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1 de outubro de 2020

Estados Unidos x China: potência x resistência

“Os Estados Unidos conhecem seu rival chinês?” pergunta Kishore Mahbubani em seu livro “A China venceu?”, ainda sem tradução do inglês.

Segundo ele, os estadunidenses cometem um erro fundamental de percepção quando, por exemplo:

...veem o PCC como um Partido Comunista Chinês. Isso implicaria que a alma do PCC estivesse inserida em suas raízes comunistas. No entanto, aos olhos de muitos observadores asiáticos objetivos, o PCC realmente funciona como o "Partido da Civilização Chinesa". Sua alma não está enraizada na ideologia estrangeira do marxismo-leninismo, mas na civilização chinesa.

Mas quando os chineses olham para seus dois mil anos de história, afirma, eles têm plena consciência de que os últimos 30 anos sob o regime do PCC foram os melhores desde que a China foi unificada, em 221 a.C.

A única civilização antiga a cair e se reerguer quatro vezes é a chinesa. Uma civilização notavelmente resistente. Por outro lado, diz Mahbubani, o maior erro estratégico que a China pode cometer é subestimar a força dos Estados Unidos. “Este país, afirma ele, surgiu do nada 250 anos atrás. É muito mais jovem que a China. Porém, apesar de sua juventude ou talvez por causa dela, é uma das sociedades mais dinâmicas já criadas na história da humanidade”.

Por isso, ele conclui:

Um dos principais objetivos deste livro é afastar a espessa névoa de mal–entendidos que envolveu o relacionamento sino–americano, para permitir que ambos os lados entendam melhor – mesmo que não possam aprovar – os principais interesses de cada um.

É um objetivo tão ambicioso quanto improvável de ser alcançado. Mas nas próximas pílulas seguiremos a leitura...

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30 de setembro de 2020

Estados Unidos x China: guerra fria de sinais trocados (2)

Segundo Kishore Mahbubani, em seu livro “A China venceu?”, na Guerra Fria, os Estados Unidos eram frequentemente flexíveis e racionais na tomada de decisões, enquanto a União Soviética era rígida e doutrinária. 

Hoje, na nova “guerra fria” entre China e Estados Unidos acontece o contrário, diz ele. Os Estados Unidos se comportam como a União Soviética, e a China age como os Estados Unidos.

Por exemplo, observa o autor, é irracional que os Estados Unidos aumentem seus gastos militares, pois já possuem armas suficientes para destruir a China várias vezes. Portanto, o lógico seria que os estadunidenses reduzissem seus gastos militares e redirecionassem recursos para áreas críticas, como pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Os Estados Unidos têm 6.450 armas nucleares dos Estados Unidos. A China tem 280. Mas, se 280 é suficiente para impedir a América (ou a Rússia) de lançar um ataque nuclear à China, por que pagar mais?

O problema é que os gastos com defesa estadunidenses não são decididos segundo uma estratégia racional, mas são produto de um complexo e poderoso lobby da indústria armamentista e de equipamentos pesados.

Enquanto isso, diz Mahbubani, os chineses não estão aprisionados por nenhum lobby desse tipo. Estão mais preparados para tomar decisões coerentes de longo prazo para manter a China segura.

Para completar a ironia da situação, o autor lembra que, perto de sua derrocada, a União Soviética envolveu-se em uma invasão desastrosa do Afeganistão. Hoje, adivinhem quem está gastando trilhões de dólares em uma ocupação militar daquele mesmo país?

Amanhã, voltaremos a essa interessante comparação feita por Mahbubani entre União Soviética, Estados Unidos e China.

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29 de setembro de 2020

Estados Unidos x China: guerra fria de sinais trocados

“A China venceu?” é uma possível versão para o título do livro de Kishore Mahbubani, lançado este ano e ainda sem tradução do inglês.

Nascido em Singapura e diplomata por 30 anos atuando na região asiática, Mahbubani adota em seu livro um ponto de vista liberal. Este enfoque deixa de capturar as enormes contradições que envolvem o gigante asiático em um sistema econômico global em constante crise e dando sérios sinais de esgotamento histórico.

Ainda assim, as informações que a obra traz e a abordagem que adota dão pistas importantes sobre as características da China, sua sociedade e sistema de dominação. Por isso, as próximas pílulas trarão comentários sobre o livro, na tentativa de ajudar a esclarecer o que poderíamos chamar de enigma chinês. 

Por enquanto, fiquemos com duas teses provocativas do autor. Na primeira, Mahbubani afirma que do século 1 ao 19, China e Índia dominaram a economia mundial. Os 200 anos posteriores de predomínio anglo-saxônico, portanto, seriam apenas uma curta interrupção dessa hegemonia asiática que começa a impor-se novamente.

A segunda: na Guerra Fria que opunha Estados Unidos e União Soviética, esta última se caracterizaria por sua rigidez econômica e política, enquanto os estadunidenses contavam com uma flexibilidade maior, proporcionada pela melhor adequação de sua economia de mercado às necessidades de uma acumulação capitalista cada vez mais globalizada.

Na atual “guerra fria”, seriam os Estados Unidos que encontram sérias dificuldades para se adequar aos novos desafios da economia mundial, enquanto o gigante asiático, autointitulado comunista, se movimenta com grande desenvoltura pelo cenário internacional.

Ou seja, vale a pena aguardar os próximos capítulos.

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