quarta-feira, 21 de julho de 2010

O falso feminismo de silicone

É costume dizer que o feminismo está morto. As mulheres teriam conquistado seu lugar ao sol. São maioria entre os trabalhadores, consumidores e eleitores. Há mulheres no parlamento e nos governos. Podem ser vista à frente de grandes empresas.

Quase tudo nessas afirmações é aparência. As mulheres são maioria no mercado de trabalho, mas de forma desigual. A maior parte dos postos de direção e gerência é ocupada por homens. Assim mesmo, os salários são sempre menores para elas.

No Congresso Nacional, parlamentos em geral e governos a visibilidade acontece exatamente porque a presença feminina continua rara. Nada rara é sua exposição como objetos em tudo isso. “Elas enfeitam o cenário”, dizem os machistas, na direção do espetáculo.

Não à toa o Brasil é líder mundial em cirurgias plásticas. Cerca de 70% delas são de caráter estético. Mais de 80% feitas em mulheres. Nos Estados Unidos e Europa, começa a fazer sucesso a labioplastia. Uma intervenção cirúrgica nos lábios vaginais. Grande parte delas nada tem a ver com correções necessárias à saúde.

É o novo machismo. Beleza e sensualidade seriam direitos conquistados pelas “mulheres emancipadas”. Além de cuidar da casa, dos filhos e ser competente na profissão, elas também têm que atender exigências impostas pelo mercado erótico.

Se isso pode ser massacrante para quem tem algum dinheiro, imagine para a grande maioria. Aquelas que mal conseguem comprar roupas novas.

Mulheres que denunciam essa situação são consideradas amargas, ressentidas, chatas. “Deixem disso” dizem os meios de comunicação. “Corram para os cirurgiões, cabeleireiros e liquidações. Rendam-se ao silicone e às próteses”. É o machismo cirurgicamente renovado pelos poderosos.

5 comentários:

  1. "Pílula" incisiva, precisa, devastadora, Sergio! Essa pretensa emancipação feminina, proposta pela mídia(aliás, como a grande maioria das mistificações culturais dessa "Koshibiana" era pós-muro)é uma belíssima canoa furada!

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  2. Perdão, no post anterior, ao me referir ao Koshiba, queria, na verdade falar de uma era do Fukuyama. Troquei os nomes.

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  3. Domingues, como você sabe, não trato de questões de gênero, apenas daquelas referentes à identidade/etnicidade e consumo. No entanto, o texto me chamou a atenção porque vi repetidas estruturas argumentativas presentes nos discursos do anti-racismo brasileiro como o recurso à estatística tout court e a redução do problema a uma oposição de termos binários (preto vs. branco, capital vs. trabalho, homens vs. mulheres, machismo vs. feminismo etc.).
    Incomodo-me enormemente em ver que estes discursos não põem jamais em discussão a metodologia dos estudos estatísticos em que se apoiam. Não indagam, por exemplo, se as disparidades salariais que verificam entre negros e brancos, mulheres e homens respeitam os mesmos cargos e funções DENTRO DE UMA MESMA EMPRESA ou se a apuração se faz com profissionais de empresas distintas.
    Um outro grande incômodo para mim relaciona-se ao dado de análises a respeito do machismo jamais levarem em conta o fato deste ser uma importante moeda de que os homens se utilizam para lograr vantagem sobre seus pares no mercado dos afetos femininos.
    Neste diapasão, posso dizer que me incomoda, também, o fato de que tais análises não levam em conta, então, a pressão que as mulheres exercem sobre os homens para que demonstrem sua masculinidade/virilidade, por meio da repetição de comportamentos (clichês) machistas.
    Seguindo sua linha de ilustração do argumento, chamo a atenção para o dado de que aquilo a que, hoje, chamamos malhação, um dia, já nomeamos apolo e, antes, designamos halteres (donde halterofilismo). Era uma prática estritamente masculina que enchia as academias unicamente de homens que, então, buscavam as formas perfeitas à demonstração da virilidade e, consequentemente, à admiração feminina.
    Penso que a interpretação da quadratura atual da estética corporal humana deve ser feita a partir de referenciais teóricos dos estudos de mercado e do consumidor. De outra parte, a utilização de referenciais teóricos lastreados nas questões do machismo e do feminismo podem nos levar a bias graves.
    Demais disso, a questão por você provocada não me parece ser de pouca monta ou de pequena importância. Ao contrário, a vejo como de enorme relevância acadêmica tal que merece, no mínimo, a continuidade de seu debate, senão a abertura de novas linhas e perspectivas de sua pesquisa.
    Abs,
    José Augusto Conceição

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  4. De fato, as situações as quais somos expostas diariamente, nos faz ver que ainda há muito a se fazer. Infelizmente muitos homens, ainda hoje, nos vêem como rivais, querendo lhes roubar o lugar no mercado de trabalho e, em casa, como inimigas e não como companheiras que sabemos e queremos ser, caminhando lado a lado e contribuindo com nossa doçura para a harmonia nas relações.

    Cássia Pinheiro

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  5. Já fiz a minha parte: não uso silicone e não participei de nenhuma cirurgia estética. Façam sua parte também!

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