Doses maiores

5 de julho de 2013

As ruas e o tamanho de nossa ignorância

Frei Betto publicou artigo no Brasil de Fato, em 03/07. Em “Recado das ruas”, ele analisa as manifestações populares das últimas semanas. Diz que elas “fundem a cuca de analistas e cientistas políticos”. Fazem dirigentes partidários e lideranças políticas se perguntarem: “quem lidera, se não estamos lá?”

Betto diz que sentiu o mesmo ao deixar a prisão da ditadura, em 1973. Ao sair, encontrou um movimento social em plena atividade. E perguntou-se: “como é possível se nós, os líderes, estávamos na cadeia?”

“Como essa mesma perplexidade, diz o texto, Marx encarou a Comuna de Paris, em 1871; a esquerda francesa, o Maio de 1968; e a esquerda mundial, a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética, em 1989”.

Poderíamos acrescentar a Revolução de Fevereiro, na Rússia, em 1917. Contra a vontade dos bolcheviques, as operárias têxteis iniciaram uma greve. O movimento acabou inaugurando o processo revolucionário que, em outubro, se completaria com a tomada do poder.

Na verdade, as lutas espontâneas e “não autorizadas” pelas vanguardas são o fermento de qualquer processo revolucionário. É nisso que acreditava a grande revolucionária Rosa Luxemburgo, com toda razão. Era uma de suas divergências com Lênin, ainda que ela não negasse a necessidade do partido de vanguarda.

Não vivemos uma situação revolucionária, mas as esquerdas não estão à altura nem das atuais revoltas. Ou se deixaram amansar pelo poder, ou abandonaram o cotidiano das lutas populares. Agora, as mobilizações estão aí, a revelar o tamanho de nossa ignorância. E parece que não é pequena.

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3 de julho de 2013

O povo não é bobo, já o governo Dilma...

“O povo não é bobo. Fora Rede Globo!” gritam os manifestantes nos protestos que tomaram as ruas do País. E lá fora, também. Em Londres, repórteres da emissora foram impedidos de fazer seu trabalho na cobertura de protestos de apoio às mobilizações no Brasil.

Tal como a violência policial já não consegue disfarçar sua truculência covarde, o jornalismo das organizações Globo é incapaz de esconder sua parcialidade conservadora. Mas se depender do governo federal, a emissora continuará poderosa.

É o que mostram dados coletados por Conceição Lemes em reportagem detalhada para o blog Viomundo. Publicada em 02/07, a matéria traz entrevista com Helena Chagas, ministra da Secretaria de Comunicação Social.

A repórter bem que tentou, mas nem a ministra nem sua equipe entregaram dados exatos sobre o patrocínio oficial destinado à Globo. De qualquer maneira, o que foi possível levantar já é vergonhoso.

Segundo a reportagem, o governo federal é o maior anunciante do Brasil. Em 2012, os recursos destinados à publicidade de ministérios, órgãos e empresas estatais somaram quase R$ 1,8 bilhão. Desse total, pouco mais de 62% foram investidos em televisão. “A Globo, sem contar seus canais pagos, obteve 43,9% das verbas para esse meio”.

A internete é considerada crucial para tentar desbancar os monopólios como o gigante global. Mas ficou em último lugar, com 5,3% das verbas oficiais. Assim mesmo, dos 20 maiores investimentos, os veículos considerados “de esquerda” ficaram com 2,4% do total. Já os tradicionais, engoliram 97,5%.

Se o povo já não é bobo, parece que o mesmo não acontece com o governo petista. Ou será sem vergonhice, mesmo?

Acesse a reportagem aqui.

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Reforma política e ditadura econômica

O governo federal enviou mensagem ao Congresso propondo temas para um plebiscito sobre questões eleitorais. Com isso, Dilma reforça o coro que interessa aos poderosos. Junto com a grande mídia, rebaixa o debate provocado pelo povo nas ruas a questões como financiamento de campanha, suplência de senadores, coligações e voto secreto no Congresso.

Nada disso vai à raiz do problema. A questão é a quem os parlamentares e governantes representam. Engana-se quem acha que o maior problema do País é a corrupção. Propinas e subornos representam uma taxa administrativa que o grande capital paga a seus representantes no Legislativo e a seus delegados no Executivo.

Há quem ache que a solução para isso é o financiamento público de campanha. Mas ele já existe e é enorme. Chama-se Fundo Partidário e passou de R$ 729 mil reais em 1994 para R$ 350 milhões em 2012. Proibir o financiamento privado atrapalha um pouco, mas só deve engordar o velho caixa dois.

Não adianta mexer na ordem política, sem alterar a lógica econômica. Enquanto todos olham para Congresso, ninguém repara no Banco Central. É um poderoso comitê de meia dúzia de especialistas que nunca foram eleitos, mas determinam o que acontece na economia do País. Mantém uma dívida pública imoral, que reserva quase metade dos recursos públicos para especuladores aqui e mundo afora.

Muito bonito discutirmos reformas superficiais e de efeito duvidoso. Enquanto isso, a ditadura econômica neoliberal passa despercebida, camuflada na feia paisagem social brasileira.

2 de julho de 2013

Reforma política e redução da jornada

A reforma política está sendo apontada como grande resposta à onda de manifestações nas ruas do País. Não à toa, grande mídia e governantes agarram-se a esta proposta para tentar acalmar a ira popular.

Mas a corrupção e incompetência dos políticos profissionais são mais efeito que causa dos problemas sociais que vivemos. O isolamento dos eleitos em relação aos que os elegeram tem raízes mais antigas do que parece.

A democracia da Grécia Antiga é considerada exemplo a ser seguido. Mas ela só era possível graças ao trabalho escravo. Enquanto a maioria trabalhava duro de sol a sol, uma minoria ficava à sombra, dedicando muitas horas do dia a aprovar leis e trocar ideias. Tudo era motivo de debate, menos o fim da escravidão, claro.

Atualmente, quase já não há trabalho servil. Mas os efeitos são muito parecidos. Dezenas de milhões de pessoas trabalham 10h, 12h por dia, enquanto algumas centenas decidem seu destino. Uns mal conseguem repousar e se alimentar. Aos outros sobra tempo para tomar decisões que mantém o conforto dos ricos e poderosos que os financiam.

Várias centrais sindicais do País estão convocando o Dia Nacional de Luta, com mobilizações e greves para 11 de julho. Apesar de seu jeitão oficial, há entre suas exigências uma reivindicação bem mais importante que a reforma política. É a redução da jornada de trabalho.

Menos horas de trabalho significam menos exploração e mais tempo para descansar, estudar e se organizar. E para fazer a política que assusta os poderosos. Eis por que desde o século 19, a classe trabalhadora luta pela redução da jornada.

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1 de julho de 2013

Uma área VIP guardada por fuzis

A seleção brasileira venceu com brilho a final da Copa das Confederações. Mas o povo não foi pôde ir ao Maracanã para ver. Só assistiu à vitória um público muito VIP, branco e cheiroso. O cercadinho dessas “véri importantes pessoas” abrangia algumas quadras em torno do estádio. Era guardado por milhares de policiais fortemente armados e caveirões.

O mesmo aconteceu nos jogos da seleção na Copa das Manifestações em outras cidades. Mas é provável que todo esse aparato não seja mais necessário nos próximos jogos nos novos estádios. Basta o preço dos ingressos para que o futebol volte a ser o que era quando chegou por aqui: um esporte para alguns endinheirados.

A sede das próximas Olimpíadas também torna-se cada vez mais um lugar para poucos. No Globo de 01/07 a matéria diz: “Rio cresce bem mais que o país”. E é uma das mais caras cidades do mundo, também. Um imenso cercadinho VIP vai tomando conta da cidade. Expulsando aos poucos os muitos que não têm dinheiro e boas relações com o poder.   

Nunca antes na história desse país a desigualdade caiu tanto. Nunca antes, um pão dormido foi tão bem distribuído. Jamais o direito ao circo limitou-se tanto a uma minoria privilegiada. Mas ninguém deveria ficar tranquilo dentro de uma área VIP guardada por fuzis e veículos blindados.