Doses maiores

6 de dezembro de 2011

A crise mundial e a síndrome da China

No final dos anos 1970, o filme “Síndrome da China” denunciou os perigos da utilização da energia atômica. O título referia-se à possibilidade de ocorrer um acidente radioativo de proporções gigantescas. O material nuclear penetraria no solo de forma tão poderosa que atravessaria o planeta e chegaria à China.

Em 16/11, Cláudia Trevisan publicou em O Estado de S. Paulo a matéria “FMI alerta sobre fragilidade de bancos chineses”. Segundo o texto, em relatório feito em parceria com o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional avalia que:
A atual configuração das políticas financeiras estimula alta taxa de poupança, elevados níveis de liquidez e um grande risco de má alocação de capital e formação de bolhas, especialmente no setor imobiliário.
Entre as medidas que o FMI recomenda está a redução da “influência governamental nas decisões sobre empréstimos”.

Os neoliberais costumam condenar a excessiva presença estatal na economia chinesa. Mas essa presença tem garantido os enormes lucros das empresas ocidentais instaladas no país. E índices de crescimento que vêm salvando a economia mundial do desastre completo.

Por outro lado, a matéria diz que:
...analistas manifestam preocupação com a provável elevação no volume de créditos podres nos balanços dos bancos chineses, em consequência da explosão de financiamentos registrada desde 2009.
Ou seja, de um lado, o modelo chinês, com seu capitalismo fortemente controlado. De outro, o neoliberalismo, que vem desregulamentando a economia ocidental há décadas. Mesmo assim, ambos apresentam os mesmos sintomas. Coisas como créditos podres e bolhas imobiliárias.

O que explica essa contradição? Muito provavelmente, o fato de que as leis capitalistas que vigoram em terras chinesas são as mesmas que andam fazendo estragos no resto do mundo. Os dois modelos divergem no varejo para se completar de um modo muito perigoso no atacado.

Em plena crise recessiva, a economia capitalista pode se revelar tão arriscada quanto a energia nuclear.

Leia também: Soviéticos ontem, chineses hoje e a crise capitalista

5 de dezembro de 2011

Gramsci leninista

Muitos setores da esquerda marxista, e até de fora dela, consideram Lênin e Gramsci completamente opostos. Um seria o defensor da tomada do poder rápida e violentamente. O outro, partidário de sua conquista gradual e suave. O primeiro fazia política com um martelo. O segundo, com um bisturi. O russo seria revolucionário. O italiano, reformista.

Um texto do marxista inglês Chris Bambery mostra que não é bem assim. “Hegemony and revolutionary strategy” foi publicado em abril de 2007 na revista “International Socialism journal”. Trata-se de publicação editada por Alex Callinicos para a tendência Socialismo Internacional.

Bambery cita alguns trechos de Gramsci para mostrar que o italiano era não só revolucionário, como leninista. Seu leninismo estava exatamente na preocupação de adaptar criativamente o marxismo revolucionário às condições da Europa Ocidental.

O artigo traz citações de Gramsci bastante demonstrativas de sua concordância com a concepção de partido que os bolcheviques defendiam. Eis uma delas:
O princípio de que o partido lidera a classe trabalhadora não pode ser interpretado de maneira mecânica. (...) A capacidade de liderar a classe relaciona-se, não ao fato de que o partido se auto-proclame órgão revolucionário, mas ao fato de que realmente consiga, sendo parte da classe trabalhadora, ligar-se com todos os seus setores e impulsioná-la na direção desejada e favorecida pelas condições objetivas. Somente como um resultado de sua atividade em meio ao povo, ele virá a ser reconhecido como o seu verdadeiro partido (conquistando uma maioria). Somente quando esta condição for conquistada, o partido colocará a classe trabalhadora sob seu comando.
Em uma carta a seu companheiro de partido Amadeo Bordiga, Gramsci dizia que o reformismo da Segunda Internacional transformava as organizações socialistas européias em testemunhas passivas dos acontecimentos. Para ele, a organização partidária deve ser resultado “de um processo dialético, no qual o movimento espontâneo dos trabalhadores e o papel organizador e dirigente de seu centro político convergem”.

São elementos bastante característicos da concepção organizativa que Lênin defendia. Em breve, podemos voltar a esse texto para reforçar esta hipótese.

O texto na íntegra, em inglês, pode ser acessado aqui.

Leia também: Revolução é fúria e consciência

4 de dezembro de 2011

Sócrates brasileiro

"Ao tocar de calcanhar o nosso fraco, a nossa dor / Viu um lance no vazio, herói civilizador". É assim que um samba de José Miguel Wisnik, professor talentoso, compositor refinado e santista convicto, homenageia o “doutor”.

Mas nada melhor que lembrar algumas frases ditas pelo próprio Sócrates:
Perguntaram a Fidel se as universitárias cubanas estavam se prostituindo. Ele respondeu: “Não sei. Mas com certeza todas as prostitutas cubanas têm nível superior”. Não estou nem querendo isso. Só peço segundo grau completo.
Em entrevista, defendendo a obrigatoriedade de escolaridade de segundo grau para os jogadores de futebol - CartaCapital nº 152

A manipulação dos resultados de alguns jogos do Campeonato Brasileiro tirou dos manos não só a calma como também a única riqueza que podiam ter em mãos. Tirou o sonho e roubou a alegria simples e corriqueira de quem pouco pode sorrir. Desencadeou uma corrente de agonia que explode nas ruas e nos campos de futebol como uma forma de demonstrar que esse povo está vivo. Pouco articulado, mas vivo. E que um dia, não tenham dúvidas, há de lutar por alicerces mais resistentes para a sua existência. É, os manos estão se matando, mas, no fundo, estão mesmo é buscando uma brecha de cidadania em que possam se apoiar. Na verdade, eles estão sangrando. E muito.
Sobre brigas de torcidas após as denúncias envolvendo fraudes no futebol – CartaCapital - 02 de Novembro de 2005

Se temos de aplaudir alguém, são os nossos abnegados atletas. Muitos vivem, treinam, vestem-se e alimentam-se com pouco mais de um salário mínimo por mês.
Sobre os jogos panamericanos do Brasil – CartaCapital – 26/07/2007

Uma coisa é Copa do Mundo, outra coisa é o futebol. Futebol é essência. É o exercício dessa prática. Outra coisa é a Copa, que é um negócio, onde tem um monte de ladrão roubando dinheiro.
Brasil de Fato – novembro de 2007

É que neste país nada mobiliza e agrega mais que o futebol e poderá ser por meio dele que teremos os exemplos que determinarão os caminhos que devemos seguir para transformar nossa sociedade em algo mais humano e da qual possamos nos orgulhar.
CartaCapital – 13/03/2009

Leia também: Um médico que sofria as doenças de seu povo

Um médico que sofria as doenças de seu povo

Dos torcedores mais convictos costuma-se dizer que são “doentes”. Corintiano doente, por exemplo. Algumas torcidas fazem questão de reivindicar a condição de sofredoras. Talvez, a do Corinthians seja a que tenha mais direito a esse estranho orgulho. De 1954 a 1977, o time amargou um penoso jejum absoluto de títulos.

Depois, com a chegada do “doutor”, começou a fartar-se com banquete de títulos e conquistas. Entre estas, a inesquecível e valiosa “democracia corintiana”. Em pleno declínio da ditadura militar, o médico recém formado liderava seus companheiros na luta por liberdade dentro e fora do esporte.

Sócrates era doutor, mas parecia esquecer-se dessa condição tão valorizada numa sociedade elitista e conservadora. Médico, preferia misturar-se à maioria formada por doentes e sofredores. Um povo magro como ele, dado hábitos pouco saudáveis e, principalmente, cagando para uma carreira de sucesso.

Ambições? Só as coletivas e as plebéias. Era nacionalista também. Desde que a nação fosse alvinegra ou aquela que torce pela camisa canarinho sem esperar recompensas financeiras. Em nome dessa coerência jamais abandonou seu olhar crítico. Jamais “pipocou”, como dizem. Longe dos campos, continuou a mostrar elegância, precisão e talento em favor dos indefesos.

Seus companheiros e companheiras de doença e sofrimento agradecem, doutor!

Leia também:
Sócrates brasileiro
O Corinthians e o futebol têm pouco a comemorar
Copa do Mundo: pra torcer e distorcer
Adriano é ficha limpa

2 de dezembro de 2011

Ao século 21: comunismo é jogo

Amigos do século 21, não sei como nem porque, estou vivendo século e meio à frente daquele em que nasci. Ainda estou sob forte impacto do que testemunho. Mas posso dar muito boas notícias. Parece que finalmente a humanidade livrou-se de seus apertos materiais.

O trabalho duro, cansativo e aborrecido já não existe. Problemas sociais como pobreza, exploração, opressão e criminalidade também são raros. Aos poucos, a civilização parece ter encontrado um ponto de equilíbrio ecológico. Não se trata de harmonia perfeita, mas nossa relação com fauna e flora já não é marcada pela destruição. Acho que finalmente chegamos ao tal do comunismo.

No entanto, ainda há muita coisa que não consigo entender. Entre elas, a vida social. Quando sonhávamos com uma sociedade livre, era costume pensarmos em menos regras e leis. Mas não é isso o que vejo por aqui. São inúmeros os regulamentos e normas. Eles existem para quase tudo o que se faz. E há uma enorme variedade deles para cada coisa.

Mas o mais incrível é que nada disso significa menos liberdade. Ao contrário, as pessoas são livres para escolher as regras que bem entenderem desde que combinem com as outras. E tais combinações podem envolver tanto a forma como calçar os sapatos, como de que modo se deve tocar certa canção.

Pelo que entendi, a vida social é um grande jogo que se joga aos pares, em trios, quartetos, e envolvem até assembléias inteiras. E tudo isso sem a obsessão competitiva que marcou tanto os séculos passados. Ainda não aprendi direito a viver desse jeito. Mas é muito divertido.

Leia também: Karaokê no século 17