficar as doações das empresas às diversas candidaturas e partidos. A disputa é pelo direito de melhor representar o poder econômico nos diversos postos executivos e legislativos.

Enquanto isso, a Copa já começou com ganhadores definidos. São os patrocinadores. Em primeiro lugar, a Nike, cuja marca representa 10 seleções na competição. Depois vêm Adidas e Puma, com oito equipes cada. Nas chuteiras, a Nike tem Neymar, Cristiano Ronaldo, o francês Franck Ribéry e o belga Eden Hazard. A Puma vai com David Luiz, Thiago Silva, o espanhol Fabregas, o francês Yaya Toure e o italiano Mario Balotelli. A Adidas tem Messi, Oscar, Daniel Alves, os uruguaios Suarez e Forlán e o alemão Özil.

Nada disso quer dizer que já está tudo decidido. Na Copa ou nas eleições, a competição vai ser tão dura quanto são poderosos os interesses. Mas nos dois casos, a minoria joga e decide. O resto fica torcendo.

24 de junho de 2014

Uma vaia pra Dilma, outra pra Gilberto Carvalho

Em 19/06, o Secretário-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, foi parar nas manchetes dos jornais. Em uma reunião com blogueiros, comentou o episódio das ofensas pesadas feitas a Dilma Roussef na abertura da Copa.

Carvalho afirmou que “no Itaquerão não tinha só elite branca”. Para ele, o descontentamento da elite, da classe média, está contagiando o povo. Algo a que o PT e o governo não teriam dado o necessário combate.

Nos bastidores do governo, a afirmação pegou muito mal. Mas em entrevista à Folha, publicada em 23/06, o Secretário se explicou melhor. Disse que a ideia era combater a ilusão “de que o povo pensa que está tudo bem”. Situação mais do que evidenciada pelas jornadas de junho de 2013.

Se o clima de Copa está abafando esse mal-estar e as manifestações estão menos volumosas, nada indica que os motivos que levaram milhões às ruas há um ano tenham desaparecido. É o que mostram, por exemplo, os números das pesquisas eleitorais em relação à candidatura petista.

Portanto, Carvalho só está fazendo uso da lucidez que a grande maioria de seus companheiros abandonou. Assustados com os questionamentos da população, atribuem seus problemas apenas a conspirações da poderosa elite e sua mídia e da minúscula e inofensiva oposição de esquerda.

Mas não nos enganemos. Na entrevista, Carvalho esclarece:

Mesmo aqueles que xingaram a Dilma, de maneira inadequada, eu os quero conosco. Quero fazer pontes, não jogá-los do outro lado, na mão de quem quer tê-los.

Aí está. Um dos petistas mais lúcidos pretende apenas renovar o compromisso com as elites. Úúúúúúú, Carvalho. Úúúúúúú, PT. 

23 de junho de 2014

Não tem Fla-Flu no Oriente Médio

O presidente do Irã não veio para a estreia de seu país na Copa. Não é que tenha adivinhado que o jogo não passaria de um zero a zero xoxo. As coisas é que ficaram ainda mais confusas no Oriente Médio.

Para ter uma ideia, os governos iraniano e estadunidense admitem algum nível de colaboração para ajudar o governo do Iraque. O país foi invadido por tropas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (Isis). Também conhecidos como “jihadistas”.

O Isis pretende fundar um ditadura sunita na região e ameaça passar por cima de quem se opuser. Entre estes, os xiitas, que governam tanto o Irã como o Iraque. Enquanto isso, os curdos aproveitaram a confusão para tomar o controle da província iraquiana de Kirkuk.

Os jihadistas surgiram em reação à invasão do Iraque, mas se fortaleceram na guerra civil síria. Provavelmente, receberam ajuda da Arábia Saudita. Mas também foram financiados pelos Estados Unidos, que quer o fim da ditadura síria. Agora, atravessaram a fronteira para derrubar o governo iraquiano.

Ou seja, se há um grande culpado nisso tudo, são os Estados Unidos. Eles apoiaram Bin Laden contra o imperialismo soviético no Afeganistão e ajudaram a criar a Al-Qaeda. Agora, fortaleceram o Isis e colocaram fogo no Oriente Médio novamente.

Mas nada autoriza a enxergar esses conflitos como uma espécie de Fla-Flu. Não é possível apoiar as ditaduras locais ou forças fundamentalistas porque não são aliadas dos imperialistas ocidentais. Muito menos, ficar ao lado do imperialismo chinês ou russo.

Qualquer possível resposta tem que surgir de baixo pra cima. Da organização revolucionária dos povos envolvidos.