19 de dezembro de 2017

União Soviética: preservando o estado às custas da revolução

Em seu livro “Reconstruindo Lênin”, Tamás Krausz dedica um capítulo ao livro “O Estado e a Revolução”, publicado em 1917. Uma das obras mais lidas do biografado.

Segundo Krausz, Lênin retomou Marx e Engels ao propor a substituição da noção de estado no período pós-revolucionário pela ideia de “comuna".

A comuna seria um estado em extinção. Uma instituição fundamental durante a transição política que ele chamou “ditadura do proletariado”, adotando o conceito de Marx e Engels.

Mas Lênin inovou ao chamar de socialismo a fase de transição social ao comunismo, estágio em que a divisão de classes seria extinta, tornando desnecessária a existência do estado.

Krausz também cita o artigo “Nossas tarefas e o Soviete dos Deputados Trabalhadores”, de 1905. Nele, Lênin afirma que os sovietes deveriam ser considerados formas de auto-organização de toda a população.

Seriam órgãos do proletariado, que não deveriam ser apropriados nem mesmo pelos partidos revolucionários. Politicamente, dizia ainda, os sovietes seriam embriões de “um governo revolucionário provisório".

Além disso, afirmava que a organização do autogoverno revolucionário e a eleição de seus deputados pelo povo não seria o prólogo de uma revolta, mas seu epílogo. Ou seja, a democracia mais ampla era o objetivo maior.

Infelizmente, a curta experiência democrática dos sovietes foi afogada em sangue pela guerra civil promovida pelas forças contrarrevolucionárias, com enorme apoio das potências imperialistas.

E sem a esperada revolução na Europa ocidental, as complicadas transições dentro das transições acabaram bloqueadas.

Nessa situação, Stálin apresentou sua alternativa. Promoveu uma contrarrevolução interna que salvou a União Soviética e condenou o socialismo. Preservou o estado às custas da revolução.

2 comentários:

  1. Olá Sérgio. Na sua leitura, há como falar em um real poder popular exercido pelos conselhos, ou realmente procede que essa noção se cristalizou apenas em formalidade enquanto que o poder real era exercido por uma oligarquia/autocracia?

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    1. Bom, Rodolfo, em primeiro lugar, não é bem uma leitura minha, mas o resultado de várias leituras. Ao que parece, a democracia a que se chegou nos primeiros anos da União Soviética foi mais a avançada de que se tinha notícia até então. Não só quanto à participação política, mas, principalmente em relação à desconcentração da riqueza e aprovação de leis muito avançadas. E seus efeitos perduraram por muito tempo, permitindo o posterior fechamento do regime com base nos avanços conquistados e, claro, no cerco covarde da burguesia. Em suma, um processo muito contraditório, que a esquerda ainda precisa debater muito. Do que tenho certeza é que a União Soviética tal como se estabilizou a partir da consolidação do stalinismo já não tinha condições de ser referência para os socialistas revolucionários. Por outro lado, é uma conclusão bastante facilitada pela distância dos acontecimentos.
      Abração!

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