Doses maiores

8 de maio de 2013

Intolerância religiosa e fanatismo neoliberal

Longa reportagem publicada no Valor, em 03/05, mostra um quadro muito pessimista das chamadas revoluções árabes. Em “A Primavera na sombra”, Yan Boechat e Dubes Sônego afirmam que:

...Tunísia, Egito e Líbia avançam em direção ao cenário menos esperado quando das revoluções: o acirramento conservador proporcionado pelos movimentos islâmicos, os grandes vencedores políticos da Primavera Árabe.

Mas é a linha conservadora dos muçulmanos que ganha força. São os salafistas, que defendem a adoção do Corão como regra absoluta para a vida civil. Não fazem parte dos atuais governos islâmicos, mas sua grande influência popular empurra os políticos para o conservadorismo.

No Egito, por exemplo, em 2010, 54% da população eram favoráveis à separação por gêneros no ambiente de trabalho e 82% apoiavam o apedrejamento para mulheres adúlteras. Nesse cenário conservador, “até a descriminalização da mutilação do clitóris chegou a ser cogitada pelo atual presidente”, diz a matéria.

Nada disso surgiu do nada. A própria reportagem explica que durante os últimos governos ditatoriais da Tunísia, mulheres que usassem véu e homens com barbas no estilo muçulmano eram perseguidos pela polícia. Semeavam tempestades.

Além disso, os muçulmanos saíram-se vencedores nas eleições “porque, no fim das contas, eram os únicos verdadeiramente organizados politicamente", diz Stacey Gutowski, uma professora inglesa especialista no assunto.

Mas a lenha dessa fogueira é a situação econômica. Os atuais governos não ousam romper com modelos impostos pelo FMI, que penalizam a maioria pobre há décadas. É o fanatismo neoliberal alimentando a intolerância religiosa.

Só a luta unificada a partir de baixo contra o capital e por amplas liberdades pode salvar a primavera árabe.

Leia também: Primavera árabe: melhor o caos que o despotismo

7 de maio de 2013

O “Custo Brasil” dos lucros empresariais

O destaque econômico da grande imprensa tem sido o maior déficit da balança comercial brasileira em sete anos. Traduzindo, o País está comprando muito mais lá fora do que vendendo.

Segundo os especialistas, o maior responsável pelo buraco é a indústria. Em sete anos, o saldo do setor caiu dos US$ 5,2 bilhões positivos para US$ 94,9 bilhões negativos. Trata-se exatamente do setor que recebeu vários incentivos do governo na forma de isenções fiscais.

Perdido entre as matérias e artigos que trataram dessa questão, há um dado revelador. Ele aparece na matéria “Belluzzo: ‘Brasil tem uma indústria atrasada, com déficit de competitividade’”, de Gabriela Valente, publicada no Globo em 5/05. Trata-se do elevado lucro médio dos empresários brasileiros:

Um índice produzido na universidade americana Princeton indica que o lucro no Brasil é alto. O indicador compara o custo da mão de obra de vários trabalhadores do McDonald’s no mundo. Aqui, um funcionário da empresa compra meio Big Mac com o que ganha em uma hora de trabalho. O japonês que faz o mesmo serviço para produzir o mesmo produto pode comer três hambúrgueres com o que recebe por hora de trabalho.

Comentando a informação, André Perfeito, um economista do mercado, admite:

Apesar de o custo da mão de obra ter crescido no Brasil, ele ainda é baixo. Mas os preços não são, e isso indica que o lucro é maior que nos outros países.

O dado mostra aquilo de que já suspeitávamos. Se existe o tal “Custo Brasil”, sua fonte principal são os grandes empresários, não os trabalhadores explorados por eles.

6 de maio de 2013

Trabalho doméstico e preconceitos de mercado

“Lançamentos da indústria miram famílias sem domésticas”, diz matéria do Globo de 05/05. A reportagem de Clarice Spitz e Nice de Paula trata basicamente de produtos para o lar que tornariam a “vida mais prática”. O público-alvo é formado por quem já não pode contratar trabalhadores domésticos devido à recente ampliação de seus direitos.

Mas essa situação também pode gerar lucros em outros ramos. É o que diz a reportagem “Pequeno negócio se prepara para tomar lugar de domésticas”, publicada em 07/04 por Felipe Maia e Reinaldo Chaves na Folha.

A matéria destaca o aumento “na demanda por serviços terceirizados de alimentação, lavanderia e limpeza”. Ou seja, a mais que justa regulamentação do trabalho doméstico não se deve apenas a razões humanitárias. Uma fatia do mercado deve crescer e render lucros que dificilmente serão aproveitados somente pelos “pequenos negócios”.

Claro que relações profissionalizadas são muito melhores que o tratamento escravocrata dispensado à grande maioria das domésticas. Mas não se espere nada além daquilo que o “mercado” costuma oferecer.

Corre pela internete o anúncio de uma empresa de serviços domésticos de Sorocaba. Uma das perguntas do formulário a ser preenchido queria saber se o interessado tem “preconceito de cor”. Muito provavelmente, para que clientes racistas pudessem receber atenção diferenciada.

Após muitas denúncias, o site foi tirado do ar, mas não a lógica que está por trás dele. O racismo, o machismo, preconceitos de todo tipo são elementos atuantes nas “leis de mercado”. Continua a valer a velha combinação de humilhação e superexploração com leis facilmente ignoradas.

Leia também: Vozes escravagistas contra os direitos das domésticas

3 de maio de 2013

Inflação nos alimentos é culpa do agronegócio

Em 25/04, a página do MST na internete publicou um artigo esclarecedor. Trata-se de “Inflação dos alimentos está ligada à hegemonia do agronegócio”, de José Coutinho Júnior. O texto responsabiliza o agronegócio pela recente alta de preço dos alimentos. Coutinho explica:

De 1990 para 2011, as áreas plantadas com alimentos básicos como arroz, feijão, mandioca e trigo declinaram, respectivamente, 31%, 26%, 11% e 35%. Já as de produtos do agronegócio exportador, como a cana e soja, aumentaram 122% e 107%.

Com menor área para seu plantio, a oferta de alimentos cai e seu preço sobe. É por isso que:

No ano passado, o país importou US$ 334 milhões em arroz, equivalente a 50% do valor aplicado no custeio da lavoura em nível nacional. No caso do trigo, o valor das importações foi de US$ 1,7 bi, duas vezes superior ao destinado para o custeio da lavoura, e a produção de mandioca atualmente é a mesma de 1990.

Segundo o artigo, a agricultura familiar e os assentamentos da Reforma Agrária “ocupam 30% das terras agricultáveis do país, mas produzem 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros”. No entanto, dados do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) revelam que, entre 2003 e 2012, o financiamento para o plantio de feijão sofreu queda de 81%. Para o arroz, caiu 77,4%, mandioca, 69%, e milho, 44%.

Ou seja, os governos petistas não apenas engavetaram a Reforma Agrária e trocaram a o MST pelo agronegócio. Também abandonaram a agricultura familiar e os assentamentos. E usam o fantasma da inflação para subir os juros, reafirmando a receita neoliberal que nunca abandonaram.

Leia também: Reforma Agrária: nem aos bispos adianta reclamar

2 de maio de 2013

A origem racista do drible brasileiro

Os jogadores negros de futebol inventaram o típico drible brasileiro para fugir do racismo. É o que afirma o artigo “O conceito de drible e o drible do conceito”, de Renato Noguera, na revista Z Cultural. Exagero? Vejamos.

O autor cita Antônio Jorge Soares e sua “História e a invenção de tradições no futebol brasileiro”:

Quando começaram a jogar o futebol por aqui, os negros não podiam derrubar, empurrar, ou mesmo esbarrar nos adversários brancos, sob pena de severa punição: os outros jogadores e até os policiais podiam bater no infrator.

E o grande craque, Domingos da Guia, confirma:

Ainda garoto eu tinha medo de jogar futebol, porque vi muitas vezes jogador negro, lá em Bangu, apanhar em campo, só porque fazia uma falta, nem isso às vezes (…) Meu irmão mais velho me dizia: “Malandro é o gato que sempre cai de pé… Tu não é bom de baile?” Eu era bom de baile mesmo, e isso me ajudou em campo… Eu gingava muito… O tal do drible curto eu inventei imitando o miudinho, aquele tipo de samba.

É assim que os jogadores negros se apropriaram do drible para inová-lo, usando “passes do samba e quiçá da capoeira”, diz Noguera. Era uma forma de “defesa e, ao mesmo tempo, tática de ataque diante das limitações impostas pelas regras do futebol”, afirma.

Como se vê, até o mais popular esporte do País nasceu contaminado pela sujeira racista. E o preconceito de cor continua a entrar em campo, mesmo hoje em dia.

O artigo de Noguera também traz profundas questões filosóficas. Clique aqui para ler.