19 de julho de 2018

Trabalho de merda num sistema de bosta

“Sem o seu trabalho, um homem não tem honra. E sem a sua honra, se morre, se mata. Não dá pra ser feliz...”, diz a bela canção de Gonzaguinha.

Para Marx o que define o ser humano é o trabalho. Não precisa ser marxista para concordar. Basta olhar em volta.

No entanto, não é marxista considerar que se trata de qualquer trabalho. Só serve aquele que seja atividade criativa. Transformadora não apenas do mundo material, mas do próprio trabalhador.

O desemprego é uma das mais graves doenças sociais da contemporaneidade. Mas ter um emprego está longe de garantir alguma realização pessoal.

Essa é uma verdade óbvia para muitas ocupações mal remuneradas, pesadas, cansativas, repetitivas, humilhantes, sujas e insalubres.

Mas isso é menos evidente para os “shit jobs”, ou “trabalhos de merda”, conceito criado pelo antropólogo David Graeber.

Segundo ele, trata-se de um tipo de atividade criada pelo mundo corporativo sob o capitalismo financeiro. Uma “forma de trabalho assalariado que é tão inútil, desnecessária ou daninha, que até mesmo o próprio trabalhador não consegue justificar sua existência, ainda que – como parte de suas condições de emprego – se sinta obrigado a fingir o contrário”.

Assessores que não assessoram. Executivos que nada executam. Inúmeras reuniões e decisões sem qualquer objetividade. Enormes relatórios que ninguém lê. Tudo isso em empresas altamente lucrativas.

Mas não é verdade que esse tipo de trabalho não produza nada. Produz depressão, infelicidade e, principalmente, desperdício e concentração de recursos numa sociedade e planetas tão carentes deles.

Só um sistema de bosta para criar um trabalho bem remunerado com o qual não dá pra ser feliz.

Leia também: Greve no domingo pelo direito à preguiça

6 comentários:

  1. hehehe... gostei. Desde do título - bem desbocado - até o conteúdo. Estou, inclusive, lendo o livro do Ricardo Antunes, Adeus Ao Trabalho? Trata, entre outras coisas, do descolamento do trabalho direto para esse de supervisão. Vivi ele, todo mundo reclama de como é improdutivo, mas vivem cada vez mais alargando suas fronteiras. É isso mesmo, um trabalho de merda. Ah, "by the way", lindo resgate da canção do Gonzaguinha para colocar uma Pérola na Pílula. Que visão poética desse cara sobre a centralidade do trabalho. Marx aplaudiria. Saudades, Gonzaguinha, saudades.

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    1. Importante ler o Antunes. Foi um dos primeiros a denunciar aquela papagaiada de que a classe trabalhadora tinha acabado, lé no final dos anos 1980. O mais recente dele é "O privilégio da servidão". Ainda não li, mas espero ler.
      Valeu!

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  2. Muito bacana sua resenha. Já tinha lido algo também na Folha. Parece que o autor é um dos inspiradores do Occupy Wall Street. Vale a leitura!

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    1. Bem, não é resenha porque não li o livro. Só tomei conhecimento via alguns artigos. Mas deve valer muito a leitura.
      Abraço

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  3. Valeu, Sérgio! Defendo que a categoria trabalho é chave para se compreender o processo de produção social de sofrimento psíquico. Já que a gente também está falando de bibliografia, lembro 'Os sentidos do trabalho', do Ricardo Antunes. Ele também organizou uma seleção de textos de Marx e Engels em dois volumes editados pela Expressão Popular: 'Dialética do trabalho' (I e II). Há um livro mais antigo, da Edith Seligmann-Silva, 'Desgaste mental no trabalho dominado' e um mais recente, organizado por Graça Druck e Tânia Franco, 'A perda da razão social do trabalho'. Mas há uma publicação, joia rara, difícil de se achar, que recomendo: 'Do assédio moral à morte de si: significados sociais do suicídio no trabalho'. Abraços!

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