quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Realismo socialista é chato

Durante muito tempo, a maioria dos comunistas só admitia um estilo artístico. Era o realismo socialista. As artes deveriam mostrar e falar sobre a classe operária e seus líderes infalíveis. Tudo muito claro e direto.

É até possível gostar de criações desse tipo. O problema maior foi tornar obrigatória sua adoção. Foi o que fez o Estado soviético sob direção de Stalin.

Felizmente, alguns marxistas não se renderam a essa concepção grosseira. É o caso de Adolfo Sánchez Vázquez, recentemente falecido. Em seu livro “As idéias estéticas de Marx” (1968), ele denuncia o realismo socialista.

Para Sánchez Vázquez, a arte realista não é aquela que tenta reproduzir fielmente a realidade. É aquela que
...partindo da existência de uma realidade objetiva, constrói com ela uma nova realidade que nos fornece verdades sobre a realidade do homem concreto que vive numa determinada sociedade.
Desse ponto de vista, pintura abstrata, música dissonante ou poesia concretista também podem ser realistas. Basta que consigam expressar a realidade de determinadas experiências humanas. Para ele, a realidade tem três níveis distintos:
... a realidade exterior, existente à margem do homem; a realidade nova ou humanizada que o homem faz emergir, transcendendo ou humanizando a anterior; e a realidade humana que transparece nesta realidade criada e na qual se dá certo conhecimento do homem.
O que ele chama de “falso realismo” tentaria se limitar ao primeiro nível. Algo que deixaria “de ser objeto específico do conhecimento artístico”. Ou seja, pode ser ciência, descrição objetiva, informação. Só não é arte. Por outro lado, Sánchez Vázquez afirma ser
... impossível estabelecer imediatamente um sinal de igualdade entre as correntes não realistas de nosso tempo e a ideologia reacionária (...) nem tampouco entre o realismo e a ideologia das classes progressistas e revolucionárias. Por outra parte, entre o realismo e a chamada arte de vanguarda não pode haver – nem há – uma absoluta incomunicabilidade. (...) Não se trata de inovações meramente formais, mas de modificações na forma impostas pelas modificações de conteúdo, ditadas pelas transformações da própria realidade humana.
Daí porque:
Maiakovski não existiria sem o futurismo; (...) Brecht sem o expressionismo; Neruda (...) sem o surrealismo. (...) o realismo não esgota a esfera da arte, conseqüentemente, não se pode excluir dela os fenômenos artísticos que estão efetivamente fora de uma arte realista.
Ou seja, restringir a arte ao que dita o realismo socialista achata a capacidade criativa da humanidade.

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