Doses maiores

9 de novembro de 2015

Para bom entendedor, meia palavra bas...

Violência contra a mulher e racismo

Em um ano, morreram assassinadas 66,7% mais mulheres negras do que brancas no Brasil. Essa é uma das conclusões do Mapa da Violência 2015, divulgado em 09/11, pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso).

Além disso, de 2003 a 2013, os assassinatos de mulheres negras aumentaram 54%, enquanto as mortes violentas de mulheres brancas diminuíram 9,8%.

Já números de relatório divulgado em 05/11, pelo Departamento Penitenciário Nacional, do Ministério da Justiça, mostrou um aumento de 567% no número de mulheres presas no Brasil em 15 anos. A taxa representa mais de quatro vezes o crescimento geral de presos no País, de 119%. Detalhe adicional: duas em cada três presidiárias são negras.

Mar de Lama em Minas

Sobre o mar de lama que vem atingindo várias cidades de Minas Gerais a partir de Mariana, o governador daquele estado, Fernando Pimentel (PT), deu uma entrevista coletiva em 08/11.

Pimentel afirmou que “a empresa está cuidando do que ela é responsável", referindo-se à mineradora Samarco, responsável pela barragem que rompeu e destruiu um bairro inteiro.

Alguns detalhes adicionais: a coletiva de imprensa foi feita na sede da empresa Samarco. A Samarco faz parte de um grupo controlado pela Vale. E a Vale contribuiu com R$ 1,8 milhão para a campanha eleitoral de Pimentel.

Maconha e vinho

Gregório Duvivier sendo engraçado, na Folha, em 09/11: ”Se Jesus transformasse tabaco em maconha, teriam que proibir o vinho”.

Sem licitação

Em 08/11, Eduardo Paes declara sem qualquer graça ou vergonha, no Folhapress: “Obra olímpica 'secreta' é mais rápida sem licitação, diz prefeito do Rio”.

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8 de novembro de 2015

A ameaça de uma enorme derrota histórica

“Crise joga 3 milhões de famílias da Classe C de volta à base da pirâmide”, diz matéria de Márcia De Chiara e Anna Carolina Papp, publicada no Estadão em 31/10.

O texto cita estudo da Tendências Consultoria Integrada, mostrando que, entre 2006 e 2012, 3,3 milhões de famílias subiram das “classes D/E” para a “classe C”. Mas o mesmo levantamento estima que, até 2017, 3,1 milhões de famílias devem voltar à faixa de renda de onde saíram.

Justificariam essa projeção, previsões de recuo da economia, queda na massa real de rendimentos e desemprego galopante.

A reportagem traz uma observação importante de Maurício de Almeida Prado, da consultoria “Plano CDE”. Devido à “ascensão” por que passaram, diz ele, essas famílias formariam “um novo tipo de classe baixa: mais conectada, escolarizada e de certa forma até mais preparada”.

A questão é: preparada para quê?

Seria bom lembrar que a conquista de melhores condições de vida tende a ser muito menos gratificante que a decepção causada por sua perda.

A última vez que frustrações como essas se transformaram em revolta social foi em junho de 2013. E naquele momento, forças de direita conseguiram canalizar boa parte do forte ressentimento da população.

O trabalho dos conservadores foi bastante facilitado pela esquerda que está nos governos. Diante das manifestações, sua única resposta vem sendo mais repressão. Portanto, destes setores já não há mais nada a esperar.

Mas a maior parte da oposição de esquerda continua distante das ruas, priorizando a disputa de eleições, direções sindicais e outros aparatos burocratizados. Ou começamos a mudar isso radicalmente, ou sofreremos uma enorme derrota histórica.

Leia também: Um relato de dignidade contra a burocratização da esquerda

5 de novembro de 2015

A humanidade, entre o deserto e as estrelas

Na Alemanha, um grupo de astrônomos da Universidade do Ruhr conseguiu uma fotografia da Via Láctea. A imagem contém 46 bilhões de pixels e pode ser visualizada pelo site http://gds.astro.rub.de/.

Imaginemos que essa ferramenta online possibilitasse ao usuário observar o planeta Terra em detalhes. Poderíamos escolher visualizar o deserto do Atacama, no Chile. É lá que ficam os telescópios a partir dos quais foram feitas as imagens que viabilizaram a gigantesca foto.

Aumentando o zoom poderíamos ver grandes observatórios astronômicos. Mas, em torno deles, também notaríamos a presença de algumas pessoas vagando em meio às muitas rochas e poucos arbustos.

Aproximando ainda mais nossa lente virtual, notaríamos que são mulheres e que elas usam pequenas pás para revirar o terreno, levantando pedras e cavoucando o chão arenoso.

Se a ferramenta virtual também permitisse observar o passado, poderíamos encontrar os campos de concentração que foram construídos ali durante a ditadura Pinochet. Construções feitas para torturar e matar os que discordavam do regime.

Mas, hoje, os únicos sinais que sobram daqueles tempos tenebrosos são alguns restos mortais, preservados pelo ar seco do deserto. E são eles que aquelas mulheres procuram, tentando identificar parentes e companheiros “desaparecidos” pela ditadura.

Esta terrível história é contada no belo e triste documentário “Nostalgia da Luz”, de Patricio Guzmán. O filme mostra que nossa espécie continua muito indecisa.

Ainda precisamos resolver se vamos continuar a condenar mulheres a manter seus olhos voltados para o chão que molham com suas lágrimas, ou se vamos buscar nas estrelas e onde mais for possível o que nos pode fazer dignos dos mistérios do universo.

Um relato de dignidade contra a burocratização da esquerda

Licença para citar alguns trechos de uma carta de James Cannon a Theodore Draper, escrita em maio de 1959. Nela, o grande militante socialista estadunidense apresenta algumas das razões de sua ruptura com o Partido Comunista de seu país:

Eu tinha gradualmente me estabelecido numa posição segura como representante do partido, com um escritório e uma equipe de assessores, uma posição que eu poderia facilmente manter – desde que eu me mantivesse dentro de limites e regras definidos, sobre os quais eu sabia tudo, e conduzisse a mim mesmo com a facilidade e a habilidade que havia se tornado quase uma segunda natureza para mim nas longas e persuasivas lutas fracionais.
(...)
Eu vi a mim mesmo pela primeira vez como outra pessoa, um revolucionário que estava a caminho de se tornar um burocrata. A imagem foi terrível e eu me afastei dela com nojo.

Eu nunca enganei a mim mesmo sequer por um momento sobre as consequências mais prováveis da minha decisão de apoiar Trotsky no verão de 1928. Eu sabia que eu iria perder minha cabeça e também minha poltrona de couro, mas eu pensei: para o inferno — homens melhores do que eu arriscaram suas cabeças e perderam suas poltronas de couro pela verdade e pela justiça.

Sem mais, PT Saudações...

Leita também: Os partidos como máquinas burocráticas despolitizadas

3 de novembro de 2015

Eduardo Cunha e Asterix na Suíça

Autor de “A Suíça lava mais branco”, o sociólogo suíço Jean Ziegler lembra que sua terra-natal não tem recursos naturais ou indústria forte. Mesmo assim, é um dos países com maior renda per capita do mundo. “Isso só acontece porque a matéria-prima da Suíça é o dinheiro”, afirma.

Segundo ele, 27% da riqueza global está na Suíça. Grande parte dela vem “de fraudadores internacionais, dinheiro do crime ou dinheiro do sangue, que é como eu chamo o dinheiro das ditaduras”, conclui Ziegler.

Helvécia é como os antigos romanos chamavam a Suíça. Na aventura em quadrinhos “Asterix entre os helvécios”, o valente gaulês vai parar nesse país famoso por seus relógios de cuco e bancos com cofres sempre abarrotados.

Mas há também um costume estranho. São banquetes, em que os participantes formam filas em frente a um enorme caldeirão de queijo derretido. Cada comensal leva uma espada com um pedaço de pão na ponta que deve ser mergulhado no queijo e prontamente degustado.

Conforme vão comendo, os participantes ficam cada vez mais lambuzados. No final, uma grossa camada de queijo cobre a fila de uma ponta a outra, de modo que não é possível reconhecer mais ninguém.

É mais ou menos assim que funciona esse grande paraíso fiscal bem no meio da Europa. Como na fila do queijo derretido, correntistas poderosos aproveitam-se das confusas maçarocas que são as contas suíças para esconder suas fortunas.

Recentemente, um deputado brasileiro ganhou fama como um desses trambiqueiros. Mas é peixe pequeno, comparado aos tubarões do capital internacional. E são estes últimos que colocam no poder roedores como Eduardo Cunha.