Doses maiores

10 de abril de 2017

Nossa ordem social injusta permanece intacta

“Brasil ganha milionários, mas perde poupadores”. Com este título, Ana Paula Ribeiro publicou reportagem no Globo, em 05/04.

O texto diz que o restrito grupo de pessoas que tem ao menos R$ 1 milhão em investimentos no Brasil ganhou dois mil membros, em 2016. Já as aplicações de 63,8 milhões de pessoas cujo principal investimento é a poupança recuaram 4% em relação a 2015.

Aquele pequeno grupo milionário é formado por apenas 112 mil pessoas que, juntas, possuem R$ 756,3 bilhões. Enquanto isso, a grande maioria que guarda economias com sacrifícios, tem R$ 854,7 bilhões. É só calcular a média de aplicações de cada grupo para descobrir a enormidade da concentração da riqueza nacional.

Em 10/04, Bruno Albernaz divulgou no portal G1: “Número de moradores de rua com curso superior cresce 75% em 1 ano no RJ". A reportagem cita recente estudo da Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos.

Segundo o levantamento, de 2015 a 2016, o número de moradores de rua com ensino superior completo aumentou de 40 para 70. Um crescimento de 75%. No Centro, “muitos deles dormem por ali para ficar perto do trabalho, sem gastar passagem ou aluguel”, relata Albernaz.

A matéria também afirma que a população sem-teto no município carioca saltou de 5.580, em 2013, para quase 15 mil em 2016. Praticamente triplicou em três anos.

O governo golpista é grande responsável por este cenário desastroso. Mas também é fato que as políticas públicas da era petista levaram a um ilusório e frágil alívio para os mais pobres. Deixaram intacta uma das mais injustas ordens sociais do planeta.

8 de abril de 2017

Uma espécie de morte a ser superada

Publicado em 1981, o livro “Não Verás País Nenhum”, de Ignácio de Loyola Brandão, antecipa fenômenos com os quais só convivemos mais recentemente. Por exemplo:

Como poderíamos chamar a essa nova fórmula? Sistemas dissimuladores? Assemelham-se, porém não são. São, mas não se assemelham. Um jogo de esconde. Como se entrássemos num labirinto de espelhos e perdêssemos a imagem verdadeira. Ou todas as imagens à nossa volta dadas como verdadeiras.

Como chamar? Que tal “redes sociais”?

Na passagem abaixo, difícil não lembrar dos neoliberais instalados nos governos:

...os tecnocratas adquiriram a supremacia. Suas falanges ocuparam os postos sem dar tempo a ninguém de adaptação. Romperam violentamente com os esquemas, se instalaram. Certos de que o futuro era deles.

O cenário do começo do século 21 descrito pela obra é desolador: “Acredita, nunca vi uma árvore de verdade na minha vida? Sempre morei em São Paulo, nunca deu para viajar”.

Mas o livro também tem alguns momentos de esperança. Como na passagem em que o personagem principal vê surgindo do solo ressecado pelo aquecimento global uma “pequena e alegre planta”. Poderia ser “uma nova espécie vegetal”, imagina ele. “A natureza alarmada desenvolvendo dentro dela um processo de reconstituição. O poder de se recriar. Por que não?”

E conclui:

Me ocorreu que isso é a liberdade. A capacidade de ressurgir continuamente, sob novas formas, revigorado. O processo de se recompor, tombar e erguer nada mais é que tática, dissimulação. Um jeito de enganar a morte, derrotá-la. Que a morte é simples estágio superável.

Realmente, vida sem liberdade é uma espécie de morte. Mas é morte que pode ser revertida.

6 de abril de 2017

Contra o racismo, corajosas professoras brancas

Abolida a escravidão no Estados Unidos, os negros logo descobriram que a promessa de que receberiam "quarenta acres e uma mula" não passava de um boato maldoso. Entenderam rapidamente que teriam que lutar pelo que queriam.

E eles sabiam exatamente o que queriam. Além de terras e direito ao voto, eram “consumidos pela vontade de frequentar as escolas”. Depois de séculos, exigiam o direito de satisfazer seu profundo desejo de aprender.

Foi esse anseio que a jovem professora branca, Prudence Crandall, tentou heroicamente atender. Inicialmente, ela desafiou os habitantes brancos de Canterbury, Connecticut, aceitando uma garota negra em sua escola.

Diante dos protestos, Prudence foi além e decidiu aceitar mais meninas negras e, se necessário, administrar uma escola só para elas.

Lojistas se recusaram a vender suprimentos a “Miss Crandall”. O médico não atendia suas alunas. O farmacêutico não fornecia remédios. Criminosos quebraram as janelas da escola, jogaram esterco no poço e iniciaram vários incêndios no prédio.

Além de Prudence, Margaret Douglass e Myrtilla Miner literalmente arriscaram suas vidas enquanto tentavam transmitir conhecimentos a jovens negros.

A história da luta das mulheres pela educação nos Estados Unidos atingiu um verdadeiro pico quando educadoras negras e brancas lideraram juntas a batalha do período pós-Guerra Civil contra o analfabetismo no Sul. Sua unidade e solidariedade são um dos episódios mais bonitos da história do povo estadunidense.

As informações acima estão no livro "Mulheres, raça e classe", de Angela Davis. Mostram que só há liberdade possível se sua busca estiver orientada pela luz de um conhecimento que entenda a humanidade como produto da unidade na diferença.

Leia também: O estupro como arma racista

5 de abril de 2017

A volta do conservadorismo que nunca se foi

Um recente estudo da Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, está ganhando razoável atenção de veículos da grande imprensa, como Estadão e Globo.

Uma pesquisa qualitativa entrevistou 63 eleitores de bairros pobres de São Paulo que votaram no partido entre 2000 e 2012, mas que não fizeram o mesmo em relação a Dilma Rousseff e Fernando Haddad nas eleições posteriores.

Segundo o Globo, a pesquisa mostraria “um vácuo entre discursos clássicos de partidos de esquerda e a realidade dos grupos pesquisados”. Para estes, não haveria “cisão entre ‘classe trabalhadora’ e ‘burguesia’”. Trabalhador e patrão são diferentes, mas “todos estão no mesmo barco”, afirmaram os entrevistados.

Também não existiriam polarizações como “coxinhas x petralhas” ou “conservadores x progressistas”. O principal confronto da sociedade não seria entre ricos e pobres, mas “entre Estado e cidadãos”, relata o jornal.

Lula é admirado menos pelas políticas de seus governos e mais por ser um caso típico de ascensão social. Assim como Sílvio Santos e João Doria, igualmente citados como vencedores que vieram de baixo.

Não deveria haver grande surpresa nessas conclusões. Afinal, Sílvio Santos já vem sendo exaltado como campeão do esforço individual há mais de meio século.

Surpreendente, mesmo, seria concluir que sob os governos petistas essas concepções tenham se enfraquecido para retomar a força repentinamente nos últimos três ou quatro anos.

Na verdade, a predominância dos valores conservadores não mudou muito nesse tempo todo. A não ser pelo fato de ter conquistado adeptos aos montes em quase toda a esquerda institucional.

A conclusão mais importante do estudo é indireta. Não foi o povo que se tornou mais conservador.

Leia também: Gramsci, conservadorismo e progressismo em São Paulo

4 de abril de 2017

Não verás futuro algum

“Não Verás País Nenhum” foi publicado por Ignácio de Loyola Brandão em 1981. O livro imagina um cenário de destruição ambiental no Brasil no começo do século 21. A seguinte citação abre o romance:

Conde de Oeyras. Alvará com força de Ley, por que Voffa Mageftade be fervido probibier, que nas Capitanías do Rio de Janeiro, Pernambuco, Santos, Paraíba, Rio Grande, e Seará, fe naõ cortem as Arvores de Mangues, que naõ eftiverem já defcafcadas, debaixo das penas nelle conteúdas: Tudo na forma que affima fe declara.

Trata-se de um documento publicado em 1755. Escrito em português antigo, sua tradução seria a seguinte:

Conde de Oeiras. Alvará com força de lei, por que Vossa Majestade é servido proibir, que nas Capitanias do Rio de Janeiro, Pernambuco, Santos, Paraíba, Rio Grande, e Ceará, se não cortem as Árvores de Mangues, que naõ estiverem já descascadas, debaixo das penas nele contidas: Tudo na forma que acima se declara.

Como se vê, já naquela época, normas jurídicas procuravam proteger os manguezais.

Em 2012, foi aprovada a Lei Federal 12.651, que alterou o “Código Florestal”. Segundo esta nova legislação, os apicuns ou “salgados” já não são mais considerados Áreas de Preservação Permanente. Trata-se de extensões alagadas, típicas dos mangues e ricas em nutrientes para várias espécies de fauna e flora.

A alteração foi feita para possibilitar que esses ecossistemas sejam ocupados por grandes empresas de criação de camarão e de extração de sal.

Se o tal conde pudesse surgir do passado, ficaria assustado. Certamente, seria mais um a temer por um país que vai ficando sem futuro nenhum.

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