Doses maiores

Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens

12 de abril de 2019

Polêmica sobre o livro "A Tolice da Inteligência Brasileira", de Jessé Souza

Em 05/04/2019, Rubens Goyatá Campante, doutor em sociologia política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) publicou um artigo no jornal O Estado de Minas sobre o livro "A Tolice da Inteligência Brasileira", do sociólogo Jessé Souza.

Trata-se de uma crítica ao que Campante chamou de “desconstrução do ideário de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda” que teria sido promovida por Souza em sua obra.

Jessé publicou a obra em 2016 e como ela foi tema de algumas pílulas da mesma época, elas estão aí, abaixo.

A primeira das pílulas foi A elite e seus masturbadores oficiais. Depois, veio A tolice de nossas ideias dominantes, que procura apresentar as críticas de Jessé Souza no sentido de responsabilizar Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda pela falsa ideia de que a corrupção é muito brasileira e puramente estatal.

Outra das pílulas é O racismo da inteligência brasileira, que comenta a denúncia do que o autor chamou de “racismo culturalista”. Uma concepção que utilizaria justificativas pretensamente culturais para legitimar a desigualdade entre indivíduos e nações.

Por fim, As bobagens de nossas ideias inteligentes destaca no livro de Jessé a ideia de que o Estado é o único lugar onde a corrupção ainda é visível e tem alguma possibilidade de controle real.

São apenas comentários que podem servir para introduzir rapidamente o debate, já que o melhor seria ler tanto a própria obra, como o artigo que a contesta.

28 de fevereiro de 2019

Tecnologia: amor, medo, luta de classes

Atualmente, poucos temas apaixonam tanto como a tecnologia. Mas as paixões envolvidas são, principalmente, amor e medo.

Em “Rua de mão única”, Walter Benjamin afirma:

...que “[a] dominação da natureza, assim ensinam os imperialistas, é o sentido de toda técnica”. Mas a essa visão ele contrapõe outra: “A técnica não é dominação da natureza: é dominação da relação entre natureza e humanidade.” Na segunda versão de seu ensaio sobre “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, ele desenvolve uma distinção entre a primeira técnica, cujo fim é o sacrifício da vida, e uma segunda técnica (...) calcada no jogar junto com a natureza: “A origem da segunda técnica deve ser buscada onde o ser humano, com uma astúcia inconsciente, chegou pela primeira vez a tomar uma distância em relação à natureza. Em outras palavras, ela encontra-se no jogo. […] A primeira [técnica] realmente pretende dominar a natureza; a segunda prefere muito antes um jogo conjunto entre natureza e humanidade.” Ele nota ainda: “Justamente porque essa segunda técnica pretende liberar progressivamente o ser humano do trabalho forçado, o indivíduo vê, de outro lado, seu campo de ação (...) aumentar de uma vez para além de todas as proporções...

(Acesse aqui o comentário acima)

O jogo a que se refere Benjamin, nas sociedades divididas em classes, torna-se luta. Luta de classes. Ou como sintetiza com perfeição meu amigo de Facebook, Caio Almendra: “Tecnologia é técnica mais ideologia”.

Só a partir dessa perspectiva, podemos começar a entender o maravilhoso ou catastrófico potencial da tecnologia. A partir do amor e do medo, mas para muito além deles.

Leia também: Tempos da aceleração sem sentido (2)

27 de fevereiro de 2019

Tempos da aceleração sem sentido (2)

Em 04/02/2019, Jean-Claude Guillebaud publicou artigo no portal “La Vie”, sobre “A grande inquietude contemporânea”.

Para o jornalista e escritor francês, as mudanças por que passamos nos últimos trinta anos, por sua “amplitude e, especialmente, sua velocidade, foram suficientes para deixar todos atordoados”. Elas teriam acontecido “mais rápido do que o pensamento”.

Para o articulista:

...o colapso do Império Romano, o Renascimento, o Iluminismo ou as duas Revoluções Industriais, deram origem a outro mundo. Mas nós ainda temos dificuldades, por enquanto, para ler o atual turbilhão planetário.

Vivemos “às apalpadelas”, continua Guillebaud:

Vivemos, pela força das circunstâncias, num universo impensado, o que não significa que seja impensável. Essa opacidade faz nascer em nós mais terrores obscuros do que esperanças, mais medos instintivos do que confiança, e mais perguntas do que (...) a nossa inteligência é capaz de apreender.

Ainda segundo o texto:

As disciplinas do conhecimento, como a sociologia ou a filosofia, não tiveram tempo, por assim dizer, para forjar os conceitos que possibilitariam compreender essas mudanças. E para exorcizar a ansiedade que elas inspiram.

“Nosso entendimento do mundo não está ‘em pane’. Está atrasado”, conclui Guillebaud.

Muito interessante. Mas corre o risco de sugerir que basta que o conjunto do conhecimento humano alcance a velocidade da vida contemporânea para dar conta de sua angustiante inquietude.

Na verdade, seria preciso encontrar um rumo radicalmente diferente para a humanidade. Um que torne possível que sejamos nós a decidir a velocidade dos acontecimentos e não o contrário.

Um passo importante nessa direção seria entender melhor qual é, afinal, o papel da tecnologia. Tentaremos fazer isso na próxima pílula.

Leia também:
Tempos da aceleração sem sentido
Sobre esquisitões e Inteligência Artificial

26 de fevereiro de 2019

Tempos da aceleração sem sentido

Parece inegável que vivemos tempos extremamente acelerados. Uma percepção que teria origem na frenética circulação da informação. Da informação, não do conhecimento. Este é produto da elaboração da primeira. Processo a que cada vez menos pessoas podem se dedicar.

E nem falemos da sabedoria, produto de uma compreensão da realidade que vai muito além de sua racionalidade. Exige um tempo ainda menos compatível com os atuais canais de comunicação, tão alucinantes na velocidade quanto superficiais na qualidade.

Uma explicação para este fenômeno tem raiz em um sistema econômico que recompensa a troca apressada de valores quantitativos e pune a reciprocidade ponderada de experiências qualitativas.

Essa lógica tem levado a reviravoltas tecnológicas tão frequentes que dificultam sua apreensão pela grande maioria. Por exemplo, do arado ao trator passaram-se uns 5 mil anos. Já da calculadora eletrônica ao smartphone, cerca de 70 anos. No primeiro caso, centenas de gerações. No segundo, algumas.

É o que alguns chamam de lacuna geracional, que vinha se alargando a cada ano. Agora, podem ser meses. Rapidamente tornam-se obsoletos não apenas saberes, mas ocupações. O mesmo mundo que impôs o trabalho como o sentido da vida, priva de sentido bilhões de vidas.

Daí o surgimento das mais variadas moléstias. As do corpo, mas principalmente as do espírito. As pessoais, mas perigosamente as sociais. E cada vez mais desastrosamente, as políticas.

Tudo isso diz respeito ao domínio da técnica sobre a vida. Mas em “Rua de mão única”, Walter Benjamin lembra que “a técnica não é dominação da natureza: é dominação da relação entre natureza e humanidade.”

Voltaremos ao tema, o mais rápido possível...

Leia também:
Marx e o espaço anulado pelo tempo
Depressão, trabalho e tempo

6 de junho de 2018

Entre o comunismo e os chimpanzés

O comunismo fracassou, dizem, porque foi baseado em uma visão irrealista da natureza humana, enquanto o capitalismo foi bem-sucedido porque se fundamenta no aproveitamento da natureza egoísta de cada indivíduo para o bem supremo da sociedade. Uma história poderosa, é verdade, mas que se mostrou nas últimas décadas completamente errônea.

O trecho acima é do livro “The Patterning Instinct”, de Jeremy Lent, ainda sem tradução.

Para comprovar suas palavras, Lent cita o psicólogo evolucionista Michael Tomasello, para quem a principal diferença entre nós e os chimpanzés é que nos identificamos mais profundamente com outros de nossa espécie.

A competição social seria uma obsessão dos chimpanzés, e não dos humanos. As habilidades cognitivas que permitiram que desenvolvêssemos a linguagem, a cultura e a civilização foram impulsionadas pela cooperação social.

É o que o evolucionista chama de “intencionalidade compartilhada”: nossa capacidade de perceber que outro indivíduo está vendo a mesma coisa que nós, mas de uma perspectiva diferente.

Teria sido essa característica que permitiu aos primeiros hominídeos trabalharem de forma colaborativa em tarefas complexas e transformassem sua cultura de modo a lhes permitir compartilhar valores e práticas.

Já o antropólogo Christopher Boehm, diz o autor, teria descoberto que

...em praticamente todas as sociedades de caçadores-coletores, as pessoas se unem para evitar que alguns poderosos controlem os demais, usando comportamentos coletivos como expor ao ridículo, desobediência grupal e, em última instância, sanções extremas como o assassinato. Ele nomeia esse tipo de sociedade igualitária como uma "hierarquia de dominância reversa" porque "a maioria domina, ao invés de ser dominada".

Mas, enfim, sempre há quem prefira voltar a comportar-se como chimpanzés.

Leia também: A origem da propriedade privada e dos ângulos retos

19 de abril de 2017

O cerco do suicídio

Parece que o grande assunto do momento tem sido o suicídio. A série “Os 13 Porquês”, da Netflix, e um jogo macabro chamado Baleia Azul são temas obrigatórios. Ambos tratam da busca pela morte voluntária entre adolescentes.

Quase um milhão de pessoas morrem por suicídio anualmente segundo a Organização Mundial de Saúde.

No livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, Yuval Harari constata que, em 2002, dos 57 milhões de mortos no planeta, apenas 172 mil morreram em guerras e 569 mil foram vítimas de crimes violentos. Por outro lado, 873 mil cometeram suicídio.

O Mapa da Violência 2014 trouxe dados assustadores sobre o Brasil. Mortes voluntárias tendem a aumentar em países com melhores índices sociais. Mas nosso índice é igual ao de países como Japão, França, Suécia e Noruega: 30 por 100 mil habitantes.

Como hoje é “Dia do Índio”, não custa lembrar que o suicídio é uma pandemia entre os indígenas. Eles parecem funcionar como uma espécie de antena sensível demais para as loucuras que vêm dominando a humanidade. Principalmente, suas crianças e adolescentes.

É o que mostra o relatório sobre Violência Letal contra crianças e adolescentes no Brasil, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais. Municípios da Amazônia estão no topo da lista de suicídios entre crianças e adolescente indígenas. Em São Gabriel da Cachoeira, a taxa de 2003 a 2013 foi de 33,3% na faixa etária entre 10 a 19 anos. Em Tacuru, o índice chegou a 100%.

O suicídio é o sintoma da doença social que cerca suas vítimas. Enquanto não a combatermos, seremos parte deste cerco.

Errata: está incorreto o dado sobre o índice de suicídios no Brasil. O número real médio é algo em torno de 5 por 100 mil habitantes, não 30 por 100 mil. Esta proporção é real apenas para os crianças e jovens indígenas. Ainda assim, continua sendo um número assustador. 

Leia também: Suicídio indígena, branco e ocidental

14 de julho de 2016

Marx, apesar dos marxistas

Mais um comentário sobre o livro "A Tolice da Inteligência Brasileira", de Jessé Souza. Desta vez, uma provocação aos marxistas mais chegados a relações mecânicas entre base econômica e fenômenos sociais. Em relação a eles, o autor diz o seguinte:

Ao construir as realidades simbólicas como epifenômeno de interesses materiais e ao imaginar que possam existir realidades materiais não mediadas simbolicamente, o marxismo não desenvolve um “aparato conceitual” que possa dar conta – como fez Weber no contexto de sua sociologia das religiões – do “trabalho da dominação social” que se transforma em “convencimento”, em dominação aceita e “desejada” pelo próprio oprimido. Daí essa mania um pouco ridícula dos marxistas de sempre procurarem “consciência de classe” e “atores revolucionários” quando esses são sempre construções improváveis e que existem mais como exceção do que como regra. É como se a realidade da exploração não fosse um fenômeno total, existencial, afetivo, subpolítico, emocional e ligado a todo tipo de estímulo irracional, mas apenas uma exploração econômica que bastasse ser mencionada para ser compreendida.

Isso não significa que não existam belas análises políticas marxistas como as do próprio Marx, muito especialmente em relação aos estudos das lutas de classe na França do século XIX. Mas elas decorrem da genialidade pessoal de Marx, não das categorias e de um quadro de referência teórico refinado que pode ser aplicado a diversos contextos concretos.

Acrescentando mais uma observação que favorece Marx contra muitos de seus seguidores, lembremos a seguinte passagem da “Introdução à Contribuição para a Crítica da Economia Política”: “O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações...”

Leia também:

13 de julho de 2016

A pobreza da esquerda economicista

Em 05/07, o IHU On-Line publicou entrevista com Gabriel Feltran, professor de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos. Ele estuda as relações conflituosas entre família, mercado de trabalho, igrejas, políticas sociais, crime e Estado.

Em relação à expansão da criminalidade entre os mais pobres, Feltran destaca as desigualdades econômicas. Afinal, diz ele, vivemos uma realidade em que “uns criam os filhos com meio salário mínimo mensal”, enquanto “outros andam de helicóptero e gastam dois salários mínimos em um jantar”.

Mas o entrevistado recusa a abordagem economicista dos conflitos sociais. Afinal, afirma ele, se há “jovens inscritos no tráfico que pensam apenas no dia de hoje, gastam mil reais em uma noite”, também há os que “trabalham durante o dia e estudam à noite, pagando prestações de carro, casa e eletrodomésticos”.

Para ficar ainda mais claro, outra afirmação:

O rapaz negro que trabalha no shopping como segurança e faz faculdade à noite ou o filho de operário que ingressou por ação afirmativa na universidade pública não têm visões de mundo iguais às do ‘irmão’ do PCC ou do pastor da Igreja Universal, ou ainda de um soldado da Polícia Militar. E eles podem estar na mesma família, porque os projetos de vida são mais individualizados e o mercado de trabalho mais segmentado. Polícia, crime, igreja e trabalho são esferas de vida que se interpenetram.

Ou seja, a realidade dos mais pobres é tão tridimensional como qualquer outra. Que a direita não entenda isso, compreende-se. Que a maior parte da esquerda faça o mesmo, só mostra que chata e pobre, mesmo, é sua visão de mundo.

Leia também: Jessé Souza e a necessária sociologia das subjetividades

7 de julho de 2016

O racismo da inteligência brasileira

De volta ao livro "A Tolice da Inteligência Brasileira", de Jessé Souza. Agora para falar sobre o que o autor considera “uma forma velada – e, portanto, especialmente perigosa – de ‘racismo’”.

É o “racismo culturalista”, que, diferente do “racismo de cor”, defende a ideia de que certo “‘estoque cultural” é a causa e a “legitimação da desigualdade entre indivíduos e nações”.

Segundo essa visão, diz Souza, as “sociedades avançadas” seriam mais “racionais” e “moralmente superiores”. Já sociedades como as latino-americanas seriam “afetivas e passionais”. Consequentemente, corruptas, “dado que supostamente ‘personalistas’”.

Este tipo de discriminação teria raízes no que Souza chama de “culturalismo liberal”. Uma concepção que passou a hegemonizar a sociologia nacional a partir das obras de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda e Raymundo Faoro.

Esse culturalismo se basearia em uma idealização das esferas culturais “tidas como reservatórios da confiança interpessoal”. Nele os “estímulos simbólicos” aparecem desligados das instituições fundamentais da dominação social.

Segundo essa lógica, as sociedades “se dividiriam entre decentes e corruptas”. E os habitantes destas últimas são vistos como potencialmente indignos de confiança.

Um exemplo são as nossas taxas de juros, mantidas em níveis estratosféricos devido a supostas dificuldades dos brasileiros em “honrar seus compromissos”. Como se a grande maioria dos caloteiros não fossem pessoas brancas, ricas e com ascendência europeia.

Esse racismo culturalista torna ainda mais “opacos” os mecanismos de classificação e desclassificação social próprios de qualquer sociedade capitalista, afirma o autor. Desse modo, o que é privilégio de classe aparece como produto de esforço individual e mérito pessoal.

O autor diz que é racismo cultural, mas pode chamar de racismo meritocrático.  

Leia também:

5 de julho de 2016

As bobagens de nossas ideias inteligentes

No livro "A Tolice da Inteligência Brasileira", Jessé Souza mostra como se tornou senso comum a ideia de que a corrupção é um problema muito brasileiro e puramente estatal. Segundo ele:

...o mercado capitalista, aqui e em qualquer lugar, sempre foi uma forma de “corrupção organizada”, começando com o controle dos mais ricos acerca da própria definição de crime.

Criminosos são apenas os servidores corruptos ou batedores de carteiras, não o especulador financeiro que “às vezes arrasa a economia de países inteiros”. “Enquanto os primeiros vão para a cadeia, diz Souza, o segundo ganha foto na capa da revista The Economist”.

O autor lembra que, na verdade, o Estado é “o único lugar onde a corrupção ainda é visível como tal, e tem, portanto, alguma possibilidade de controle real”.

O raciocínio faz sentido se pensarmos que há duas grandes formas de roubar o dinheiro público. Uma é tirando dos cofres do governo. Esta é a mais conhecida, sempre divulgada amplamente pela grande mídia.

A outra forma de roubar verbas públicas acontece antes de elas chegarem aos cofres do Estado. É a sonegação, sempre ignorada pelos jornalões.

Segundo o Sonegômetro do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda, em 2015 foram sonegados R$ 539 bilhões, ou 9% do PIB. Este ano, até início de julho já eram 275 bilhões. E quem são os principais responsáveis por isso? Os gatos gordos do justo e imaculado mercado!

É por isso que Souza conclui:

Quem é feito de tolo aqui são partes significativas das classes médias e trabalhadoras ascendentes, muitas delas que defendem o Estado mínimo e o mercado máximo.

Leia também:
Sonegação pode, né Coração Valente?

A tolice de nossas ideias dominantes

“Este livro é uma história das ideias dominantes do Brasil moderno e de sua institucionalização”, diz Jessé Souza, em "A Tolice da Inteligência Brasileira" (2015).

Dois dos principais responsáveis por essas ideias que o autor considera nocivas seriam Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda, monstros sagrados da sociologia nacional.

Em “Casagrande & Senzala”, Freyre tornou a mestiçagem um valor positivo, devidamente aproveitado por Vargas para transformá-lo em redutor “de todas as diferenças, especialmente as de classe social e prestígio”.

Em seguida, Buarque apresentaria os conceitos de “homem cordial” e “patrimonialismo”, em que relações pessoais são utilizadas para transformar o Estado em uma máquina controlada por uma elite corrupta.

Em oposição, o mercado seria o lugar da concorrência limpa e justa. Como se pudesse haver corrompidos sem corruptores.

Segundo o autor, uma das teses centrais dessa “sociologia culturalista” afirma que nas sociedades periféricas a corrupção é estrutural. Como se esta não existisse nas sociedades centrais.

Outra ideia favorita dessa forma de pensar é a de que “as classes altas e médias são moral e cognitivamente superiores às classes populares”.

Enquanto isso, os efeitos desastrosos de séculos de escravidão e enorme desigualdade social são ignorados. E os conflitos de classe ficam ocultos pela ideia de que nosso maior problema é a corrupção e de que ela é sempre estatal.

Segundo Souza, somente assim é possível explicar “a tolice” dos que compram a “ideia absurda” de que é preciso “mais mercado no país do mercado mais injusto e concentrado do mundo”.

Talvez, ajude a explicar também porque os tolos não voltaram às ruas contra a corrupção.

16 de junho de 2016

Mãe, só tem uma. Ou duas. Ou dez...

Uma das funções das Ciências Sociais é desmascarar a naturalidade e a fixidez da vida social. Nada nas relações humanas é necessário e imutável. Tudo é produto das ações humanas. Portanto, está ao nosso alcance mudar as condições que criam situações de injustiça social.

É por isso que as Ciências Sociais costumam ser tão antipáticas aos poderosos.

A ideia de maternidade natural, por exemplo, parece algo incontestável. Mas não é. É o que mostra o artigo "Conceito de mãe é amplo para indígenas", de Izabel Santos, publicado no portal Amazônia.

O texto cita o antropólogo da Universidade Federal do Amazonas, Carlos Machado. Segundo ele, "a ideia de mãe” é mais nossa que dos indígenas. Para muitos desses povos, a mãe é uma figura difusa. Existe a gestação, o nascimento, o aleitamento, claro. Mas passada estas fases, as funções maternas vão além da genitora.

Machado afirma que o papel da mãe:

...é quase uma coisa genérica. Para se ter uma ideia, em alguns povos, o termo usado para mãe é o mesmo usado para a irmã da mãe. Assim, se a criança tiver nove tias, na verdade ela tem dez mães.

Mas isso seria melhor ou pior que nossa tradição parental? Depende. Em geral, nossa sociedade individualiza a função materna nas mulheres para transformá-las em “escravas do lar”, acorrentadas a uma pretensa vocação natural para a procriação.

É uma das principais justificativas não apenas para a imposição de jornadas de trabalho exaustivas às mulheres, mas para todo tipo de violência física e simbólica. É preciso ser mãe amorosa, profissional exemplar, bonita e feliz. Padecer, só no paraíso.

8 de abril de 2014

Na ausência da internete, pânico social

Em 25/03, reportagem de Toni García para o jornal El País destacava: “A internet virá abaixo e viveremos ondas de pânico”. A frase é de Dan Dennett, filósofo norte-americano, que espera graves consequências caso ocorra uma queda total da rede mundial de computadores.

Mas Dennet não está preocupado com a suspensão das telecomunicações, apagões de energia, caos no trânsito e no tráfego aéreo. Ele teme que a maioria das pessoas, uma vez privadas da internete, se veja excluída da própria vida social.

Para Dennet, relações estabelecidas por meio da família, locais de trabalho e de moradia, associações, clubes, igrejas, teriam se enfraquecido com a ampliação da rede virtual. E na ausência desta, já não teriam capacidade para voltar a exercer seu papel agregador.

Há evidente exagero nesta conclusão. Mas a crescente frouxidão do “tecido social” é um fenômeno que já vem sendo estudado pela sociologia há algum tempo. E tem muito menos a ver com a internete do que com a forma como o capitalismo vem se desenvolvendo.

Um dos que estudaram este fenômeno foi o sociólogo francês Robert Castel. Ele é responsável pelo conceito de “desfiliação social”, que procura descrever uma condição em que os indivíduos sentem cada vez mais dificuldades para se integrar às redes de pertencimento social. Mas esta situação estaria ligada à constituição da “sociedade salarial” a partir do século 19.

Os marxistas diriam que é o crescente domínio do mundo das mercadorias que vem privando de sentido as relações pessoais. Não é a internete, mas o que o capitalismo faz dela e de todas as outras redes de relacionamentos humanos.

1 de outubro de 2013

A turbulenta infância da espécie humana

“Nada deve parecer impossível de mudar”, diz o poema de Bertold Brecht. O mesmo que afirma: “nada deve parecer natural”. É que uma coisa é consequência da outra.

Não é natural que haja pobres e ricos, por exemplo. Para que os primeiros existam, é preciso haver os segundos. E, quase sempre, os segundos devem sua condição à exploração dos primeiros. Mas as sociedades baseadas na exploração humana só existem há uns 10 mil anos. Sobram uns 90 mil anos de vida social sem exploração.

Mesmo hoje em dia, muitas sociedades tribais não sabem o que significa ser pobre porque não existem ricos entre eles. Também não são naturais conceitos aparentemente eternos e imutáveis como “família” e “infância”. O primeiro já nomeou formações muito diferentes ao longo da história. O segundo, tal como entendido hoje, é uma criação do século 19.

As ciências humanas nos oferecem muitas ferramentas para combater toda essa naturalização. Talvez, por isso sejam tão desprezadas. Ou só recebam apoio quando se dobram às necessidades do mercado e do poder. Quando procuram provar que a competição está em nosso DNA, a agressividade faz parte de nossa essência, o egoísmo nos define como espécie.

Naturalizar relações sociais só interessa a quem ocupa lugares de dominação nelas. Somos diferentes dos outros animais porque transformamos o meio em que vivemos, incluindo a nós mesmos. O problema é que até agora só o fizemos aos trancos e barrancos e em benefício da minoria que manda.

Precisamos parar de nos comportar como uma grande família dominada por alguns poucos patriarcas. Deixar para trás nossa turbulenta e sofrida infância. 


19 de dezembro de 2012

Pesquisa explica mais o governo que os governados

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) acaba de divulgar dados da pesquisa “Valores e Estrutura Social no Brasil”. O estudo tenta descobrir os valores que regem o comportamento e as atitudes dos brasileiros.

Um estudo desse tipo está sujeito muitas distorções. Principalmente, em uma pesquisa quantitativa. Mesmo assim, os dados dão algumas pistas importantes.

Segundo as conclusões inciais da pesquisa, “62% dos brasileiros aderem a posições mais igualitárias e progressistas, e 32%, a posições sociais mais conservadoras”. Mas o conservadorismo é muito maior em certas questões.

O direito ao aborto, por exemplo, é aceito por apenas 40% dos entrevistados. Somente 23% admitem relações homoafetivas, como namoro ou casamento, no círculo familiar. Em relação ao estupro, mais de 30% concordam em responsabilizar parcialmente a mulher caso ela use “roupas provocantes”.

Mas há uma importante evidência externa aos dados. No texto de apresentação da pesquisa, Dilma Roussef diz querer “falar a essa nova classe média e também à tradicional, e faremos isso falando de valores caros à sociedade”. Ou seja, o governo escolheu a “classe média” como alvo de suas políticas.

As “classes médias” não são necessariamente conservadoras. Mas tendem fortemente a sê-lo. Por outro lado, seria muito mais adequado considerar a chamada “classe média” como um setor dos trabalhadores. E como tal ser tratada.

Ao priorizar as camadas sociais intermediárias, o governo concentra suas ações nos elementos menos dinâmicos da sociedade. Despreza o potencial transformador dos explorados. Deixa em paz aqueles que concentram o patrimônio e são responsáveis pela enorme desigualdade social. 

Aí, a pesquisa acaba explicando mais o governo do que seus governados.

Leia também: Os proprietários do Brasil e seus síndicos