O mundo todo presta atenção, mas nada é mais americano que o Oscar. E a última premiação poderia simbolizar a combinação entre a decadência e a arrogância do império estadunidense.
É verdade que o grande vencedor deste ano foi uma produção inglesa. Mas, “O Discurso do Rei” é uma boa metáfora do declínio do poder anglo-saxão. Estados Unidos e Inglaterra ainda mandam e vão mandar no mundo por muito tempo. O que está cada vez mais difícil é justificar esse poder todo sem gaguejar.
Em “Bravura indômita”, um xerife caolho, envelhecido e bêbado enfrenta sozinho três homens. Parte pra cima deles com uma pistola em cada mão e os arreios do cavalo entre os dentes. Até parece o vacilante poder mundial dos Estados Unidos. Sua economia anda muito mal das pernas. Inspira nojo ao invés de admiração. Provoca mais medo que respeito. Por isso mesmo, não tira o dedo gatilho. Atira no que vê e no que não vê.
“127 horas” conta a história verdadeira de um montanhista que caiu num buraco. Com o braço direito preso sob uma rocha não consegue sair. Por mais de cinco dias sofre à espera de socorro. No fim acaba amputando parte do braço para salvar a vida.
A situação lembra vagamente a invasão americana de Iraque e Afeganistão. Incapazes de sair do atoleiro militar que eles mesmos criaram, os Estados Unidos gastam U$ 2 bilhões semanais na ocupação. A sangria ajuda a gangrenar a já fraca economia ianque. Infelizmente, os grandes responsáveis estão bem longe de sofrer mutilações e mortes.
Oscar de pior produção mais que merecido!
Leia também Facebook: solidões acompanhadas
Blog de Sérgio Domingues, com comentários curtos sobre assuntos diversos, procurando sempre ajudar no combate à exploração e opressão.
9 de março de 2011
4 de março de 2011
“Então, não sou uma mulher?”
Em seu livro “Uma história do povo dos Estados Unidos”, Howard Zinn diz que a primeira convenção sobre direitos da mulher aconteceu em 1848, em Seneca Falls, New York.
Depois dela, muitas outras foram organizadas em várias partes dos Estados Unidos. Em uma delas, em 1851, havia uma mulher idosa negra, nascida escrava em Nova York. Seu nome era Sojourner Truth. Alta, magra, trajando um vestido cinza e um turbante branco, ouvia alguns representantes do sexo masculino que estavam dominando a discussão. Ela levantou-se e juntou a indignação de sua raça à indignação de seu sexo:
Leia também: O falso feminismo de silicone
Depois dela, muitas outras foram organizadas em várias partes dos Estados Unidos. Em uma delas, em 1851, havia uma mulher idosa negra, nascida escrava em Nova York. Seu nome era Sojourner Truth. Alta, magra, trajando um vestido cinza e um turbante branco, ouvia alguns representantes do sexo masculino que estavam dominando a discussão. Ela levantou-se e juntou a indignação de sua raça à indignação de seu sexo:
Aquele homem ali diz que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens e passar por valetas. Ninguém nunca me ajudou em carruagens, nem me carregou sobre poças de lama, nem me cedeu o melhor lugar. Então, não sou uma mulher?Assim eram as mulheres que lutavam nas décadas de 1830 e 1840 e 1850. Negavam-se a se manter em seu "lugar de mulher." Participavam de todos os tipos de movimentos. Dos presos, dos loucos, dos escravos, e também da luta de todas as mulheres.
Olhem os meus braços! Eu arei e plantei, e enchi celeiros inteiros, e nenhum homem fez isso melhor que eu! Então, não sou uma mulher?
Trabalhei tanto quanto os homens, e comi tanto quanto eles, quando pude, e do mesmo jeito agüentei chicotadas. Então, não sou uma mulher?
Pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida como escravos, e quando eu chorei minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! Então, não sou uma mulher?
Leia também: O falso feminismo de silicone
3 de março de 2011
Contra o desmatamento, comunismo indígena
Em 23/02, o Boletim Transparência Florestal acusou aumento no desmatamento na floresta amazônica de quase 994% em um ano, desde dezembro de 2009. Os dados são do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Se for considerada a área degradada, o aumento vai para 4.818% no mesmo período.
Estes números dizem tudo sobre o que representam as declarações governamentais quanto à “sustentabilidade” da exploração da Amazônia. Assustam pelo que ainda pode vir por aí, com a construção de hidrelétricas como Belo Monte, no Rio Xingu, e Jirau e Santo Antonio, no rio Madeira. Esta última já está em construção em Rondônia. Não é mera coincidência que exatamente este estado tenha sido campeão na derrubada florestal indicada pelo Imazon.
Mas a floresta também foi cenário para uma pesquisa divulgada em 2010. É o estudo “Mobilidade Yanomami e os efeitos à paisagem florestal de seu território”. Sob responsabilidade de Maurice Seiji Tomioka Nilsson, foi feito um levantamento dos efeitos da ocupação de uma tribo de índios da floresta amazônica.
Foram analisadas imagens feitas por satélite durante quase 30 anos. Elas correspondem à movimentação indígena em uma área da floresta. Mostram como os Yanomami utilizam um sistema de rodízio no uso das terras para o cultivo e a caça. O método não apenas diminui o impacto da presença humana. Ele também consegue restaurar grande parte do ambiente original.
Claro que isso exige a propriedade comunitária da terra. O fim de sua exploração para benefício de poucos. É o comunismo, enfim. Praticado pelos indígenas há tantos séculos. Incompatível com o capitalismo. Mas não com os seres humanos.
Leia também: O comunismo sob ameaça, no Brasil
Estes números dizem tudo sobre o que representam as declarações governamentais quanto à “sustentabilidade” da exploração da Amazônia. Assustam pelo que ainda pode vir por aí, com a construção de hidrelétricas como Belo Monte, no Rio Xingu, e Jirau e Santo Antonio, no rio Madeira. Esta última já está em construção em Rondônia. Não é mera coincidência que exatamente este estado tenha sido campeão na derrubada florestal indicada pelo Imazon.
Mas a floresta também foi cenário para uma pesquisa divulgada em 2010. É o estudo “Mobilidade Yanomami e os efeitos à paisagem florestal de seu território”. Sob responsabilidade de Maurice Seiji Tomioka Nilsson, foi feito um levantamento dos efeitos da ocupação de uma tribo de índios da floresta amazônica.
Foram analisadas imagens feitas por satélite durante quase 30 anos. Elas correspondem à movimentação indígena em uma área da floresta. Mostram como os Yanomami utilizam um sistema de rodízio no uso das terras para o cultivo e a caça. O método não apenas diminui o impacto da presença humana. Ele também consegue restaurar grande parte do ambiente original.
Claro que isso exige a propriedade comunitária da terra. O fim de sua exploração para benefício de poucos. É o comunismo, enfim. Praticado pelos indígenas há tantos séculos. Incompatível com o capitalismo. Mas não com os seres humanos.
Leia também: O comunismo sob ameaça, no Brasil
2 de março de 2011
Eleger ladrão pode. Ateus e gays, não
Escândalo! Deputados “fichas sujas” fazem parte de uma comissão da Câmara sobre reforma política. Entre eles, Maluf (PP), Valdemar Costa Neto (PR) e Eduardo Azeredo (PSDB). É vergonhoso. Mas, não é nenhuma surpresa. Todo mundo sabe que a política oficial admite e estimula o “rouba, mas faz”.
O que assusta mesmo são os resultados de uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo feita em 2010. Segundo o estudo, 74% dos entrevistados nunca votariam em defensores da legalização da maconha. Ateus não teriam o voto de 66%. Defensores da legalização do aborto não seriam eleitos por 57%. Praticantes de umbanda e candomblé perderiam os votos de 51%.
O moralismo e o fanatismo religioso cegam a população. Impedem que seja revelado quem é que ganha com a corrupção na política. Afinal, os que mais se beneficiam com a ação de parlamentares e governantes ladrões são os bancos e as grandes empresas.
O fato é que os parlamentos quase sempre são túmulos das exigências populares. Chocadeiras de grandes fortunas para poucos. De um lado, o poder econômico. Do outro, uma população sem consciência política. Ambos tornam os parlamentos casas de representação dos ricos e poderosos.
Apesar disso, a esquerda deve participar das eleições. Lançar candidaturas que desmascarem o caráter conservador das instituições atuais. Jamais abandonar a luta dos explorados, perseguidos e humilhados em troca de votos. Nunca deixar de organizar a população nos locais de trabalho, escolas e bairros. Lugares de onde realmente podem vir as mudanças necessárias.
Muito difícil eleger alguém com essas propostas. O que importa é trocar milhares de eleitores alienados por centenas de militantes conscientes.
Leia também: Político bom é o que rouba e faz
O que assusta mesmo são os resultados de uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo feita em 2010. Segundo o estudo, 74% dos entrevistados nunca votariam em defensores da legalização da maconha. Ateus não teriam o voto de 66%. Defensores da legalização do aborto não seriam eleitos por 57%. Praticantes de umbanda e candomblé perderiam os votos de 51%.
O moralismo e o fanatismo religioso cegam a população. Impedem que seja revelado quem é que ganha com a corrupção na política. Afinal, os que mais se beneficiam com a ação de parlamentares e governantes ladrões são os bancos e as grandes empresas.
O fato é que os parlamentos quase sempre são túmulos das exigências populares. Chocadeiras de grandes fortunas para poucos. De um lado, o poder econômico. Do outro, uma população sem consciência política. Ambos tornam os parlamentos casas de representação dos ricos e poderosos.
Apesar disso, a esquerda deve participar das eleições. Lançar candidaturas que desmascarem o caráter conservador das instituições atuais. Jamais abandonar a luta dos explorados, perseguidos e humilhados em troca de votos. Nunca deixar de organizar a população nos locais de trabalho, escolas e bairros. Lugares de onde realmente podem vir as mudanças necessárias.
Muito difícil eleger alguém com essas propostas. O que importa é trocar milhares de eleitores alienados por centenas de militantes conscientes.
Leia também: Político bom é o que rouba e faz
1 de março de 2011
Líbia: redes tribais fazem revolução?
As revoluções na Tunísia e no Egito aconteceram em situação de grande desigualdade social, desemprego alto, elevado custo de vida. Não parece ser o caso da Líbia. O país tem mais alto Índice de Desenvolvimento Humano da África. A produção de petróleo permite uma renda anual por pessoa de US$ 12 mil. Maior que a do Brasil, Argentina e Turquia. O desemprego é relativamente baixo e o Estado oferece bons programas de assistência a aposentados e deficientes.
Então, por que a revolta surgiu tão rápida e radicalmente? Artigo de Antonio Luiz M. C. Costa, na CartaCapital de 22/02, aponta uma possível resposta. A insatisfação estaria relacionada “às 30 tribos, às quais pertencem 85% dos líbios nativos”. Segundo Costa, através desses laços tribais os líbios teriam acesso a direitos, como emprego e assistência à saúde.
O poder de Kadafi estaria baseado na manutenção dessa divisão secular da sociedade líbia. Mas, a excessiva centralização política teria durado tempo demais. Romperam-se os laços de lealdade que poderiam ter aplacado a fúria popular. As lideranças tribais estariam apostando na queda de Kadafi para recuperar o poder perdido.
Segundo essa hipótese, a mobilização teria muito pouco a ver com facebook e twiter. As redes de poder local teriam tido papel importante na revolução líbia. Resta saber se a aposta dos líderes tribais não pode voltar-se contra eles.
A Líbia está no meio do caldeirão que ferve no norte da África e no Oriente Médio. Não é impossível que o atual tremor de terra torne-se um terremoto na região. Golpeie o imperialismo, seus aliados e ditadores em geral. Inclusive, os tribais. Oxalá!
Leia também: Redes sociais não fazem revolução, mesmo
Então, por que a revolta surgiu tão rápida e radicalmente? Artigo de Antonio Luiz M. C. Costa, na CartaCapital de 22/02, aponta uma possível resposta. A insatisfação estaria relacionada “às 30 tribos, às quais pertencem 85% dos líbios nativos”. Segundo Costa, através desses laços tribais os líbios teriam acesso a direitos, como emprego e assistência à saúde.
O poder de Kadafi estaria baseado na manutenção dessa divisão secular da sociedade líbia. Mas, a excessiva centralização política teria durado tempo demais. Romperam-se os laços de lealdade que poderiam ter aplacado a fúria popular. As lideranças tribais estariam apostando na queda de Kadafi para recuperar o poder perdido.
Segundo essa hipótese, a mobilização teria muito pouco a ver com facebook e twiter. As redes de poder local teriam tido papel importante na revolução líbia. Resta saber se a aposta dos líderes tribais não pode voltar-se contra eles.
A Líbia está no meio do caldeirão que ferve no norte da África e no Oriente Médio. Não é impossível que o atual tremor de terra torne-se um terremoto na região. Golpeie o imperialismo, seus aliados e ditadores em geral. Inclusive, os tribais. Oxalá!
Leia também: Redes sociais não fazem revolução, mesmo
Assinar:
Postagens (Atom)
