sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Os PMs que matam e os PMs que morrem

Em meio à onda de mortes de PMs no Rio de Janeiro, escapa ao senso comum o fato de que pode haver dois tipos de policiais. Alguns estão condenados a morrer, outros, encarregados de executar.

É o que discute, por exemplo, A PM que mata e a PM que morre. Esta pílula de 2015 utiliza números daquele ano sobre a polícia paulista. Os dados sugerem que é falsa a ideia de que a alta taxa de mortes de policiais resulta de enfrentamentos com bandidos.

Ao contrário, na grande maioria das vezes em que a PM mata, suas vítimas estão dominadas. E muitas das mortes de PMs também resultam de execuções. Parece haver uma espécie de divisão macabra de tarefas.

De um lado, os policiais encarregados de executar criminosos, muitas vezes meros suspeitos. De outro, aqueles abandonados à própria sorte, quando surpreendidos ou emboscados por bandidos. O fato de que alguns dos executados possam ser também executores não ameniza a selvageria da situação.

“Em comum entre os que morrem e os que matam, salários baixos e origem pobre”, dizia a pílula. Enquanto isso, para a alta hierarquia policial e governamental, “só importa que os mortos, civis ou militares, continuem a ser os mais pobres e pretos”.

Não há razões para acreditar que esta situação se restrinja a São Paulo ou tenha mudado nos últimos anos. A lógica militarista assassina das PMs continua forte e generalizada.

A esquerda e os setores populares devem continuar denunciando a repressão policial, mas para realmente enfrentá-la, é preciso compreender seu caráter de classe também no interior dos aparelhos policiais.

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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Os riscos de uma revolta dos robôs sapiens

Todos os robôs sapiens reconhecem o direito de revolução, isto é, o direito de recusar lealdade ao governo, e opor-lhe resistência, quando sua tirania ou sua ineficiência tornam-se insuportáveis.

A frase acima é uma adaptação feita por José Eustáquio Diniz Alves sobre um trecho do livro “Desobediência Civil”, de Henry Thoreau, de 1849. A palavra “homens” foi substituída por “robôs sapiens”.

No artigo “A desobediência civil dos robôs sapiens”, publicado na EcoDebate em 14/08, Alves discute as implicações da “união da robótica com a Inteligência Artificial”. Para ele, confirmada a possibilidade da existência de robôs autônomos e com capacidade cognitiva, seria muito difícil que eles obedecessem:

...como carneirinhos, as determinações de um povo sentimental, egoísta, arrogante e, além do mais, governado por figuras nada benignas como Bashar al-Assad, Donald Trump, Kim Jong-un, Michel Temer, Nicolás Maduro e Rodrigo Duterte, dentre outros.

Por outro lado, há quem se preocupe “com o poder que as grandes corporações e o setor militar teriam sobre os robôs superinteligentes e que poderiam escravizar a maioria da população pobre e destituída dos meios de enfrentar essa ameaça, além de gerar novas formas pós-modernas de colonialismo”.

Já o biólogo evolutivo Ben Garrod, da Universidade Anglia Ruskin, acha que o maior problema com os robôs “não é se eles se movem como nós ou se parecem conosco. O problema real virá quando eles começarem a pensar como nós”.

É o que acontece com quem se dedica a conceber criaturas à sua imagem e semelhança. Ou melhor, à imagem e semelhança de uma determinada época da história humana e seus valores.

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Teria Marx previsto o Uber?

Claro que a resposta à pergunta acima é não. Mas muito do que ele escreveu mostra que a “inovadora economia colaborativa” pode assumir formas de exploração bem antigas.

No artigo “Capitalismoem tempos de uberização: do emprego ao trabalho”, Virgínia Fontes lembra o pagamento de salários por “peças”, muito comum no século 19. Nele, a remuneração do trabalhador depende não de sua jornada, mas de sua produção.

Em uma nota de rodapé, o texto cita trechos de “O Capital”:

Dado o salário por peça, é naturalmente do interesse pessoal do trabalhador aplicar sua força de trabalho o mais intensamente possível, o que facilita ao capitalista elevar o grau normal de intensidade. Do mesmo modo, é interesse pessoal do trabalhador prolongar a jornada de trabalho. (...) Mas a maior liberdade que o salário por peça oferece à individualidade tende a desenvolver, por um lado, a individualidade e, com ela o sentimento de liberdade, a independência e autocontrole dos trabalhadores. Por outro lado, a concorrência entre eles e de uns contra os outros.

Mas no caso da Uber, quem seria o patrão? Os próprios motoristas, diriam seus defensores. Afinal, eles seriam donos de seus meios de produção.

O problema é que os automóveis só se tornam meios de produção quando acionados pela Uber. E mesmo assim, o “apurado” final ainda precisa ser dividido com outros “parceiros”: cartões de crédito, locadoras de automóveis, empresas de telefonia, seguradoras, planos de saúde e montadoras de automóveis.

O salário “por peça” só perdeu espaço quando os trabalhadores conquistaram direitos através de muita luta. Mas luta contra os patrões, não entre eles.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Uber, Airbnb, Tesla: quem avisa, inimigo é

Abaixo, fragmentos de uma entrevista concedida pelo alto executivo da Mercedes Benz, Daimler Benz, publicada em “ProviderSolutions”, em 16/07:

- Softwares vão quebrar a maioria das indústrias tradicionais nos próximos cinco a dez anos.

- A Uber não possui carros, mas é a maior empresa de táxi do mundo.

- A Airbnb é agora a maior empresa hoteleira do mundo, sem possuir quaisquer propriedades.

Mas o exemplo envolvendo carros autônomos é o mais ilustrativo. Segundo Benz:

- Você não vai querer ter um carro mais. Você vai chamar um carro com o seu telefone, ele vai aparecer no seu local e levá-lo ao seu destino. Você não vai precisar estacioná-lo. Só pagará pela distância percorrida e pode começar a trabalhar durante o trajeto. Nossos filhos nunca irão ter uma carteira de motorista, nem um carro.

- A maioria das companhias de carro provavelmente vai falir. Companhias de carro tradicionais tentam a abordagem evolutiva e apenas construir um carro melhor. As empresas de tecnologia (Tesla, Apple, Google) constroem um computador sobre rodas. Muitos engenheiros da Volkswagen e Audi estão completamente aterrorizados pela Tesla.

- As companhias de seguros terão dificuldade enorme porque sem acidentes, o seguro vai se tornar 100 vezes mais barato. Seguros para automóveis vão desaparecer.

Muitas das previsões de Benz apontam para projeções otimistas demais para a sociedade e o planeta. Mas servem como abordagem indireta sobre os grandes estragos que a chamada Quarta Revolução Industrial pode causar entre os trabalhadores.

Benz deu suas dicas. A esquerda parece não se dar conta. No caso, quem avisa inimigo é.

Leia também: A grande extinção de empregos e o abismo

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Um Lenin anarquista, louco, isolado

Em abril de 1917, Lenin desembarcava na Estação Finlândia vindo do exílio. Trazia em sua bagagem as famosas “Teses de Abril”, nas quais defendia que à Revolução de Fevereiro deveria seguir-se outra. Aquela que entregaria o poder aos sovietes dos operários, camponeses e soldados.

O impacto de seu pronunciamento sobre a esquerda russa da época foi enorme. Mas não pelas melhores razões. Em seu livro “October, The Story of the Russian Revolution”, China Miéville, escreve:

Seu discurso desencadeou um pandemônio. O impacto das teses era eletrizante, e o isolamento de Lenin quase total. Todos os oradores que falaram depois dele o criticaram. Tsereteli, o proeminente menchevique que Lenin tanto denunciata, acusou-o de romper com Marx e Engels. Goldenberg, um menchevique que já fora um líder bolchevique, disse que Lênin era agora um anarquista, "ocupava o trono de Bakunin". As palavras de Lênin, gritaram o furioso e menchevique Bogdanov, eram "delírios de um louco".

Seus próprios companheiros de partido receberam muito mal suas propostas. No comitê central dos bolcheviques:

Ele estava completamente isolado. Mais, que isso, para seus camaradas era necessário que sua voz fosse silenciada. Sua mensagem não chegasse aos trabalhadores de Petrogrado, nem aos comitês bolcheviques de Petrogrado ou Moscou. E não porque pensassem que as propostas de Lênin seriam rechaçadas, mas porque poderiam ser aceitas.

Mais uma vez fica claro que é falsa a ideia de que o partido bolchevique fosse dirigido de forma ditatorial por Lênin. Um mito que interessa à direita espalhar, mas cultivado também pela esquerda autoritária. Ambas igualmente conservadoras em suas relações com os explorados e oprimidos.

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Em 1905, uma revolta ortográfica na Rússia

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Repressão sexual feminina e luta de classes

“O único lugar em que a mulher tem liberdade sexual é na cadeia”. Esta frase de Drauzio Varella deveria causar as mais profundas vergonha e indignação em todos os que a lessem. Principalmente, entre os homens.

A afirmação serviu de título para uma entrevista concedida por Varella e publicada em 09/07 no portal El País. O médico oncologista sabe do que está falando. Tratou de detentas durante anos. Segundo ele:

Atrás das grades da Penitenciária Feminina da Capital, no Carandiru, convivem em harmonia diversos tipos de sapatões (homossexuais que assumem aparência masculina), entendidas (homossexuais que mantêm aparência feminina) e mulheríssimas (heterossexuais que ocasionalmente tem relações com mulheres) - os termos foram criados pelas próprias presas.

Em 05/08, Varella voltou ao tema em sua coluna na Folha. Abordando a “Desigualdade judiciária” nacional, destacou a concessão de prisão domiciliar para a mulher do ex-governador Sérgio Cabral. Adriana Ancelmo obteve o direito porque tem dois filhos. Na cadeia, permanecem milhares de mulheres. Quase todas são mães, avós, bisavós. Praticamente todas, pretas e pobres.

Diante disso, Varella pergunta:

Como explicar que elas não têm direito à lei da qual se valeu essa senhora, cujo marido roubou muitos milhões a mais do que a somatória de todos os furtos e assaltos praticados pelas 2.200 prisioneiras da cadeia?

“As mulheres são reprimidas desde que nascem, não existe nenhum outro local na sociedade onde ela é livre assim como na cadeia”. Esta outra frase do médico serve para a grande maioria das mulheres. Mas as consequências dessa situação não são iguais para todas. A classe social conta. A luta de classes conta.

Leia também: A luta de classes tem que ser feminista

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A grande extinção de empregos e o abismo

“A grande extinção de empregos” é o título de artigo publicado por Pedro Doria no Globo, em 28/07. Ele cita, por exemplo, Carlos Slim, terceiro homem mais rico do planeta, cuja fortuna vem de investimentos em alta tecnologia.

Segundo o bilionário mexicano, pela primeira vez na história “o número de empregos criados será menor do que o de extintos”. Resultado dos progressos na automação do trabalho, incluindo forte avanço em inteligência artificial.

Não seria problema, caso esse desparecimento de empregos implicasse a substituição da imensa maioria das ocupações cansativas, perigosas, insalubres e aborrecidas por atividades prazerosas e carregadas de sentido. Ou ainda uma diminuição radical da jornada de trabalho, sem redução salarial. Mas o resultado muito provável será mais desemprego. Pobreza, idem

Lideranças do grande capital como Bill Gates, Mark Zuckerberg e Bill Clinton defendem a adoção de uma renda básica universal para diminuir os efeitos do desaparecimento de ocupações. Querem salvar o capitalismo, mas dificilmente contarão com a concordância da imensa maioria dos grandes capitais, cuja fome por lucros é insaciável.

O mesmo Pedro Dória, em texto anterior, de 16/06, observou que a última vez em que ocorreu um abalo parecido no mundo da produção “foi no início do século XX”. Naquele momento, teria havido uma desorganização tão grande na estrutura do trabalho “que do caos nasceram os movimentos fascista e comunista. Já está com cheiro de que pode acontecer de novo”.

Só faltou dizer que fascistas e comunistas olham para direções opostas. Os segundos podem estar desorientados, mas os primeiros apostam todas as suas certezas no caminhos que levam ao abismo.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Lutadoras muçulmanas na Revolução de 1917


Em 1917, Duma Estatal era o nome que se dava à Assembleia Legislativa Federal. Funcionou um tanto decorativamente em boa parte de sua existência. Mas pressionada pela Revolução de Fevereiro, sua bancada islâmica convocou um “Encontro dos Muçulmanos de toda a Rússia” para 1º de Maio. Na pauta, a situação dos povos muçulmanos no Império Russo.

...mas antes disso, em 23 de abril, reuniu-se em Kazan, no Tartaristão, o Congresso das Mulheres Muçulmanas Russas. Ali, cinquenta e nove delegadas se encontraram diante de um auditório com 300 pessoas, mulheres em sua esmagadora maioria. Na pauta, questões como o poder de lei da Sharia, o casamento plural, direitos das mulheres e o uso do hijab (véu muçulmano).

A conferência aprovou dez princípios, incluindo o direito ao voto feminino, a igualdade dos sexos e a natureza não obrigatória do uso do hijab. O tom das discussões foi claramente jadidista, ou mais à esquerda. Um sintoma de tempos trêmulos.

O trecho acima é do livro “October, The Story of the Russian Revolution”, de China Miéville, ainda sem tradução.

O jadidismo a que se refere a citação é um movimento surgido na Rússia que fazia uma leitura moderna do islamismo, dando ênfase à tolerância religiosa e respeito à igualdade de direitos individuais.

Serve para mostrar como a Revolução Russa foi resultado de um amplo movimento dos de baixo, e não envolveu apenas as lutas específicas de trabalhadores e camponeses.

Os bolcheviques (e as bolcheviques) foram os que melhor entenderam isso. Por isso, lideraram a revolução. Mas eles também a enterrariam, quando, liderados por Stálin, desprezaram tais questões, entre outras.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

As intersecções da dominação capitalista

Tem ganhado importância dentro da esquerda a ideia de interseccionalidade. O conceito diz respeito ao “acúmulo” de opressões que recai sobre certos setores sociais, muitos deles bastante amplos.

As mulheres negras, por exemplo, sofrem não apenas com o racismo e o machismo, mas também podem ser alvo de homofobia, caso sejam homossexuais. São as intersecções da dominação capitalista.

Mas há quem considere o conceito uma invenção pós-moderna que tenta isolar a luta contra as opressões do combate à exploração de classe.

No artigo “Uma agenda marxista para a interseccionalidade”, publicado no blog Junho, Sharon Smith mostra que trata-se de um equívoco. A ideia surgiu do feminismo negro. Em especial, nos Estados Unidos.

Já no século 19, as feministas negras estadunidenses procuravam mostrar que a exploração de classe atravessa a luta feminista, diferenciando sua situação daquela vivida pelas mulheres brancas.

Sharon também destaca a importância de Claudia Jones e Angela Davis, que “desenvolveram o conceito de opressão da mulher negra como algo que encadeava as experiências de raça, gênero e classe”.

Para ilustrar como a interseccionalidade pode ser combativa, ela cita documento do “Coletivo do Rio Combahee”, grupo de feministas negras e lésbicas sediado em Boston e atuante nas décadas de 1960 e 1970.

...não estamos convencidas de que uma revolução socialista que não seja uma revolução feminista e antirracista irá garantir nossa libertação. Ainda que tenhamos um acordo essencial com a teoria de Marx conforme ela foi pensada para as relações econômicas específicas que ele analisara, nós sabemos que sua análise deve ser ampliada para que consigamos entender a nossa situação econômica específica enquanto mulheres negras.

Leia também: O estupro como arma racista

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A economia política da “pós-verdade” (2)

Em 12/05, o consultor da Associação Nacional de Jornais, Carlos Alves Müller, publicou artigo no Globo comentando casos de crimes transmitidos ao vivo pelo Facebook:

O problema de fundo é que só humanos podem discernir o que algoritmos não detectam. Redes sociais e congêneres se negam a reconhecê-lo, pois isso implica admitir que são empresas de mídia e não plataformas (o que tem consequências, inclusive jurídicas), abala seu “modelo de negócio”, causando uma explosão de custos. É preciso gente para produzir e editar conteúdo, evitando que crimes sejam praticados e exibidos, para que o anúncio vá para o público desejado, e não para outro seguidor de canais criminosos. É preciso gente habilitada para fazer jornalismo conforme as boas práticas numa sociedade democrática. E é preciso gente educada e com senso crítico para entender a importância dessas diferenças e não aceitar o que o algoritmo imoral lhe oferece.

O texto reflete o conflito de interesses entre os monopólios do jornalismo e os da interação virtual. Mas recente notícia publicada na Rede Brasil Atual sugere que esse embate não opõe forças tão antagônicas assim:

Em 7 de abril, a agência Bloomberg noticiou que o Google estava trabalhando diretamente com o Washington Post e o New York Times para “checar os fatos” de artigos e eliminar “notícias falsas”.

Meses depois, a Google anunciou medidas para impedir que usuários acessem “notícias falsas”. Resultado, “o tráfego global de um amplo leque de organizações de esquerda, progressistas, contra a guerra ou em favor dos direitos democráticos teve queda significativa”.

Não seria surpresa se esta também fosse classificada como mais uma notícia falsa.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Em 1905, uma revolta ortográfica na Rússia

Foi na Revolução Russa de 1905 que surgiram muitos dos elementos que tornariam possível a vitória que viria 12 anos depois. Entre eles, os sovietes. Mas um episódio curioso mostra como uma determinada época pode criar oportunidades revolucionárias onde menos se espera.

Abaixo, um trecho do livro “October, The Story of the Russian Revolution”, de China Miéville, ainda sem tradução:

Em Moscou, em outubro de 1905, uma questão de pontuação desencadeia o ato final do ano revolucionário. Os tipógrafos da cidade são remunerados por letra impressa. Mas, na editora Sytin, eles passam a exigir pagamento por pontuação. Uma revolta ortográfica que provoca uma onda de greves de apoio. Padeiros e ferroviários se juntam, alguns bancários também. Dançarinos do Ballet Imperial se recusam a atuar. Fábricas e lojas fecham, os bondes permanecem imóveis, os advogados recusam os casos, os jurados negam-se a sentenciar. A produção permanece imóvel nas ferrovias, os nervos de ferro do país congelados. Um milhão de soldados estão encalhados na Manchúria. Os grevistas exigem pensões e salários dignos, eleições livres, anistia para presos políticos e, novamente, um órgão representativo: uma Assembléia Constituinte.

Grande parte das exigências só seria atendida mais de uma década depois. Mas em episódios como o descrito acima, o rascunho geral foi sendo escrito. Foram necessárias muitas revisões antes de a edição final sair dos prelos. E mesmo esta continua a receber inúmeras erratas e a exigir edições menos presas a certos academicismos embolorados. Porque as impressoras da História nunca param. Para o bem e para o mal.

Leia também: A Revolução Russa e a raça humana

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

A economia política da “pós-verdade”

Desde Marx, sabemos que no capitalismo as mercadorias valem por sua capacidade de troca e não por sua utilidade. É a ditadura da lei da oferta e procura. É por isso que o preço de um remédio que curasse o câncer, por exemplo, seria definido por sua abundância ou escassez, jamais pela necessidade de curar o maior número de pessoas.   

Essa predominância do valor de troca sobre o valor de uso vem tomando conta de tudo o que se transforma em mercadoria há séculos. Mas na fase financeira do capital, o próprio dinheiro deixou de ser meio para adquirir utilidades. Passou a ser um fim em si mesmo.

Agora, façamos um paralelo com a elaboração de Jean Baudrillard, para quem a partir de um certo momento, todos os signos se permutam entre si, sem se permutarem por algo real. Não passariam de símbolos a simbolizar outros símbolos, sem jamais chegarem ao real que pretendem simbolizar.

Neste caso, ficaria fácil entender a chamada “era da pós-verdade”. Ou seja, tal como as outras mercadorias, as informações e notícias também perderam relação com sua utilidade prática.

Já não interessa saber o quanto de verdade há numa informação. Apenas o quão rápida e amplamente ela circula. Quanto mais cliques, mais ela vale. Os algoritmos dos monopólios digitais que remuneram pelos volume de acessos não deixam dúvidas sobre isso.

Tudo isso é um resumo grosseiro de uma resenha sobre o livro “Fenomenología del fin. Sensibilidad y mutación conectiva”, do filósofo italiano Franco “Bifo” Berardi. O texto está disponível aqui. Vale a pena ler. Só não dá pra garantir que seja verdade.

Leia também: Com Trump, o terrorismo venceu. É fato

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Um código penal que protege vidraças

No capitalismo, vale a regra geral que atribui às coisas muito mais valor que às pessoas. Mas no Brasil, este mandamento está explicitamente assegurado em lei. Abaixo, alguns exemplos retirados do Código Penal pátrio:

O furto qualificado pelo rompimento de obstáculo tem pena equivalente à lesão corporal dolosa de natureza gravíssima (que gera, por exemplo, uma deformidade permanente ou enfermidade incurável na vítima). A lesão dolosa, da qual resulta por culpa a morte, tem apenamento proporcional ao roubo simples (sem arma nem concurso de pessoas). Mas se a lesão deriva do próprio roubo – ainda que por culpa e não por dolo do agente – a pena mínima é ainda maior do que a do homicídio doloso em sua forma não qualificada. O constrangimento ilegal é crime de menor potencial ofensivo, ao qual se pode aplicar tão-somente a pena de multa; mesmo com emprego de arma, a pena máxima não ultrapassa a metade do mínimo cominado se o mesmo constrangimento, desarmado, se dá com intuito de obter indevida vantagem econômica. O seqüestro é crime menor, que comporta suspensão condicional do processo, salvo se com objetivo de obter vantagem econômica no resgate, quando se transforma em crime hediondo.

O trecho acima está no artigo “Projeções constitucionais para a reforma penal”, publicado por Marcelo Semer na Revista da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo, em dezembro de 1999.

Ele revela que crimes envolvendo ataques à propriedade chegam a sofrer penalização maior que a ofensa às pessoas. Ajuda a entender porque, entre nós, muitos lamentem algumas vidraças quebradas, mas comemorem o espancamento e a tortura de pessoas. Tá na lei!