Especialistas em investimentos financeiros vêm aparecendo nas redes virtuais ou grande mídia para lembrar que toda “crise também é oportunidade”. Eles dizem coisas repugnantes como “é hora de investir em ações de empresas de equipamentos médicos”.
É feio, mas cínicos não costumam mentir. É verdade que a atual crise pandêmica está criando muitas oportunidades. Só que a grande maioria delas servirá para aprofundar ainda mais a exploração do trabalho pelo capital.
“O mundo nunca vai ser o mesmo após a pandemia”, diz um consenso surgido com a crise causada pelo coronavírus-19. “O teletrabalho veio para ficar” é outro desses consensos.
Muitos funcionários do setor de serviços e servidores públicos que hoje estão trabalhando em casa podem não retornar mais a seus escritórios e repartições, quando a pandemia der uma trégua.
Mas a grande maioria estará muito longe de desfrutar do privilégio de “ficar perto da família e longe das cobranças”. Muito mais provável é uma nova epidemia de trabalho domiciliar à moda do século 19 na Europa ou do sul global atual, com suas oficinas em garagens e porões residenciais.
A tecnologia para essa transição já está pronta há algum tempo. A produtividade do teletrabalho não apenas pode ser medida em tempo real. Ela também permite condicionar a remuneração final do “produtor” tanto quanto o trabalho por peça no início da Revolução Industrial.
E aqueles que resistirem ainda serão condenados por não colaborarem com o “esforço de guerra no combate ao vírus”.
As oportunidades oferecidas pela atual pandemia ao grande capital são muitas. Uma delas será, certamente, promover uma nova e enorme onda de precarização do trabalho.
Leia também: Por uma Greve Geral Humanitária
Blog de Sérgio Domingues, com comentários curtos sobre assuntos diversos, procurando sempre ajudar no combate à exploração e opressão.
31 de março de 2020
30 de março de 2020
Por uma Greve Geral Humanitária
O bolsonarismo só existe como mobilização permanente. A pandemia retirou os holofotes de suas performances bizarras. E por um motivo óbvio. Seu discurso sempre teve como base uma doença imaginária. O corpo nacional íntegro, são e masculino só poderia ser violado pela “ideologia” que é tão invisível quanto o covid 19. A “ideologia” não pode ser vista, mas suas manifestações são sentidas no modo de vida. Aquele que acredita no discurso (ideológico) contra a ideologia sabe que seu inimigo está enraizado no cotidiano. Por mais que deseje a submissão da mulher, a erradicação da homossexualidade, o controle da educação e o fim das artes, reconhece que isso não é possível e que o “vírus” ideológico pode estar dentro dele mesmo. O líder manipula exatamente esse sentimento para a mobilização perene. Promete repressão para os que já se reprimem.O trecho acima é de um texto de Lincoln Secco, militante marxista, petista e historiador. Está disponível aqui e merece ser lido na íntegra, pois também alerta para uma outra “doença” presente entre nós. O imobilismo continua a contagiar as lideranças dos movimentos sociais, mesmo quando há divisões nas fileiras do inimigo.
(...)
Ora, diante de um vírus real a manipulação entrou num curto circuito. As pessoas passaram a temer uma ameaça verdadeira.
Como saída, Lincoln propõe que a classe trabalhadora inicie uma “greve geral humanitária internacionalista”, diz ele. Uma resposta que, sendo bem sucedida, “vai mudar radicalmente a conjuntura. Porque isso só acontece a partir da base produtiva e não de disputas parlamentares”.
É isso! Uma resposta global para dois flagelos globais: a pandemia e o capitalismo.
Leia também: Greve geral sanitária, já!
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28 de março de 2020
Anticorpos contra o fascismo: o populismo (2)
Voltando ao conceito de populismo, em seu livro “As novas faces do fascismo”, Enzo Traverso cita uma definição de Jacques Rancière:
É com essa pretensão que, por exemplo, a chamada “troika” manda na Comunidade Europeia. Trata-se de uma entidade informal composta por FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia. Ela dita políticas para todos os governos da União Europeia, sem ter recebido um único voto popular.
Foi a troika que impôs as políticas que, nos últimos anos, aprofundaram a destruição dos serviços públicos que, agora, fazem tanta falta diante do avanço do coronavírus-19.
Qualquer um que questione essa lógica, é considerado populista. Mas quando o governo que faz isso é de esquerda, é asfixiado até se render, como aconteceu com o governo do Syriza, na Grécia.
Governos populistas de direita, porém, muito dificilmente se indispõem com os neoliberais, mantendo intactos os interesses do grande capital. Mesmo quando desferem ataques fascistas à democracia, continuam a ser tratados apenas como populistas. Afinal, quanto menos participação social e política, melhor para o “ambiente de negócios”.
É desse modo que em nome do combate ao populismo, o neoliberalismo impõe políticas de direita que bloqueiam os caminhos da esquerda, mas abrem avenidas para o avanço do fascismo.
Leia também: Anticorpos contra o fascismo: o populismo
Populismo é o nome conveniente sob o qual se procura dissimular a contradição exacerbada entre a legitimidade popular e a legitimidade de especialista, ou seja, a dificuldade que o governo da ciência tem em se adaptar às manifestações da democracia...O filósofo francês está se referindo aos governos neoliberais, que alegam tomar decisões puramente técnicas. Não seriam, portanto, nem de esquerda nem de direita.
É com essa pretensão que, por exemplo, a chamada “troika” manda na Comunidade Europeia. Trata-se de uma entidade informal composta por FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia. Ela dita políticas para todos os governos da União Europeia, sem ter recebido um único voto popular.
Foi a troika que impôs as políticas que, nos últimos anos, aprofundaram a destruição dos serviços públicos que, agora, fazem tanta falta diante do avanço do coronavírus-19.
Qualquer um que questione essa lógica, é considerado populista. Mas quando o governo que faz isso é de esquerda, é asfixiado até se render, como aconteceu com o governo do Syriza, na Grécia.
Governos populistas de direita, porém, muito dificilmente se indispõem com os neoliberais, mantendo intactos os interesses do grande capital. Mesmo quando desferem ataques fascistas à democracia, continuam a ser tratados apenas como populistas. Afinal, quanto menos participação social e política, melhor para o “ambiente de negócios”.
É desse modo que em nome do combate ao populismo, o neoliberalismo impõe políticas de direita que bloqueiam os caminhos da esquerda, mas abrem avenidas para o avanço do fascismo.
Leia também: Anticorpos contra o fascismo: o populismo
26 de março de 2020
Greve geral sanitária, já!
Enquanto Bolsonaro bate boca com governadores, o grande empresariado tem seus interesses atendidos. Veja-se, por exemplo, o título de matéria da Folha de hoje: “Governo atende a quase todos pleitos da indústria em MP trabalhista e deixa centrais de fora”
No Globo, Miriam Leitão, avisa: “Há um novo consenso entre economistas: é preciso aumentar o gasto público”. E na Revista Exame, o magnata Abílio Diniz afirma: "Paulo Guedes é liberal, mas em momentos de crise somos todos keynesianos".
O keynesianismo a que se refere Diniz certamente não implicaria a estatização de setores estratégicos da estrutura econômica. Apenas mais e maiores subsídios para ele e seus colegas de classe.
Uma possível queda de Bolsonaro muito dificilmente alteraria esse quadro. Os prováveis responsáveis pela manobra seriam governadores com grande identidade ideológica com o capitão e rabo acorrentado ao empresariado.
Enquanto isso, o que podem fazer as forças de esquerda? Alguns dos trabalhadores estão isolados em casa, mas muitos outros trabalham.
Se não é possível lotar as ruas, que abandonemos os locais de trabalho. É preciso construir uma greve geral sanitária, nos moldes dos movimentos que já vêm propondo petroleiros e metalúrgicos.
Ao keynesianismo de araque dos patrões, oporíamos um programa amplo e radical de resgate social bancado pelo grande capital. Para começar, garantindo salários integrais para todos, trabalhando ou não.
Para custear essa medida, imediata e pesada taxação das grandes fortunas e suspensão do serviço da dívida pública. Esta e outras medidas semelhantes precisam ser debatidas.
Não é possível continuarmos em nossa quarentena passiva, enquanto patrões e governos se distraem calculando quantos de nós devem morrer.
Leia também: Uma doença oportunista a espera do coronavírus
No Globo, Miriam Leitão, avisa: “Há um novo consenso entre economistas: é preciso aumentar o gasto público”. E na Revista Exame, o magnata Abílio Diniz afirma: "Paulo Guedes é liberal, mas em momentos de crise somos todos keynesianos".
O keynesianismo a que se refere Diniz certamente não implicaria a estatização de setores estratégicos da estrutura econômica. Apenas mais e maiores subsídios para ele e seus colegas de classe.
Uma possível queda de Bolsonaro muito dificilmente alteraria esse quadro. Os prováveis responsáveis pela manobra seriam governadores com grande identidade ideológica com o capitão e rabo acorrentado ao empresariado.
Enquanto isso, o que podem fazer as forças de esquerda? Alguns dos trabalhadores estão isolados em casa, mas muitos outros trabalham.
Se não é possível lotar as ruas, que abandonemos os locais de trabalho. É preciso construir uma greve geral sanitária, nos moldes dos movimentos que já vêm propondo petroleiros e metalúrgicos.
Ao keynesianismo de araque dos patrões, oporíamos um programa amplo e radical de resgate social bancado pelo grande capital. Para começar, garantindo salários integrais para todos, trabalhando ou não.
Para custear essa medida, imediata e pesada taxação das grandes fortunas e suspensão do serviço da dívida pública. Esta e outras medidas semelhantes precisam ser debatidas.
Não é possível continuarmos em nossa quarentena passiva, enquanto patrões e governos se distraem calculando quantos de nós devem morrer.
Leia também: Uma doença oportunista a espera do coronavírus
25 de março de 2020
Anticorpos contra o fascismo: o populismo
Populistas, nesse caso, seriam Trump, Bolsonaro, Boris Johnson...
Mas o fato é que populismo tem sido o conceito favorito da grande mídia e de seus “especialistas” quando se trata de evitar termos mais pesados, como fascismo.
Afinal, como considerar fascista um governante como Bolsonaro e continuar a apoiar muitas de suas decisões?
No seu livro “As novas faces do fascismo”, Enzo Traverso tenta esclarecer essa confusão.
Para o consenso estabelecido, diz ele, populismo seria “um procedimento retórico que consiste em exaltar as pessoas comuns, opondo-as à elite (...) a fim de mobilizá-las contra o ‘sistema’”.
Segundo essa categorização capenga, populistas seriam Sarkozy, Berlusconi e Orbán, assim como Chávez, Morales e Kirchner. O problema é que são ignoradas as muitas diferenças ideológicas radicais entre essas lideranças.
Chávez, por exemplo, seria um populista porque usaria a demagogia como técnica de comunicação. Mas seu populismo era a forma mais consistente de resistência política contra a globalização neoliberal em seu país, afirma o autor.
Já, os partidos “populistas” da Europa Ocidental se caracterizam por suas propostas xenófobas e racistas, procurando retirar direitos e conquistas das camadas mais baixas e marginalizadas da população.
Nesse último caso, trata-se de fascismo, não de populismo. E a forma como vêm reagindo à atual pandemia só reafirma isso. Trump e Bolsonaro infestam o ar de fascismo sempre que abrem a boca para falar sobre o coronavírus.
Voltaremos ao tema, pois nos interessa desenvolver defesas eficazes tanto contra o coronavírus como contra o fascismo.
Leia também:
Uma doença oportunista a espera do coronavírus
Coronavírus-19: os maiores transmissores
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