Doses maiores

30 de junho de 2020

A pandemia e a doença K

Na Folha de hoje, reportagem de Fernando Canzian avisa “Saída da crise em forma 'K' ampliará desigualdade”. Referindo-se à pandemia, ele explica:

Nas especulações sobre o formato de saída da crise, em “V” (queda e recuperação) ou “L" (queda e estagnação), entre outros, o que vem se impondo é o “K”: os mais ricos e companhias maiores ganhando e os trabalhadores e empresas menores empobrecendo, abrindo a distância entre os dois grupos.

Isso ocorre sobretudo por dois movimentos contrários: 1) o isolamento social atingiu em cheio o setor de serviços, repleto de vagas precárias e salários baixos; e 2) a avalanche de dinheiro barato dos bancos centrais têm chegado com mais facilidade às grandes empresas e provocado a rápida revalorização de ativos como ações.

Os parágrafos acima são bem claros. O que já era muito ruim no “velho normal”, no “novo normal” ficará ainda pior.

Na verdade, o coronavírus não provocou pandemia alguma. Ele causou apenas uma doença, cujos efeitos foram enormemente potencializados pela forma como nos organizamos socialmente. Suas trágicas consequências são como aqueles apitos tocando sem parar nas UTIs. Deveriam funcionar como um alarme a denunciar a múltipla falência do sistema todo.

Diante desses sinais de alerta, nossa espécie deveria providenciar correções ágeis e radicais em seu relacionamento com a natureza e consigo mesma.

Mas a humanidade é incapaz de fazer isso porque está dividida entre uma imensa maioria impotente e uma pequena minoria poderosa e irresponsável, vítima de outra patologia, muito mais grave e antiga. Há mais de 150 anos, Marx já havia identificado essa doença. Em alemão, ele a batizou de “Kapital”.

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29 de junho de 2020

Ideais nazistas continuam a prosperar nos locais de trabalho

No livro “Livres para obedecer”, o historiador francês Johann Chapoutot mostra como o moderno gerencialismo empresarial foi fortemente influenciado por ideólogos nazistas.

É o caso da ideia de que trabalhadores devem ser vistos como colaboradores de seus patrões. Seriam todos companheiros e não inimigos de classe. Afinal, todos faziam parte da grande comunidade racial germânica, pura e superior.

Terminada a guerra, já na Alemanha Ocidental, a retórica ariana desapareceu, mas manteve-se a ideia da necessidade de ampla participação da força de trabalho na gestão da produção. Era preciso evitar conflitos de classe que pudessem facilitar a pregação comunista.

Um dos principais ideólogos desse modelo era Reinhard Höhn, ex-oficial da SS e general do exército derrotado. Justus Beyer e Franz-Alfred Six eram outros desses altos oficiais nazistas. Convertidos em professores de marketing, trabalhavam tranquilamente para os defensores do “mundo livre”.

Foi desse modo que na Alemanha e na Europa formaram-se redes de solidariedade entre ex-integrantes da SS, permitindo-lhes ajudar nos esforços para garantir um retorno lucrativo aos capitais investidos pelos países aliados nas economias destruídas.

Nos escritos de Höhn já não havia mais qualquer traço de antissemitismo e racismo. Porém, restava uma ideia fundamental: a vida é uma guerra também no terreno da produção industrial.

Os nazistas não criaram essa concepção. Apenas a herdaram do darwinismo social, militar, econômico e racista surgido no século 19 junto com o capitalismo industrial. Mas foram eles que a levaram ao auge em sua corrida insana por mais produção e dominação.

Derrotado nos campos de batalha, o nazismo perdeu seus uniformes e símbolos, mas continua prosperando nos locais de trabalho.

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27 de junho de 2020

Modernos métodos gerenciais têm raízes nazistas

“Livres para obedecer” é o mais recente livro do historiador francês Johann Chapoutot. Ainda sem tradução para o português, a obra mostra como o moderno gerencialismo empresarial foi fortemente influenciado por alguns teóricos leais a Hitler.

Segundo Chapoutot, o nazismo parece ter sido o mais opressivo regime que já existiu. E realmente o foi para as centenas de milhares de pessoas que foram suas vítimas por razões "políticas" ou "raciais". Mas esse mesmo sistema de dominação encorajou e financiou a criação de um novo modo de organização administrativa não autoritária.

Nesse modelo, a autonomia do trabalhador era prioridade: ele devia ser livre para escolher os meios, ainda que jamais para definir os objetivos. Entre estes estava, claro, a eliminação eficiente e rápida dos que eram considerados inimigos do regime, como judeus, comunistas, homossexuais, etc.

Reinhard Höhn foi um jurista respeitado e general da SS. Mas seu passado nazista foi ignorado quando ele fundou a escola Bad Harzburg, em 1956, na Alemanha Ocidental. Nela, ele continuou a utilizar o mesmo modelo administrativo que criou para o 3º Reich. Só que, agora, voltado para as empresas privadas.

Mais de 700 mil gerentes foram treinados por Höhn e sua equipe entre a criação da escola e o ano de sua morte, em 2000. Seu método de gestão era hierárquico sem ser autoritário. Oferecia aos "colaboradores" a possibilidade de gozar de plena liberdade para ser bem sucedido. Mas somente para realizar o que foi decidido de cima para baixo.

É por isso que muita gente afirma que o nazismo perdeu a guerra apenas militarmente, não ideologicamente. Voltaremos a esse livro.

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26 de junho de 2020

Na hora H, Hindenburg e Hitler

E lá vamos nós, de novo, tentar formar uma ampla frente de oposição ao fascismo. Vale chamar todo mundo contra Bolsonaro. Rodrigo Maia, FHC, Alckmin, Luciano Huck e, quem sabe, MBL...

No campo da esquerda, muitos defendem esse tipo de tática lembrando a falta de unidade entre comunistas e socialdemocratas na Alemanha dos anos 1930 no combate a Hitler.

Os comunistas, sob orientação stalinista, consideravam nazistas e socialdemocratas farinha do mesmo saco. Um de seus slogans era “Primeiro Hitler, depois nós”.

Os socialdemocratas achavam os comunistas radicais demais. Chegaram a pedir “voto útil” para o general Hindenburg, membro da elite agrária prussiana, contra os nazistas. Eleito, Hindenburg nomeou Hitler primeiro-ministro.

Ao mesmo tempo, comunistas e socialdemocratas atacavam-se uns aos outros. Estava dada a conjunção astral perfeita para a catástrofe que se seguiria.

Contra esse comportamento desastroso apenas alguns comunistas isolados. Trotsky e Clara Zetkin eram os dois mais importantes. Diziam que era preciso juntar todas as forças contra o avanço do fascismo.

Mas, atenção, sua proposta era a unidade entre as forças anticapitalistas. Claro que era possível acordos pontuais com setores da burguesia que não confiavam em Hitler. Mas nada além disso. A prioridade seria unir as forças operárias e populares em torno de propostas de esquerda.

A situação no Brasil atual tem muitas diferenças. Mas o oportunismo da burguesia é essencialmente o mesmo. Por trás dos chamados pela unidade em torno da democracia, o objetivo é salvar apenas seu próprio couro, se tiverem que se livrar de Bolsonaro.

Infelizmente, setores importantes da esquerda estão caindo nessa. Vão acabar achando um Hindenburg para chamar de seu.

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24 de junho de 2020

Antifascismo cotidiano e anticapitalismo radical

Os antifascistas não defendem a violência como tática única em seu combate à extrema-direita. Este é um dos principais pontos ressaltados por Mark Bray em seu livro “Antifa - O Manual Antifascista”.

A quem recomenda apenas ignorar os fascistas, Bray lembra que “quando eles chegam com paus, chaves de fenda ou facas, não é tão simples assim”. Por outro lado, como diz uma militante antifascista: “Se tudo o que você tem é um martelo, todos os seus problemas parecerão pregos”.

Daí, a importância daquilo que o livro chama de “antifascismo cotidiano”. Trata-se de aplicar uma visão antifascista a qualquer tipo de interação com os fascistas, todos os dias e em qualquer lugar. Desse modo:
Se a meta política antifascista normal é fazer com que os nazistas não permaneçam tranquilamente em público, o objetivo do antifascismo cotidiano é aumentar o custo social do comportamento opressor a tal ponto que aqueles que o promovem não vejam outra opção que não seja a de recuar e se esconder.
É como diz o antifascista italiano Niccolò Garufi:
Sempre defendi uma guerra total contra o fascismo, mas não no sentido militar. Você precisa estar pronto para atacar e se defender. Você tem que estar preparado, mas se trata principalmente de uma luta cultural, porque o fascismo cresce na classe trabalhadora. Temos que estar presentes na classe trabalhadora, no movimento estudantil, na organização de trabalhadores na comunidade e na construção de redes de solidariedade.
Mas tudo isso precisa ser orientado por uma visão radicalmente crítica à sociedade que torna o fascismo possível. Ou seja, é preciso ser radicalmente anticapitalista.

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