O país mais poderoso do mundo é o maior devedor, também. Grande parte do dinheiro que circula no planeta é lastreada em títulos da dívida americana. Os bancos vivem de dinheiro gerado por dívidas privadas. O mercado de capitais nada mais é que o acúmulo de dívidas entre empresas e acionistas. Ações são débitos contraídos com base em valores muitas vezes superiores àqueles das mercadorias efetivamente produzidas.
Aparentemente, funciona assim: no capitalismo, a enorme maioria das pessoas cria valor através da venda sua força de trabalho para uma pequena minoria. Mas, o valor criado por essa maioria é muito maior do que aquele que ela mesma pode consumir. A minoria rica, por outro lado, não consegue gastar seus lucros astronômicos em consumo próprio. Reinveste quase tudo em mais produção.
Não pode funcionar. A tendência é produzir sempre mais mercadorias do que o mercado pode absorver. Daí, as freqüentes crises. Maiores ou menores, nestes ou naqueles ramos. Para evitá-las, a solução é vender a crédito. Ajuda, mas não soluciona. O volume de dívidas cresce mais rápido que a capacidade de sua quitação. Esse mecanismo está na raiz da crise imobiliária americana de 2008.
Quando a crise chega, os governos emprestam dinheiro aos empresários a juros generosos. Geram mais endividamento. Mais papéis para especulação. Os espertos capitalistas chineses sabem disso. Já possuem a maior parte da dívida americana. Estão comprando títulos de dívidas pelo mundo afora.
Nesse mercado, estamos entre os favoritos. Nossa enorme dívida pública paga os mais altos juros do mundo, concentrando muita renda e patrimônio.
Parece coisa de maluco, mas é só capitalismo. Insustentável.
Leia também Dívida pública: pirata e cara!
Blog de Sérgio Domingues, com comentários curtos sobre assuntos diversos, procurando sempre ajudar no combate à exploração e opressão.
31 de janeiro de 2011
28 de janeiro de 2011
Comodidade que mata de fome
Nicolas Sarkozy anda falando muito sobre crise alimentar. Chegou a insinuar que a alta nos preços dos alimentos estaria por trás da Revolução na Tunísia. Tenta desviar a atenção das desgraças causadas pelo imperialismo francês na vida do povo tunisiano.
Mas o verdadeiro alvo do presidente francês é o mercado de alimentos. Na reunião do G-20, ele defendeu a formação de estoques reguladores internacionais de alimentos. Não passa de uma tentativa de aumentar o controle dos países ricos sobre esses recursos.
A representação brasileira denunciou corretamente a proposta. Pena que o tenha feito para defender o agronegócio instalado por aqui e sob controle estrangeiro.
Mas, a ameaça é real. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) já havia alertado. Os preços mundiais de vários alimentos estão muito altos. A entidade teme a repetição da crise de 2007.
Não se trata de escassez. Em 2008, a safra mundial foi recorde. Mais de 2,2 bilhões de toneladas de cereais. Em 2009 e 2010, as safras foram só um pouco menores. Acontece que mais de 30% dessa produção viram ração animal. E uma parte cada vez maior torna-se agrocombustível.
Por outro lado, a especulação financeira só piora a situação. Uma safra ruim em um setor provoca fuga de investimentos para outros setores. Nestes últimos, a procura dispara e os preços também.
É uma crise de commodities, dizem os especialistas. Commodity é matéria-prima que pode ser estocada em grande quantidade e por longo prazo. Uma verdadeira comodidade para os capitalistas. Eles têm mais tempo para especular. Enquanto ganham bilhões, milhões morrem de fome.
Leia também: Queimadas mostram que não existe capitalismo verde
Mas o verdadeiro alvo do presidente francês é o mercado de alimentos. Na reunião do G-20, ele defendeu a formação de estoques reguladores internacionais de alimentos. Não passa de uma tentativa de aumentar o controle dos países ricos sobre esses recursos.
A representação brasileira denunciou corretamente a proposta. Pena que o tenha feito para defender o agronegócio instalado por aqui e sob controle estrangeiro.
Mas, a ameaça é real. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) já havia alertado. Os preços mundiais de vários alimentos estão muito altos. A entidade teme a repetição da crise de 2007.
Não se trata de escassez. Em 2008, a safra mundial foi recorde. Mais de 2,2 bilhões de toneladas de cereais. Em 2009 e 2010, as safras foram só um pouco menores. Acontece que mais de 30% dessa produção viram ração animal. E uma parte cada vez maior torna-se agrocombustível.
Por outro lado, a especulação financeira só piora a situação. Uma safra ruim em um setor provoca fuga de investimentos para outros setores. Nestes últimos, a procura dispara e os preços também.
É uma crise de commodities, dizem os especialistas. Commodity é matéria-prima que pode ser estocada em grande quantidade e por longo prazo. Uma verdadeira comodidade para os capitalistas. Eles têm mais tempo para especular. Enquanto ganham bilhões, milhões morrem de fome.
Leia também: Queimadas mostram que não existe capitalismo verde
27 de janeiro de 2011
Redes sociais não fazem revolução
Revolução na Tunísia. Protestos no Egito e na Argélia. Acontecimentos que há muito tempo não se via na região. Será que os povos árabes estavam esperando a invenção do Twiter? Ou do Facebook? A julgar pela grande imprensa, sim.
Como disse Judith Orr, editora do jornal Socialist Worker:
A Tunísia tem uma economia considerada dinâmica. Deve crescer quase 5% este ano. Mas, dados do FMI dizem que o país tem uma taxa de desemprego de 14%. O dobro disso para jovens até 25 anos.
A economia do Egito cresceu acima dos 7% nos últimos anos. Na última classificação do Banco Mundial sobre ambiente para negócios, o país subiu 5 posições. Mas 40% da população vive abaixo da linha da pobreza.
Tudo isso é fruto de políticas neoliberais aplicadas por ditaduras queridinhas do imperialismo europeu e estadunidense.
É verdade que as redes sociais vêm tendo seu funcionamento dificultado na região. Mas, é assim que ditaduras e governos ameaçados costumam reagir. Se preciso, fecham ou censuram meios de comunicação. Às vezes, até aqueles que são de sua confiança.
Claro que censurar a internete é bem mais difícil. Uma dificuldade que o capitalismo criou para si mesmo. Uma situação que devemos aproveitar. O problema é que quase tudo que circula nas redes sociais tem conteúdo conservador. Muito consumismo, preconceitos, ofensas, ignorância.
Redes sociais não fazem revolução. Em geral, atrapalham.
Um bom texto sobre a questão é A revolução não será tuitada, de Malcolm Gladwell
Leia também Facebook: solidões acompanhadas
Como disse Judith Orr, editora do jornal Socialist Worker:
Não devemos confundir um instrumento de luta com a luta em si. O Twitter não forçou Ben Ali a fugir do país que governou por 23 anos. Assim como não foram paredes pichadas ou folhetos que derrubaram o czar da Rússia em 1917.Dizer que as redes sociais tornaram possível as revoltas que vêm ocorrendo é um exagero proposital. Procura esconder as contradições concretas que levam povos a se rebelar. De acordo com as Nações Unidas, uma em cada três pessoas no mundo árabe vive abaixo da linha da pobreza.
A Tunísia tem uma economia considerada dinâmica. Deve crescer quase 5% este ano. Mas, dados do FMI dizem que o país tem uma taxa de desemprego de 14%. O dobro disso para jovens até 25 anos.
A economia do Egito cresceu acima dos 7% nos últimos anos. Na última classificação do Banco Mundial sobre ambiente para negócios, o país subiu 5 posições. Mas 40% da população vive abaixo da linha da pobreza.
Tudo isso é fruto de políticas neoliberais aplicadas por ditaduras queridinhas do imperialismo europeu e estadunidense.
É verdade que as redes sociais vêm tendo seu funcionamento dificultado na região. Mas, é assim que ditaduras e governos ameaçados costumam reagir. Se preciso, fecham ou censuram meios de comunicação. Às vezes, até aqueles que são de sua confiança.
Claro que censurar a internete é bem mais difícil. Uma dificuldade que o capitalismo criou para si mesmo. Uma situação que devemos aproveitar. O problema é que quase tudo que circula nas redes sociais tem conteúdo conservador. Muito consumismo, preconceitos, ofensas, ignorância.
Redes sociais não fazem revolução. Em geral, atrapalham.
Um bom texto sobre a questão é A revolução não será tuitada, de Malcolm Gladwell
Leia também Facebook: solidões acompanhadas
26 de janeiro de 2011
Chorando o leite derramado da Nestlé
O governo anuncia que pretende restringir a presença do capital internacional na exploração dos recursos naturais brasileiros. Parece que a medida foi provocada principalmente pela gula chinesa. A China liderou o investimento estrangeiro direto no Brasil em 2010. Trouxe pra cá US$ 17 bilhões. Quase um terço do total. Boa parte disso foi usada no setor de mineração. US$ 7 bilhões, na compra de 40% do capital da petrolífera Repsol.
O fato é que nunca entrou tanto dinheiro estrangeiro no Brasil como nos últimos anos. E nunca houve tantas fusões e aquisições. Números comemorados por especialistas, empresários, governos e pela mídia comercial. Então, é melhor desconfiar.
O economista Adriano Benayon publicou três artigos sobre desnacionalização da economia na revista “A Nova Democracia”, entre novembro de 2010 a janeiro de 2011. Segundo, Benayon, “Em todos os setores da economia, as transnacionais vêm ampliando e aprofundando seus domínios”. Alguns dados sobre os investimentos estrangeiros:
Detalhe: a Repsol, invadida pelos chineses, é espanhola. Então, falar em defender a indústria nacional é como chorar um leite que foi derramado há muito tempo. Aquele cuja produção está sob controle da Nestlé, Parmalat, Fleischmann-Royal, Cirio e Danone.
Melhor admitir que a idéia é proteger os capitalistas transnacionais que já exploram nossos recursos naturais contra seus concorrentes asiáticos.
Leia também: Limitação mais que limitada
O fato é que nunca entrou tanto dinheiro estrangeiro no Brasil como nos últimos anos. E nunca houve tantas fusões e aquisições. Números comemorados por especialistas, empresários, governos e pela mídia comercial. Então, é melhor desconfiar.
O economista Adriano Benayon publicou três artigos sobre desnacionalização da economia na revista “A Nova Democracia”, entre novembro de 2010 a janeiro de 2011. Segundo, Benayon, “Em todos os setores da economia, as transnacionais vêm ampliando e aprofundando seus domínios”. Alguns dados sobre os investimentos estrangeiros:
Em 2001, 59,6% de seus investimentos foram no setor de serviços, 33% na indústria, e 7,1% em agropecuária e mineração. Em 2008, esses percentuais passaram a 38%, 32% e 30%.A verdade é que o capital estrangeiro está no controle da economia nacional há bastante tempo. Ainda segundo Benayon:
75%, do capital total das grandes e médias empresas em atividade no Brasil [estão] sob controle de subsidiárias, registradas no Brasil, de transnacionais com matrizes sediadas no exterior, ou diretamente por empresas estrangeiras.Ao mesmo tempo, o economista diz que “gigantes nacionais”, como a Petrobras e a Vale, têm a maior parte dos lucros abocanhada por acionistas estrangeiros. Considerando-se esse tipo de participação, aqueles 75% de controle internacional subiriam para uns 90%.
Detalhe: a Repsol, invadida pelos chineses, é espanhola. Então, falar em defender a indústria nacional é como chorar um leite que foi derramado há muito tempo. Aquele cuja produção está sob controle da Nestlé, Parmalat, Fleischmann-Royal, Cirio e Danone.
Melhor admitir que a idéia é proteger os capitalistas transnacionais que já exploram nossos recursos naturais contra seus concorrentes asiáticos.
Leia também: Limitação mais que limitada
25 de janeiro de 2011
São Paulo aos 600 anos
São Paulo nunca foi fácil. Aos 457 anos, está cada vez mais difícil. É o preço que a cidade paga por ser o centro do capitalismo em um país com desigualdades radicais. Nesse caminho, pode tornar-se inviável. Pelo menos, quanto a oferecer uma vida urbana com alguma dignidade para a maioria de seus moradores.
De qualquer modo, a loucura paulistana tem sua estranha beleza. Uma espécie de “deselegância discreta” que cativa. Um de seus mais geniais filhos escreveu belas letras para essa loucura toda. Trata-se de Itamar Assumpção. Abaixo, um trecho de “Persigo São Paulo”:
Um palpite utópico sobre São Paulo aos 600 anos
De qualquer modo, a loucura paulistana tem sua estranha beleza. Uma espécie de “deselegância discreta” que cativa. Um de seus mais geniais filhos escreveu belas letras para essa loucura toda. Trata-se de Itamar Assumpção. Abaixo, um trecho de “Persigo São Paulo”:
São Paulo é uma outra coisa / não é amor exatamente / é identificação absoluta / Sou eu / Eu não me amo, mas me persigo / Eu persigo São PauloOutro trecho. Desta vez, de “Venha Até São Paulo”:
Quem vem pra São Paulo meu bem jamais esquece / Não tem intervalo tudo depressa acontece / Não tem intervalo / Vai e vem e tchan e tchum êta sobe desce / Gente do nordeste, do norte aqui no sudeste / Batalhando nesse mundaréu de mundo que só cresce / Só carece / Venha até São Paulo relaxar ficar relax / Tire um xérox, admire um triplex / Venha até São Paulo viver à beira do estresse / Fuligem catarro assaltos no dia dezMas, será que dá pra imaginar São Paulo como um lugar tranquilo, ordenado, “civilizado”, humano? É o que Luiz Tatit tenta em “Deu pane em São Paulo”. Neste samba meio quadrado, a cidade não sofre uma “pane”. Na verdade, finalmente começa a funcionar como um lugar feito para pessoas viverem. Na música de Itamar, São Paulo “não tem intervalo”. Na de Tatit, só tem “uma hora de trampo”:
O povo todo delira / E nem acredita que está em São Paulo / Uma hora de trampo / E o resto do dia é só intervalo / E pro trabalho pesado / Cavalo, cavalo / E ainda assim / Com todo o cuidado / Para poupá-loEssa música inspirou um texto escrito em 2004. Uma projeção do que poderia ser São Paulo aos 600 anos. Sem trânsito, a arquitetura misturada à natureza, poucos crimes, jornadas de trabalho de três horas diárias. Um palpite utópico para um lugar cada vez mais insuportável. Para ler, clique abaixo.
Um palpite utópico sobre São Paulo aos 600 anos
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