Doses maiores

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24 de setembro de 2024

O imperialismo na fase digital do capitalismo

Há alguns anos, o governo federal vem assinando convênios com a Google. Um exemplo é o que foi anunciado em junho de 2023, visando facilitar o acesso a benefícios sociais e vacinas. Mas também há a utilização do gmail como correio eletrônico oficial de muitos órgãos públicos.

Em recente entrevista, o pesquisador especializado em tecnologia digital Evgeny Morozov, demonstrou preocupação com esse tipo de relação:

Se uma empresa se tornar o fornecedor padrão de serviços de análise de dados nos nossos ministérios da saúde, diz ele, o estado de bem-estar social permanecerá o mesmo ou serão privatizados pela Big Tech?

Ainda segundo Morozov:

Estamos perante a mesma situação que os teóricos da dependência descreveram nas décadas de 1960 e 1970: o progresso tecnológico ocorre em paralelo com a regressão econômica ou o subdesenvolvimento industrial.

Quando fala em teóricos da dependência, Morozov deve estar se referindo a nomes como Ruy Mauro Marini, André Gunder Frank, Theotonio dos Santos e Vania Bambirra. Segundo estes pensadores, o subdesenvolvimento dos países periféricos não é um estágio a caminho do desenvolvimento, mas resultado de sua inserção subalterna na economia mundial capitalista.

Vale a pena ler a longa entrevista na íntegra. Morozov manifesta muitas outras preocupações relacionadas às transformações provocadas pela tecnologia digital. Várias delas bastante pertinentes e esclarecedoras. Mas também faz afirmações polêmicas, como a necessidade de a esquerda buscar atender as demandas de uma “subjetividade pós-moderna”.

Pode até ser. Mas a persistência da validade da teoria da dependência em plena era das big techs parece demonstrar que continuamos mergulhados na velha modernidade capitalista. Também conhecida como imperialismo.

Leia também: Inteligência artificial: um combo de problemas

9 de julho de 2024

Amazon e Google unidas no patrocínio ao genocídio

Em 04/07, a Amazon completou 30 anos de fundação. Terceira maior empregadora do mundo, grande parte de sua mão de obra é precarizada e sofre com terríveis condições de trabalho. Em seus galpões gigantes, o calor e o frio podem ser insuportáveis, dependendo da época do ano. As jornadas superiores a 10 horas têm intervalos que não ultrapassam os 30 minutos para refeições. O ritmo alucinante das tarefas é ditado por algoritmos, máquinas e robôs. Em muitas de suas unidades, os trabalhadores percorrem dezenas de quilômetros por dia sem parar.

Toda essa exploração explica a maior parte do sucesso da gigante que surgiu como serviço de entregas. Mas os créditos costumam ser atribuídos à suposta genialidade do criador da empresa, Jeff Bezos. 

Além das entregas, a empresa oferece serviços de armazenamento de dados, produção de filmes e séries, além de aplicativos de leitura e de assistentes virtuais. Mais recentemente, porém, surgiu um item vergonhoso no catálogo da Amazon. 

Em 26 de junho passado, seis manifestantes interromperam um evento promovido pela empresa, em Washington. Eles denunciavam um projeto chamado Nimbus, que envolve computação em nuvem e inteligência artificial para uso das Forças Armadas israelenses. "Sua tecnologia está patrocinando o genocídio", gritou um dos manifestantes, segurando a bandeira da Palestina. A iniciativa também envolve a Google e conta com apoio das forças armadas estadunidenses.

Amazon e Google são fortes concorrentes em algumas áreas de tecnologia de ponta. Mas quando se trata de auxiliar o aparelho estatal e a máquina bélica do imperialismo sempre é possível combinar esforços e lucrar juntas com repressão e genocídio.

Leia também: República Popular da Amazon

24 de junho de 2024

Inflação made in USA

Na semana passada, o Congresso americano anunciou que a dívida pública dos Estados Unidos deve fechar 2024 em 99% do PIB. O que significa um montante de US$ 34 trilhões. Imensa dívida que o Tesouro Americano rola, imprimindo dólares.

Mas, muito diferente do que acontece aqui e em muitos outros países, ninguém liga muito pra isso. Essa é a diferença entre quem manda na economia mundial e quem sofre as consequências de seus desmandos. Especialmente, os países periféricos e dependentes.

No Brasil, o aumento da dívida é pretexto para asfixiar investimentos em programas sociais e de geração de emprego e renda. Nos Estados Unidos acontece algo semelhante, mas o governo tem meios de transferir os problemas de sua economia interna para o resto do mundo.

O dólar como moeda do comércio internacional foi imposto pelo imperialismo ianque desde o início dos anos 1970. Desse modo, o Tesouro Americano passou a decidir quando e em que quantidade imprimir dinheiro e as outras economias que se virem para acompanhar.

Em economias de mercado, mais dinheiro em circulação costuma provocar elevação de preços. Mas quando os Estados Unidos imprimem dólares, inflam os preços indexados na moeda utilizada em grande parte das transações internacionais. Desse modo, exportam sua inflação para o resto do planeta.

Tudo isso mostra que a dura batalha entre os bancos centrais, sequestrados pelos financistas, e governos que tentam priorizar investimentos públicos também tem esse importante elemento. Um componente que torna qualquer projeto de emancipação nacional e progresso social uma luta internacionalista e anti-imperialista. Por consequência, anticapitalista.

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A real sobre o “Plano Real” de Sérgio Moro
Na pós-democracia, a política comandada pela economia

10 de junho de 2024

EUA e Israel promovem massacres, não guerras

O portal Outras Palavras publicou o artigo “O que nos separa de um novo conflito global” do sociólogo alemão Wolfgang Streeck, em 09/06/2024.

Vale a pena ler o texto na íntegra, mas há um trecho em que o autor faz uma contabilidade bastante sinistra. Streeck começa informando que na Guerra do Vietnã, os Estados Unidos perderam 58.220 soldados, incluindo os que morreram em circunstâncias não relacionadas a combates. Já as baixas vietnamitas foram estimadas entre 1.8 milhão e 3.3 milhões, contando militares e civis. O total exato não está disponível porque grande parte da carnificina ocorreu através de bombardeios. Mas a proporção de mortes ficou entre 30 e 57 mortos vietnamitas para cada soldado americano.

Na Guerra do Golfo de 1991, esta proporção passou a ser 1 morto estadunidense para 138 iraquianos. No Afeganistão, a mortalidade baixou para 1 americano x 45 afegãos. Na invasão do Iraque por George W. Bush, voltou a subir: 1 x 94 iraquianos.

Na Síria, disparou para 1 x 805. Os israelenses não se saíram tão bem nos 23 dias da operação “Chumbo Fundido”, entre 2008 e 2009, ficando com uma proporção de 1 israelense x 231 palestinos mortos.

Na atual guerra de Gaza, em 28 de março de 2024, 32.490 habitantes de Gaza e 251 soldados israelenses morreram, em uma proporção de 1 americano x 129 palestinos, a maioria destes, mulheres e crianças.

São esses números que levam Streeck a afirmar, com toda razão, que as “guerras dos Estados Unidos são massacres em vez de batalhas. E que isso “é ainda mais verdadeiro para as guerras israelenses”.

Leia também: O evangelho genocida do Estado de Israel

7 de dezembro de 2022

China: concentração de poderes (e de problemas?)

A extensão do governo de Xi Jinping não é uma grande surpresa. Mao Tsé-Tung permaneceu no poder por aproximadamente 30 anos, assim como Deng Xiaoping. A novidade é a forma como ele se mantém no poder. Mao Tsé-Tung continuou no poder como presidente do partido. Deng Xiaoping foi nomeado presidente da comissão militar. Mas Xi Jinping se mantém no poder mudando as regras e impondo um novo sistema sob seu controle exclusivo. Esta não é uma diferença pequena. 

As palavras acima são de Francesco Sisci, pesquisador da Universidade Popular da China. Estão em uma recente entrevista sobre a reeleição de Xi para um terceiro mandato como secretário-geral do Partido Comunista, presidente da República e chefe da Comissão Militar Central. Um acúmulo de cargos poderosos sem precedentes.

Sisci vê nessa concentração de poder um sinal de que os governantes chineses “estão em grande dificuldade, porque julgaram mal uma série de questões e opiniões e agora se sentem perdidos”. Precisaram apertar o controle para melhor responder a possíveis crises, afirma.

Segundo o entrevistado, os maiores erros relacionam-se à situação externa, envolvendo Rússia, Ucrânia e Estados Unidos. A questão, diz, não é “se a Rússia sucumbirá, mas quando”. Além disso, Sisci vê instabilidades em regimes aliados, como o iraniano. Desse modo, a China estaria ameaçada “de ser sitiada por países hostis”, conclui. 

A análise destoa de várias outras, que veem na aproximação russo-chinesa a formação de um polo estável e poderoso. O problema é que o gigantismo da economia chinesa não permite grande margem para erros graves. Inclusive, por seus possíveis efeitos desastrosos para o resto do mundo.

Leia também: Os rinocerontes e os cisnes de Xi Jinping

22 de julho de 2022

As imprevisíveis transformações na ordem mundial

A nova ordem mundial está cada vez mais parecida com seu modelo original criado pela Paz de Westfália de 1648. A grande diferença é que agora esse sistema incorporou definitivamente a China, a Rússia, a Índia e mais outros 180 países, e não terá mais uma potência ou região do mundo que seja hegemônica e defina unilateralmente suas regras.

As palavras acima são de um recente artigo de José Luís Fiori, especialista em geopolítica e autor do livro “A Síndrome de Babel”, entre outros.

O texto merece ser lido. Contêm muitos elementos para entender o que está em jogo no conflito envolvendo Ucrânia e Rússia, com consequências muito importantes para ordem mundial.

A começar pela situação de impasse que pode levar a guerra a durar por muito tempo.

De um lado, a derrocada econômica da Rússia devido às sanções econômicas impostas pelo “ocidente” não dá sinais de acontecer no nível esperado. De outro, o conflito está desmantelando a União Europeia e evidenciando as enormes dificuldades dos Estados Unidos para manter seu papel de potência hegemônica absoluta.

Além disso, vai se consolidando uma aliança e uma integração “de largo fôlego” entre Rússia, China e Índia. Países cada vez mais estratégicos no cenário geopolítico mundial.

Por fim, Fiori afirma que fica escancarado o fato de que:

“capital financeiro globalizado” tem dono, obedece a ordens e pertence à categoria das “tecnologias duais”: pode ser usado para acumular riqueza, mas também pode ser usado como arma de guerra.

O fato é que tudo indica que as relações internacionais se tornarão ainda mais complexas e imprevisíveis os seus desdobramentos.

Leia também: Mais turbulências lá fora, mais fumaça por aqui

13 de maio de 2022

A guerra, a fome, o clima e o verdadeiro inimigo

Além da guerra da Ucrânia, há muitas outras que estão longe de merecer a mesma atenção. É o caso dos conflitos na Síria, Mianmar e Iêmen.

Mas há outros elementos sendo ignorados no panorama geral. Basta observar, por exemplo, os números de três relatórios importantes, divulgados em abril passado.

O primeiro é do Grupo de Trabalho III do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O segundo é do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI).

O documento do SIPRI revela que os gastos militares mundiais ultrapassaram 2 trilhões de dólares em 2021, cifra jamais atingida anteriormente. Já o informe do IPCC, revela que no mesmo ano o mundo investiu apenas US$ 750 bilhões de dólares em energia limpa e eficiência energética. A desproporção entre um e outro número dá uma boa ideia das prioridades que norteiam os donos do dinheiro e do poder no planeta.

Faltou citar ainda o relatório da Rede Global Contra Crises Alimentares, publicado pelas Nações Unidas e União Europeia, segundo o qual a fome cresceu 22% no mundo em 2021 em relação ao ano anterior. São 193 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda. Mas esses números são anteriores à crise da Ucrânia, país que está com 25 milhões de toneladas bloqueados em seus portos devido ao conflito.

Ou seja, das guerras na Ucrânia e em muitas outras partes do mundo às crises ambiental e alimentar, além da prioridade dos recursos destinados à indústria bélica, o que estamos vendo é o sistema capital-imperialista em pleno funcionamento. E este é o grande inimigo.

Leia também:
A resposta zapatista frente ao genocídio capitalista

10 de maio de 2022

Ucrânia: observações de um especialista chinês

Wang Xiangsui é cientista da Universidade de Aeronáutica e Astronáutica de Pequim. Publicou artigo em março passado, que traz alguns elementos importantes sobre a crise na Ucrânia.

Segundo ele, a economia mundial divide-se em três grandes esferas: a esfera do Euro, que representa mais de 70% do comércio interno europeu; a norte-americana, dominada pelos Estados Unidos; e a esfera oriental, composta principalmente pela China e países do sudeste asiático.

A Zona do Euro não tem força militar autônoma e sua segurança é garantida pela Otan, controlada pelos EUA. Enquanto isso, a Rússia é o único país europeu com grande poder militar. Sua integração à zona do euro tornaria a Europa um polo mundial difícil de abalar.

A economia russa depende da Europa e seu comércio exterior está limitado pelo dólar e pelo euro. Desse ponto de vista, está em uma posição fraca diante de estadunidenses e europeus.

Houve erros de todos os lados, continua Xiangsui. O governo da Ucrânia é favorável ao Ocidente, mas este é incapaz de dar o apoio de que os ucranianos necessitam. A eclosão da guerra arrastou a região europeia de volta às tradicionais disputas de soberania territorial.  

Por fim, a crise ucraniana deu um novo impulso à cooperação sino-russa. A China é um grande país produtor. A Rússia é o país mais rico em recursos naturais, mas precisa de um mercado grande e estável como o da China.

Os EUA cometeram um erro estratégico ao confrontar a Rússia, a China e a Europa. Já não é uma superpotência, mas apenas um dos muitos centros de poder do mundo, conclui Xiangsui.

Leia também: A Ucrânia no meio de uma guerra interimperialista

9 de maio de 2022

A Ucrânia no meio de uma guerra interimperialista

Lênin dizia que o imperialismo não é um resquício arcaico da época colonial nem apenas grandes potências intimidando países mais fracos. Trata-se de um sistema global de dominação e rivalidade capitalista, no qual um punhado de poderosos estados capitalistas compete econômica e geopoliticamente em escala global.

As palavras acima são de recente artigo de Alex Callinicos, um dos mais importantes marxistas britânicos dos últimos 40 anos. O texto refere-se à guerra entre Rússia e Ucrânia e procura restabelecer certos critérios que a esquerda, em especial a que se diz marxista, não deveria esquecer ou ignorar.

O conflito em terras ucranianas não tem nada a ver com a defesa de valores democráticos pelo “Ocidente”, lógico. Mas também não tem qualquer coisa que lembre a formação de um polo anti-imperialista a partir de Rússia e China. Os protagonistas nesse cenário continuam a se ser perfeitamente retratados na imagem leninista em que um “punhado de poderosos estados capitalistas competem econômica e geopoliticamente em escala global”.

E ainda que não se trate de considerar todos os envolvidos como farinha do mesmo saco, é preciso reafirmar sempre que uma guerra interimperialista não diz respeito aos interesses dos explorados. Afinal, seus maiores contendores estão muito mais integrados à economia mundial do que estiveram as potências imperialistas do passado.

Dito isso, é importante considerar as sérias implicações que o conflito certamente trará para a luta anticapitalista. E neste aspecto, parece que ainda estamos tateando no escuro. E a falta de luz sempre torna o ambiente perfeito para o avanço da direita. Inclusive, e principalmente, de sua versão fascista.

Voltaremos ao tema.

Leia também: É o imperialismo, ô esperto!

30 de julho de 2018

Estados Unidos e China, da guerra comercial à guerra quente

A Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética causou muito medo pelo mundo. Mas jamais chegou a esquentar porque os arsenais das duas potências seriam capazes de fritar todo o planeta em poucas horas.

A atual guerra comercial que Trump iniciou contra a China também assusta. Mas, tal como aconteceu naquela, não interessa aos envolvidos elevar demais sua temperatura.

Trump aumentou as tarifas sobre exportações chinesas, por exemplo. Mas o governo chinês poderia fazer algo muito pior. Beijing é o maior investidor mundial em papéis do Tesouro Americano. Basta que pare de comprá-los para que o crédito nos Estados Unidos encareça e ameace a atividade econômica ianque.

No entanto, os chineses dificilmente farão isso porque significaria menos encomendas americanas para suas fábricas. Além disso, a maior empresa do mundo é a estadunidense Apple, cuja produção vem em grande parte da China.

Por fim, os chineses criaram, recentemente, a estratégia “Zhongguancun Development Group”, que estabeleceu vários centros de inovação tecnológica fora da China. Os mais importantes estão na Califórnia, onde ficam a Universidade de Stanford e as sedes de Google e Apple, e em Boston, próximos de Harvard e do MIT.

Toda essa inter-relação sino-americana tenderia a manter a guerra comercial em baixa temperatura não fosse por um detalhe.

A China criou a maior classe operária da história, concentrada em unidades imensas que produzem para o mundo todo. Os níveis de desigualdade são brutais e há pouca liberdade política e sindical.

Portanto, há material inflamável suficiente para colocar fogo no cenário. Principalmente, com um piromaníaco como Trump rebolando no palco principal.

3 de agosto de 2016

O pior terrorismo e suas maiores vítimas

“O Ocidente está sob ataque do terrorismo islâmico!”, gritam governos e jornais. Será?

Julho de 2016 foi um dos meses mais sangrentos em relação a atentados terroristas, com quase 1.900 vítimas. Onde? Europa ocidental, Inglaterra, Estados Unidos?

Vejamos:

- 1º de julho, Bahrein, uma mulher e três crianças mortas. Cisjordânia, diretor de uma escola judaica morto. Sua esposa e filhos feridos.

- 2 de julho: o grupo radical islâmico al-Shabaab mata duas meninas com idades entre quatro e cinco e feriu 19 adultos na Somália.

- Bagdá, 3 de julho, pelo menos 325 pessoas mortas e 245 feridas.

- Em 4 de julho, o Estado Islâmico sequestrou e executou 40 civis na província de Aleppo, Síria.

- Em Dallas, cinco policiais mortos e outros sete feridos no dia 7 de julho.

- 9 de julho: pelo menos 36 mortos e 143 feridos em outro ataque em Aleppo.

- 14 de julho, Nice, França, 84 mortos e 308 feridos atropelados por um caminhão.

- Baton Rouge, Louisiana, 17 de julho: 3 policiais mortos e 3 feridos.

- 18 de julho, Almaty, Cazaquistão, 6 pessoas mortas e 8 feridas. Em Würzburg, Alemanha, jovem afegão feriu 5 pessoas, em ataque com machado.

- 26 de julho, homem invade hospital japonês e esfaqueia 44 pessoas, matando 19, quase todos deficientes físicos. Assassinos inspirados no Estado Islâmico degolam um padre e ferem uma mulher em uma igreja na Normandia, França.

É só fazer as contas. As maiores vítimas do terrorismo estão no Oriente. Principalmente, em territórios cujas populações foram, e continuam a ser, violentadas por potências ocidentais.

17 de junho de 2016

Contra o terrorismo imperialista, nossos territórios ideológicos

“Eles fazem parte de uma comunidade imaginária”. Estas palavras são de Marc Sageman, ex-oficial de operações da CIA, publicadas pelo Globo em 16/06. Referem-se a terroristas que matam em nome do Estado Islâmico (EI) ou da Al Qaeda em vários lugares do mundo.

Seria o caso de Omar Mateen, que teria jurado lealdade ao Estado Islâmico antes de promover o massacre de Orlando.

A descrição de Sageman lembra o conceito de “comunidade imaginada”, do estudioso britânico Benedict Anderson. Para ele, as nações também podem ser consideradas comunidades imaginadas.

Afinal, a definição de fronteiras não tem nada de natural. Ao contrário, muito frequentemente são produto de relações de poder das mais violentas. A grande maioria das “nações” nasceu a partir de massacres que deixariam o EI morrendo de inveja.

É o caso da unificação do próprio território estadunidense, garantida pela matança e escravização de indígenas e negros e pelo massacre de rebeldes sociais. O mesmo pode ser dito da “nação brasileira”.

Mas, mais que comunidades imaginadas, o imperialismo é especialista em criar estados artificiais para servir a seus objetivos. É o caso de Israel, Iraque, Jordânia e Palestina. Todos criados por razões geopolíticas alheias aos interesses de seus povos.

Foi assim que a maior região petrolífera do mundo se tornou também cenário das piores carnificinas. A grande maioria delas feita a mando dos poderes imperiais, tendo o estado israelense à frente.

São estas entidades abstratas que promovem matanças muito concretas e dolorosas pelo planeta. Contra elas, precisamos continuar construindo, defendendo e ampliando nossos territórios ideológicos, em cujas fronteiras só cabem os explorados e oprimidos do mundo.

Leia também: A Primeira Guerra na raiz das guerras do Oriente Médio

19 de novembro de 2015

As maiores vítimas do fanatismo islâmico

“Europeus e americanos são vítimas colaterais da guerra interna do Islã”, afirma Alfredo Valladão em artigo publicado no site da Rádio França Internacional, em 20/01. Segundo ele:

...a guerra atual não é a da civilização islâmica contra a civilização ocidental, mas é um conflito absoluto no seio do Islã. Xiitas contra sunitas e, dentro do sunismo, uma miríade de correntes que vão desde os cortadores de cabeça do dito “Estado Islâmico” até os partidos muçulmanos moderados, passando pelos tradicionalistas da Irmandade muçulmana, os salafistas, os adeptos da Al-Qaeda, etc. O prêmio dessa guerra de todos contra todos é a liderança do mundo muçulmano.

Entre os 129 mortos nos recentes atentados em Paris, estavam, pelo menos, sete muçulmanos.

No mesmo dia do ataque ao tabloide Charles Hebdo, um carro bomba matou 33 pessoas e deixou 62 feridas no Iêmen, país muçulmano. Em janeiro deste ano, o grupo fundamentalista Boko Haram, que se afirma muçulmano, promoveu matou cerca de 2 mil na cidade nigeriana de Baga. Entre as vítimas, muitos islamitas.

Iniciado no dia 3 de janeiro e concluída no dia do atentado de Paris (7), a chacina provocou um número de mortos que pode chegar a 2.000, algo sem precedentes mesmo no universo de uma organização que supera o Estado Islâmico em crueldade e habita um subterrâneo bizarro no qual a violência não tem limites.

Como diz Reza Aslan, em seu livro “No god but God”, é dentro do Islã que a batalha decisiva vem sendo travada. E, nessa batalha, são as forças islâmicas anticapitalistas que serão capazes de derrotar o fanatismo muçulmano, jamais o fundamentalismo imperialista.

Leia também: Se Maomé não vai à luta de classes...

17 de novembro de 2015

Terrorismo e causalidade seletiva

Na internete, a polêmica: quem merece mais o apoio popular, as vítimas da Samarco em Minas Gerais ou os atingidos pelo terrorismo em Paris? Um lado acusa o outro de praticar “solidariedade seletiva”. Na verdade, “lamentação seletiva”, uma vez que a grande maioria dos envolvidos não fazem mais do que postar textos, imagens e comentários em ambientes virtuais.

Toda essa disposição para se envolver nesse tipo de debate estéril é alimentada pela grande mídia. Não faltam matérias e reportagens recheadas de casos comoventes. Gente que perdeu parentes, amigos, casa, patrimônio, sustento, esperanças. Muito triste, é verdade.

Mais triste, no entanto, é a ausência de qualquer aprofundamento sobre as causas das tragédias. Faltam apurações sobre os enormes interesses econômicos da mineração no Brasil e do controle das áreas petrolíferas no Oriente Médio. Sobram closes em rostos e perguntas na medida para fazer o entrevistado chorar.

Ao mesmo tempo, cria um clima de revolta que tem como alvo apenas os políticos, ignorando aqueles que os controlam. As verdadeiras causas das tragédias são criteriosamente selecionadas para esconderem os interesses poderosos que estão por trás delas.

Há terrorismos e terrorismos

Noam Chomsky é um respeitado linguista. Mas não precisa utilizar teorias complexas para mostrar que o conceito de “terrorismo” não é utilizado da mesma maneira em todas as situações pela grande imprensa e governos em geral.

As ações que partem de organizações islâmicas, por exemplo, são sempre terroristas. Já as mortes de centenas de civis inocentes causadas pelos drones estadunidenses são "danos colaterais". Enquanto isso, a França executou 20 bombardeios na Síria, matando mais de cem civis, incluindo crianças.

Leia também: O Estado Islâmico e o Ebola

O Estado Islâmico e o Ebola

Em epidemiologia, é comum afirmar que doenças mais letais tendem a se espalhar menos. Afinal, se um vírus ou bactéria mata rápido demais, suas vítimas têm menos tempo de contagiar outros organismos.

O Estado Islâmico (EI) pode ser comparado a uma dessas doenças com letalidade acelerada. Seus soldados matam e barbarizam demais e fazem inimigos por toda a parte. Inclusive, entre os próprios muçulmanos. E os recentes ataques que promoveram fora de seu território só aumentaram a hostilidade contra a organização.

Desse modo, o destino do EI deveria ser o mesmo que o de um vírus como o Ebola, que mata em velocidade semelhante àquela em que pode ser isolado. Mas para que isso aconteça, é preciso diminuir também os focos que alimentam a “doença”.

No caso do Estado Islâmico, são vários os focos. A começar pelo pesado armamento que recebeu dos Estados Unidos, interessados na queda da ditadura síria. Há também o forte apoio financeiro das monarquias árabes e do governo turco. Já a resistência popular curda, que vem impondo derrotas ao EI, é constantemente sabotada pelos governos da região.

Não bastasse toda essa ajuda, o EI continua a ganhar seguidores nos países europeus, graças aos governos que mantêm políticas de perseguição aos muçulmanos dentro de suas fronteiras. É o que François Hollande está fazendo, agora, por exemplo, ao adotar uma postura nacionalista conservadora que deve empurrar mais gente para as fileiras dos “jihadistas”.

Ainda não se sabe ao certo qual é a origem do Ebola. Mas o fundamentalismo terrorista do Estado Islâmico, certamente, surgiu e continua a ser fortalecido pelo fanatismo imperialista ocidental.

9 de outubro de 2015

Os Estados Unidos e seu terrorismo doméstico

Em 30/04, nove pessoas foram mortas e sete feridas por um atirador em uma faculdade de Oregon, Estados Unidos. O assassino foi morto pela polícia.

Em 2/10, reportagem da BBC-Brasil informa: “Em 10 anos, EUA têm mais mortos em massacres do que em ataques terroristas”. Mais exatamente, são 40 vezes mais mortes.

De 2001 a 2011, diz a matéria, o país teve 130.347 pessoas mortas em incidentes envolvendo armas de fogo. No mesmo período, houve 3 mil mortes relacionadas a atos de terrorismo. Destas, 2.689 ocorreram nos atentados de 11 de Setembro.

A comparação já foi feita outras vezes. Mas, desta vez, foi Barack Obama que a lembrou logo depois do massacre do Oregon como parte de sua campanha pelo controle de armas nos Estados Unidos.

A dúvida que fica é por que qualificar de terrorismo algumas mortes e outras não? Pelo fato de que os autores dos primeiros são cidadãos estadunidenses? Ou, pior, pela grande frequência com que as chacinas acontecem em escolas e universidades?

Obama defende a exigência de antecedentes criminais dos compradores de armas, por exemplo. Mas muitos dos autores dos massacres tinham como antecedentes sua própria ficha escolar nos lugares em que cometeram seus crimes.

Quando lugares considerados centros de estudo e reflexão abrigam a constante ameaça de chacinas, não há como negar que há algo de muito doente na nação imposta ao mundo como modelo de democracia e justiça.

Ao invés de olhar para si mesmo, o império estadunidense vigia o mundo. Considera-se a polícia do planeta. E como todo aparato repressivo, alimenta o próprio crime que diz combater. 

Leia também:
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Massacres nos EUA: por que em escolas?

30 de junho de 2015

Velociraptor! Mas pode chamar de Estado Islâmico

Em cartaz, Jurassic World!

Em duas versões. A fictícia mostra como temíveis dinossauros “velociraptors” criados em cativeiro são colocados para enfrentar uma outra espécie jurássica que saiu do controle. O problema é que quando as feras se encontram, descobrem que são parentes. Depois de trocar grunhidos uns com os outros, predadores e presa se unem contra as pessoas que os colocaram em confronto.

Já a versão não-fictícia do filme, apareceu publicada no jornal britânico "The Guardian", em 03/06. Matéria de Seumas Milne revela problemas enfrentados pela Justiça inglesa em processo contra o sueco Bherlin Gildo, acusado de praticar atos terroristas na Síria como membro do Estado Islâmico.

O impasse surgiu quando foram encontradas provas de que a organização a que o réu pertence é financiada e treinada pelo governo britânico. Ou seja, o mesmo Estado que julga um terrorista de um lado, financia suas atividades, de outro.

Algo parecido acontece em relação aos Estados Unidos, cujas tropas apoiam os Estado Islâmico na Síria e bombardeiam suas tropas fora dela. De um lado, o imperialismo quer derrubar a ditadura de Assad. De outro, o Estado Islâmico atrapalha os planos ianques para o Oriente Médio. Enquanto isso, os “jihadistas” continuam livres para praticar suas barbaridades.

Outro caso semelhante é o da Al Qaeda, que começou a surgir quando seus membros foram financiados pelos americanos nos anos 1980 para combater as tropas invasoras soviéticas no Afeganistão. Duas décadas depois, seriam responsáveis pela destruição das torres gêmeas em Nova York.

É Jurassic World, mas pode chamar de Guerra ao Terrorismo. É velociraptor, mas também atende pelo nome de Estado Islâmico.

Leia também: Se Maomé não vai à luta de classes...

13 de janeiro de 2015

O mundo bizarro do capital chinês

“Pequim vai investir 20 bilhões de dólares na Venezuela”, anunciou o jornal El País, em 08/01. Em dezembro, começou a construção do Grande Canal da Nicarágua. A obra que custará US$ 50 bilhões é bancada por capital chinês.

Em janeiro de 2014, os 33 países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos iniciaram chamado “Plano de Cooperação China-América Latina e Caribe (2015-2019)”.

Muitos comemoram. Seria o surgimento de uma alternativa poderosa ao imperialismo ianque. Será?

Em 11/01, Marcelo Ninio publicou na Folha a reportagem “Chineses criam mundo espelhado que começa a mudar a ordem mundial”. Cita a conclusão do Instituto de Estudos Chineses Mercator (Merics), sediado em Berlim: 
 


Os mecanismos financeiros promovidos por Pequim duplicam em parte o sistema de Bretton-Woods e outras estruturas existentes (...): para o Banco Mundial, o Banco dos Brics; para o FMI, o fundo de reservas do Brics e a Iniciativa Chiang Mai, uma rede asiática multilateral de financiamento; para o Visa e Mastercard, o UnionPay, entre outros muitos exemplos.

Ou seja, não bastasse a versão original dessas instituições criadoras de crises econômicas e tragédias sociais, os chineses estão fazendo duplicatas delas. Estão pirateando o caos e vendendo muito caro para países pobres ou dependentes.  

Isso lembra as histórias em quadrinhos do “Mundo Bizarro”. Trata-se de um mundo simetricamente oposto ao planeta Terra. Nele vive um Super-Homem que só sabe fazer o mal, por exemplo.

Mas a comparação não faz muito sentido. Não há lado bom nessa história. O livre mercado dominado pelos ianques e o capitalismo estatal chinês são espelhos da mesma bizarrice.

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