Doses maiores

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9 de julho de 2024

Amazon e Google unidas no patrocínio ao genocídio

Em 04/07, a Amazon completou 30 anos de fundação. Terceira maior empregadora do mundo, grande parte de sua mão de obra é precarizada e sofre com terríveis condições de trabalho. Em seus galpões gigantes, o calor e o frio podem ser insuportáveis, dependendo da época do ano. As jornadas superiores a 10 horas têm intervalos que não ultrapassam os 30 minutos para refeições. O ritmo alucinante das tarefas é ditado por algoritmos, máquinas e robôs. Em muitas de suas unidades, os trabalhadores percorrem dezenas de quilômetros por dia sem parar.

Toda essa exploração explica a maior parte do sucesso da gigante que surgiu como serviço de entregas. Mas os créditos costumam ser atribuídos à suposta genialidade do criador da empresa, Jeff Bezos. 

Além das entregas, a empresa oferece serviços de armazenamento de dados, produção de filmes e séries, além de aplicativos de leitura e de assistentes virtuais. Mais recentemente, porém, surgiu um item vergonhoso no catálogo da Amazon. 

Em 26 de junho passado, seis manifestantes interromperam um evento promovido pela empresa, em Washington. Eles denunciavam um projeto chamado Nimbus, que envolve computação em nuvem e inteligência artificial para uso das Forças Armadas israelenses. "Sua tecnologia está patrocinando o genocídio", gritou um dos manifestantes, segurando a bandeira da Palestina. A iniciativa também envolve a Google e conta com apoio das forças armadas estadunidenses.

Amazon e Google são fortes concorrentes em algumas áreas de tecnologia de ponta. Mas quando se trata de auxiliar o aparelho estatal e a máquina bélica do imperialismo sempre é possível combinar esforços e lucrar juntas com repressão e genocídio.

Leia também: República Popular da Amazon

5 de junho de 2024

Do “doomscrolling” ao infocalipse

“Doomscrolling” é a palavra inglesa para o hábito de rolar imagens e notícias na tela do celular em busca de fatos negativos, tristes e deprimentes. Parece o antigo costume de “zapear” na TV em busca dos programas de notícias policiais mais escabrosos. Só que agora em maior velocidade e com oferta praticamente inesgotável.

Inesgotável porque os agentes produtores dessas imagens e informações são muitos. Em contrapartida, os centros distribuidores são bem menos. Não se trata dos inúmeros grupos de zap. Estes são apenas vetores que transmitem a doença.

O foco da moléstia são os poucos e poderosos monopólios de dados e algoritmos, como Facebook, Youtube, X... Esses abutres das redes virtuais precisam manter a atenção e a tensão dos usuários para extrair-lhes os dados e vender-lhes porcarias, enquanto os premia com ansiedade e depressão.

Outro efeito dessa situação é a infodemia, caracterizada pela Organização Mundial da Saúde como um “excesso de informações, algumas precisas e outras não, que torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis quando se precisa”.

Informação distorcida e alarmista não atenua situações críticas nem mitiga consequências de eventos negativos ou catastróficos. Ao contrário, torna-as ainda mais nocivas e graves.

Mas não podemos ignorar a base material de todo esse caos. É o capitalismo em sua fase de colapsos cumulativos. Colapso político, social, ambiental, moral, sanitário...

O lado mais perverso disso tudo é que o sistema nos massacra com suas mazelas, enquanto nos distrai e nos torna viciados nelas. Vai nos acostumando com a ideia de que o mundo pode até acabar, mas o capitalismo tem que continuar.

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13 de novembro de 2023

A esquerda e sua fatal dependência das redes

“Sem nenhuma explicação, o YouTube excluiu nesta segunda-feira (30/10) o canal do Brasil de Fato RS e seu podcast De Fato”, diz uma nota do site do Brasil de Fato. “No final da tarde, a redação recebeu uma mensagem breve informando que a plataforma havia encontrado ‘violações graves ou repetidas de nossa política de spam, práticas enganosas e golpes. Por isso, removemos seu canal do YouTube’”, complementa a nota.

Felizmente, o canal já foi restabelecido. Mas que nos sirva de advertência. Há uns 10 anos, jamais imaginaríamos algo assim. Não havia a menor possibilidade de que qualquer um dos nossos veículos populares de esquerda viesse a integrar a grade de programação de uma Globo ou SBT.

Uma de nossas principais lutas sempre foi pela democratização dos meios de comunicação e o combate a seus monopólios. Só que eles continuam por aí, fazendo os estragos de sempre. E não apenas paramos de avançar nessa frente de combate, como nos deixamos enredar pelas redes virtuais controladas por monopólios ainda mais poderosos. Inicialmente, alimentamos a ilusão de que se tratava de um meio mais permeável a nossa militância. Mas fomos nós que nos tornamos ainda mais vulneráveis aos caprichos e desmandos desses gigantes da mídia cibernética.

Os grandes grupos tradicionais de comunicação ainda podem ter seus poderes questionados na condição de concessão pública. Youtube, Facebook, Google e assemelhados, nem isso. Foram se impondo ou comprando cumplicidade pelo alto e, com nossa ajuda, minando nossa resistência por baixo. Criaram um meio perfeito para o crescimento da extrema-direita e para nós, um ambiente muito tóxico, quase fatal.

Leia também: Da contracultura psicodélica às big techs neoliberais

26 de setembro de 2023

Bilionários sem vestígios de humanidade

Nos Estados Unidos, é famosa a história do elevador de comida inventado por Thomas Jefferson para evitar que seus escravizados tivessem que subir as escadas carregando pratos e tigelas. No andar de cima, os comensais tinham apenas que abrir uma portinhola e o jantar estava servido.

Mas a engenhoca não foi criada para poupar as energias dos cativos. O objetivo era preservar os convidados da visão de pessoas bufando e suando. A comida chegava, sem nenhum sofrimento humano visível.

Muitos dos atuais processos tecnológicos são baseados nessa mesma lógica. Na etapa final da montagem dos celulares, por exemplo, os trabalhadores limpam cada unidade com um solvente que remove suas impressões digitais dos aparelhos. O produto pode causar abortos, câncer e reduzir a expectativa de vida de quem o manipula. Mas o que importa é a eliminação de todos os vestígios humanos.

Algumas das grandes inovações da Amazon existem somente para proteger seus clientes da realidade desagradável de seus processos de produção. Os entregadores nem tocam a campainha. Uma foto do pacote na varanda chega automaticamente à sua caixa de mensagens, enquanto Alexa emite um aviso. Não precisamos encarar a pobre alma que dirige o caminhão, muito menos aqueles que correm entre os robôs no galpão.

Robôs não substituem os custos humanos e as condições degradantes de trabalho. Eles os escondem.

As informações acima são do livro “A sobrevivência dos mais ricos”, de Douglas Rushkoff. Convidado a falar para alguns bilionários das big techs, o autor fez esse relato para tentar explicar que tipo de pessoas encontrou pela frente. Gente sem qualquer vestígio de respeito humano.

Leia também: O medo egoísta de bilionários diante do apocalipse

4 de agosto de 2023

A escrita, os livros e outros apêndices humanos

Na obra “Fedro”, Platão cita Sócrates:

A palavra escrita parece falar contigo como se fosse inteligente, mas se lhe perguntas alguma coisa, porque desejas saber mais, continua a repetir-te o mesmo sem parar. Os livros não são capazes de se defender.

Para ele, já não se tratava de sabedoria própria, mas de um apêndice alheio. Um estímulo a um relaxamento da memória. A grande ironia é que Platão expôs essa aversão à escrita por escrito, conservando, assim, as críticas de seu mestre para nós, seus futuros leitores.

Os cientistas chamam de “efeito Google” à incitação à amnésia que Sócrates temia. Mas o alfabeto foi uma tecnologia ainda mais revolucionária do que a internete. Construiu pela primeira vez essa memória comum, expandida e ao alcance de toda a gente.

Tempos depois, Jorge Luis Borges diria que o livro é o mais “surpreendente dos instrumentos humanos”, uma vez que os restantes “são apenas extensões do seu corpo”. O microscópio e o telescópio, extensões da visão; o telefone, da voz; o arado e a espada, do braço. “Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação”, conclui ele.

As informações acima estão no livro “O infinito num junco” de Irene Vallejo.  A autora não abordou a inteligência artificial, mas o que diriam Sócrates e Platão sobre ela? Seria outro artefato condenado a repetir “o mesmo sem parar” e ser um “apêndice alheio”?

Difícil saber. O que podemos dizer é que se trata de mais um produto da invenção humana, cheio de contradições e potenciais. Para o bem e para mal.

Leia também: Palavras ouvidas apenas pelos anjos

21 de junho de 2022

As ambições totalitárias da Google e Cia.

Em 17/06/2022, o colunista Pedro Doria escreveu sobre um recente encontro promovido por executivos do Google no Brasil. Eles anunciaram, entre outras coisas, “a criação de endereços numéricos, georreferenciados por mapas, para casas nas favelas brasileiras”.

“Em nosso País, comenta Doria, tem mais gente com celular do que gente com endereço, e ter endereço quer dizer poder fazer buscas de preços mais baixos para comprar online. A empresa vai distribuir também bolsas de estudo para quem quiser dominar tecnologia, aprendendo no nível técnico profissões do século 21”.

Ele admite que a Google “não está sendo bonzinho”. Afinal, afirma corretamente, trata-se de criar “mercado consumidor para seus produtos”. Mas, adverte, “a ideologia conduz a ação”. A Google “não vê só o andar de cima” no Brasil. Enquanto direita e esquerda são cegas para o potencial “empreendedor”, um monte de gente quer “montar um negócio, ser o próprio patrão, empregar gente”, diz Doria. E encerra perguntando: “Por que é preciso uma multinacional para que possamos enxergar aquilo que é evidente?”.

O colunista dá pouco destaque ao fato de que a Google está a serviço não apenas do “livre mercado”, mas do mercado livre de qualquer intromissão do Estado. Uma “ideologia” claramente a serviço das forças de direita. Portanto, não paira acima dos mundanos conflitos de esquerda e direita.

É mais do que isso. Gigantes como Google, Facebook, Twitter, Microsoft, Amazon não gostam de Estado. Mas atuam cada vez mais como um Estado totalitário mundial. E o fazem pelo consumo e pelo controle ideológico mais sutil, invadindo nossas casas e locais de trabalho por nossa própria iniciativa.

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